Celebrou-se o casamento na capella da quinta da Retorta. Foi o vigario
de Caldellas o ministro do sacramento, D. Thereza madrinha, e o padrinho
veio do Porto, o barão do Rabaçal, um gordo, casado com as brancas
carnes velludosas da filha do Eusebio Macario. O padrinho, muito
faceiro, dizia ao Feliciano:--Mi pérdoe, amigo Prázins, você si casa
com minina mágrita, muito sêcca di encontros. A mi mi dá na tineta
para gostar das redondinhas, hein? É a minha philosophia. A mulher si
quer roliça, de manêras que a gente ache nos braços ella.
O devasso fazia córar o casto noivo. A Martha, á sobremesa, não lhe
percebia umas graçolas obrigatorias em bodas canalhas, que faziam
nauseas á aristocratica D. Thereza, muito pontilhosa em não admittir
equivocos. O vigario achava no barão a salôbra brutalidade que faz nos
intelligentes a cocega do riso que o Cervantes, o Rabelais, o Swift e o
portuguez snr. Luiz d'Araujo nem sempre conseguem quando querem.
A Martha, n'uma tristeza inalteravel, desde que sahiu da egreja. Ao fim
da tarde, fechou-se com D. Thereza no seu quarto, abriu o bahu, e tirou
do fundo o pacotinho das cartas do José Dias, e disse-lhe:--A senhora
ha-de guardal-as; e, quando eu morrer, queime-as, sim?
--E se eu morrer adiante de ti?--perguntou D. Thereza risonha.
--Diga então ao snr. padre Osorio que as queime: porque olhe--e
abraçou-se n'ella a chorar, a soluçar--eu ... eu morro, ou endoudeço.
Cheguei a esta desgraça; estou casada para fazer a vontade a meu pai,
cuidando que elle morria; não sei como hei-de sahir d'isto senão
acabando de vez ou perdendo o juizo como a minha mãe ... bem sabe como
ella acabou.
D. Thereza Osorio banalmente a consolava com o vulgarismo das coisas que
se dizem ao commum das meninas casadas com maridos repugnantes e
ricos.--Que se havia de affazer, que tudo esquecia com o tempo. Ella, um
pouco aristocrata por bastardia, não acreditava em melindres de
sentimentalidade na filha do lavrador parrana e da Genoveva da vida
airada. O apaixonar-se pelo Dias, um bonito rapaz d'aldeia, parecia-lhe
trivial; tentar suicidar-se quando elle morreu, para uma senhora lida em
novellas romanticas, era um caso ordinario e pouco significativo;
porém, condescender com a vontade do pai, casando com o tio,
pareceu-lhe um acto de condição plebea, a natureza reles da filha do
Simeão que afinal dominava estupidamente as indecisas manifestações
de uma indole artificialmente delicada.
O padre comprehendia mais humanamente Martha, dizendo á irmã:--Ella
quando consentiu em casar com o tio já estava doente da molestia
nervosa que a ha-de levar ao suicidio. D. Thereza, com o seu criterio um
pouco adulterado pelas excentricas heroinas de Sue e Dumas, não podia
entroncar aquella rapariga d'uma aldeia minhota na genealogia d'essas
parisienses naufragadas em romanescas tempestades. E de mais, se Martha,
como o irmão dizia, estava sob a influencia da loucura, a sua desgraça
parecia-lhe uma doença e não uma tragedia, segundo as exigencias de
uma senhora que tinha lido o mais selecto da bibliotheca romantica
franceza desde 1835 a 1845--tudo o que ha de mais falso e tolo na
litteratura da Europa. D. Thereza queria mais drama na desgraça de
Martha; porque, se alguma poesia elegiaca lhe concedêra pela tentativa
de matar-se, toda se resolvia em chilra prosa pelo facto de a imaginar
no thalamo conjugal com o arganaz do tio.
Eram horas de deitar. O padre tinha ido para Caldellas a fim de dizer a
missa de madrugada, e deixára a irmã a pedido de Martha; o barão do
Rabaçal escancarava a bocca n'uns bocejos ruidosos e levantava uma
perna espreguiçando-se; o noivo olhava para o mostrador do relogio
collado aos olhos; e Martha, muito aconchegada de D. Thereza.
queixava-se de caimbras; que lhe zuniam coisas nos ouvidos, que via
faiscas no ar, e tinha muito calor na cabeça. D. Thereza dizia-lhe que
se fosse deitar, que precisava de recolher-se. Martha pedia-lhe que a
deixasse ir dormir ao pé d'ella, pedia-lh'o pela alma de sua mãe, pela
vida de seu irmão.
