N'aquelle tempo, (1845) no Porto, rua de S. Sebastião n.° 1, morava o
padre Luiz de Sousa Couto, paleographo da Misericordia. Representava
sessenta e tantos annos, uma nutrição doentia, pesado, com os pés
turgidos da gota, cheios de nodosidades. Era jovial. Tinha um sorriso
lhano, conversava morosamente pausado com admiravel correcção;
deixava-se interromper sem impaciencias e não interrompia nunca os
desatinos, maçadas, e até as tolices de quem quer que fosse. E ouvia
muitas. Este padre obscurecido na sua paleographia que lhe dava oito
tostões por dia, n'aquella asquerosa alfurja chamada rua de S.
Sebastião, com o aljube á esquerda e as immundicies da Pena Ventosa á
direita, era o impulsor, a alma, o cerebro do gigante miguelista nas
provincias do norte. A Junta de Lisboa consultava-o. Ribeiro Saraiva
enviava-lhe de Londres os elementos para os seus calculos, pedia-lhe
conselhos; e D. Miguel escrevia-lhe frequentemente. Dizia-se que o
principe proscripto o elegera bispo ou patriarcha de Lisboa--não me
recordo qual era a mitra.
A sua presença veneravel impunha sem artificio; uma grande bondade
obsequiadora[4]; não proferia palavra offensiva dos seus adversarios
politicos; não acceitava donativos dos seus correligionarios; vivia com
severa parcimonia dos seus 800 réis havidos da Santa Casa, e morreria
de penuria antes de pedir ao governo liberal a paga dos seus lavores
illustrados, correctissimos de interprete de velhos e quasi
indecifraveis codices.
Ao entardecer do dia 15 de maio de 1845 o padre Luiz de Sousa escrevia a
sua correspondencia para Londres. Annunciou-se o padre Bernardo Rocha,
perguntando a hora menos occupada para poder dar duas palavras ao
reverendo dono da casa. Foi logo recebido.
--Que todas as horas eram livres para receber os amigos.
Padre Rocha principiou allegando que os seus sentimentos politicos eram
bem conhecidos; que cumpria sempre as ordens que recebia do centro
realista, e que facilmente daria o socego da sua vida em sacrificio das
suas convicções. Que se julgava com direito a fazer uma pergunta e a
exigir que lhe respondessem a verdade.
--Se a pergunta fôr feita a mim, não poderei responder d'outra
maneira. Que quer saber, padre Rocha?
--Se o snr. D. Miguel está em Portugal.
--Não, snr. Ha 15 dias estava em Italia.--E abrindo uma gaveta,
extrahiu de uma pasta muito ordinaria de carneira surrada com atilhos um
papel que mostrou.--Aqui está uma carta assignada pelo snr. D. Miguel
de Bragança, datada no l.° de maio. Quanto a isto, está satisfeito.
Que mais quer saber?
--Mais nada. Agora corre-me o dever de justificar a pergunta.
--Bem sei--preveniu o padre Luiz.--Essa mesma pergunta me fez ha dias o
Bezerra de Barrimáo, seu visinho, e mais de um cavalheiro de Braga, o
Barata, o Manoel de Magalhães, etc. Diz-se por lá que o snr. D. Miguel
está no Alto Minho, no concelho da Povoa de Lanhoso. Propalam-o certos
padres, não sei com que alcance. A estupidez tem intuitos
impenetraveis. Não percebo para que fim espalham tão absurdo boato, se
não é para alarmar o governo ou lograr incautos...
--É isso mesmo: lograr incautos--interrompeu o Rocha e contou o que se
estava passando com o tenente-coronel de Quadros, a carta do supposto D.
Miguel e o emprestimo dos tres contos, que o fidalgo tencionava levar no
proximo sabbado ao impostor.
--Seria bom evitar a perda ao tenente-coronel e o opprobrio ao partido
legitimista--alvitrou o paleographo.
--Eu não o podia fazer sem a certeza de não praticar alguma
imprudencia. Para isso vim consultar o reverendo Luiz de Sousa, e d'aqui
irei para Braga entender-me com o governador civil.
--Faz bem. Não lh'o aconselharia, se pudessemos dar remedio mais suave
á doença d'esse miseravel impostor, de quem eu sei mais algumas
traficancias. Constou-me ha poucas horas, que umas beatas de Braga,
abastadas, e de appellido Botelhas, tinham enviado uma importante
quantia, por intermedio de um certo abbade, a um D. Miguel que está
escondido em Portugal. Eu podia dar aviso d'esta ladroeira; mas tenho
compaixão do abbade: não sei se elle é ladrão ou tolo. A segunda
hypothese é que o salva de ser processado. Portanto, amigo padre Rocha,
faz um bom serviço á humanidade e ao partido, solicitando o castigo
d'esse homem que conspurca o nome d'el-rei e a honra do partido. Agora,
visto que veio, vou dizer-lhe o que ha. Saraiva trata de contrahir um
emprestimo e de negociar generaes que infelizmente precisamos. O Povoas
está decrepito e quasi morto para a nossa fé desde Souto Redondo. As
patentes superiores, pela maior parte, estão em pessoas que regulam
pela intelligencia do seu amigo tenente-coronel de Quadros. Ha por ahi
outros que aprenderam a tatica da covardia desde o cêrco do Porto. Mal
podemos contar com elles, quando os vêmos intervir nas facções dos
liberaes a fim de abrirem brecha na mesa do orçamento com as espadas
postas em almoeda. No anno proximo futuro, o partido legitimista deve
dar signaes de vida; se esses signaes hão-de ser como os do cadaver
galvanisado que se convulsiona e recahe na sua podridão, isso não sei.
O snr. D. Miguel tem de vir a Londres; e quando lhe constar, padre
Rocha, que el-rei está em Inglaterra, prepare-se com a sua energia para
nos dar o muito que esperamos da sua influencia e do seu affecto á
legitimidade. E adeus que sahe depois d'ámanhã de Lisboa o paquete:
estou escrevendo ao nosso Ribeiro Saraiva.
O secretario geral governador civil interino de Braga na ausencia do
conselheiro João Elias,--uma victima burlesca de troça dos
setembristas--era o Marques Murta, uma gigantesca actividade phrenetica
n'um corpo mediano, fino, acepilhado aristocraticamente, com a bossa da
perspicacia politica muito saliente. De resto, serviçal, agradavel, com
uns requintes de delicadeza de bom tom.
O padre Rocha procurou-o no seu gabinete e contou-lhe os casos
succedidos e a necessidade de não deferir a prisão do impostor até
além do dia seguinte, porque no sabbado sahia de Quadros o Cerveira
Lobo com os tres contos.
