[Sidenote: 1807 Nov.]
Foi entrando successivamente pela estrada de Salvaterra, Idanha a nova,
e Castello-branco a segunda divisão, composta de
1.^a Brigada.
1 Batalhão do 2.^o regimento de infanteria ligeira.
1 Batalhão do 4.^o idem.
1 Batalhão do 12.^o idem.
1 Batalhão do 15.^o idem. 100 homens de cavallaria Hespanhola,
e 1 companhia de mineiros.
2.^a Brigada.
1 Batalhão do 32.^o regimento de linha.
1 Batalhão do 58.^o idem.
1 Batalhão Suisso.
Quatro peças de 4, e dous obuzes Francezes pertencentes á primeira
divisão, divididas pelas duas brigadas.
[Sidenote: 1807 Nov.]
A 3.^a divisão, assim como a cavallaria, e a artilheria da 2.^a e 3.^a
divisão, e as equipagens do exercito demorárão-se mais alguns dias,
pelo crescimento subito de algumas ribeiras. A artilheria, e os caixões
chegárão com muitas ruinas, por ter sido tudo conduzido por bois, e
homens do paiz, em falta de cavallos capazes; o pessoal vinha em hum
estado lastimoso, e hum grande número de cavallos tinha morrido; mas
nada disto embaraçou a sua marcha por hum paiz, que hião atravessar
como inimigos reaes, posto que aleivosamente conseguírão o tratamento
de amigos.
[Sidenote: 1807 Nov.]
[Sidenote: 1807 Nov.]
Não se acreditaria, senão fosse hum facto, não só público em toda
a Europa, mas até consignado pela imprensa em hum grande número de
monumentos publicados por ordem do proprio Junot, para servirem
de eterno labeo á sua fama, e á de seu amo, que depois de tantas
hostilidades, e tão notorios testemunhos de usurpação, este General
vinha enganando os póvos na sua marcha com palavras de amizade, e de
protecção; ao mesmo tempo que o seu exercito os roubava, e devastava.
Desde que entrou em Portugal, fez espalhar huma aparatosa proclamação,
datada do seu quartel general de Alcantara a 17, pela qual fazia
constar, que entrava com as suas tropas a marchas forçadas, para ir
salvar a bella cidade de Lisboa da sorte de Copenhague, fazendo causa
commum com o nosso amado Principe contra o tyranno dos mares, (a
Gram-Bretanha) a quem este tinha declarado a guerra. _Habitantes
pacificos do campo_, (continuava a proclamação) _nada receeis.
O meu exercito he tão bem disciplinado, como valeroso. Eu respondo
sobre a minha honra pelo seu bom comportamento. Ache elle por toda
a parte o agazalho, que lhe he devido como a soldados de Napoleão o
Grande. Ache elle, como tem direito a esperar, os viveres, de que tiver
precisão; mas sobre tudo o habitante dos campos fique socegado em suas
casas. Eis o que vos prometto. Guardar-vos-hei a minha palavra._
Segue-se a promessa, a qual consiste em que todo o soldado, que fosse
achado roubando, seria punido com o mais rigoroso castigo. Que todo
o individuo que tivesse percebido alguma contribuição injusta, seria
conduzido a hum conselho de guerra, para ser julgado segundo todo o
rigor das leis.
[Sidenote: 1807 Nov.]
O bom Marco Aurelio, o bom Trajano, e o filosofo Julião ostentárão
elles hum procedimento mais humano, huma conducta mais regular?
He verdade, que não estavão bem especificadas as penas para os
delinquentes Francezes, não sendo já muito boa a opinião, em que
se tinhão as suas leis em materia de roubos, e extorsões; e tambem
he verdade, que erão bem fulminantes, e definidas as ameaças aos
Portuguezes, que ousassem resistir. _Todo o individuo_ (prosegue
a proclamação) _do reino de Portugal, não sendo soldado de tropa
de linha, que se apanhar fazendo parte de qualquer ajuntamento
armado, será arcabuzado. Todo o individuo convencido de ser chefe de
ajuntamento, ou de conspiração tendente a armar os cidadãos contra
o exercito Francez, será arcabuzado. Toda a villa ou aldêa, em cujo
territorio for assassinado hum individuo pertencente ao exercito
Francez, pagará huma contribuição, que não poderá ser menos que
tres vezes o seu rendimento annual. Os quatro habitantes principaes
serviráõ de refens para o pagamento da somma; e para que a justiça
seja exemplar_ (hum exercito auxiliar não vem fazer justiça, e huma
justiça como esta contra os vassallos da potencia auxiliada) _a
primeira cidade, villa, ou aldêa, onde for assassinado hum Francez,
será queimada, e arrazada inteiramente_.
