Eu não sei porque é que em toda a festa
se encontra sempre um bôbo, um toleirão,
dizendo muita asneira e se inculcando
rapaz de muita graça e sabichão!
Á festa de Medeiros foi um typo,
a quem debalde eu busco descrever;
deixára a côrte onde era um _petit-maitre_
e á roça foi levar todo o saber.
Fallava sempre em termos empollados,
mirava-se ao espelho a cada instante;
usava citações em qualquer lingua,
e tinha o ar altivo do pedante.
Frisada a cabelleira e com pastinhas...
gravata verde-mar, o fraque azul,
as luvas côr de cinza, a calça branca,
sapatos de verniz; eis meu taful.
Desceu para o terreiro, olhou em torno
buscando achar um pobre a quem massar,
e eil-o dentro em breve n'uma roda,
com todo o seu furor a disputar.
«--Perdão, dizia o typo enthusiasmado:
eu sou republicano, e como tal
exijo a liberdade a mais completa,
quer na ordem civil, quer na moral.
«A lei é um empecilho á liberdade,
o que a dicta ou a impõe é um vil tyranno
os povos não precisam de governo,
o exemplo está no povo americano!
«_To be or not to be_, eis como eu penso;
abaixo a realeza e o seu prestigio;
o rei a quem o mundo hoje se curva
escreve--Liberdade--em gorro phrigio!»
Fallou e disse asneiras muito tempo
até que ficou só, sem mais ninguem!
«--Camellos! disse elle em tom baixinho,
nem sabem de que ponto a luz lhes vem!»
Mas vendo ao longe a bella Margarida,
exclama o nosso heróe: «--Oh! _c'est charmant!_
_Mignone_, vaes ser minha, assim t'o juro...
e agora ella está só! _c'est bien l'instant_.
E assim dizendo applica o _pince-nez_
e vae sentar-se ao lado da menina.