CAPITULO III.

_Projectos do governo Francez, e de Carlos IV. sobre Portugal.

Continúa com este a guerra maritima. Ministerio do Conde de Linhares.

Emprezas de Bonaparte. Negociações entre Portugal, e França._

[Sidenote: 1796]

[Sidenote: 1796]

Vagárão rumores de que além das condições manifestas do tratado de

Basiléa existião entre o governo Francez, e o ministerio Hespanhol

convenções secretas, ou ao menos projectos de occupar Portugal, para

indemnizar ao Rei Catholico do terreno, que devia ceder á França para

a parte dos Pyreneos: rumores, a que derão pezo as conferencias, que

tiverão as duas Familias Reinantes Portugueza, e Hespanhola no mez de

janeiro de 1796. Julga-se mesmo, que D. Rodrigo de Sousa Coutinho,

(que daqui em diante designarei pelo seu titulo de Conde de Linhares)

Ministro Plenipotenciario de Portugal em Turin, penetrára o segredo

destas transacções, e avisára a nossa corte. Turin era na verdade hum

dos principaes focos das negociações, e das intrigas da Europa, porque

o Rei de Sardenha gozava ainda daquelle alto gráo de consideração, a

que a sua corte tinha sido elevada, pela posição geografica dos seus

Estados, e pela habilidade de hum grande número de Principes, que o

precedêrão. Alli concorria hum grande número de Ministros estrangeiros;

alli se formavão planos, e se discutião interesses, e por consequencia

alli se sondavão os segredos dos gabinetes da Europa: he nesta arte

principalmente que se exercitão, e se conhecem os talentos dos

Embaixadores.

A occupação de Portugal conformava-se muito aos desejos de Carlos IV.

Ainda este Monarca era sómente Principe de Asturias, e já D. Francisco

Innocencio de Sousa Coutinho, sendo Embaixador Portuguez em Madrid,

avisava a nossa corte de que elle, fomentando o partido Aragonez, fazia

reviver os seus pertendidos Direitos á Coroa Portugueza, roborados com

os da casa de Parma por sua mulher. Que desgraça para a Hespanha, se

com este engodo o seu Soberano a descubria inteiramente ás aggressões

de huma potencia tão formidavel como a França, entregando-lhe huma

parte dos Pyreneos, desta grande trincheira, com que a natureza a tinha

vallado?

[Sidenote: 1796]

[Sidenote: 1796]

Ou fosse porque estas pertenções não chegassem a adquirir a sua

madureza, ou porque o Rei Catholico, não podendo resistir ás vivas

commoções, que devia causar-lhe a presença de huma Real Familia, a

que se achava tão estreitamente unido por laços os mais poderosos,

abandonasse hum projecto, de que a execução estava reservada para

tempos de maior desgraça, elle ficou por então sem effeito. Pareceo

mesmo, que a corte de Madrid tomava huma parte activa nos interesses

de Portugal; mas não podia prestar-lhe senão soccorros inuteis, pelo

estado de perfeita nullidade, em que se havia constituido. Não era

já a situação geografica de Portugal a que livrava este reino de huma

invasão Franceza, porque a Hespanha lhe franquearia o passo, logo que

fosse requerida com vigor: erão as campanhas da Italia, e da Alemanha,

as quaes tinhão para aquellas partes occupadas a attenção, e as forças

terrestres da Républica.

[Sidenote: 1799]

[Sidenote: 1796 a 1799]

A guerra pois entre Portugal, e França continuou a ser maritima, porém

mais ruinosa do que nunca para a primeira destas potencias, porque os

portos da Hespanha, e das suas immensas colonias abertos aos navios de

guerra, e aos corsarios Francezes expunhão a repetidos insultos todas

as costas dos dominios Portuguezes na Europa, e nas outras partes da

terra, a nossa navegação, e o nosso commercio em todos os mares. Não

havia dia, em que não chegasse a noticia de alguma preza, o corpo

mercantil soffreo grandes perdas, as bancarrotas se multiplicavão em

todas as praças de commercio maritimo. Para aggravar estes males pôde

tanto a influencia do governo Francez, que conseguio implicar por

algum tempo os interesses de Portugal com os dos Estados-Unidos da

America, o que seria summamente damnoso, pela suspensão das relações

commerciaes, se felizmente se não conseguisse o terminarem-se as

differenças sem grande difficuldade.

