«--O senhor bem me conhece...
não sou homem de questões,
nem ando brigando á tôa
por qualquer duas razões;
mas hontem foi desaforo!
o sujeito de namoro
co'a minha noiva, e eu ali!
isto não é fazer pouco?...
parti cégo como um louco...
nem sei bem o que senti...
«Eu vinha de orelha em pé
ouvindo o palavreado!
não sei o que... de epitaphios...
e d'ahi por um bocado,
agarrou-lhe por um braço
e quiz lhe dar um abraço,
no momento em que cheguei!
fiquei damnado da vida!
e co'a cabeça perdida,
por milagre o não matei!...
«Depois... não ouvi mais nada...
todo este povo a gritar...
ouvi o senhor fallando,
quando nos veio apartar...
mas estou incommodado
do negocio se ter dado
n'uma casa que eu respeito...
em outro qualquer logar,
não me importava brigar
até um ficar desfeito!...
«--Tudo isso nada vale!
não penses nisto, rapaz....
são cousas que a gente moça
mais ou menos sempre faz.
--Não, senhor, eu bem conheço
que isto é máu; mas o que peço
é que queira perdoar...
ás vezes lá vem um dia...
e a gente está de _arrelia_,
não se póde dominar...
«--Vamos fallar de outra cousa,
isto é pura criançada...
que fizeste á Margarida?!
--Quando?--Hontem!--Não fiz nada!
--Pois olha, metteu-me pena
vêr a pobre da pequena
chorando, não sei porque...
--Ella chorou? mas que tinha?
--Não sei, fallou co'a madrinha
e a respeito de você.
«--A meu respeito?! e que disse?!
--Como já estavas zangado,
disseste-lhe alguma cousa...
e te excedeste um bocado...
--Eu, meu Deus?! ainda mais esta!
vejam só que bôa festa!
que S. João tenho eu!...
e tudo, veja o senhor,
por causa desse impostor,
desse barbas de judeu!
«É uma nuvem passageira...
não te dê isso cuidado;
vocês fazem logo as pazes
e está o negocio acabado.
Falla tambem co'o Simão...
o velhote tem razão
de estar massado comtigo...
foste offender ao coitado,
que ficou bem magoado;
mas o velho é teu amigo.»
V
Vinha chegando alguem e esta conversa
ficou neste logar interrompida;
vão pouco a pouco erguendo-se as visitas,
renova-se o prazer, renasce a vida.
Estava tudo em pé; porém o Juca?
estava ainda no quarto, ainda dormia?
«--Ó senhor! vão acordal-o, já é tarde
e basta de dormir: é meio dia.»
A mesa estava posta, e o fazendeiro,
que o não vira des que o dia amanheceu,
abre a porta e só encontra sobre a mesa
uma carta p'ra si, que abriu e leu: