O bacharel Valladares escreveu a Manuel Rodrigues da Silva e Abreu
solicitando a graça de allumiar com bom conselho a estrada em que o
inexperiente estudante arriscava os primeiros passos da sua mocidade.
O bibliothecario de Braga, coração sem mancha e intelligencia
distinctissima, acolheu o moço com a amenidade de tracto que lhe era
peculiar. Eduardo Valladares, terminadas as aulas, subia ordinariamente
á bibliotheca onde o velho amigo de seu pae estava labutando em azafama
continua, e sobremodo se deliciava á sombra d’aquella arvore vetusta meio
tombada para o chão.
O auctor d’este livro reiteradas vezes teve a felicidade de, na sala
da bibliotheca bracharense, ouvir a palavra sempre fluente e amena
de Rodrigues Abreu. Infundia respeito ver levantar-se aquelle busto
venerando, coberto de cans, d’entre montões de livros a que elle chamava
_a sua familia_. Uma vez bibliothecario, empenhou-se afanosamente
pela causa da bibliotheca. Não se cansou de pedir os indispensaveis
melhoramentos materiaes, dos quaes o primeiro era inquestionavelmente
maior espaço para a conveniente arrumação de preciosos livros que jaziam
a monte. A sua voz clamou no deserto e nem a palavra auctorisada de tão
respeitavel varão nem repetidos artigos da _Revista Universal Lisbonense_
lograram obter despacho favoravel.
Como se este constante e baldado empenho não fôsse canseira de sobra,
Rodrigues d’Abreu entregava-se a trabalhos de bibliotheconomia e chegou
a publicar sobre este assumpto um opusculo que denominou _Novidades
bibliotheconomicas_.
Para daguerreotyparmos o homem, que já hoje é da historia, aproveitemos
os traços caracteristicos que nos offerece o sr. Soares Romeu Junior:
«... Era alto de estatura, rosto claro e comprido, nariz proeminente,
olhos escuros e a fronte espaçosa, coroada de alvissimas cans.»
Do escriptor diremos apenas que trasladou o _Eliezer_, de Florian, a
versos portuguezes, dos quaes o leitor pode avaliar o sabido quilate pela
apreciação que de tão notavel obra fez no _Panorama_[5] o sr. Alexandre
Herculano.
Consagradas estas poucas linhas á memoria de Rodrigues d’Abreu,
prosigamos em a nossa narrativa.
Eduardo Valladares refez o seu espirito, nas horas feriadas de canseiras
amorosas, em proficua leitura que lhe ministrava Rodrigues d’Abreu.
Se levantava os olhos dos livros era para os fitar na imagem radiosa
que lhe flammejava auroras no coração; e como quer que os livros
substanciosamente doutrinarios tenham o seu tanto de agri-doces, Eduardo
repousava da leitura nas amenidades do amor.
O bibliothecario bracharense, quando escrevia ao bacharel Valladares,
costumava dizer-lhe: «O teu filho é uma perola, mas receio pela
felicidade d’um espirito que, em tão verdes annos, tamanhos merecimentos
revela. Já que me arvoraste em medico espiritual, direi que o seu
temperamento requer brandura.»
No fim do anno lectivo de 1851 a 1852, Rodrigues d’Abreu abraçou jubiloso
o estudante que sahia premiado das aulas preparatorias.
Decorrido tempo, no fim de setembro de 1852, Eduardo Valladares subiu á
sala da bibliotheca evidentemente sombrio, a ponto de inspirar sobresalto
ao seu velho e dedicado amigo.
—Recebi ordem terminante de meu avô para me ir matricular no Seminario,
e o meu coração não pode resistir ao supplicio que esta resolução lhe
impõe, disse com accento melancholico Eduardo Valladares.
Na casa da rua do Carvalhal ouvia-se a esse tempo a voz atroadora de João
Nicolau clamando:
—Amanhã vae o rapaz matricular-se no Seminario. Lá o Rubicon do lyceu,
vencido está. Agora vamos a vêr como se sae da theologia, que sempre é
coisa mais séria...
—É pois chegada a occasião de reflectires maduramente, respondia D. Maria
d’Assumpção. D’esta decisão depende o futuro de teu neto, e não deves ser
precipitado. É conveniente pensar.
—Já pensei e tornei a pensar. Está dito, está dito. Vae matricular-se no
Seminario.
—Sondaste lhe porventura a vocação? Quem sabe se lhe repugnará o futuro
que tu despoticamente lhe preparas, homem?
—Despoticamente! Essa agora é muito boa! Pois é despota quem faz um
beneficio?
—Não digas beneficio. De quem ha de vir a ser tudo o que nós temos, pouco
ou muito, senão d’elle ou dos paes?
—Quem sabe o que Deus fará, mulher? O que é que nós temos? Algumas
propriedades em Braga e uma quinta em Vianna! Olha a riqueza! E se vier
uma doença prolongada não havemos de gastar quanto fôr preciso? Lá do
Sebastião tenho pena, por que não é mau rapaz, á parte o ter desembarcado
em 32 com não sei quantos outros _mindelleiros_ que vinham estropeados a
ponto de mal poderem com a arma ás costas! Por isso é que mandei vir o
rapazinho, e já que o pae m’o confiou posso pôr e dispôr á minha vontade.
—Reflexiona, homem de Deus, reflexiona.
—Mas que destino queres tu que se dê ao rapaz? Pensas que temos dinheiro
para o mandar a Coimbra? Olha que um patrimonio fica em conta, mas
uma formatura compra-se a peso d’ouro. E demais a mais fica-nos aqui
debaixo da vista, e pouco será o que houvermos de gastar em livros. Está
decidido. Amanhã vae matricular-se no Seminario.