_Bonaparte usurpa o Imperio consular, e lança os fundamentos do seu
systema continental. Desembaraça-se dos Imperadores da Russia, e da
Alemanha, e faz invadir Portugal de acordo com Carlos IV._
[Sidenote: 1799]
[Sidenote: 1799]
A Revolução de 9 de novembro de 1799, que concentrou o poder absoluto
nas mãos de Bonaparte com o disfarçado titulo de primeiro Consul, fará
huma das mais importantes épocas da Historia moderna. Não se esperava
tão depressa hum semelhante desfecho; mas cedo, ou tarde elle devia
acontecer, enchendo o circulo, que o Abbade Raynal havia prescripto ás
revoluções desta natureza.[2]
Como enganou Bonaparte a hum povo de 25, ou 30 milhões de habitantes,
que tinhão jurado hum odio eterno á Monarquia, e a tudo o que se
assemelhasse ao poder arbitrario? Não o enganou: a mascara era muito
visivel, para deixar de conhecer-se; mas todos estavão cançados das
mortandades, dos tumultos, das depredações, e de todos os horrores da
revolução, e da guerra; e corrêrão por isso atraz deste homem, que lhes
promettia a paz, olhando-o como a taboa, que hia salvallos do naufragio
universal. Bem conhecião, que se entregavão á discrição deste homem;
mas cahírão de cançados, e pouco lhes importava a Républica, com tanto
que achassem o repouso, que esperavão: esta esperança foi sómente a que
os enganou.
[Sidenote: 1799]
[Sidenote: 1799]
Como olhárão as cabeças coroadas para a elevação do primeiro Consul?
Parece que pela maior parte considerárão como favoravel esta mudança,
na persuasão de que para conservar o poder verdadeiramente monarquico,
que usurpára, elle procuraria suffocar o fanatismo républicano, causa
primaria de todas as desordens. Acceitárão contentes a fraternidade,
que lhes offerecia, na esperança de que faria com elles causa commua,
não conhecendo, que era a revolução a que o armava, que a mudança só
consistia em tirar o poder das mãos de cinco oligarcas para as de
hum só, e que o déspota devia ser-lhes mais fatal, por isso mesmo
que concentrava em si todas as forças, até alli divididas pelos
partidos. Desenganárão-se muito tarde, e quando quizerão resistir-lhe,
não fizerão o devido uso das suas forças, e outra vez o digo, não
se unírão, e por isso lhes aconteceo o que dizia Tacito dos antigos
Gallos: _Dum singuli pugnant, universi vincuntur_: palavras bem
dignas de estarem gravadas sobre as portas dos Ministros de todos os
gabinetes da Europa. Não succedeo assim a Bonaparte: conhecendo, que
só com as forças da França abatida, e assolada valia pouco, soube
destramente ajuntar-lhe a força revolucionaria, e o seu poder ficou
monstruoso.
Apenas assentado no throno consular, lançou as linhas do seu systema
continental, ou, o que não he menos provavel, o curso dos successos o
foi conduzindo a elle, sem o ter premeditado. Consistia este systema
(tem publicado os seus panegyristas) em restituir a tranquillidade
ao mundo, desligando da Inglaterra as potencias continentaes, para a
obrigar a fazer a paz maritima; mas, segundo tem mostrado os factos,
era o systema de destruir a Inglaterra, como o mais poderoso baluarte
da liberdade do continente, para segurar a escravidão da Europa.
[Sidenote: 1799]
[Sidenote: 1799]
Portugal não podia deixar de ser muito particularmente considerado
para este fim, não só como hum dos mais antigos, e fiéis alliados da
Inglaterra, mas tambem como hum dos mais interessantes fuzis da cadêa,
pela importancia dos seus portos, das suas colonias, e consequentemente
do seu commercio: muito mais conservando o primeiro Consul gravados na
sua mente os motivos de resentimento, que deixo referidos. Com tudo era
necessario segurar primeiro as outras partes do continente, para depois
voltar as vistas sobre este canto da Europa.
