_Renova-se a guerra entre a França, e a Gram-Bretanha, de que as
commoções se sentem em Portugal. Lannes em Lisboa: suas negociações, e
intrigas._
[Sidenote: 1802 a 1804]
[Sidenote: 1802 a 1804]
[Sidenote: 1802 a 1804]
A huma paz momentanea seguio-se huma longa guerra, que provavelmente só
deve terminar com a ruina de hum dos dous governos, em que o mundo tem
fixos os olhos. Não farei longas digressões sobre historias estranhas,
nem me declararei escritor partidista. A corte de Londres, e o governo
consular enchêrão a Europa de queixas, e de manifestos: nelles devem
procurar-se os motivos verdadeiros, ou apparentes da renovação das
hostilidades. Não devo porém dispensar-me de fazer observar aos
meus leitores, que quando o governo da França obtinha restituições,
ajuntava novas terras ao seu imperio, intromettia-se nos negocios, e no
governo dos póvos visinhos, dando huma nova constituição á républica
Liguriana, mudando a fórma prescripta no tratado de Amiens á Ordem
de Malta, sujeitando a républica Italiana á conscripção militar,
enchendo a propria Inglaterra de espias, e emissarios, com o titulo
de agentes de commercio, e ameaçando por muitas outras instituições o
repouso da Europa, sobre a qual tomava Bonaparte hum tom de Dictador,
sem disfarce. París começou a ser tratada pelo titulo de capital do
mundo,[8] e tudo annunciava projectos, e empresas sem limites. A
Inglaterra sem dúvida cogitava tambem nos meios de augmentar o seu
poder maritimo, e este tem sido desde longo tempo o seu systema, assim
como o principio das queixas formadas contra o seu governo. Felizmente
ella tem conseguido o seu fim, porque a não ser este immenso poder
maritimo, que outra força poderia haver, que resgatasse a Europa das
cadeias da França?
[Sidenote: 1802 a 1804]
Os movimentos da nova guerra produzírão novas commoções no ministerio
de Portugal, porque os tiros, que o governo Francez despedia sobre
Londres, reverberavão sempre para o Téjo. Se Bonaparte não previsse,
que a guerra se transportaria do mar para o continente, como veio a
succeder, he natural, que cogitasse novos projectos de invasão nos
Estados Portuguezes: as circumstancias o obrigárão a seguir outro
plano, o de insistir em durissimas pertenções, para obrigar a corte
de Lisboa a romper com a de Londres, ou ir defecando Portugal com
exacções, para comprar huma neutralidade, mais ruinosa para o Estado,
do que a propria guerra, assim como hia defecando a Hespanha com o
pretexto de soccorros amigaveis. Defecadas, e exhauridas estas duas
Monarquias, ellas cahirião sem remedio, em chegando o tempo, nem
Bonaparte, que de primeiro Consul passou bem depressa a Imperador dos
Francezes, podia deixar de olhar como hum passo necessario ao seu
engrandecimento, e á conservação da sua nova dynastia, a destruição
de duas Familias reinantes, em que circulava o sangue dos Bourbons,
daquelles mesmos, de que usurpava o throno.
[Sidenote: 1802 a 1804]
Em março de 1802 tinha o primeiro Consul mandado por Embaixador á
corte de Lisboa o célebre Lannes, este mesmo Marechal, que vimos ha
pouco terminar os seus dias malfadados na batalha de Esling, para ser o
agente de novas maquinações, o precursor de grandes infelicidades. Era
o seu systema, já d’antes perpetuado no governo Francez, como aquelle,
que mais quadra a hum governo invasor, mandar sempre Generaes por
Embaixadores ás cortes, onde conservava relações, para de longe irem
lançando os fundamentos da dominação Franceza, porque a fraude, e a
prevaricação tem feito daquelles, que não devião ser senão puros orgãos
das sinceras proposições dos seus Soberanos, huns espias disfarçados,
huns motores de intrigas, huns revolucionarios, infractores daquelle
mesmo Direito das gentes, que lhes concede a immunidade, e que serve de
capa aos seus crimes.
[Sidenote: 1802 a 1804]
[Sidenote: 1802 a 1804]
Entrou Lannes em Lisboa com o caracter de Plenipotenciario, e Enviado
extraordinario, mais como hum General républicano, que vinha fazer
conquistas, do que como Ministro de huma corte civilizada, que vinha
exercer funcções diplomaticas. Perdoar-se-lhe-hia o não se cingir ás
formulas ordinarias, o ostentar a ferocidade de hum guerreiro no meio
de hum povo pacifico, e toda a altivez républicana perante os Ministros
de hum governo monarquico, se fosse menos sinistro o verdadeiro
objecto da sua missão, e menos violento o seu modo de proceder nos
pontos essenciaes das suas relações politicas. Recebeo de SS. AA. RR.
a primeira audiencia pública em 2 de abril, e desde então começou a
trabalhar no plano, de que seu amo lhe confiára a execução. Era o
mesmo, que alguns annos antes o Directorio executivo tinha confiado ao
General Brune, e ao seu adjuncto Guinguiné perante a corte de Turin,
para minar os fundamentos daquella Monarquia, e precipitar em fim
do throno o Rei de Sardenha: o de privar a S. A. R. dos seus fiéis
servidores, dos seus verdadeiros amigos, mudar o ministerio, arvorar em
fim hum partido Francez em Lisboa, e lançar os alicerces da dominação
de Bonaparte.