A hospeda comprehendia, compadecia-se, receava o ataque epileptico,
precedido sempre das faiscas e caimbras de que se queixava a noiva; mas
não sabia como dirigir-se ao marido de Martha a pedir-lhe que se fosse
deitar sósinho. Nos seus numerosos romances não achára um episodio
d'esta especie. Interveio na critica conjunctura o Simeão, dizendo á
filha:
--São horas de ir á deita. O teu marido está a cahir com somno.
Martha fixou o pai com os seus olhos esmeraldinos rutilantes de colera,
n'um arremesso de cabeça erguida, e com os labios a crisparem. Era a
nevrose epileptica. Seguiram-se as convulsões, o espumar da bocca, um
paroxismo longo de vinte minutos. D. Thereza pediu que a ajudassem a
leval-a para a sua cama, e disse com fidalga impertinencia ao Simeão
que a deixassem com ella, e não lhe fallassem no marido. Simeão
coçava-se com grande desgosto. O brasileiro contava ao barão que a sua
sobrinha era atreita áquelles ataques; mas que o cirurgião lhe dissera
que lhe haviam de passar em casando. O do Rabaçal notou que o remedio
então bom era, e seria bom começal-o quanto antes. Disse mais
chalaças a proposito e foi-se deitar. Feliciano ainda foi saber como
estava a esposa; mas já não havia luz no quarto de D. Thereza.
Reoolheu-se á cama, e continuou mais uma noite no seu leito solitario,
virginalmente.
D. Thereza sentia-se mal, n'um embaraço quasi ridiculo, n'aquelle meio.
Martha não a largava, parecia uma creança espavorida, agarrada ao
vestido da mãe, assim que ouvia os passos do tio. Elle, muito
carinhoso, com o monoculo no olho direito, a offerecer-lhe castanhas
d'ovos, toicinho do céo, a pegar-lhe da mão e a fazer-lhe festas no
rosto muito córado de pudor. D. Thereza discretamente deixou-os
sósinhos. A Martha ficou a olhar para a porta por onde a amiga se
evadira, e fazia uns gestos de quem meditava raspar-se; mas o marido
tinha-a segura pelas mãos mimosas, beijando-lh'as ambas com uma
sensualidade delicada, um pouco babada, mas muito commedida, estendendo
os beijos quentes e humidos até aos pulsos lacteos e redondinhos.
Martha, n'uma impassibilidade, não se recusava ás caricias, e pareceu
mesmo inclinar um pouco o rosto quando o esposo com um bom sorriso do
amor dos quinze annos lhe pediu um beijinho, que foi mais demorado do
que era de esperar da sua candura e da inexperiencia de taes delicias.
Estavam ambos rosados; mas o rubor de Martha era carminado de mais e nos
seus olhos havia uma rutilação vaga pela extensão da grande sala.
Ella via a sombra de José Dias: era o José Dias em pessoa, dizia ella
depois a D. Thereza, quando recuperou os sentidos, e não sabia como a
transportaram para a cama da sua amiga. Apenas se lembrava de que o tio,
depois que a beijára no rosto, a levára pelo braço e entrára com
ella no seu quarto, apertando-a muito ao peito, levantando-a nos braços
com muita força, não a deixando fugir e suffocando-lhe os suspiros com
os beijos. Não se lembrava de mais nada. E D. Thereza, quanto cabia na
sua alçada, contava-lhe o resto imperfeitamente; isto é que o marido a
fôra chamar ao laranjal, um pouco afflicto, dizendo que a sua esposa
estava na cama sem sentidos; e pedia vinagre para lhe chegar ao nariz.
Padre Osorio veio jantar e buscar a irmã. Observou no aspecto do
brazileiro uma irradiação de felicidade, o jubilo de um homem que se
sentia impavidadamente completo, na integridade da sua missão
phyloginia. Foi então que o padre assentou as suas theorias um pouco
fluctuantes ácerca das vantagens da castidade em beneficio das
impurezas alheias.
