CAPITULO XIX.

_Sustos de Junot em Lisboa. Este General estende as suas tropas para

a costa maritima do norte. Oppressão e extorsões do exercito Francez

naquella capital, e conducta dos seus Generaes, e officialidade._

[Sidenote: 1807 Dez.]

[Sidenote: 1807 Dez.]

Entretanto Junot não deixou de passar por grandes sustos,

principalmente da parte dos Inglezes, que continuavão sempre a

bloquear o porto de Lisboa com huma esquadra, que nunca descia de 8

náos de linha, e algumas vezes excedia muito esta força. Era hum homem

naturalmente timido, ou pelo menos deo muitas provas disso em Portugal;

e se o ter-se entranhado até á capital com tão poucas, e tão miseraveis

tropas parece destruir esta idéa, advirta-se, que elle não marchava,

senão com huma cabal certeza das disposições pacificas do paiz, e do

estado de dispersão do exercito Portuguez.

Como não ficaria este General, quando logo no 1.^o de dezembro o

embaçárão com a noticia de que os Inglezes tinhão feito hum desembarque

em Peniche, praça, e ponto importante da costa a 12 leguas ao norte

de Lisboa, achando-se elle ainda quasi sem tropas, e não tendo hum só

official de artilheria? Naquelle mesmo dia lhe chegava a 1.^a divisão,

mas em pessimo estado; a 2 a cavallaria toda desmontada; a 4 a 2.^a

divisão; e a 5 a 3.^a ambas ellas tão diminutas, e enfraquecidas, como

a 1.^a; e finalmente a 6 he que começou a respirar, vendo-se por huma

parte rodeado de huma grande porção do seu exercito, e sendo por outra

informado de ter sido falsa a noticia do desembarque dos Inglezes.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Então mesmo lhe chegava a nova de que a divisão Hespanhola, commandada

por Solano, vinha atravessando o Além-Téjo, e não tardou muito a de

se encaminhar Taranco para a cidade do Porto com a outra divisão

Hespanhola, que devia occupar as provincias do norte. Pôde pois Junot

alargar mais as suas vistas, e destinou immediatamente a 2.^a divisão

do seu exercito, commandada por Loison, para ir cobrir a costa ao norte

de Cascaes, tomando a posição de Torres-vedras, e tendo hum regimento

em Peniche, e hum batalhão em Mafra.

[Sidenote: 1807 Dez.]

A entrada, e accumulação das tropas Francezas causou huma

extraordinaria oppressão em Lisboa. Era tal a miseria, em que vinhão

os proprios Generaes, que pedião camisas, meias, botas, &c. pelas

casas, em que se aquartelavão: deixando de accumular factos, que forão

muito obvios, e frequentes em Lisboa, referirei hum mais notavel, que

tenho da propria boca da pessoa, em cuja casa se passou. O General

de cavallaria Margaron hospedou-se na villa de *** em casa de ***,

e exigio deste para o seu uso huma camisa, hum colete, hum lenço do

pescoço, outro quadrado, huns çapatos, e humas botas: o seu criado

pedio huma camisa, a sua cozinheira, e o marido desta pedírão camisas,

meias, e outros mais objectos. Quando os Generaes vinhão neste estado,

que seria do resto do exercito?

Não mediou porém muito tempo, que o ouro, e a prata não entrassem a

brilhar sobre as cabeças, e em ricos fardamentos da officialidade, e

que a maior parte dos individuos, que a compunhão, e do grande número

de empregados, que seguião o exercito, não entrasse a fazer avultadas

remessas para França em letras, dinheiro, e effeitos, e especialmente

em algodão, cujo preço fizerão triplicar, e ainda mais, pela grande

concurrencia das suas compras. Donde vinha este cabedal, senão dos

infelices habitantes de Lisboa, que erão implacavelmente depenados por

estas aves de rapina?

[Sidenote: 1807 Dez.]

Os soldados conservárão-se por mais tempo na miseria, e mesmo huma

grande parte delles não chegou a sahir della; porque erão menos

contemplados, e tinhão menos occasiões de se apropriarem dos bens

alheios; mas fazião o que podião. Tambem me contentarei com hum

exemplo, pelo qual se póde julgar o mais. Os que se aquartelárão

no convento de S. Domingos, chegárão hum dia a arrancar do mesmo

portas, e janellas, e a pôllas em leilão, para se aproveitarem do

preço das madeiras, e ferragens. Foi huma praga, que cahio sobre

todos os conventos da cidade, levando os estragos, e a profanação

até o santuario; sem que esta fórma de aquartelamentos evitasse huma

finta rigorosa aos particulares, a titulo de camas, nas muitas que se

exigião. A rua augusta, e a dos fanqueiros forão as mais fintadas neste

objecto; porque os mercadores das classes de lã, e seda, e de fazendas

brancas, além de contribuirem com as camas, que delles se exigião

proporcionalmente com os mais habitantes abastados, levárão-lhes

grandes quantidades de fazendas para cobertores, colchões, &c. com

promessas de pagamento, que nunca vírão.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Era rarissimo o individuo do exercito Francez, que dava o mais pequeno

