CAPITULO I.

_As maximas dos revolucionarios da França provocão a todo o mundo.

Principia a guerra entre a França, e grande parte das nações da Europa,

e nella entra Portugal sómente como potencia auxiliar. Hostilidades da

França contra Portugal; situação reciproca das duas nações, e serviços

importantes feitos por D. Francisco de Sousa Coutinho na Guiana._

[Sidenote: ANNO 1789]

[Sidenote: 1791]

A Revolução Franceza ainda se achava no berço, e já ameaçava a

tranquillidade de todos os póvos, e a existencia de todos os governos,

pelas maximas de subversão geral, que annunciavão as declamações

violentas, e o espirito de intolerancia, a que os revolucionarios

se entregavão, sem medida, nem rebuço. Não tratavão aos Reis, senão

de tyrannos, e aos póvos de escravos; e querendo obrigar a estes

a que recebessem por força o barrete da liberdade, se propuzerão

desde logo a levar a todo o mundo as suas reformas Filosoficas, isto

he, a envolverem todo o mundo nas suas ruinas. Não contentes com a

aberta profissão de maximas tão hostís, e insociaes, elles chegárão a

reduzillas a huma lei escrita no decreto da Convenção nacional de 19 de

Novembro de 1792, em que declaravão, que a nação Franceza concederia

fraternidade, e soccorro a todos os póvos, que quizessem recobrar a sua

liberdade: ás palavras seguírão-se as obras, ou o ataque geral, não só

ás Monarquias, mas igualmente a todos os governos mixtos, e a todas as

Républicas da Europa, e desde então devia conhecer-se, quaes erão a

fraternidade, e a liberdade, que os Francezes revolucionados querião

levar a todos os póvos.

[Sidenote: 1791]

Aquelle fatal decreto, e este comportamento hostil equivalião por

certo a huma declaração de guerra contra todas as nações, que podião

ter alguma relação com a França. Desde o anno de 1791 a Europa tinha

começado a remexer-se contra a França. Em Coblentz se traçárão os

primeiros planos, que ficárão por então sem effeito; em Pilnitz se

fez huma coalisão mais séria, avistando-se alli o rei da Prussia, e o

Imperador Leopoldo no mez de Agosto; mas a guerra não rompeo ainda; e

esta demora foi talvez a que salvou a revolução, e perdeo a Europa;

não concorrendo pouco para ella as desavenças, que subsistião entre a

Hespanha, e a Inglaterra sobre a navegação do mar Pacifico, e costas do

noroeste da America, que só forão terminadas em novembro seguinte.

[Sidenote: 1792]

[Sidenote: 1792]

[Sidenote: 1793]

Em abril de 1792 começárão as hostilidades; a prisão porém de Luiz

XVI., e os ulteriores procedimentos do governo Francez contra este

Monarca forão verdadeiramente os que ateárão o incendio. O Imperador,

e o Rei de Prussia apparecêrão os primeiros sobre o theatro:

forão-se-lhes seguindo as outras potencias; e assignaladamente foi a

Convenção nacional a que declarou a guerra á Inglaterra em janeiro de

1793, e á Hespanha em março do mesmo anno, dando contra huma e outra,

além de outros motivos particulares, a causa geral de não terem cessado

de manifestar a sua malevolencia para com a Républica, e o seu apêgo á

coalisão das cabeças coroadas.

