_Descreve-se o estado de Portugal, e principalmente de Lisboa antes
da invasão, e o que ficárão sendo depois della._
[Sidenote: 1807 Dez.]
Lisboa, e todo o Portugal se julgarião muito felices, se fossem sómente
estes os males, que sentírão com a invasão Franceza: muitos outros, não
menos graves, affectárão a nação inteira, e com especialidade aquella
capital. Vejamos rápidamente o que erão, e o que ficárão sendo com a
entrada dos Francezes, para se poder formar juizo sobre a extensão das
suas desgraças.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Os escritores estrangeiros, e a maior parte dos nacionaes, que
arrastados pela força do costume se não tem ainda atrevido a sacudir
o imperio, que os estrangeiros adquirírão sobre nós, no tempo em que
eramos cégos, esforção-se em representar os Portuguezes em hum piedoso
estado, no que toca á agricultura, commercio, e manufacturas. Os que
escrevêrão pelo meio do seculo XVIII., e alguns annos depois, querendo
pintar a nação Portugueza do seu tempo, a pintárão sómente, qual ella
tinha sido no da sua maior degradação. Os que se lhes seguírão, pouco
instruidos sobre o estado de Portugal, forão continuando pelo mesmo
trilho; e os nossos repetírão o que elles disserão, não se julgando com
liberdade, para pensarem de outra fórma. Com tudo as cousas erão bem
mudadas.
[Sidenote: 1807 Dez.]
O brilhante reinado do Senhor Rei D. José faz huma época muito
memoravel, e muito feliz na nossa historia: debaixo das providentes
vistas deste Monarca famoso, o genio creador do Marquez do Pombal
animou grandemente a agricultura, e o commercio, e fez sahir do nada
as fabricas, deixando o caminho aberto aos seus successores, para
restituirem á Monarquia Portugueza aquelle alto gráo de esplendor, e de
prosperidade, a que em outro tempo a tinhão elevado os conquistadores
da India.
Pensa-se, ou diz-se vulgarmente, que tudo se anniquilou depois
delle; mas os nossos olhos nos convencem do contrario. O commercio,
entregue a si mesmo, prosperou sempre; a agricultura, recompensando
ao lavrador os seus trabalhos, não retrogradou; e as fabricas,
mais ou menos favorecidas, segundo as circumstancias do tempo, e
das cabeças, conservárão-se na maior parte, algumas prosperárão, e
mesmo se levantárão outras de novo. A guerra principiada na America
septentrional, e transportada á Europa, implicando tantas bandeiras, em
quanto a Portugueza conservava a sua neutralidade, fez dar hum grande
vôo á navegação, e por consequencia ao commercio de Portugal.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Veio depois o governo do nosso amado Principe, cujas intenções
beneficas se fizerão sentir por toda a parte. Ministros tão sábios,
como laboriosos, auxiliando os desejos do Soberano, trabalhárão á
porfia na grande obra da prosperidade dos vassallos. Sobre tudo o
genio emprehendedor, e reformador do Conde de Linhares estendeo os
olhos, desde o primeiro momento do seu breve ministerio, para tudo o
que dependia da sua repartição, tudo animou, e tudo fez prosperar,
adiantando mais em tão curto espaço, do que antes delle se tinha feito
em muitos annos, principalmente no que respeita á navegação, e ás
relações coloniaes. Não quero dizer, que a industria, e todas as artes
uteis chegassem em Portugal ao maior ponto de perfeição, de que erão
susceptiveis: nem as circumstancias o permittírão, nem podia ser a obra
de tão pouco tempo; digo porém, que conseguírão hum adiantamento muito
superior ao que se lê, e ao que se pensa.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Sinto não poder dar aos meus leitores, como desejava, mappas exactos,
que representassem o estado do nosso commercio, e da nossa agricultura:
ver-se-hia, que o commercio era florentissimo, propendendo a balança