--Talvez fosse mais curial e exemplar prendêl-o depois, e entrar com os
tres contos no cofre do districto, visto que o Cerveira os quer applicar
ás necessidades da monarchia;--opinou o secretario sorridente.
O padre não percebeu a ironia, e entendeu que de qualquer dos modos já
não podia obviar que o seu amigo fosse roubado, ou em nome de D. Miguel
l.° ou de D, Maria 2.ª.
--Vá descansado — emendou a auctoridade com o seu sorriso
intelligente, habitual.--Se o homem estiver em Calvos, ámanhã a esta
hora ha-de estar na cadeia de Braga.
Pela meia noute d'este dia sahiu do quartel do Populo, uma escolta de
infanteria 8 que chegou a S. Gens ao apontar da manhã. Era guiada por
um pratico sabedor das avenidas da residencia abbacial, um socio
convertido e aproveitado da quadrilha de ladrões que devastára o
concelho da Povoa em 34, e saboreava agora na policia secreta uma
qualquer prebenda honestamente ganha. Elle dispôz a soldadesca á volta
da casa, debaixo das janellas, rente ao muro do passal, e mostrou ao
sargento a porta de carro. Rompia a aurora quando a passarada do
arvoredo se esvoaçou piando, alvorotada pelo estrondo das cronhadas á
porta principal, e uns berros formidaveis:
--Abra! abra! se não vai dentro a porta!
O abbade saltou da cama, espreitou por uma fresta das portadas, e viu um
cordão de soldados, a olharem para as janellas, e com as bayonetas nas
espingardas. Correu descalço para a saia contigua á alcôva do
hospede, e encontrou-o no meio da quadra, em fralda, a enfiar as
calças, quasi ás escuras, com a respiração anciada.
--Que é?--regougou o homem n'uma estrangulação de susto, muito
offegante.
--Tropa, senhor, tropa! Fuja depressa, que eu vou esconder vossa
magestade na adega antes que arrombem a porta.
As cronhadas e as intimações ameaçadoras repetiam-se. Uma algazarra
de inferno. Vozes roucas pediam machados e ferros do monte. A
Senhorinha, muito esganiçada, espectorava agudos ais na cozinha; não
acertava a enfiar o saioto pelo direito. Os cães de Castro-Laboreiro,
muito ferozes, arremettiam ás portas com a dentuça refilada. Porcos
grunhiam dando bufidos espavoridos. A moça dos recados chamava a sua
Mãe Santissima e a alma da tia _Jacintra do Reimundles_ que estava
inteira na egreja. Dous criados da lavoura, estranhos ao segredo do real
hospede, como estavam recrutados, cuidaram que a tropa os vinha prender;
enterraram-se nos fenos do palheiro, promettendo esmolas de quartinho ao
Bom Jesus do Monte e ao _martyle São Trocatles_, se os livrassem
d'aquella. Entretanto, o outro, de chinellos de tapête, guiado pela
mão do abbade até á cozinha, passou d'aqui para a adega que a creada
abriu com muita subtileza. Havia lá dentro um recanto encoberto por
duas pipas vasias, postas ao alto; pela convexidade das aduellas e entre
as pipas e a parede, abria-se um vacuo onde cabia á vontade um homem. O
abbade muito afflicto:
--Suba depressa vossa magestade que eu ajudo por cima das pipas e
deixe-se escorregar p'r'ó lado de lá. Coza-se bem com a parede; se
vierem revistar, não se bula, não se bula, senhor!
O homem ficou em cega escuridade. Quando resvalava com as costas pela
parede, as teias d'aranha despegavam-se dos vigamentos de que pendiam,
enrodilhavam-se-lhe viscosas ao nariz e aos beiços. Elle sacudia-as,
cuspinhava com nojo, queria acocorar-se, mas não cabia. Ouvia rôjos de
ratazanas por debaixo das pipas, e lá fóra o rodar das portas que se
escancaravam com estridor.
Em cima, o sargento e tres soldados entraram e examinaram vagarosamente
os quartos e recantos.
--Snr. abbade, ponha p'r'áqui o rei, disse o sargento, um farçola, o
_Pilula_ do 8,--queremos o rei e algumas botijas de genebra. A
garrafeira da casa real deve ser coisa muito rica! Venha primeiro o snr.
D. Miguel que lhe queremos fazer uma saude.
--O snr. está a mangar!--disse o abbade afinando pelo tom da
chalaça.--Genebra, se a querem, dou-lh'a; mas a respeito de rei, só
lhe posso dar o de copas, que tenho ali um.
--Pois sim, traga o rei de copas, e não será máo que ponha em guarda
tambem o az do mesmo naipe.
--Dá-se-lhe já duas biqueiras n'este padreca, ó meu sargento!--propoz
o 24.
--Deixa vêr se a coisa se arranja sem biqueiras. Ande lá, snr. abbade,
vamos á genebra, á adega. Mêxa-se.
--A genebra está cá em cima--observou o abbade um pouco enfiado.
--Mande-a ir p'r'a baixo, que é mais fresco. Mêxa-se, mêxa-se que
temos pressa. Abra a porta da adega.
--Sim, snr., abro tudo o que vocemecê quizer--resoluto, com um ar
ironico de condescendencia, sem receio.--Os senhores tem coisas! Onde
diabo procuram o snr. D. Miguel!--E descia, pedindo a chave á
Senhorinha.
A creada demorava-se a procural-a, a fingir; e o sargento:
--Se se demora, ó santinha, vai dentro a porta! Ó 24, vai buscar um
machado que eu ali vi na cozinha. Salta um machado!
--Não é preciso, camarada--acudiu o abbade.--Aqui está a chave. Eu
abro. Entrem, procurem á vontade.
O sargento parou á porta a familiarisar-se com a escassa luz da
adega:--Ó padre! isto aqui é que é a sala do throno? ou é o
subterraneo da inquisição? Mande lá accender uma candeia, se não tem
um archote.
--Ó mulher, traz d'ahi uma placa accêsa--disse o abbade Marcos,
contrafazendo o seu terror.
E o homem, lá dentro atraz das pipas, tiritava como Heliogabalo na
latrina, seu derradeiro refugio.
A Senhorinha entrou adiante com a placa, um luzeiro mortiço de cêbo
com morrão que parecia condensar mais as trevas da lôbrega caverna.
--Arranja ahi um fachoqueiro de palha, ó 14! Que raio de placa você
cá traz, mulher!
--É emquanto não péga bem a torcida--explicou a creada caminhando
atraz do padre para o lado opposto ao esconderijo. Com effeito, a
claridade difundia-se, mas tão de vagar que ninguem diria a velocidade
que os naturalistas marcam a um raio de luz. Os soldados batiam com os
nós dos dedos nos tampos das pipas que toavam o som abafado de cheias.