sinal de religião: se alguma vez entravão nas igrejas, não era senão

para as ultrajar: o Santissimo Sacramento exposto não era mesmo

bastante, para lhe arrancar da cabeça as barretinas. A igreja paroquial

de N. S. das Mercês na rua Formosa tambem servio de quartel a estas

tropas huma noute: he huma igreja muito pequena, e muito comprehensivel

aos olhos; pôde por isso a vigilancia dos seus padres, que toda essa

noute a vigiarão, e acautelarão o mais precioso, que sómente furtassem

hum castiçal de cobre de Macáo, pensando talvez ser de prata. Passárão

para huma ermida visinha, e nella estacionárão, servindo-se do altar, e

do retábulo para usos os mais profanos, e indecentes.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Os officiaes não querião igrejas, nem conventos: servião-lhes as

casas dos habitantes ricos, das quaes passavão a dispôr, como

senhores, sendo á custa dellas sustentados com grandeza, e grande

parte delles aproveitando-se pública, e descaradamente da prata, e

trastes preciosos, com que erão servidos. A honra das familias era

compromettida, se huma vigilancia activa não podia salvalla; e o mais

barato era conduzirem para estas casas, sem rebuço, mulheres do mundo,

para servirem, com escandalo, aos seus immundos, e brutaes prazeres.

Abusárão tanto nas casas, em que se aquartelavão, do imperio, que lhes

dava o presumido titulo de conquistadores, que o General em chéfe se

vio obrigado a advertillos na ordem do dia de 9 de dezembro, que se fez

pública por editaes, que elles devião considerar-se simplesmente como

estando de guarnição, sem direito a pedirem nas mesmas casas mais do

que alojamento, lume, e luz. Mas que effeito podia produzir esta ordem

contra o exemplo, que o proprio Junot estava dando em casa do Barão

de Quintella, e os outros Generaes naquellas, em que se aquartelavão?

Continuou-se como d’antes, ou talvez com maior excesso.

[Sidenote: 1807 Dez.]

[Sidenote: 1807 Dez.]

O Marquez d’Angeja, tendo acompanhado a Familia Real, ficou incluido

por este facto no número dos emigrados. A sua casa, assim como a

dos outros, foi entregue a hum sequestro não obstante o terem ficado

nella a Marqueza sua esposa, e seus filhos, e ao mesmo tempo ao braço

militar de hum grande número de officiaes insolentes, que lhe fizerão

os maiores estragos. Entre amos, e criados chegou a ter ao mesmo

tempo quarenta e tantos destes temiveis hospedes. Destruirão-lhe, ou

roubárão-lhe roupas, louças, e móveis preciosos, alimpavão a cozinha

com finos adamascados, e derão huma bofetada em hum criado da mesma

casa, porque em certa occasião apparecêra na meza hum guardanapo menos

aceado, levárão em fim a sua insolencia a ameaçarem hum innocente filho

da Marqueza, que havião de obrigallo a lhes alimpar as botas. Offendida

de tantos ultrages, e privada dos meios da sua subsistencia, e de seus

filhos, esta senhora espirituosa levou por muitas vezes as suas queixas

ao General em chéfe, e tinha sempre os olhos na esquadra Ingleza, como

aquella, de que esperava hum dia o resgate. Conta-se, que o General,

alludindo a esta mesma circumstancia, dizia com hum sorriso amargo, que

a Marqueza d’Angeja era huma excellente mulher para ElRei D. Sebastião.

De-Laborde, tendo aproveitado o que lhe pareceo no palacio Real da

Bemposta, passou a roubar o do Secretario d’Estado Araujo, e depois o

do Duque de Cadaval. Loison fez-se senhor da casa de Bandeira, huma das

de maior riqueza de Portugal, e foi encher-se no palacio Real de Mafra.

Thomiers, e Kellerman por toda a parte do reino, onde transitárão,

fizerão roubos inauditos; os mais á proporção; e eu não findaria, se

quizesse continuar a lista: contentar-me-hei por agora com accrescentar

breves palavras a respeito do General em chéfe.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Junot, do qual já fallei, tratando da repartição das bestas, e do trem