visivelmente a nosso favor, e que a agricultura prosperava a olhos
vistos. Vião-se, he verdade, entrar em Lisboa todos os annos numerosas
carregações de trigo, e milho; mas deve dar-se o grande desconto do
muito, que tambem se consumia destes generos em prover a immensidade de
navios, que entravão, e sahião pela barra, e então se conhecerá, que
não he tão grande a falta de pão, nem tão dependente do estrangeiro a
subsistencia dos habitantes de Lisboa, como vulgarmente se acredita. O
calculo de Mr. de Real, que assentava, que Portugal não produzia pão
para a metade do consumo dos seus habitantes,[21] he bem inaplicavel
ao seculo presente, e era mesmo bem errado para o seu tempo. A falta,
qualquer que pudesse ser, era abundantemente supprida pelas grandes
exportações de vinhos, azeites, e outras producções do solo Portuguez.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Dou a seguinte tabella, sobre cuja exactidão se póde contar, que
representa a exportação dos productos das nossas fabricas para os
differentes estabelecimentos Portuguezes do ultramar no anno de 1801,
dividida pelas suas differentes classes, da qual se verá, que montava
a sua importancia a 10 milhões 30& cruzados e 321&709 rs. Quanto não
estavamos longe do misero estado, em que nos pintava (e com elle
nos pintárão muitos outros) o Barão de Bielfeld, dizendo, que as
manufacturas não existião absolutamente em Portugal?[22]
[Sidenote: 1807 Dez.]
A mesma neutralidade, em quanto a pudemos conservar na presente guerra,
posto que comprada, como vimos, a peso de ouro, produzio vantagens
incalculaveis ao reino, e particularmente a Lisboa. O nosso commercio
tornava-se cada vez mais activo; e já notei assinaladamente o que
se fazia para os portos de França. Para se poder formar hum juizo
prudente sobre as riquezas, que se tinhão concentrado em Portugal,
bastará reflectir nas repetidas, e largas sangrias, que este reino
tinha soffrido, e no que ainda achárão os Francezes. A grandeza, e a
opulencia da capital continuavão em hum augmento progressivo: era, e
he huma das maiores, e os Francezes não hesitavão em chamar-lhe a mais
rica cidade da Europa. Tudo repentinamente mudou de face debaixo do
terrivel açoute dos nossos barbaros usurpadores.
[Sidenote: 1807 Dez.]
O nosso grande commercio era maritimo; e quando o exercito Francez
se aproximava ás nossas fronteiras, já elle se tinha anniquilado,
bem como a navegação, pelo bloquêo dos nossos portos. Os navios, que
estavão dentro, ficárão estacionados; os que andavão por fóra, não
pudérão mais entrar. E que grande número de pessoas, e de familias não
ficou por este motivo reduzido á miseria? Ajuntemos a este número o
de quarenta mil pessoas, que se empregavão nas fabricas; porque estas
parárão de repente, á excepção de algumas, de que as manufacturas
tinhão hum consumo indispensavel no paiz; e isto por duas razões: 1.^a
porque cessou aquella grande exportação para as colonias, que era quem
as sustentava; 2.^a porque o justo receio das scenas de depredação,
que immediatamente se forão seguindo, fez com que todo o possuidor
de fazendas só tratava de reduzillas a dinheiro, e todo o possuidor
de dinheiro de occultallo, e guardallo; sendo huma consequencia
necessaria o augmentar-se extraordinariamente o número dos vendedores,
e diminuir-se na mesma proporção o dos compradores. Com o tempo se
deveria tambem ajuntar a estas causas a falta das materias primeiras,
mas esta certamente não existio no momento da invasão.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Pelas mesmas razões diminuio incrivelmente o luxo, e perdeo os meios
de subsistir huma infinidade de pessoas, que delle os tiravão. Ninguem
mais cuidou em obras, tanto públicas, como particulares; e para se
conhecer o extraordinario augmento, que por este artigo devia receber