E o 14:--Ó meu sargento, o tanso do abbade casca lhe rijo no verdasco!
Estão cheiinhas! E apontando para as duas pipas vasias do canto, o
sargento perguntava se o vinho d'aquellas já lhe tinha cabido na
sachristia--e dava piparotes na barriga do padre.
O abbade tinha uns sorrisos pallidos, compromettedores como uma
denuncia. O 24 escutava e dizia que a modos que ouvira mexer coisa atraz
das pipas!
--Ha-de ser ratos--conjecturou o abbade, tremulo, engasgado.
--Palpa com a bayoneta por traz das pipas, ó 241--disse o sargento.
Assim que o aço da bayoneta raspou na parede a Senhorinha começou a
dar gritos, sentou-se a espernear, e perdeu os sentidos.
--Que diabo tem a velha?!--perguntou o Pilula.--Dão-lhe estupores,
hein?
--É flato, costuma-lhe a dar--elucidou o abbade.--O 24 voltára-se a
vêr a velha escabujar, e retirara a bayoneta de traz das pipas. O
abbade teve um momento de esperança, cuidando que o exame estava feito:
--Tem visto, snr. sargento? Aqui não ha nada. Os senhores vieram
enganados a minha casa.--E caminhou ara a porta com a luz.
--Espere ahi, seu padre! Anda-me com a bayoneta, 24. Escarafuncha-me
esses ratos.
O outro soldado entrou no mesmo exame; e, apenas as bayonetas resvalaram
por corpo que lhes abafava os tinidos metalicos das pontuadas, ouviu-se
um grande estrupido de coisa que trepava pelas pipas. E n'isto appareceu
uma cabeça com enormes barbas sobre um dos tampos.
--Oh!--bradou o Pilula!--muito bem apparecido n'esta funcção, snr. D.
Miguel I! Suba p'ra cima d'esse throno e dê lá de cima um bocado de
cavaco ás tropas! Mas o melhor é descer cá p'ra baixo, real senhor!
O 24, muito espantado, a olhar para a cabeça do homem:
--Parece o padre eterno, ó meu sargento!
--Com quem elle se parece é com o _Remexido_ do Algarve,--affirmava o
14.
--Desça d'ahi que ninguem lhe faz mal, homem. Está preso á ordem do
governador civil--concluiu o sargento com seriedade imponente.
--Este senhor?... não...--disse o abbade com as mãos postas.[5]
--Não seja asno!--volveu o sargento. Este homem não é D. Miguel. É
um falante que o está aqui a comer a você e mais aos patólas da sua
laia. Vá-lhe buscar a roupa, senão elle entra na escolta em mangas de
camisa.
--Dê licença que este senhor se vá vestir ao seu quarto--supplicou o
abbade.
--Sim, que se arranje com guardas á vista.--E acompanhou-os á saleta.
Quando envergava o casaco de panno piloto, o abbade disse-lhe, com um
gesto, que o dinheiro das Botelhas de Braga ia nas algibeiras do
paletó.
O sargento perguntou que papelada era aquella que estava sobre a mesa.
Leu a primeira folha e desatou a rir e a dizer ao barbaças:
--Olha que grande pandego você é! Você como se chama, ó seu coisa? E
leu alto:
_Rol das mercês que sua magestade o snr. D. Miguel I fez em Portugal e
que se descrevem n'este livro de apontamentos provisoriamente._
E na primeira pagina.
_Marcos Antonio de Faria Rebello, abbade de S. Gens de Calvos,
capellão-mór de el-rei e D. Prior de Guimarães_. E perguntava ao
abbade:--Este ratão d'este dom prior é você, hein? Parabens!
Em seguida:
_Torquato Nunes Elias, visconde de S. Gens, secretario privado
d'el-rei._
--_Torquato Nunes_! recordava o Pilula.--Eu parece-me que conheço este
diabo de o vêr em Braga no _Café_ da Açucena na Cruz de Pedra.
_Nunes_! um pelintra. Onde está o visconde que lhe queria dar um
cigarro? Emfim cá levo a papelada para Braga--e enrolava os papeis. A
gente precisa conhecer os titulares novos para os respeitar e acatar,
amigo D. Prior de Guimarães.
Quando a escolta se formou fóra do portão e o preso entrou ao centro,
com a fronte magestosa abatida e os braços cruzados, levantou-se na
residencia um choro como á sahida de um defunto muito querido. Eram a
cozinheira e a outra creada, n'um arrancar de soluços, emquanto o
abbade afogava os gemidos com o rosto apanhado nas mãos. O povo da
aldeia, com um grande terror da tropa, espreitava de longe por entre as
arvores e de traz das paredes. O Torquato Nunes Elias, acordado pela
mulher que recebera a nova da prisão, saltára da cama, e correra á
residencia, perguntando ao abbade se el-rei tinha levado as peças das
Botelhas de Braga.
--Que sim, que levára; pudéra não levar!
--Pois então, abbade, empreste-me ahi meia moeda, que eu vou
disfarçado a Braga vêr o que se passa. Estou sem vintem.
--Veja lá se o prendem, visconde--acautelou o abbade.
--O meu dever é seguir a sorte de el-rei! Onde elle morrer, morro eu!
[Nota de rodapé 4: O auctor teve relações muito saudosas com este
venerando sacerdote, que em 1851 residia n'um antigo casarão da rua de
St. Antonio, que depois se transformou em casa de banhos. Por esse
tempo, se congregavam ali os homens eminentes, por intelligencia e
haveres, do partido realista. N'este anno, padre Luiz de Sousa passava
os seus dias rodeado de pergaminhos, immobilisado em uma poltrona,
gemendo as dôres da gota. Morreu muito pobre e muito desamparado.]
[Nota de rodapé 5: São as textuaes palavras e a attitude do padre,
significativas da crença entranhada na realeza do preso e da sua
paixão n'aquelle lance. Parece que intentava mover á piedade a
escolta, increpando-a pela profanação de pôr mãos no rei legitimo.
(Informação de _Ferreira de Andrade_).]
X
O Cerveira Lobo sahira, com o Zeferino, para Braga na sexta-feira de
manhã. Estariam aqui até á madrugada de sabbado, e partiriam então
para a Povoa de Lanhoso com os tres contos de réis repartidos em libras
pelas algibeiras dos dois. Além d'um criado de velha libré, avivada de
azul, de botas de prateleira e chapéu de sola, levavam bacamartes nos
arções dos sellotes, todos tres. Foram descançar e jantar á
hospedaria dos _Dous amigos_. O Cerveira vestia casaca no trinque muito
lustrosa, e gravata de cambraia com laço; o peitilho postiço atado ao
pescoço sahia muito rijo de gomma reles d'entre as lapellas derrubadas
do collete de velludo preto. A calça de prégas, ampla, á cavallaria,
afunilava-se no artelho, quebrando no peito do pé. As botas de
polimento novas rangiam e as esporas amarellas no tacão, com grandes
rosetas, tilintavam n'um estardalhaço de caserna. Comprara chapéu de
pasta com molas que faziam saltar a copa, e enchiam como uma bexiga, que
parecia _pantominice das comedias_, dizia o Zeferino.
