CAPITULO XVI.

_O governo he instalado, e principia no exercicio das suas funcções.

Ordens de Napoleão a Junot para avançar rápidamente com o seu exercito.

Entrada deste em Portugal, e sua marcha até Lisboa._

[Sidenote: 1807 Nov.]

Logo que se ultimou o embarque das Pessoas Reaes no dia 27 de

novembro, que foi quasi pelo fim da tarde, os Governadores do reino

se congregárão, e indo a casa do Cardeal Patriarca, que, além de

decrepito, se achava doente, para prestarem nas suas mãos o juramento,

ficárão instalados no exercicio das suas funcções, principiando logo na

noute immediata a dar as providencias para o governo do reino, no qual

S. A. R. se não intrometteo mais, em quanto se conservou no Téjo. Foi

sim consultado sobre alguns pontos, para cujo fim passárão á esquadra

no dia seguinte o Marquez d’Abrantes, e o Conde de S. Payo: as pessoas

sensatas pensárão sem dúvida, que os Governadores obrárão segundo as

instrucções, que recebêrão, em alguns actos, a que o povo indiscreto

não saberia assignar as causas, como a suspensão das ordens, para se

encravar a artilheria das baterias do porto de Lisboa, já executadas

em grande parte, e a deputação mandada a Junot, para o comprimentar no

caminho, composta do Tenente General Martinho de Sousa e Albuquerque, e

do Brigadeiro Stokler.

[Sidenote: 1807 Nov.]

Derão-se immediatamente as providencias, para a recepção das tropas

Francezas, da fórma que S. A. R. ordenara; e para o General em chéfe se

mandou apromptar o palacio da Bemposta, transportando-se a elle grande

parte dos preparos, e adornos de Quéluz. Mas suspendamos por hum pouco

no que se passava em Lisboa, para nos transportarmos ás fronteiras de

Portugal, e acompanharmos o inimigo na sua marcha.

Em outro lugar deixo notados os movimentos, que causou no espirito de

Napoleão o conhecimento de que S. A. R. se propunha a transferir-se

com a corte para o Brasil, no caso d’elle não desistir das suas

intoleraveis pertenções: parece ter sido huma consequencia delles a

ordem positiva, que expedio a Junot, para avançar rápidamente com o

seu exercito; de fórma que devia achar-se em Lisboa precisamente no

1.^o de dezembro. Vamos ver incessantemente, como Junot a executou tão

promptamente, que ainda se anticipou hum dia áquelle praso.

[Sidenote: 1807 Nov.]

[Sidenote: 1807 Nov.]

Diz hum estimavel A.[13] o qual tem feito serviços assignalados á

patria nos excellentes escritos, com que tem concorrido a sustentar o

valor, e o patriotismo da nação, no meio das crises mais violentas,

que era o plano de Bonaparte senhorear-se da pessoa do nosso amado

Principe, obrigallo a escrever cartas aos Governadores do Brasil,

metter tropa na esquadra Russiana, que se achava surta no porto de

Lisboa, e nas náos Portuguezas, que se pudessem apromptar, para irem

tomar aquella grande colonia; de cuja expedição vinha encarregado

o General de Laborde, com o titulo de Governador geral da America

Portugueza. Que o Principe devia depois ser remettido a París para a

_Manegerie_, ou casa dos Reis, segundo a expressão dos Francezes,

em quanto Portugal entrava para a communhão da peninsula, esperando

pela sua sorte, até que acontecesse outro tanto á Familia Real

d’Hespanha. Esta era na verdade a opinião publica, desde o momento da

invasão; e accrescenta aquelle escritor, depois de ter annunciado, que

a Inglaterra publicára este plano: _e Talleyrand, dizem, fora quem o

divulgára_.

[Sidenote: 1807 Nov.]

Não acreditarei, que Talleyrand levasse até este ponto a infidelidade

para com seu amo, sem temer o rigor das suas vinganças; e já principiei

a dar algumas idéas sobre o destino da esquadra Russiana, e sobre as

expedições, que se projectarão contra a America, ficando reservada

para os lugares competentes a mais ampla narração destes factos; o que

porém posso attestar agora he, que o ter-se traçado a surpreza de toda

a Real Familia, dos parentes da casa, e das personagens mais distinctas

do reino, e a sua remessa para França, são factos assás verificados,

para se poderem dar como indubitaveis. Devia praticar-se em Portugal o

que alguns mezes depois vimos na Hespanha, e irei dizendo como Junot

principiou a executar huma parte das ordens, de que vinha encarregado

por Napoleão, não tendo podido executar as mais, por ter chegado tarde.

Nós o deixamos atravessando a Hespanha com o exercito do seu commando:

em Salamanca he que deo principio ás suas marchas mais violentas, de

fórma que sendo 40 leguas dahi a Alcantara, as atravessou em cinco

dias, por caminhos pessimos, semeados de rochedos, e cortados de

ribeiras, por baixo de chuvas, e por entre montanhas cobertas de neve.

Todo o exercito vinha summamente fatigado, e faminto, sem ter comido

pão a maior parte deste tempo, não lhe tendo o governo Hespanhol

feito apromptar o necessario, e affirmando mesmo os Governadores de

Cidade-Rodrigo, e Alcantara, que não tinhão tido avisos para a sua

recepção. Em Alcantara mesmo, onde chegou a 17 de Novembro, se não pôde

obter senão meia ração para as tropas; e para isto mesmo foi necessario

pedir o General Hespanhol Carraffa emprestimos sobre o seu proprio

credito.

[Sidenote: 1807 Nov.]

Este General ajuntava alli a divisão do seu commando, que devia ficar

debaixo do de Junot, segundo a convenção secreta de Fontainebleau. Elle

tinha ordem do seu governo, para ajuntalla em Salamanca, e Valhadolid,

ao que obstou Junot fazendo com elle por meio de hum Ajudante de

campo, que lhe tinha mandado adiante, que suspendesse nos arredores

de Alcantara as tropas, que conduzia, e consistião no regimento de

Maiorca de 1500 homens, 400 Dragões de la Reina, 150 mineiros, e 2

companhias de artilheria ligeira com 12 peças. Estas as unicas tropas

Hespanholas, com que Carraffa acompanhou Junot, a pezar do que se tem

dito, e escrito; mas aquelle General deixou ordem em Alcantara, para

que o viessem seguindo as mais tropas da sua divisão, logo que fossem

chegando.

[Sidenote: 1807 Nov.]

Era impossivel a Junot fazer continua a marcha rápida do exercito, sem

lhe dar algum descanço; mas logo no dia 8 mandou descobrir o terreno

até o Rosmaninhal, e os seus descubridores lhe trouxerão a certeza das

disposições pacificas do paiz, e de que era ainda desconhecida nelle a

aproximação das tropas Francezas. A 19 mandou entrar em Portugal pelo

mesmo caminho a sua vanguarda, a qual fazia parte da 1.^a divisão, e se

compunha do regimento 70.^o de linha, 1 companhia de mineiros, e 300

homens de cavallaria ligeira Hespanhola. A 20 entrou elle mesmo com o

resto desta 1.^a divisão, que se compunha das tropas seguintes, fazendo

o melhor de 8600 homens na sua totalidade.

1^a Brigada.

O 15.^o Regimento de linha.

47.^o Regimento idem.

1 Batalhão do 4.^o regimento Suisso.

1 Companhia de artilheria ligeira

Hespanhola com 6 peças.

2.^a Brigada.

O 86.^o Regimento de linha.

1 Regimento Hespanhol de infanteria

(de Murcia) com

1500 homens.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 34 / 58 题