[Sidenote: 1799]
Em quanto Bonaparte fizera a guerra no Egypto, e na Syria, o Imperador
de Alemanha, tendo rompido de novo as hostilidades, revolvia a Europa,
apoiado pela poderosa assistencia do Imperador da Russia; e forão tão
brilhantes os seus successos, e os dos alliados, que não só arrebatárão
á França a maior parte das suas conquistas, mas o Directorio chegou
a proclamar a patria em perigo. Neste estado se achavão as cousas,
quando Bonaparte voltou á França, e effeituou a revolução de 9 de
novembro, e então para prover á sua segurança, desempenhar o titulo de
pacificador, com que illudia os Francezes, e chegar aos outros fins, a
que se propunha, principiou negociações com a Inglaterra; e vendo que
a não enganava com proposições illusorias, cuidou em desembaraçar-se
das potencias continentaes, para voltar depois contra ella as suas
armas. Quando estas proposições se discutírão no Parlamento Britanico,
Mr. Pitt disse com energia, que abrindo-se huma carta geografica,
era impossivel achar-se nella hum paiz, onde a França não tivesse
commettido alguma devastação, ou infringido algum tratado, e passando
a desenvolver o seu plano geral de usurpação, accrescentou: _Este
systema foi invariavel debaixo de Brissot, como de Robespierre; de
Sieyes, como de Barrás_. Podia por ventura esperar-se, que o
favorecido de Barrás fosse menos fiel a estes principios, do qui o seu
patrono, e todos os seus predecessores?
[Sidenote: 1800]
[Sidenote: 1801]
Os Imperadores de Alemanha, e da Russia por si mesmos se tinhão
desligado hum do outro: e este ultimo, estando já assás descontente
com a Inglaterra, facilmente se deixou entrar nas vistas de Bonaparte.
Desembaraçado de hum inimigo tão poderoso, o primeiro Consul pôde
cahir com todas as suas forças sobre a Italia, e Alemanha; e depois
de successos os mais assinalados, obrigou o Imperador a assinar a paz
de Luneville, a qual lhe deixou toda a liberdade para impôr a lei ás
potencias continentaes, que ainda contava por inimigas.
Ainda bem o tratado de Luneville não estava concluido, já Bonaparte
andava ás prezas com Portugal, servindo-se para o atacar do ministerio
da corte de Madrid, sobre a qual continuava hum imperio absoluto.
Nesta mesma capital se celebrou huma convenção entre S. M. C. e o
primeiro Consul, em que se ajustou mandarem ambos invadir aquelle reino
pelas suas tropas, e occupar hum quarto do seu territorio até a paz
definitiva com a Inglaterra. Longos tempos nos foi desconhecida esta
convenção; os Francezes porém a manifestárão á Europa em huma collecção
dos seus tratados com as outras potencias desde a revolução.[3]
[Sidenote: 1801]
He para restituir á nação Portugueza (dizião os partidistas do Consul)
a sua independencia, e o seu antigo poder, he para quebrar os seus
ferros, e arrancalla a huma vassallagem humilhadora, que Bonaparte
levou a guerra a Portugal. Elle quer regenerar esta nação, dar-lhe o
conhecimento das suas forças, e a energia, que em outro tempo animou os
conquistadores das Indias, e os rivaes dos Castelhanos; elle quer ser o
protector de hum povo opprimido, e collocallo naquella ordem, que devem
occupar os senhores do Brasil, e do Téjo.[4] As intenções de Bonaparte
erão bem conhecidas; já vinha adiante o veneno das suas aleivosas
promessas, e as operações da sua politica a respeito de Portugal em
1807, e 1808 mostrarião bem qual era a regeneração, e protecção, que
elle meditava em 1801, se já não estivessem assás patentes por aquella
fraudulenta convenção de Madrid.
[Sidenote: 1801]
Na conformidade della declarou a corte de Madrid guerra á de Portugal
em 28 de fevereiro de 1801, quando esta se achava infelizmente em huma
especie de abandono, porque a sua poderosa alliada a Gram-Bretanha lhe
não podia prestar grandes soccorros de gente, achando-se nesse tempo
empenhada nas suas expedições do Egypto. Alguns regimentos de emigrados
forão os unicos auxilios estrangeiros, que Portugal pôde obter para
fazer rosto ás forças unidas da França, e Hespanha; e parecendo por
estas circumstancias, que o Rei Catholico não precisaria de grandes
esforços para esta guerra, foi-lhe com tudo necessario principiar
por huma forte contribuição nos seus Estados sobre o clero. Tal era
o desarranjo, em que se achavão as finanças da Monarquia mais vasta,
e rica do mundo! Tão impolítica era a guerra entre duas nações, que
o interesse commum devia unir, entre dous Soberanos, que os laços do
sangue devião fazer inseparaveis!