CAPITULO II.

_Hum exercito Portuguez he enviado em soccorro da Hespanha. Suas

acções no Roussillon, e na Catalunha. Paz de Basiléa._

[Sidenote: 1793]

[Sidenote: 1793]

Em 20 de setembro de 1793 partio de Lisboa hum exercito auxiliar

Portuguez para a Hespanha, o qual, depois de huma longa viagem,

desembarcou em Rosas, porto, e praça da Catalunha. Compunha-se de

seis regimentos escolhidos de infanteria, e hum corpo competente de

artilheria ás ordens do General João Forbes Skellater, levando por

Ajudante General o Conde de Assumar, hoje Marquez d’Alorna, Gomes

Freire de Andrada, o Marquez de Niza, e huma porção consideravel da

nobreza de Portugal acompanharão nesta occasião as nossas bandeiras,

que depois de terem descançado longos annos no meio de huma paz

profunda, hião desenrolar-se magestosas em hum paiz inimigo. Chegou

este soccorro, quando os Hespanhoes, posto que triunfantes nos

principios da campanha, começavão a ver declinar a gloria das suas

armas.

[Sidenote: 1793]

Se examinamos a situação, em que se achava a França, quando ella mesma

rompeo as hostilidades contra a Hespanha, este procedimento parece hum

acto de desesperação da parte do governo Francez, que devia completar

a sua ruina. As finanças, e todos os ramos da administração interna

achavão-se em hum piedoso estado; o crédito público tinha desaparecido

com a perda quasi total do papel-moeda; as facções dominavão desde hum

ponto da França até o outro; Leão revoltava-se, e a guerra civil se

accendia em varias partes; os Austriacos, e os Prussianos ameaçavão

huma prompta invasão; e o governo Francez, que não contente com os

inimigos, que já tinha, havia anticipado elle mesmo as hostilidades

contra a Inglaterra, e a Hollanda, procurando mais hum outro, tão

poderoso como a Hespanha, que podia esperar senão revezes? Elle os teve

rápidos, e espantosos. Dumourier fugia com huma parte do seu exercito;

os Prussianos fazião incursões na Alsacia; os Austriacos apoderavão-se

de Valenciennes, Condé, Quesnoy, e Landrecie; os Hespanhoes penetravão

pelo Rousillon; os Piemontezes em Mont-Blanc; Toulon entregava-se aos

Hespanhoes, e Inglezes, que fortificando-se nesta cidade ameaçavão a

Provença com os soccorros, que se lhes promettião da Italia; e a guerra

de La Vendée tornava-se mais cruel do que nunca.

[Sidenote: 1793]

Mas a Convenção nacional, dominada pela facção de Marat, e pela dos

Jacobinos, qual dellas a mais violente, occorreo a estas circumstancias

espantosas com medidas não menos extraordinarias: fez-se levantar a

nação em massa, decretou-se hum emprestimo de mil milhões, e forão

presos, ou degollados muitos dos Generaes Francezes. Estas medidas

violentas entre outros póvos, ou em differentes circumstancias, não

terião feito senão aggravar as calamidades da nação: na França, e no

tempo, em que o terrorismo fazia executar céga, e barbaramente todas

as ordens, salvárão hum governo revolucionario, que era destinado a

opprimir a Europa. Os inimigos externos da França forão rebatidos,

palliou-se a guerra civil, e já desde o meado de setembro os Francezes

entrárão a fazer incursões na Hespanha pela Catalunha, e Aragão, em

quanto outros, commandados por Moncey, Fregeville, e De-Laborde, se

avançavão pela Biscaya.

[Sidenote: 1793]

A chegada do exercito Portuguez reanimou o valor dos Hespanhoes. Os

gelos, e as neves dos Pyreneos forão a sua hospedagem; e elle fez

decidir logo a favor das armas alliadas a batalha de Ceret em 26 de

novembro; e concorreo muito para o bom exito de outro combate em 7 de

dezembro, em que forão ganhadas as baterias Francezas de Villa-Longa,

que fazião frente ao campo da Trombeta, merecendo nessa occasião os

mais assignalados elogios dos Generaes Hespanhoes. Não se distinguio

menos na tomada de Banhuls, e postos adjacentes de Port-Vendre,

Sant-Elme, e Colibre, rematando com outros successos prosperos a

campanha de 1793, até fazer encerrar os inimigos na praça, e cidadella

de Perpinhão.