Forão inuteis por longo tempo as tentativas de Lannes, e seria muito
importante a relação exacta, e circumstanciada das suas operações
diplomaticas; mas he esta huma parte da nossa Historia, que o véo
ainda cobre. Em fim vendo, que não conseguia os seus intentos, que se
dirigião especialmente contra aquelles Ministros, que empregavão todos
os seus esforços em sustentar dignamente o Soberano sobre hum throno,
de que se traçava a ruina, elle parte precipitadamente pela posta com
direcção a París, tendo dado manifestas provas do seu arrebatamento,
e deste ar grosseiro, e altivo, que se lhe havia notado, desde a sua
entrada em Lisboa.
[Sidenote: 1802 a 1804]
A nossa corte expedio immediatamente vivas representações a Bonaparte
sobre este desusado comportamento do seu Embaixador por hum correio,
que o precedeo na marcha; e as representações sortírão na verdade huma
parte do seu effeito; porque Bonaparte mandou suspender a entrada
de Lannes em París, mas tambem mandou a Mr. Herman, este mesmo, que
depois veio figurar na invasão de 1807, a pedir satisfações, pela
facilidade, com que se lhe concedêrão os passaportes: as pertenções
do governo Francez ficárão sempre no mesmo pé, ou ainda peior do que
d’antes; e não tardou muito tempo, que Lannes não voltasse a Lisboa
exercer de novo as suas funcções perante a nossa corte. Notou-se-lhe
mais moderação, e chegou mesmo a merecer as boas graças de S. A. R. por
effeito de certas maneiras agradaveis, que lhe escapavão para com este
Soberano por entre toda a sua altivez natural, e talvez mais ainda,
por hum ar de franqueza, que ostentava até nas suas pertenções as
mais extraordinarias, a qual tem sempre grande imperio sobre as almas
sinceras, e virtuosas.
[Sidenote: 1802 a 1804]
Mudárão pois algum tanto as negociações na exterioridade; mas no
fundo nada diminuio o seu rigor: sobre ellas guardarei ainda o
silencio, limitando-me a referir alguns factos públicos, para não
enganar os meus leitores com conjecturas falliveis. He incontestavel,
que achando-se em opposição os interesses da França com os da
Gram-Bretanha, e procurando os Embaixadores destas duas potencias
em Lisboa sustentar cada hum o partido da sua corte, daqui resultou
huma guerra continuada entre ambos, e muitas vezes sobre pontos
insignificantes, e de méro capricho, que punha em aperto a corte de
Lisboa, pelos motivos instantes, e assás conhecidos, com que desejava
satisfazer a ambos. Até nas gazetas vio a Europa exercitar esta guerra,
e a Europa deveo admirar-se de que os representantes das duas cortes
da maior representação do mundo descessem a estas ninharias, de que
referirei dous exemplos, que me parecem mais notaveis. Não ponhamos
porém na mesma linha a corte de Londres, e seus Ministros, com o
governo Francez, e seus agentes: os factos mostrão assás, de qual das
partes está a baixeza, e o ridiculo.
[Sidenote: 1802 a 1804]
[Sidenote: 1802 a 1804]
Nasceo hum filho ao General Lannes, pouco tempo depois da sua
primeira vinda a Lisboa; e querendo S. A. R. dar hum testemunho da
sua benevolencia para com elle, lhe servio de padrinho no baptismo,
brindando-o com hum magnifico presente daquelles, que tem lugar em
semelhantes occasiões. Foi transmittida esta noticia á Inglaterra, e
appareceo no correio de Londres de 30 de julho de 1802 hum artigo,
que dizia em substancia: que o Principe do Brasil depositára sobre o
berço do filho do General Lannes hum presente, que se avaliava em mais
de 4000 _l. st._ (36 mil cruzados) o que devia attribuir-se mais
depressa á dignidade daquelle que dá, do que ao merecimento do que
recebe.[9] Foi necessario, que a corte de Portugal, para satisfazer
aos mal fundados caprichos do Embaixador de França, contradissesse
as reflexões do gazeteiro de Londres, mandando declarar na gazeta de
Lisboa de 18 de setembro seguinte, que o presente procedêra de méra
generosidade de S. A. R. e não dos motivos, que dava o correio de
Londres.