Ás quatro horas o fidalgo de Quadros e mais o pedreiro sentaram-se á
mesa redonda. Já constava em Braga que estava ali o Cerveira Lobo que
desde 1835 não sahira da casa solar de Vermuim. Alguns primos
visitaram-o; as familias legitimistas e principalmente senhoras velhas
mandavam-lhe bilhetes.
Dizia ao Zeferino que o encommodavam tantas etiquetas, que estava morto
por se safar, não estava para lérias: que as taes senhoras
Sotto-mayores e as Peixotas e as Menezes deviam ser mais velhas que a
Sé, uns estafermos. Elle segredava ao ouvido do Zeferino coisas,
ratices suas em Braga, quando era rapaz.--Que fizera um destrôço nas
primas, tudo pelo pó do gato. Que pagára bem o seu tributo á asneira;
e casquinava com vaidade paparrêta, carregando-lhe a mão no verde.
Quando entravam pelo assado, chegou um tenente do 8 a contar a um amigo,
que estava á mesa, que chegára n'aquelle momento preso ao governo
civil, vindo da Povoa de Lanhoso, um marôto que dizia ser D. Miguel, e
ouvira dizer a um realista que o vira em Roma, havia tres annos, que se
parecia bastante com elle.
O Cerveira erguera-se n'um grande espanto indiscreto a olhar para o
official que o fixava com uma curiosidade ironica. Convergiram todos os
olhares para o homem das barbas respeitaveis. Quedou-se momentos
n'aquelle spasmo, n'um tremulo, e perguntou:
--E é com effeito o snr. D. Miguel esse homem que chegou preso?
--Elle diz que é--respondeu o tenente--Veremos o que se averigua no
governo civil.
--Na falta do verdadeiro D. Sebastião, appareceram tres falsos--disse
emphaticamente um professor de latim, com um sorriso pedante. O Cerveira
olhou-o de esconso, e sahiu da mesa, seguido do Zeferino, muito
enfiados ambos.
--Está tudo perdido!--disse dolentemente o fidalgo--El-rei preso!... E
não se levanta este Minho a livral-o!... Vamos vêl-o, quero vêr se
lhe posso fallar. Dentro de tres dias entro em Braga com dez mil homens
e arrazo a cadeia.
Fez saltar a copa do chapéu de molas e sahiu para a rua, a bufar.
O campo de Santa Anna parecia um arraial. Aglomeravam-se ali as duas
Bragas--a fiel, a caipira, pletorica de fidalgos, de grandes
proprietarios, conegos, de chapelleiros e da clerezia miuda;--a liberal,
muito anemica, encostada ao 8 de infanteria, toda de bachareis e
empregados publicos, o Manso, o Mello Cavacão, o Motta, o Rocha Veiga,
o Alves Vicente, negociantes de tendas mesquinhas, professores muito
rhetoricos, o Capella, que ensinava francez, o Pereira Caldas soneteiro
e polygrapho, o velho Abreu bibliothecario, lacrimoso, o Pinheiro, muito
grande, philosopho sensualista, mas bom visinho, todos á volta do
Mont'Alverne, um conego muito assanhado que foi, mezes depois,
commandante da brigada dos Seresinos.
Cerveira Lobo impunha e dominava com as suas barbas, o trajar aceado com
muito lustro, e o bater metallico, patarata das esporas. Abriram-lhe
passagem, rodeavam-no cavalheiros da primeira plana, os Vasconcellos do
Tanque, os Magalhães, o Freire Barata, o Cunha das Travessas, a gemma
d'aquelle enorme ovo realista, chocado no seio da religião da Carlota
Joaquina, do conde de Basto e do Telles Jordão. O Cerveira perguntava
aos seus:--É?--uns encolhiam os hombros, outros negavam gesticulando. E
elle, com intimativa:--Pois saibam que é!--O Manoel de Magalhães dizia
ao ouvido do Henrique Freire:
--Deixa-o fallar, que está idiota.
O Bernardo de Barros, um fidalgo de Basto que fôra capitão de
cavallaria, com um bisarro sorriso de côrte e ademanes d'uma selecção
rara:--Meu tenente-coronel, el-rei, quando vier, não ha-de estar ao
alcance da canalha. Descance vossencia.
Os janotas acercavam-se, disfructadores, do Cerveira. Eram o Russel, o
Antonio Gaspar, os de Infias, o Bento Miguel de Maximinos, o Paiva
Brandão, o D. Manoel da Prelada, o D. João da Tapada, o Antonio Luiz
de Vilhena, um loiro, muito enamorado, com uma rosa-chá na lapella da
casaca azul com botões amarellos.
D'ahi a pouco fez-se um torvelinho de povo á porta do governo civil. A
soldadesca afastava a multidão com phrases persuasivas de cronha
d'arma. Formou-se a escolta, e o preso sahiu, de rosto levantado e
affoito, para a multidão. Cerveira Lobo fitava-o com uma anciedade
afflictiva.--Que se parecia ... e ia jurar que era elle!--quando um
realista convencionado e que estava no grupo, o major de Villa Verde,
disse com um desdem de achincalhação:
--Olha quem elle é! Oh que traste! que grande mariola! Forte malandro!
--Quem é? quem é?--perguntavam todos.
--É o Verissimo, foi furriel da minha companhia, andou com o Remexido,
e safou-se de Messines com o pret dos guerrilhas.
O Cerveira inclinou-se ao pedreiro e disse-lhe á orelha:
--Ouviste, ó Zeferino?
--Estou banzado!--murmurou o outro.
--Olha que espiga! 3 contos! hein?
--Raios parta o diabo!--disse o pedreiro, n'uma synthese condensada da
sua incommensuravel angustia.
Minutos depois, o padre Rocha encarava de frente o Cerveira, chamava-o
de parte e dizia-lhe:
--Está desenganado, meu amigo? Eu, para corresponder á confiança de
V. Ex.ª, impuz-me o dever de o salvar d'um roubo de tres contos, e da
vergonha de ser logrado por um impostor. O maior serviço que podemos
fazer ao snr. D. Miguel é entregar á justiça um infame que se serve
do seu sagrado nome para roubar os amigos do augusto principe. Snr.
