«Desculpe vossa excellencia,
mas eu creio que já a vi!
--Póde ser, responde a moça,
quasi sempre eu venho aqui...»
«--Não foi aqui, foi ha um anno...
na côrte, se não me engano,
n'um baile que eu a encontrei...
--Oh! gentes! está enganado,
se perguntar p'ra que lado
a côrte fica, não sei!»
«--Era então o seu retrato
divinamente imitado...
os mesmos olhos divinos!
o mesmo rosto adorado!...
«--Oh! senhor, parece incrivel!
deveras será possivel
tão pasmosa semelhança?!
--Oh! natura eterna e infinda!
nunca vi mulher tão linda!...
--Eu sou linda? que esperança!
«--Então não vio Guanabara
da metrop'le no regaço,
sonhando loucos edyllios
co'os olhos fitos no espaço?!
«--Não senhor! se eu não conheço!»
«--Escuta, diva, eu te peço:
sou talvez um sonhador...
--Oh! moço, mal comparando,
quando o senhor está fallando
parece-me um pregador!»
«--Serei tudo, ó casta diva,
innocente Julieta!
tu'alma exhala o perfume
da modesta violeta!...
--_Ué_! que moço engraçado!
já deu-me o nome trocado...
eu me chamo Margarida.
--Margarida? Oh! doce encanto!
teu nome tão puro e santo
guardarei além da vida!
«Escuta, sylpho do empirio,
dos céus aerea visão,
não sentes do amor as lavas
que arroja o meu coração?
partamos, além na selva
sobre um tapete de relva,
pousemos o floreo ninho!
partamos, a noite é densa...
--Ó moço, eu peço licença,
eu vou fallar com dindinho!
«--_Comment celà!_ não me deixes
com tua ausencia obumbrado!
queres tu que um cenotaphio
erga a um amor desgraçado?
--Oh! _seu_ aquelle, me deixa!
senão eu vou fazer queixa
a meu pai, largue meu braço!..
--Não partas, anjo bemdito...
--Eu sou grossa p'ra palito...
--Ao menos dá-me um abraço!...»