[Sidenote: 1802 a 1804]
[Sidenote: 1802 a 1804]
Á instancia do mesmo embaixador Lannes se inserio em hum supplemento
extraordinario á gazeta de Lisboa de 13 de março de 1804 a conta dada
ao governo Francez pelo Gram Juiz em 17 de fevereiro precedente,
extrahida do monitor de 18 do mesmo, na qual se imputava descaradamente
a S. M. Britanica, e ao governo Inglez a conspiração pertendida,
ou verdadeira, contra o primeiro Consul, de que forão victimas
illustres os Generaes Pichegrú, e Moreau. A Europa vio logo no correio
de Londres de 17 de abril daquelle anno o sábio comportamento do
Ministro, e do ministerio Inglez na sua digna resposta a huma tal
injúria. Patenteou-se, que o Embaixador Britanico em Lisboa, Lord
Robert Fitzgerald, fizera apresentar huma nota ao Secretario d’Estado
Visconde de Balsemão, na qual dizia, que se abstinha por então de
fazer huma queixa formal ao governo de S. A. R. sobre este objecto,
contentando-se com observar, que este artigo infame era conforme ao
estilo, e espirito do jornal official, de que era extrahido; mas
indigno de se traduzir em Portugal; e que sentia, que o primeiro ensaio
da liberdade da imprensa neste reino fosse em hum libello famoso
inventado pelos inimigos de S. M. Britanica contra o mais antigo, e
fiel alliado de Portugal. Que se reservava o usar desta liberdade de
imprimir, para lhe dar hum _mente_ formal, tão depressa fosse
authorisado pelo seu governo, se este não quizesse antes responder-lhe
com o desprezo, que tantas vezes tinha manifestado a semelhantes
ridicularias, com que em vão tinhão pertendido murchar a sua reputação,
desde o princípio da revolução. O ministerio Portuguez portou-se sobre
este ponto com a gravidade, e sabedoria, que lhe erão proprias:
abandonou-se o negocio aos gazeteiros, e não teve mais consequencias.
Não pôde encobrir-se ao público, e eu deixaria imperfeita esta
Historia, se o não referisse, que o Conde de Linhares, e D. João
d’Almeida, hoje Conde das Galvêas, erão as principaes personagens
do ministerio Portuguez, contra os quaes se dirigião as inauditas
pertenções Francezas. O Embaixador os julgava como chéfes do partido
Inglez: o partido, que elles seguião, era o do Soberano, e da nação
Portugueza. Diogo Ignacio de Pina Manique, Intendente geral da
policia, e Administrador geral das Alfandegas, era outra victima, que
se pertendia immolar; na apparencia por vexações feitas a Francezes
pela repartição das Alfandegas; mas realmente pela vigilancia, com que
procurava extirpar as sementes revolucionarias, descobrir, e punir
todos aquelles, que as semeavão.
[Sidenote: 1802 a 1804]
Era necessario, que estes homens fossem sacrificados á ambição de
Bonaparte, como em Turin o forão a do Directorio executivo o Conde
de S. André, commandante da cidade, seu filho o cavalheiro Revel, o
Presidente do Senado, e o cavalheiro de Osasco; por terem punido os
rebeldes, os traidores ao seu Soberano. Terrivel exemplo, que devia ter
aberto os olhos a todos os gabinetes da Europa sobre a politica atroz
do governo Francez, e produzido huma combinação geral de todos elles,
para destruirem até os elementos deste systema de usurpação, e de
perfidia.
[Sidenote: 1802 a 1804]
O público, sempre attentivo, e sempre suspeitoso em observar objectos
desta natureza, não perdia de vista hum só passo do Embaixador; elle
admirava a firmeza, com que S. A. R. resistia ás suas tentativas; mas
consternou-se, quando vio desatar o nó com a demissão, que pedírão
dos seus empregos os Condes de Linhares, e das Galvêas. Manique foi
substituido no de Administrador geral das Alfandegas; mas conservou
sempre o de Intendente geral da policia, até que falleceo pouco tempo
depois, não podendo na verdade satisfazer a todos os que exercitava,
pela avançada idade, em que se achava constituido. Os amigos do
Soberano, e da patria estremecêrão desde então pela segurança do
throno, e da nação, receando ver reproduzida em Portugal a catastrofe
do Piemonte; e só aquelles, que limitavão as suas vistas a hum ponto
muito estreito, he que deixavão de presagiar as tristes scenas, que o
tempo devia trazer-nos, vendo os projectos de ambição, que de dia em
dia se augmentavão na corte das Tuilherias, o lethargo da Hespanha,
e a destruição geral da Europa. Lastimoso periodo da nossa Historia,
que o homem sensivel não póde discorrer sem lagrimas! He reservado ás
almas ferozes o verem com indifferença aproximar-se o momento de ser
derribada ás mãos da perfidia huma Monarquia de 7 seculos, abatido hum
throno, em que se assentárão tantos Principes respeitaveis, perseguida,
e expulsa huma Real Familia adorada dos seus póvos, destruidas as leis,
os usos, e a propria religião do Estado.