[Sidenote: 1807 Nov.]
Taes as promessas, e taes as ameaças, com que entrou o exercito Francez
em Portugal: o fecho da peça não he menos digno de ser conservado
á posteridade. _Mas eu quero-me persuadir, que os Portuguezes
hão de conhecer os seus verdadeiros interesses, que auxiliando as
vistas pacificas do seu Principe, nos receberáõ como amigos; e que
particularmente a bella cidade de Lisboa me verá com prazer entrar nos
seus muros á frente de hum exercito, que só a póde preservar de ella
ser preza dos eternos inimigos do continente_.
[Sidenote: 1807 Nov.]
[Sidenote: 1807 Nov.]
A _palavra_, e a _honra_ do General em chéfe achavão-se
solemnemente empenhadas pelo bom comportamento das suas tropas; era
necessario, que estas as desempenhassem dignamente, como _soldados de
Napoleão o Grande_. Assim que o exercito se vio em hum paiz, onde
julgava, que tudo lhe era permittido, foi huma torrente devastadora,
que hia destruindo tudo diante de si. As aldêas despovoavão-se de
habitantes, e a tropa, que queria tudo, e não achava cousa alguma,
porque nada estava prevenido, mettia-se pelas casas, roubava, e
queimava quanto encontrava: a propria officialidade não perdoava mesmo
áquellas, em que se aquartelava, e em que recebia o melhor agasalho.
Olivaes, pinhaes, e outros arvoredos erão destruidos, huns para
servirem de barracas, outros para o lume; povoações inteiras entregues
á pilhagem; templos profanados, e roubados, sem se perdoar aos vasos
sacrosantos; e imagens sagradas sacrilega, e brutalmente queimadas, ou
picadas com as baionetas.
Á 20 ainda em Castello-branco se ignorava a marcha do inimigo; apenas
pelas 4 horas da tarde se espalhou huma voz, que estavão Francezes
na Zibreira, e ás 6 da mesma tarde apparece hum official encarregado
do aquartelamento, levando já comsigo os Magistrados da terra, a
participar no paço do Bispo, que dalli a duas horas entrava De-Laborde
com hum corpo de 3000 homens. Assim se verificou; e no dia seguinte
pela tarde chegou Junot, e se dirigio ao mesmo paço, onde ninguem o
esperava; do que elle logo se mostrou assás desgostoso, fazendo com que
se lhe patenteassem todas as portas. He verdade, que não tratou mal
ao Bispo, nem lhe roubou a livraria, como se tem publicado em alguns
escritos; mas os seus Ajudantes levárão alguns objectos, de que se
agradárão, e provavelmente com a esperança de acharem dinheiro, lhe
revolvérão os livros; não o achando, resolvêrão-se a pedillo, e algum
obtiverão: hum delles, depois de terem partido, voltou das Sarzedas a
pedir mais dinheiro para o proprio Junot, a titulo de emprestimo; e
tambem o levou. Levárão mais a este Prelado duas bestas de serviço,
e por huma casualidade deixárão de levar-lhe huma unica parelha, que
tinha, e huma pequena mula, em que costuma montar nas suas visitas.
As intenções parecião ser de lhe alimparem a casa, e he deste modo,
que Junot em pessoa, e os officiaes mais addictos a elle executavão a
proclamação de Alcantara!
[Sidenote: 1807 Nov.]
O Barão de Castello novo, que se achava naquella cidade, foi maltratado
por Junot, por lhe apparecer vestido de paisano, tendo hum emprego
militar, e porque exigindo delle cavallos, o Barão lhe respondeo,
que os não tinha; resposta, a que o mesmo Junot replicou com hum
_mente_. O General em chéfe, e as tropas, que o acompanhavão,
demorárão-se sómente huma noute em Castello-branco; mas que noute! Eu
usarei da expressão de huma pessoa muito authorizada da mesma cidade,
que quiz ter a benignidade de ministrar-me algumas informações: _esta
noute foi huma imagem do inferno_.
Continuando nos dias seguintes a passagem das tropas, em hum delles
foi arrombada a porta da igreja Paroquial de S. Maria do Castello, e
igualmente a do sacrario da mesma: roubárão o vaso sagrado, e lançárão
por terra, e por cima do altar as sagradas Particulas; e não foi
esta sómente a igreja, em que aquelles ímpios praticárão semelhantes
abominações. Que principio de protecção para com os póvos, e para com a
santa religião, que estes bandos de foragidos não cessão de ultrajar,
e que os seus chéfes fingem professar, ajuntando a tantos crimes huma
criminosa hypocrisia!