[Sidenote: 1793]

Foi depois deste tempo que Portugal entrou a figurar nesta guerra, não

como parte principal, mas como mera auxiliar, prestando a estas duas

ultimas potencias os soccorros, que lhes devia na conformidade dos

tratados, quando ellas os reclamárão. A Convenção tinha mandado hum

emissario a Lisboa, que parece que trazia por objecto primario negociar

o reconhecimento da Républica pela Rainha Fidelissima: era hum ponto

melindroso; porque se Portugal, desejando manter-se nos principios

de huma neutralidade, que lhe attrahiria vantagens incalculaveis,

não tinha tomado parte directa na confederação contra a França, por

motivos ainda mais fortes se oppunha á sua Politica abrir o exemplo de

reconhecer hum governo revolucionario, que toda a Europa se propunha

a anniquilar. Muito mais repugnava isto ás vistas do ministerio

Portuguez, pelas estreitas relações de amizade, e de parentesco da

Familia Reinante com o infeliz Luiz XVI.; considerando pois a politica,

e o Direito publico, que subsistião entre as nações da Europa, o

emissario Francez foi sim muito bem recebido pela Corte de Lisboa, como

particular, mas não se lhe reconheceo caracter publico, e foi despedido

sem concluir cousa alguma.

[Sidenote: 1793]

Menores que fossem as razões de aggravo, ellas terião excitado desejos

de vingança em hum governo, que não obstante a crítica, e desesperada

situação, em que nesse tempo se achava, já era revestido de todos os

caractéres de invasor; e contando sobre a força revolucionaria dos

seus principios, que fazia propagar por toda a parte, e lhe valião por

exercitos numerosos, não procurava senão pretextos para fazer a guerra.

[Sidenote: 1793]

As hostilidades começárão sem declaração alguma contra Portugal,

tendo por theatro sómente o mar. Hum navio, que voltava ricamente

carregado da India, foi huma das primeiras prezas, que cahírão em

poder do inimigo; seguírão-se muitas outras pertencentes a differentes

portos; as praças de Lisboa, e Porto soffrérão perdas incalculaveis; o

commercio do Brasil, e das outras colonias Portuguezas foi incommodado

pela marinha Franceza, que era ainda consideravel, e principalmente por

hum número extraordinario de armadores, sahidos das costas da França,

e de varios pontos das suas colonias, que infestavão todos os mares,

reduzindo-se quasi a nada o valor das prezas feitas aos Francezes pelos

nossos navios. Nem as leis Portuguezas relativas ao corso, nem o genio

da nação favorecião este commercio odioso.

[Sidenote: 1793]

Pela parte da terra a posição geografica dos Estados Portuguezes na

Europa os punha a coberto de toda a invasão, tendo por intermediaria

a Hespanha. Na America esteve a rica, e vasta colonia do Brasil

a pontos de soffrer huma guerra mais fatal, por meio dos negros

revolucionados da Guiana Franceza, que tinhão toda a facilidade, para

levarem de proximo em proximo os seus principios até o centro dos

dominios Portuguezes; porque além das circumstancias favoraveis a esta

propagação, que offerecia a natureza do terreno, todo semeado de lagos,

e rios navegaveis; até para cumulo de infelicidade acontecia que os

escravos dos lugares confinantes das colonias Portugueza, e Franceza

erão pela maior parte de huma origem commum, tirados huns e outros da

costa de Cabinde.

[Sidenote: 1793]

A vigilancia do Governador da capitanía do Pará D. Francisco de Sousa

Coutinho livrou deste perigo as possessões Portuguezas. Os Francezes,

navegando ao longo da costa, penetravão até o interior da embocadura

do rio das Amazonas, e no sertão tinhão estabelecido huma aldêa

sobre o Araguari, do qual he facil a communicação até o das Amazonas

por meio de varios lagos: aquelle Governador, sem se envolver em

operações directas no continente, estabeleceo hum cruzeiro de muitas

barcas canhoneiras até a embocadura do rio Oyapoc; e cortando assim

toda a communicação dos Francezes por mar, os obrigou ao mesmo tempo

a evacuarem a aldêa. Então fez elle mesmo recolher as nossas aldêas

confinantes, para separar por meio de hum deserto as duas Guianas

Portugueza, e Franceza: serviço assignalado feito á nação por este

habil Governador, que tantas provas tem dado em muitas outras occasiões

das suas luzes, e do seu patriotismo.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume I) · 第 11 / 58 题