Cerveira, vá para sua casa; e, quando eu lhe disser que é tempo,
então desembainhará a sua espada.
O Cerveira, abraçando-o:
--Honrado amigo, honrado amigo! Ainda os ha...
O Verissimo entrou na cadeia de Braga, e na madrugada do dia seguinte
foi transferido para a Relação do Porto.
O nome e appellidos que elle deu no governo civil eram verdadeiros:
Verissimo Borges Camêlo da Mesquita.[6]
Tinha nascido em 1806 em Alvações do Corgo, no Douro. O pai
chamavam-lhe o Norberto _das facadas_, quando já era velho, e meirinho
geral da comarca, em Villa Real. Uns diziam que a alcunha _facadas_ lhe
vinha de ter esfaqueado a mulher por ciumes; outros, de ter levado tres
facadas, na Campean, quando puzera cêrco a uns salteadores que
pernoitavam na estalagem d'aquella aldeia, nas vertentes do Marão. O
certo é que a quadrilha tinha sovado os aguasis, e o commandante da
diligencia, o meirinho geral, recolhera á villa em uma padiola.
Norberto Borges Camêlo tinha pedra de armas na casa de Alvações, uma
edificação do seculo XVII. Dava-se como descendente do bispo do
Algarve D. João Camêlo. Contava a origem do brazão da sua casa,
concedido ao seu sexto avô Lopo Rodrigues. Habituado a contar aos
Juizes de fóra e carregadores da comarca o facto provado por
incontestaveis pergaminhos, era convidado muito a miudo
disfructadoramente á exposição heraldica do seu escudo, que elle
fazia n'uma toada monotona de quem reza.[7]
O Verissimo era _Mesquita_ pela mãe, que não conhecera. Tambem florira
da cêpa illustre dos _Mesquitas de Villar de Maçada_; mas o Norberto,
achando-a em flagrante adulterio com um primo Pizarro, anavalhou-a
mortalmente, escondeu-se, fugiu com o Junot no regimento do conde da
Ega, e quando voltou, estava esquecido o caso.
Em 1827, o Verissimo estudava em Coimbra humanidades para seguir a
jurisprudencia. Era bom estudante, applicado e sério. Em 28 teve uma
vertigem politica. Fez-se caceteiro do partido dominante, quiz atacar na
Ponte a punhal os estudantes presos no Cartaxo como salteadores
assassinos. Perdeu o habito de estudar e a compostura de que fôra
exemplo. Em 29, abandonou a Universidade e assentou praça em
infanteria. Quando o Porto se fechou, era sargento aspirante e bravo. Em
uma das primeiras sortidas dos liberaes, foi ferido em uma perna; e,
apezar de côxo levemente, não quiz a baixa nem a reforma. Era um
bonito homem, rosto oval, olhos de rara belleza, nariz ligeiramente
aquilino. Diziam-lhe que era o vivo retrato de D. Miguel, aperfeiçoado
pelo desaire de coxear.
Depois da convenção, Verissimo Borges recolheu a Alvações de Corgo,
onde encontrou o pai n'um grande abatimento de tristeza e de recursos. A
sua lavoira de vinho era pequena. Privado do officio e malquisto como
ladrão, o representante de Lopo Rodrigues soccorria-se á beneficencia
de uma irmã, a D. Agueda, viuva d'um major de milicias que morrera no
ataque ao forte das Antas. O convencionado, n'aquella estreiteza de
meios, quiz voltar á fileira: mas o pai negou-lhe a licença,
arguindo-lhe a baixeza de sentimentos, em querer servir o usurpador, e
citava-lhe as côrtes de Lamego. O Verissimo, argumentando contra estas
côrtes, allegava que antes queria encontrar na casa de seu pai, em vez
das velhas instituições de Lamego, os modernos presuntos da mesma
cidade.
O Norberto gabava-se de que na sua geração, Camêlo liberal não havia
um só, e que a sua maldição pesaria como chumbo derretido sobre a
cabeça do filho que perjurasse a bandeira do throno e do altar.
A tia Agueda, a viuva do major, tinha pouco. Desde 1828 até 1833
gastara seis mil cruzados em festejar os natalicios e as victorias do
snr. D. Miguel com banquetes e illuminações que duravam tres noites,
n'um delirio de bombas reaes e foguetes de lagrimas, com adéga franca.
Mandava cantar _Te-Deum_ na egreja de Alvações assim que no paiz
vinhateiro soava a noticia de alguma victoria do exercito fiel. Ora, os
realistas, a contar por cada _Te-Deum_ de Alvações, entravam no Porto
ás quinzenas para sahirem por uma barreira e voltarem logo pela outra.
D. Agueda começava a desconfiar que o Deus de Affonso Henriques
voltára a casaca.
Restava-lhe pouco; mas não queria que o Verissimo se fizesse malhado.
Sacrificou-se á honra da familia, levou-o para casa, deu-lhe mesa
farta, e consentiu que o vadio se mantivesse regaladamente, de papo
acima, tocando flauta, a tresfegar em si o resto da garrafeira.
Aconselharam-na que ordenasse o sobrinho, visto que elle já tinha
exames de latim e logica. O Verissimo disse que sim, que queria ser
padre. Tinha-se esclarecido nos encargos do officio, observando a vida
socegada e farta dos parochos. Um seu parente, o abbade de Lobrigos,
tinha liteira, parelha de machos, matilha de cães e hospedes na sua
residencia episcopal. Outros, com menos rendas, eram ainda invejaveis;
um viver espapaçado em dôce mollêza, inoffensiva, com grande
estupidez irresponsavel, um regalado epicurismo. Verissimo achou que, se
não pudesse ser bom padre, havia de pertencer á maioria; e, se désse
escandalo, um de mais ou de menos não perturbaria a ordem das coisas.
Os seus amigos e parentes abundavam no dilemma.
D. Agueda fazia concessões á fragilidade do clero;--que seu sexto avô
tambem fôra bispo e pai de sua quinta avó, por Camêlos. O parente
abbade de Lobrigos, em confirmação das preclaras linhagens de coitos
sacrilegos, affirmava que a serenissima casa de Bragança descendia de
padres pelo pai de D. Nuno Alvares Pereira, que era prior do Crato, e
pelo avô, o padre Gonçalo, que fôra arcebispo de Braga; e que os
condes de Vimioso e Atalaya, e todos os Noronhas oriundos de certo
arcebispo muito devasso de Lisboa, e muitas outras familias da côrte
descendiam de prelados. Estas genealogias orientavam o Verissimo no
futuro do sacerdocio. Queria ser abbade, resalvando tacitamente certas
condições a respeito dos rebanhos e particularmente das ovelhas.