da casa Real, veio prevenido de França com seu cunhado Jufre para lhe

servir de capa, e fazerem ambos a sua colheita; colheita, que devia

ser proporcionada ás personagens, e digna em tudo de hum General

em chéfe Francez dos mais estimados de Napoleão. A este Jufre fez

administrador geral dos dominios, o que lhe deo occasião a entrar,

quando queria, pelos palacios Reaes, e pelas casas dos que chamavão

emigrados. He notavel o valor, com que se avançava a tudo, sem se

embaraçar com inventarios, e sequestros; mas he provavel, que estas

diligencias particulares fossem a causa da demora consideravel, que

houve em se nomearem administradores ás casas sequestradas, depois das

ordens para os sequestros.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Pertendeo-se salvar na esquadra, em que a corte se transportára, huma

porção de prata da santa igreja Patriarcal, que deitava a 14 carros;

mas depois de ter estado para este fim sobre o cáes de Belém, teve

de voltar outra vez para a casa do thesouro da mesma igreja; porque

não foi possivel o embarcar-se. Toda ella devia ficar prisioneira de

guerra, visto que pertendêra emigrar, e com effeito não tardou Jufre

em ir lançar-lhe a mão, acompanhado de outro official, e com tanta

avidez, que forão prevenidos com hum martello, e tendo fechado a porta

por dentro, estiverão abrindo, e examinando os caixões, sem que lhes

causassem vergonha as martelladas, que deixavão ouvir. Aos 14 carros

ajuntárão mais huma rica, e magestosa banqueta do altar do Santissimo

Sacramento, peça das mais preciosas, que se conhecião neste genero, a

qual tinha sido mandada fazer por hum dos mais célebres artistas de

França.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Depois das colheitas geraes, Junot, e Jufre se entregárão a negociações

as mais sordidas. A venalidade da justiça rendeo-lhes muito. As

licenças para a sahida dos navios era outro ramo de receita muito

fertil, em que parece, que levava alguma parte o General de-Laborde,

como commandante superior de Lisboa. A Thiebault, como chéfe do

estado maior, ficou pertencendo a gage importante dos passaportes dos

passageiros; mas isto são objectos, que já pertencem a huma época

posterior: a pena foge, he necessario reprimilla.

O historiador imparcial, que por entre os prejuizos, e as paixões

procura sempre a verdade, tem elle algum titulo, que o dispense

de dizer o bem, tendo publicado o mal? Entre o bando immenso dos

grosseiros, e malevolos Francezes tambem apparecêrão, ainda que muito

raros, alguns espiritos bem nascidos, em que a moral, e a decencia

exercitavão o seu justo imperio; erão principios bebidos em tempos

mais ditosos. Apparecêrão mesmo alguns, que detestando as cadêas, que

os havião ligado ás bandeiras de Napoleão, deploravão a triste sorte

de Portugal, e das mais nações opprimidas: com tudo cooperando com os

tyrannos, elles se fazião complices dos seus crimes.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Até entre os Generaes Francezes se encontravão algumas virtudes! Apar

dos de-Laborde, Loison, Kellerman, Thomiers, Margaron, Avril, Salmsalm,

e tantos outros de nome igualmente odioso, appareceo hum Charlot, que

soube pelas suas boas qualidades, e pela doçura dos seus costumes

captivar os póvos de Torres-vedras, e hum Travot, que encantou os

de Cascaes, Oeyras, e Paço d’arcos. Bem longe de os tyrannizar, e

espoliar, elle os consolava nas suas desgraças, e até repartia esmolas

pelas familias dos miseraveis pescadores, de que são povoados aquelles

lugares, vendo-os privados dos meios da sua subsistencia, pelas

reiteradas prohibições de irem ao mar, emanadas de Junot, para prohibir

a communicação com a esquadra Ingleza.

[Sidenote: 1807 Dez.]

Mas quanto não he perigosa a escola de Napoleão, e dos seus

semelhantes! Aquelle anjo da paz, a quem se notou sómente por aquelles

sitios o não poder resistir á tentação de se apropriar de hum pequeno

navio de marfim, pertencente á casa do Marquez do Pombal, obra de muito

gosto, e muito delicada, não mereceo iguaes creditos em outras partes;

talvez porque era muito brando, para reprimir a canalha, que o rodeava.

Os meus leitores ainda se admiraráõ mais, quando souberem, que Loison,

o malvado Loison, o escandalo, e a execração de todas as provincias

de Portugal, se mostrou em muitas occasiões com dignidade: parece que

sentia remorsos, que algumas vezes lhe revolvião a sua alma estragada.

Em Alcobaça obrigou elle a Kellerman a que restituisse instantaneamente

ao Geral do convento 100 moedas, que acabava de extorquir-lhe; e

entrando casualmente na igreja em hum dia festivo, vio-se, que se lhe

arrazárão os olhos de lagrimas. Quem póde comprehender semelhante

gente? He para lastimar, que entre tantos máos apparecessem tão poucos

bons! Mas por outra parte até nisto se manifestou a providencia, que

queria salvar Portugal: se se multiplicassem os Travots, e os Charlots,

talvez que a nação Portugueza tivesse adormecido nos ferros.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 42 / 58 题