[Sidenote: 1807 Nov.]
[Sidenote: 1807 Nov.]
A 23 pelas 3 horas da tarde chegou a Abrantes a vanguarda, e a 24 pela
manhã entrou Junot com a parte do seu exercito, que o acompanhava:
os proprios Generaes vinhão conduzindo rebanhos de gado, que vendião
para se utilizarem do seu preço, como se viessem de hum saque. Junot
expedio immediatamente a vanguarda para Punhete, junto ao Zezere, e
ficou cuidando em aprovisionar o exercito; porque pensou achar nesta
villa grandes commodidades. Ordenou immediatamente ao Juiz de fora José
de Macedo Ferreira Pinto, que lhe fizesse apromptar 12 mil rações, e
12 mil pares de çapatos, com a combinação de impôr huma contribuição
á terra de 300 mil cruzados novos, e o tratou tão asperamente, que
este digno magistrado logo na noute seguinte evitou com a fugida os
resultados, que podião seguir-se. Ficando vago por este motivo aquelle
emprego, Junot, depois que tomou o governo do reino, o conferio a
hum moço, filho da mesma terra, que se não tinha habilitado, nem
frequentado as aulas da Universidade, querendo por esta fórma
mostrar-se agradecido a seu pai Rodrigo Soares de Bivar, em cuja casa
se aquartelára, pelas grandes despezas, que fez na sua hospedagem. Até
para o vestir lhe deo camisas!
Intimidada a villa de Abrantes com o justo receio de huma execução
militar, despachou correios para Thomar, e outras terras visinhas, para
se comprarem todos os çapatos, que se achassem feitos, e se empregarem
todos os çapateiros em fazer os que lhes fosse possivel. Trabalhou-se o
resto desse dia, e toda a noute, os particulares concorrêrão com os que
tinhão para o seu uso, e pela tarde do dia seguinte se teria apromptado
a 3.^a ou 4.^a parte dos que se pedírão; com o que se accommodou com
effeito Junot, convencido da impossibilidade de se apromptar em tão
curto praso a totalidade. Quanto ás rações, proveo-se o exercito,
segundo permittião as circumstancias da terra, e não confórme os
desejos do General.
[Sidenote: 1807 Nov.]
Em Abrantes não deixárão estes novos Vandalos de renovar algumas das
costumadas scenas da sua irreligião. Fizerão quartel da igreja de
S. Antonio, e dos altares mangedouras para as bestas. Hum coronel,
que se aquartelou no convento dos Capuchos, fez todo o genero de
insolencias ao Guardião, servindo-se delle até para lhe descalçar as
botas, e por fim intimou-lhe, que lhe trouxesse todo o dinheiro do
convento. A colheita foi pequena, como devia esperar-se de hum convento
de Capuchos; mas o coronel, que não attendia a razões, lhe intimou
novamente, que lhe fosse buscar mais dinheiro, ou o faria fuzilar:
o bom frade não teve então outro recurso, senão fugir, deixando o
convento entregue á rapacidade Franceza.
[Sidenote: 1807 Nov.]
Foi nesta villa que Junot obteve noticias mais circumstanciadas de
Lisboa, ainda que não erão verdadeiras em tudo. Disserão-lhe, que o
Principe Regente fazia embarcar a toda a pressa huma parte da Familia
Real, e grande numero de Fidalgos; que a esquadra Ingleza bloqueava
o Téjo, tendo a bordo as tropas da expedição de Copenhague, dizião
huns, e 16& homens vindos de proposito d’Inglaterra, dizião outros.
Principiou então a desconfiar do exito da sua empreza, e recorrendo
aos ardís da sua artificiosa politica, tentou ainda enganar a nossa
corte com perfidias diplomaticas. Perguntou se haveria hum homem, que
quizesse ir rápidamente a Lisboa fazer hum grande serviço ao Principe
Regente: inculcárão-lhe Joaquim Manoel Raposo, e foi este o portador
de huma carta de Junot a Araujo, a que deo o titulo de confidencial,
que porém imaginava, e se não enganou, que seria vista por S. A. R.
As particularidades desta carta são ainda encubertas; mas sabe-se,
que ella não servio senão de mais hum aviso á corte da aproximação do
exercito Francez, e de hum novo incentivo, para apressar o embarque.