Em outubro de 1835 foi para Braga. Tinha trinta annos: sentia o cerebro
moroso na digestão da theologia, andava enfastiado e triste. Acaso
encontrou um camarada, sargento do mesmo regimento, o Torquato Nunes
Elias, que andava a estudar para procurador de causas. Eram
inseparaveis, identificaram-se n'uma intimidade de tasca e de alcouce. O
Verissimo nunca mais abriu compendio nem o outro um processo. D. Agueda
mandava regularmente a mezada, e perguntava-lhe quando cantaria a missa.
Em 1836 appareceu no Algarve a poderosa guerrilha de José Joaquim de
Sousa Reis, o _Remexido_, em S. Bartholomeu de Messines. Os dous
ex-sargentos alvoroçaram-se com a noticia e resolveram apresentar-se ao
formidavel caudilho. Verissimo pediu á tia uma quantia mais avultada
para pagar as ultimas despezas do sacerdocio. A velha mandou-lhe o
preço de uma vinha vendida e a sua benção. Os aventureiros partiram
para o Algarve. O general recebeu-os nos braços, e deu-lhes divisas de
capitães. Verissimo Borges escreveu ao pai, a dar-lhe parte do seu
heroico destino: que advogasse a sua nobre causa na presença da tia
Agueda, e lhe dissesse que elle não podia largar a espada vencida
emquanto visse no campo brilhar o ferro de um realista. Que o general
Sousa Reis estava destinado a repôr o snr. D. Miguel I no throno, ou
ser o ultimo a morrer em sua defeza; que elle e um seu amigo e camarada
tinham sahido de Braga juramentados a morder o pó onde cahisse o seu
general. Que eram já commandantes de companhias, e tinham duas
carreiras abertas--uma que levava á gloria, outra á sepultura,--que
tambem era uma gloria morrer pela patria.
José Joaquim, o _Remexido_, era um bem figurado homem de trinta e oito
annos. Nascera em Estombar, estudára para clerigo no seminario de Faro,
e distinguira-se em perspicacia e subtileza na percepção das
theologias. O amor inutilisou-lhe o talento applicado a um pacifico e
humanissimo destino. Viu uma esbelta môça de S. Bartholomeu de
Messines quando ahi foi prégar um sermão, sendo minorista. As serenas
visões do levita deslumbrou-lh'as a formosa algarvia. Não hesitou
entre o amor da humanidade e o culto egoista da familia. Casou, e de
homem estudioso e contemplativo, volveu-se lavrador, lidou rudemente nas
searas, e redobrou de esforços á proporção que os filhos lhe
multiplicavam o amor e os cuidados.
Insensivelmente compenetrou-se da paixão politica. N'esta provincia,
onde em 1808 estalou o primeiro grito contra o dominio francez, a
liberdade proclamada em 1820 abriu um abysmo entre duas facções que
por espaço de dezoito annos se despedaçaram. José Joaquim de Sousa
Reis alistou-se entre a clerezia de quem recebera as boas e as más
idéas, e manifestou-se em 1823 um ardente sectario das más,
perseguindo os affeiçoados á revolução do Porto. Em 1826 emigrou
para Hespanha, e voltando em 1828 extremou-se entre os aclamadores do
rei absoluto. D'ahi em diante, receoso das retaliações, não teve mais
uma hora de remançoso contentamento nem abriu mão da espada tão
affoita quanto cruel.
Logo que o duque da Terceira aportou com a divisão expedicionaria ás
praias da Lagoa, em 24 de junho de 1833, Sousa Reis com alguns
cumplices, foragiu-se nos reconcavos do Penedo Grande, cujas veredas
montanhosas conhecia. Deixou mulher e filhos, na primeira flôr dos
annos, inculpados das paixões de seu pai, fiados na generosidade dos
vencedores e na propria innocencia. A vingança fez reprezalias na
familia do fugitivo. A mulher e os filhos foram espancados pela tropa,
depois do roubo e do incendio da sua casa de Messines. O leão, como se
ouvisse bramir os cachorrinhos nas garras do tigre, irrompeu da caverna,
precipitou-se dos penhascaes á frente da sua alcatéa, e atacou
Estombar com irresistivel impeto. Estava ahi a sua familia sob a
pressão das bayonetas que a vigiavam como armadilha á queda do
guerrilheiro; mas a tropa não pôde resistir á furia de pai. Elle
atirava-se ás descargas, abrindo com a espada a vereda do seu ninho. Os
inimigos que o viram n'esse dia conservaram longo tempo a lembrança da
sua catadura transfigurada pela desesperação. E todavia era um homem
gentilissimo. Depois, senhoreou-se de povoações importantes do Algarve
e estendeu até ás fronteiras do Alemtejo os seus dominios. Moveram-se
contra elle muitos regimentos de primeira linha e de batalhões da
guarda nacional. Elle tinha adoecido de fadigas incomportaveis, e
descançava com algumas centenas de homens n'um desfiladeiro da serra,
chamado a _Portella da corte das velhas_. Ahi o atacou uma columna de
caçadores 5. O _Remexido_, a final, faltou-lhe a coragem de se fazer
matar. Viu talvez a mulher e os filhos, entre a sua agonia e as
bayonetas. Deu-se á prisão, e cinco dias depois era arcabuzado em
Faro.
O regimento em que eram capitães o Verissimo e o Nunes dispersou, e
elles, claro é, fugiram á maneira dos muito discretos e bravos
generaes de que rezam os fastos militares.
O pret das guerrilhas devia ser quantia diminuta, uma bagatella
ridicula, que não merecia a pomposa qualificação de ladroeira. Como
não tiveram tempo de fazer o pagamento, retiraram-se com o cofre nas
algibeiras. É o que foi, e a historia não póde dizer outra coisa.
Queria talvez o major de Villa Verde, o denunciante de Braga, que elles
andassem á cata das praças dispersas pelas montanhas, a repartir os
quatro vintens diarios e o vintem do municio!
Verissimo foi para Alvações e Nunes para S. Gens. O Norberto morreu
por esse tempo d'uma congestão cerebral; alguem diz que o esganaram na
cama dois malhados de Lobrigos contra os quaes elle tinha jurado em 28.
D. Agueda recebeu o sobrinho carinhosamente. A herança do pai estava
empenhada; foi á praça; sobejaram uns nove centos mil réis e a casa
com as armas, pagadas as dividas. O Nunes dizia-lhe da Povoa que andava
por lá miseravel, um piranga, na gandaia; que o pai dava-lhe um caldo
de feijões e o tratava como um cão vadio. Que, depois da partida do
Algarve, não tinha com quem praticar em Braga para solicitador, nem
tinha que vestir. O Verissimo chamou-o para Alvações com generosidade.