[Sidenote: 1794]

[Sidenote: 1794]

Huma nova tempestade se armava na França, que augmentando

prodigiosamente as forças do seu governo, devia ser fatal aos

alliados. Leão tinha-se rendido, e com ajuda de 25:000 homens, que

se occupavão no cerco desta cidade, reforçava-se o de Toulon, que em

fim os Hespanhoes, e Inglezes erão obrigados a evacuar: tudo então

mudou de figura. Passados os mezes do inverno, em que as operações

da guerra forão lentas sobre os Pyreneos, Dugommier, que tinha sido

tirado do exercito dos Pyreneos orientaes (por este nome se designava

o do Roussillon) para commandar o cerco de Toulon, achou-se de novo á

frente delle com numerosas tropas de reforço: o mez de maio foi cruel

para os alliados, que se vírão na precisão de evacuarem o Roussillon,

para se entrincheirarem nas montanhas dos confins da Catalunha,

onde pudérão manter-se com custo o resto do verão. Os Prussianos, e

Austriacos tinhão ainda a vantagem ao norte da França; mas tambem

principiárão a declinar com a perda de Valenciennes, em 27 de Agosto, o

que lançou novos revezes para a parte dos Pyreneos, onde os Francezes

multiplicavão ataques furiosos, que os nossos procuravão repellir com

vigor.

[Sidenote: 1794]

Será sempre lembrado o dia 17 de Novembro, em que ficou prisioneiro o

1.^o regimento do Porto pelo valor, e intrepidez, com que quiz soster

o inimigo: acção seguida de perto pela inteira derrota do exercito

Hespanhol na sanguinosa batalha de Pons de Molins dada a 20, na qual

perdeo a vida o General em chéfe Hespanhol Conde da União; pela

perda da importante praça de Figueiras, em 28; pelo cerco de Rosas,

principiado no mesmo dia, tendo-se retirado o exercito combinado

até Gerona, ficando aberto aos Francezes o passo para o interior da

Catalunha, e ameaçado todo o territorio até o Ebro.

[Sidenote: 1795]

O castello da Trindade foi evacuado pelos Hespanhoes, em 6 de Janeiro

de 1795, e a praça de Rosas em 2 de Fevereiro seguinte: com tudo aqui

se suspendêrão as conquistas dos Francezes por este lado da Hespanha,

e passando a primavera, e parte do verão, sem acontecimento algum de

grande consequencia, os alliados, e principalmente os Portuguezes

principiavão a obrar na offensiva. Estes ultimos fazião mesmo huma

irrupção na França, e tomavão Belver, e Puig-Cerdá, em 26 de Julho,

ficando conquistada a Cerdanha, quando quatro dias antes tinha sido

assignado em Basiléa o tratado de paz entre Carlos IV., e o governo

Francez, que foi tão fatal á causa da peninsula, e de toda a Europa.

[Sidenote: 1795]

Por este modo ficou Portugal envolvido na guerra com a França, tendo

entrado como auxiliar da Hespanha. Tão pouco zelou Carlos IV. os

interesses do seu alliado, de seu genro, e de sua filha, que tão

opportunos soccorros lhe tinhão dado!

Apenas se estipulou no artigo XIII. daquelle tratado, que os

prisioneiros Portuguezes serião restituidos como os Hespanhoes;

porque tambem era necessario estipular-se a restituição dos Francezes

aprisionados pelo exercito Portuguez. Accrescentou-se no artigo XV.,

que a Républica Franceza acceitava a mediação do Rei Catholico a favor

de Portugal; expressões vãs, de que não devia resultar effeito util,

e que se fizerão commuas aos Reis de Napoles, e Sardenha, ao Duque de

Parma, e mais Principes da Italia. Até na conformidade do artigo XVI.

se acceitavão os bons officios do mesmo Monarca a favor de qualquer

outra das potencias belligerantes, que quizesse entrar em negociações

com a França: officios, que sómente forão uteis ao governo Francez, e

summamente funestos a muitos dos Principes da Europa.

[Sidenote: 1795]

[Sidenote: 1796]

No principio desta guerra lamentavão os Francezes, que o ministerio

da Hespanha fosse tirado das mãos do velho Aranda, para se entregar

a hum moço falto de experiencia, e cheio de presumpção, que como tal

era incapaz para o manejo dos negocios públicos,[1] mas este moço, que

principiava então a apoderar-se do grande imperio, que veio a exercitar

sobre a Hespanha, sendo tão habil cortezão, como Ministro inerte, já

era nesta época o sustento do partido Francez na corte de Madrid. Fallo

de D. Manoel Godoi, Duque de Alcudia, mais conhecido pelo titulo, que

depois teve de Principe da Paz; e foi obra sua o tratado de alliança

offensiva, e defensiva entre a França, e a Hespanha, concluido em S.

Ildefonso a 18 de agosto de 1796, mais fatal ainda para a Europa, que o

de Basiléa, pelas terriveis consequencias, que delle resultárão á causa

geral.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 12 / 58 题