a grande lista dos desgraçados, basta ver no Almanach de 1807 a dos
mestres de officios, que nesse anno os exercitavão em Lisboa: não erão
só desgraçados os mestres, e officiaes; mas com elles todas as suas
familias.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Grande parte das pessoas, que vivião do paço, não pudérão acompanhar
a Real Familia, e ficárão na miseria. Aquella profusão da ucharia
Real, que fôra o objecto de muitos clamores indiscretos, sustentava
huma multidão de individuos, que agora ficárão morrendo de fome,
assim como todos os que vivião de tenças, juros, e outras pensões do
erario; porque nada mais se pagou, depois que os Francezes lançárão
sobre este as suas ávidas mãos. Em fim não houve hum só individuo, que
não sentisse mais ou menos as consequencias da desgraça pública, por
effeitos daquella cadêa imperceptivel, que liga as fortunas de todos os
homens constituidos debaixo da mesma sociedade. A propria agricultura
recebeo toques tão sensiveis, que Junot se vio na necessidade de fazer
expedir ordens por differentes repartições, tendentes a persuadir aos
habitantes dos campos, que semeassem as suas terras, o que não querião
fazer, por se persuadirem, e infelizmente com razão, que semeavão
para os usurpadores recolherem os frutos;[23] e na de conceder certas
isenções no fatal decreto da contribuição de 100 milhões fr.[24]
aos povos, por onde tinha passado o exercito do seu commando, pelos
estragos, que este lhes havia causado.
[Sidenote: 1807 Dez.]
O homem compassivo sentia repugnancia em sahir de sua casa; porque
pelas ruas de Lisboa se não encontravão senão bandos de infelices, que
apenas podião alcançar escassos soccorros, para prolongarem tristemente
os seus dias, em quanto por entre elles passeavão os nossos tyrannos
insultando orgulhosa, e impunemente a miseria pública com vãs promessas
de grandes venturas. Não restava a tantos desgraçados senão hum de dous
meios, pedirem, ou furtarem: felizmente propenderão para o primeiro,
perdendo-se no meio da calamidade geral a vergonha, e a repugnancia,
que a mendicidade costuma inspirar a todos aquelles, que o longo habito
não tem feito acostumar a esta sordida profissão. Mas que esmolas
podião alcançar tantos mendigos, sendo tão pequeno o número dos que as
podião dar?
Huma grande parte dos carpinteiros, pedreiros, fabricantes, e outros
artistas, involuntariamente ociosos, nutrindo-se de esperanças, cobrião
continuadamente os altos de santa Catharina, chagas, buenos-aires, e
outros sitios elevados, lançando os olhos para a esquadra Ingleza,
contando os navios della, e parecendo-lhes a todo o instante, que a
vião entrar no Téjo, para resgatar Lisboa. Estes ajuntamentos não
forão ignorados por Junot, nem lhe podião ser indifferentes; mandava
dispersallos por justiça, e dizem, que elle mesmo foi pessoalmente para
este fim huma, ou mais vezes a santa Catharina.
[Sidenote: 1807 Dez.]
Que terriveis consequencias da fatal revolução, que experimentou
Portugal; e que multidão de victimas sacrificadas á ambição de hum
só homem? Retratando estas scenas, eu não tenho dado por factos
meras producções d’imaginação. Referi, sem exaggerar, o que eu mesmo
presenciei, em quanto as circumstancias me não permittírão abandonar a
habitação desta cidade infeliz, para ir passar o restante da tragedia
no fundo de huma provincia, onde os males se não sentião tanto, e ao
menos se diminuia o tormento das almas sensiveis; porque se não via a
cara aos tyrannos, e se presenciava menos fome, e menos miseria. Não
preciso dar satisfações aos meus compatriotas, e contemporaneos, porque
sabem, que he verdade quanto escrevo: attesto aos vindouros, que não
peguei na pena, para deshonrar a imprensa com mentiras, e tornar odioso
o meu nome com calumnias.