Vestiu-o, e dava-lhe meios para elle poder estudar em Villa Real, com
advogados miguelistas, que o estimavam muito.
A velha passava os dias a chorar entre o retrato do defunto major e o do
snr. D. Miguel das illuminações, que se parecia muito com o sobrinho.
No inverno de 1840, D. Agueda morreu de uma indigestão de castanhas,
complicada com interite chronica e saudades da realeza. Deixou ao
sobrinho a casa, as vinhas muito delapidadas; e o retrato do snr, D.
Miguel ás freiras de Santa Clara de Villa Real e mais dez moedas de
ouro com a condição de lhe accenderem quatro velas de cêra no dia dos
annos de sua magestade.
Verissimo viveu então largamente. Fez-se chefe de partido nas
redondezas de Alvações do Corgo, onde era conhecido pelo
_capitão-Verissimo_. Deitou cavallo e mochila; jogou rijo dous annos na
Feira de Santo Antonio em Villa Real, e perdeu tudo. O Nunes, que já
sollicitava causas na Povoa, repartia com elle dos seus proventos muito
escassos, porque o juiz e os escrivães faziam-lhe guerra implacavel, e
as partes fugiam d'elle.
O Verissimo sahiu de Alvações, onde não possuia palmo de terra; e,
como tinha boa forma de lettra, offereceu-se para amanuense a um
tabellião de Alijó. Ganhava tres tostões por dia e jantar. Como era
boa figura, a mulher do tabellião, uma trigueira de má casta, entrou a
comparal-o com o marido que tinha os dentes muito lurados e os olhos
tortos. Mas o tabellião viu as cousas pelo direito, e pôz o amanuense
na rua, e a mulher em lençoes de vinho, dizia-se. Verissimo conhecia o
capitão-mór de Murça, o Campos, um hebreu realista, muito abastado.
Offereceu-se-lhe para escudeiro e foi acceite com bom ordenado. O
capitão-mór era viuvo; mas tinha uma governanta fresca, d'uma fome de
peccado irritada pela indifferença judaica do amo em materia de
religião. O Verissimo tinha a fatalidade femieira do seu _Sosia_, do
snr. D. Miguel. O capitão-mór com o seu fino ôlho de raça, lobrigou
as sentimentalidades da rapariga. Pagou generosamente ao escudeiro, e
impôl-o. Voltou ao Douro, e procurou o amparo d'um realista poderoso, o
Antonio de Mello, de Gouvinhas, o pai do snr. Lopo Vaz, um grande
ministro liberal cheio de embriões de coisas. O fidalgo de Gouvinhas
nomeou-o feitor das suas quintas. Estava regalado; feitorisava pouco; o
fidalgo admittia-o ás suas palestras intimas de politica; mas um
sobrinho do Mello, um valente navalhista que chamavam em Coimbra o
_Malagueta_, ganhou-lhe odio, por ciumes de uma tecedeira chibante, uma
raparigaça de tremer, de quadris roliços, a Libania de Covas.
Travaram-se de razões. O _Malagueta_ correu sobre elle com um punhal.
Verissimo acovardou-se na sua posição dependente e despediu-se.
A Libania tinha cordões e umas moedas ganhadas com o pudor diluido no
suor do seu bonito rosto, a corso das algibeiras copiosas dos
vinhateiros. Seguiu-o para o Porto em 1844. O neto do bispo D. João
Camêlo, abriu uma escóla de primeiras lettras em Miragaya. Ao cabo do
primeiro mez, dava pontapés impacientes nos garotos, andava ralado,
não podia com aquella bestialidade da instrucção primaria. A Libania
queixou-se um dia de dôr de dentes. Foi uma inspiração. O Verissimo
resolveu fazer-se dentista, e foi estudar com o Pinac, á rua de Santo
Antonio, um bom homem. Andava n'este tirocinio, quando encontrou no
Tivoli, defronte da Bibliotheca, o Nunes. A Libania gostava muito de
resvalar pela _montanha russa_, dava umas risadas argentinas, batia as
palmas e queria montar os cavallos de páo que giravam no jogo da
argolinha.
Quando se encontraram, o Torquato vinha pedir-lhe dinheiro. O pai tinha
morrido deixando a casa ao outro irmão. Estava casado, e tinha dous
filhos. Queria ir tentar a fortuna ao Brazil, trabalhar em mangas de
camisa, se fosse necessario. O Verissimo respondeu-lhe que o unico favor
que lhe podia fazer era tirar-lhe um dente de graça. Confidenciou-lhe
as suas miserias mais intimas; que aquella boa rapariga tinha gastado
com elle quinze moedas e vendêra o seu oiro; mas, tão generosa, tão
honrada que nunca lhe vira no rosto uma sombra de tristeza. Que estava
resolvido a ir estabelecer-se como dentista na provincia, logo que
pudésse comprar o estojo que custava 12$000 réis, e não os tinha.
--Se os não tens--disse o Torquato--minha mulher tem um cordão que
pesa tres moedas; para mim não lh'o pedia; mas para ti vou buscal-o
ámanhã.--E accrescentou, de excellente humor;--Deus permitta que na
terra onde te estabeleceres sejam tantas as dôres de dentes que não
tenhas mãos nem queixos a medir.
Sahiram alegres do Tivoli. Sentiam-se bem aquellas duas organisações
esquisitas. Havia ali duas almas que se amavam devéras, dous naufragos
a quererem chegar um ao outro a mesma taboa de salvação. É n'estes
esgotos sociaes que ainda, uma vez por outra, se encontram Pilades e
Orestes.
O Verissimo morava atraz da Sé, na rua da Lada, uma casa d'um andar,
muito empenada, com o peitoril de ferro de uma unica janella
desencravado de uma banda, e uma porta viscosa e negra como a bôca de
um antro. Cearam todos. Havia cabeça de pescada cosida com cebolas,
sardinhas fritas e pimentões. O Nunes foi buscar duas garrafas da
companhia de tostão á rua Chã, e enfiou no braço uma rôsca de
Vallongo que comprou na bodega da Caçoila, uma esmamaçada com cordões
de ouro que frigia peixe á porta e dava arrôtos.
Cearam n'uma esturdia de rapazes, como em Braga, nove annos antes, na
tasca do Catrambias, na rua do Alcaide. A Libania de Covas muito
laraxenta--que levasse o diabo paixões, e mais quem com ellas medrava;
que, em se acabando o dinheiro, fazia-se cruzes na bôca; mas que deixar
o seu Verissimo, não o deixava nem á quinta facada.
--Nós deviamos ir todos para o Brazil--lembrou o Torquato, que tinha
meditado n'um recolhimento extraordinario.
--E chelpa?--perguntou a Libania.