[Sidenote: 1796 a 1799]

O Conde de Linhares, que tendo voltado de Turin fôra nomeado Ministro

e Secretario d’Estado dos negocios da marinha e dominios ultramarinos,

pertendeo regenerar o Estado, e elle o teria conseguido debaixo de hum

Principe, que he dotado de summa bondade, e sempre prompto a abraçar

os projectos uteis aos seus vassallos, se a torrente, e encadeamento

fatal dos successos lhe não tivessem obstado. Ministro infatigavel,

tão vasto nos grandes objectos, como minucioso e exacto nos pequenos,

experimentado no manejo dos negocios públicos, dotado de grandes

luzes, de huma inteireza incorruptivel, e de hum patriotismo exaltado,

era o homem, que a natureza tinha talhado para ajudar o Soberano, e

dirigir o ministerio em tão críticas circumstancias. As suas vistas

abraçárão desde logo todas as partes da administração publica, que lhe

foi confiada: soárão planos de reforma por toda a parte, cuidou-se

seriamente na defeza, e no melhoramento das colonias, no augmento das

fábricas, e na protecção do commercio. As finanças devião prosperar, á

proporção que fossem prosperando estes mananciaes fecundos da riqueza

da nação, sendo presididas por huma administração sábia, e economica.

[Sidenote: 1796 a 1799]

Para se conseguirem estes fins, vio-se de repente, e quando menos se

esperava, sahir das suas mãos huma marinha respeitavel, que fazia

recordar o que foi Portugal em seculos mais ditosos, e o que póde vir

a ser, quando a paz reconduzir dias serenos sobre o nosso horizonte,

se se souber tirar partido das vantagens naturaes, que de todas as

partes se nos offerecem. Estabelecêrão-se comboys para a segurança do

commercio, e da navegação mercantil, aproximando-se por esta fórma,

quanto era possivel, as porções dispersas do Estado; e huma parte dos

nossos males foi curada.

[Sidenote: 1796 a 1799]

[Sidenote: 1796 a 1799]

Em quanto o ministerio de Portugal se occupava em mudanças tão

favoraveis, Bonaparte, que já tinha conseguido huma influencia

desmarcada sobre a França, subjugava a Italia, e fazendo discorrer os

seus exercitos victoriosos pela Carinthia, pela Carniola, e pelo Tyrol,

forçava o Imperador de Alemanha no coração dos seus proprios Estados

a huma paz, de que dictou em Leoben as condições, de que ao depois se

formou o tratado de Campo-Formio. Por este modo se franqueava o caminho

ao Directorio executivo (que desde a revolução de 4 de novembro de

1795 tinha arrogado o poder supremo) para novas emprezas, em quanto

a liberdade Germanica dava os ultimos suspiros nas conferencias de

Rastadt. Tremêrão desde então os outros gabinetes da Europa, que não

estavão de todo cégos; mas errárão na escolha, e na extensão dos meios,

para apartarem a tempestade, dividindo-se, e gastando em intrigas,

e negociações o tempo, que devião aproveitar em se colligarem, e

ajuntarem todas as suas forças, para resistir ao inimigo commum.

Calculavão sómente sobre o poder dos Francezes, sem metterem já mais em

linha de conta a força revolucionaria, e eis aqui a razão, porque elles

tantas vezes errárão nos seus calculos.

[Sidenote: 1796 a 1799]

Achavão-se vedados os meios de conciliação entre Portugal e França; e

pareceo huma grande felicidade o achar-se em París Antonio de Araujo

e Azevedo, que acabára de servir como Ministro Plenipotenciario da

corte de Portugal na Hollanda. Com elle se principiárão negociações, e

sendo nomeado Plenipotenciario de S. M. F. junto á Républica Franceza,

concluio com effeito hum tratado definitivo entre os dous governos, que

não chegou a fazer-se público: erão taes os sacrificios, que a corte de

Portugal não julgou conveniente o ratificallo. Póde julgar-se, quanto

esta recusação do ministerio Portuguez devia accender a animosidade do

governo Francez; mas duas cousas concorrêrão, para livrarem Portugal do

perigo, e dos sustos, a renovação das hostilidades no continente, e a

célebre expedição de Bonaparte, que apoderando-se de Malta, sem constar

ainda do seu verdadeiro destino, tomou o caminho do Nilo, em lugar de

voltar sobre as Hespanhas, como se receava.

As esquadras Portuguezas, commandadas pelo Marquez de Niza, que

adquirio nestas acções hum nome célebre, incommodárão gravemente os

Francezes, principalmente no bloqueo de Malta, que esteve a pontos

de cahir em poder das armas Portuguezas, e diante de Alexandria. Foi

então que Bonaparte raivoso mandou pôr na ordem do dia do exercito do

oriente, _que viria tempo, em que a nação Portugueza pagaria com

lagrimas de sangue esta affronta, que fazia á Républica Franceza_.

Tanto he certo, que já tinha projectada na sua mente a invasão de

Portugal!

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 14 / 58 题