[Sidenote: 1807 Nov.]
A vanguarda parou em Punhete; porque o Zezere, rio caudaloso, e grande,
lhe negava a passagem: para a dirigir, e accelerar sahio Junot de
Abrantes no dia 26. Durante a campanha de 1801 tinha-se construido
alli huma ponte de barcas, e estas se achavão dispersas em differentes
sitios: aquelle General as fez ajuntar, e depois de algumas tentativas,
que tornava inuteis a força da corrente, pela muita chuva, que tinha
cahido nos dias precedentes, conseguio em fim restabelecer a ponte,
tendo já feito passar algumas tropas em bateis. Affogárão-se algumas
pessoas das que trabalhavão na construcção desta obra; mas he sem
fundamento o que se tem publicado da grande perda de gente, que tivera
Junot na passagem do Zezere.
[Sidenote: 1807 Nov.]
A 27 dormio na Gollegã, e offerecendo-se-lhe novos embaraços nos
pantanosos campos, e nas vallas, que tinha de atravessar até Santarem,
os franqueou todos na manhã de 28, e foi jantar a esta ultima villa
em casa do Capitão mór de Aviz, tendo despedido pelo Téjo a Herman,
e a José de Oliveira Barreto com a nova commissão, de que já fallei,
e da qual não vio melhor fruto, do que da de Joaquim Manoel Raposo.
Este ultimo ahi o foi encontrar, e augmentar-lhe os cuidados com a
resposta, que lhe trazia. O dono da casa foi quem o pagou: pedindo
Junot hum cavallo, e occultando elle hum muito formoso, que tinha, o
General, todo transportado de colera, arremetteo com a espada para o
matar: acudio a mulher do pobre Capitão mór, banhada em lagrimas; e
pôde conseguir a commutação de tão rigorosa pena em outra muito suave
em si mesma, mas muito sensivel para hum homem, que gozava de grande
consideração naquella terra. Junot na sua marcha o fez ir diante de si
a pé, e com a cabeça descoberta, até á escada da cadêa pública, e dalli
o despedio com ignominia.
[Sidenote: 1807 Nov.]
No Cartaxo, aldêa bastantemente grande, a 2 leguas de Santarem, he que
veio pousar nesse dia o General em chéfe. Era huma hora para as duas
depois da meia noute, e estava elle na sua cama, quando lhe chega a
noticia de que com effeito a Familia Real tinha embarcado. Levanta-se
nú, dá pancadas ao vento, bate o pé, e tudo he reboliço na casa;
manifestando assás pelos transportes da sua ira, quanto lhe era amargo
perder o fruto principal das suas fadigas no momento, em que se estava
já ensaiando, para lançar as mãos sobre a presa.
[Sidenote: 1807 Nov.]
Apenas apparece a manhã, elle se põe em acção de marcha, e caminhou
até as 9, ou 10 horas da noute, para chegar a Sacavem. Foi neste dia
que recebeo os Deputados, que lhe enviárão os governadores do reino,
e de que tambem já fallei; e igualmente o forão buscar de seu proprio
marte (com bastante mágoa o direi) alguns Portuguezes degenerados, pela
maior parte Pedreiros-livres, que infiéis ao Soberano, e á patria,
se apressárão a offerecer os seus infames serviços ao satéllite do
usurpador. Junot parece ter dado a este facto huma importancia muito
maior, porque assim convinha aos seus designios, inculcando por hum
grande partido o que apenas consistia em huns poucos de miseraveis,
ou de criminosos, corridos da fortuna, e perdidos de dividas, que
esperavão melhorar na mudança de governo, e na subversão geral. Elle
chegou a lisongear-se de que o povo de Lisboa, animado pela aproximação
do exercito Francez, poderia resolver-se a embaraçar a sahida da
esquadra. Louca esperança! Esse refugo desprezivel, essa raça bastarda,
e impura, que se atreve a manchar o nome Portuguez, era olhada com
horror por toda a nação, e assinaladamente pelo fiel povo de Lisboa,
que ama tanto o seu legitimo Soberano, como aborrece os usurpadores.
Este mesmo era o dia, em que a esquadra largava o Téjo, deixando
confundidos os projectos de Napoleão, e malogradas as diligencias de
Junot.
Na manhã do dia 30 continuou muito cedo a sua marcha, de fórma que ás
9 horas estava ás portas de Lisboa, tendo mandado hum destacamento,
porque teve quem lho advertisse, a tomar posse do deposito de Beirolas,
onde se achavão quarenta mil arrobas de polvora.