--Se tu quizeres, Verissimo, dentro de um mez temos um conto de réis.
--Boa!...--disse o outro.--Bem se vê que as duas garrafas deram o que
podiam dar--uma fantazia de um conto de réis. Por dous tostões é
barato.
--Estás disposto a ouvir-me sem interrupção de chalaça? Eu não
estou bebedo, palavra de honra!
Libania pôz a face entre as mãos e os cotovellos na toalha suja de
vinho e migalhas, com os olhos muito fitos e rutilantes na cara do
Nunes. O Verissimo atirou com as pernas para cima da banca, accendeu um
charuto de 10 réis e disse que fallasse á vontade.
--Tu sabes que te pareces muito com D. Miguel?
--Começas bem. Temos asneira.
--Máo! não me falles á mão.
--Já sei onde queres chegar. Vais dizer-me que me faça acclamar rei,
e, para evitar effusão de sangue, venda a minha sobrinha D. Maria 2.ª
os meus direitos á corôa por um conto de réis. Dou-os mais em conta.
--Adeus minha vida!--retrucou o Nunes impaciente. Ámanhã
conversaremos.
--Deixa fallar o homem!--interveio a Libania.--Ora diga lá, ó sê
Nunes.
O Torquato expôz a sua theoria do conto de réis, desfez atritos,
removeu difficuldades, convenceu afinal. Tinham de partir para o Alto
Minho, os dois. Libania iria para Ramalde trabalhar nos teares da
Grainha que lhe dava comida, cama e doze vintens por dia. Venderiam a
um adeleiro da rua Chã os trastes para o Verissimo se enroupar de panno
piloto, quinzena e calças com alguma decencia, roupa branca, reforma
das botas cambadas, chapéu de fêltro e um paletó de agazalho.
Na quinta-feira gorda, a Libania, com exemplar coragem, foi para
Ramalde. A Grainha negociava em teias, ia vendêl-as ao Douro, tinha
visto em Gouvinhas o limpo trabalho da rapariga, e quando a encontrou no
Porto:--Olhe, môça, quando quizer ganhar a vida honradamente lá
estamos em Ramalde. Uma de doze, comer como eu e lençoes lavados na
cama.
O Nunes e o Verissimo foram juntos até perto de Braga. Ahi, o de Calvos
seguiu para casa, e o outro no sabbado gordo partiu para a Povoa de
Lanhoso.
[Nota de rodapé 6: Segundo as informações textuaes do já referido
José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade o dialogo da auctoridade e do
preso correu assim: "Sendo apresentado ao governador civil e respondendo
a varias perguntas disse:
"Que era das immediações de Villa Real, em Traz-os-Montes, e um dos
amnistiados em Evora Monte, na qualidade de sargento do exercito
realista;
"Que n'uma sortida que fizeram os do Porto fôra ferido n'um quarto por
uma bala, ficando um pouco côxo: mas que não deixára ainda assim o
serviço;
"Que achando-se no ultimo carnaval no logar de S. Gens, ali tomára
parte nos folguedos do povo com o abbade da freguezia, o qual o
convidára no fim para sua casa;
"Que o tratára muito bem, e que, passados alguns dias, lhe disséra,
depois de ceia, de uma maneira muito recolhida e sonsa: que desconfiava
ter em sua casa sua magestade el-rei o snr. D. Miguel I (por que elle
era em tudo um fac-simile);
"Que nem lhe negára, nem confessára, mas que, passados dias, á mesma
hora, lhe repetira aquella suspeita; porém que ainda d'essa vez lhe
respondêra com uma evasiva.
_Auctoridade_
"Que utilidade tirava em manter o abbade n'essa illusão?
_Preso_ (cynico)
"Que a tirava toda, porque só assim podia continuar no goso da
commodidade que se lhe offerecia;
"Que d'ahi por diante lhe ficara dando o tratamento de Magestade, como
coisa decidida, e lhe revelára o desejo de que o elevasse á dignidade
de seu capellão-mór, ao que annuira;
"Que, passados alguns dias, lhe propozera a admissão á sua presença
nocturna e clandestina d'alguns ecclesiasticos e tambem seculares,
consummados realistas, no que concordara;
"Que d'esse dia por diante principiaram a concorrer ali, por alta noute,
um até dois por vez, pedindo-lhe todos, depois de lhe beijarem a mão,
commendas, beneficios, logares civis, postos militares e até
prelazias--o que elle tudo lhes concedeu de bom grado.
_Auctoridade_
E depois?
_Preso_
"Depois? que lá se aviessem, porque o seu fim era conservar aquella
commoda situação, _maxime_ quando as suas finanças estavam no maior
apuro."]
[Nota de rodapé 7: _Nota erudita_. A historia, aliás exacta, que o
fidalgo de Alvações contava, acha-se nos Nobiliarios, e está gravada
no escudo d'esta familia. Lopo Rodrigues Camêlo foi moço da estribeira
d'el-rei D. Sebastião, e muito querido de seu real amo. Viajára muito
e era primoroso em pontos de cortezia. Uma vez acompanhára o rei a
Coimbra; e, na passagem de S. Marcos para Tentugal, encontraram a ponte
do Mondego cahida. O rei quiz passar a váo, e o estribeiro observou-lhe
que o passo alli era perigoso. D. Sebastião redarguiu: "Então passai
vós primeiro."--Se vossa alteza me engana,--volveu o cortezão--ditoso
engano é esse.--E, mettendo-se á vala espapada de limos e lodo,
submergiu-se a ponto de ficar só com a cabeça e um braço de fóra.
El-rei acudiu-lhe, tomando-o pela mão, e tirando-o com valente pulso
para a margem. Lopo Rodrigues, afim de que os seus descendentes lêssem
este caso no marmore do seu brazão de armas, pediu a el-rei que lhe
mandasse reformar o escudo em lembrança de tal successo.
E assim lhe foi debuxado o escudo: _Em campo verde uma ribeira de prata
ondeada. D'esta ribeira emerge um braço vestido de azul, do qual pega
outro vestido de brocado com lettras de negro que dizem R E Y. Este
braço real sahe da banda direita do escudo, na esquerda está uma
estrella de oiro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flôr de
liz de ouro. Timbre o braço vestido de azul com a estrella nos dedos_.
A carta foi registada no "Livro dos Privilegios", no anno de 1574.
Marcial fez rir os romanos á custa de um genealogico esquadrinhador de
tal casta, que, não tendo já humanas gerações que espanejar do lixo
dos seculos, entrou a deslindar os remotos avoengos de um cavallo
chamado Herpino. Passarei tambem ás caudelarias quando o brazão subir
da tenda ao sport, e derivar dos especieiros esparramados ás bestas
elegantes.]