O Feliciano, quando o cirurgião chegou á tarde, contou-lhe com pouco
recato de pudicicia conjugal as circumstancias, particularidades
occasionadas no «fanico da sua esposa», dizia elle. O facultativo, um
velho patausco, disse que não se admirava, porque a snr.ª D. Martha
era muito nervosa, imperfeita ainda na sua organisação, e que as
impressões desconhecidas e um pouco violentas nas constituições fracas
produziam extraordinarias perturbações; mas que não se assustasse,
que não era nada; que as segundas naturezas se faziam com o
habito.--Banhos de mar, aconselhava, bife na grelha e vinho do Porto,
quanto mais chôco melhor. O que se quer cá fóra é um rapaz; não ha
como um filho para fortalecer a compleição d'uma mulher debil; um
filho, quando sae do ventre da mãe, traz comsigo para fóra os máos
nervos, e acabam os cheliques. Ande-me com um rapagão p'rá frente!
Na ausencia de D. Thereza, a melancolia de Martha cerrava-se de dia para
dia. O governo da casa era-lhe de todo indifferente, como se fosse
hospeda. O marido não a compellia a interessar-se n'esses arranjos de
que, dizia o Simeão, ella nunca quizera saber em Prazins. O barão do
Rabaçal mandára-lhe do Porto cozinheira e governante. Martha sahia
raras vezes de uma saleta onde tinha um oratorio que trouxera de casa.
Confessava-se mensalmente a frei Roque, o irmão da sua mestra, e
professor do de Villalva, e demorava-se no confissionario com perguntas
desvairadas a respeito da alma de José Dias, por que dizia ella ao
padre-mestre que o via muitas vezes em corpo e alma, e até o ouvia
fallar e lhe sentia as mãos no seu corpo. O frade, sem revelar o sigilo
da confissão, dizia á irmã que a Martha dava em douda como a mãe.
O Feliciano ficou espavorido quando a mulher, n'um dos paroxismos
epilepticos, se pôz a rir para elle com os olhos espasmodicos e a
chamar-lhe _José, seu Josésinho_. Passada a nevrose, quando ela
imergia num torpor physico e mental, o marido contou-lhe o caso de lhe
chamar _Josésinho_. Ella parecia esforçar-se muito para recordar-se, e
dizia que não se lembrava de nada. Vinha o cirurgião a miudo:--que era
hysterismo, e consolava o marido com a esperança no tal rapagão,
esperanças bem fundadas, segundo as confidencias do pai; mas,
consultado pelo padre Osorio, o Pedrosa, um grande clinico, dizia que
a brazileira não tinha simplesmente a gota coral; que havia ali
epilepsia complicada com delirio, alienação mental intermittente, um
estado de inconsciencia ou consciencia anormal, e que verdadeiramente
se não podiam determinar bem quais eram os seus actos de lucidez
intercorrente.
--Ella está gravida--observou o vigario de Caldellas.--Parece que este
facto denota uma tal ou qual normalidade de consciencia, uma concepção
racional dos deveres de esposa...
--Não denota nada--refutou o medico.--Faça de conta que é uma
somnambula. E, como a sua demencia é funccional e não organica, não
ha desorganisações physicas que a estorvem de ser mãe. O meu collega
que lhe assistiu á ultima vertigem disse-me que, alguns minutos antes
do ataque, ella, n'uma grande irritabilidade, lhe dissera que fugia para
Villalva, que queria vêr o José Dias... O marido felizmente fôra
n'essa occasião prover-se de vinagre á dispensa. Eu considero-a
perdida, a menos que se lhe não dê uma prompta e completa diversão ao
espirito, e nem assim se consegue senão temporariamente desherdar os
desgraçados que tiveram mãe e avó como esta Martha. Eu assisti ao
primeiro e ao ultimo periodo da Genoveva. Repetiram-se as vertigens,
veio a decadencia gradual da razão, delirios, idéas confusas,
concepção difficil, nevroses vesanicas, e por fim, suicidou-se já
n'um estado de demencia epileptica, que os especialistas consideram a
mais incuravel. Este me parece o itinerario da Martha, e o casal-a com o
tio deixou de ser um acto immoral para ser um estupido arranjo de
fortuna por lado do pai e de luxuria por parte do marido. Esta pequena
tinha de vir a isto, e ha-de ir á demencia, mesmo sem drama nem
paixão. Tem o cerebro defeituoso assim como podia ter a espinha
vertebral rachitica. Como se faz a perda da vista? Pela paralysia dos
nervos opticos; pois a perda da vista normal da alma é tambem a
paralysia d'uma porção de massa encephalica. Bem sei que isto
embaraça um pouco os senhores theologos-methaphysicos, mas lá se
avenham: a verdade é esta.