IV

Ella tinha quinze annos; era um anjo

de graça, candidez e de bondade,

e aquelle coração de meiga pomba

amava como se ama nessa idade.

A todos occultava aquelle affecto

que su'alma marchetava de illusões;

dos sonhos côr de rosa que ella tinha

quem pode descrever as emoções?

De manhã apoz a prece fervorosa,

fictados nos do Christo os olhos bellos,

regava o seu canteiro, e de violetas

um raminho prendia entre os cabellos.

«Tomava o seu balaio de costura,

tirava linha, agulhas e dedal,

e sentava-se a coser o dia inteiro

á sombra da mangueira do quintal.

Ás vezes descuidando seu trabalho,

parada co'o olhar ficto na estrada,

no mar da phantasia, como um cysne,

boiava da corrente á flôr levada.

V

Tal era a mimosa filha

do velho Simão da Cruz;

de sua velhice o arrimo,

alegria, vida e luz.

Revia no rosto della

a companheira extremosa,

que lhe deixara, murchando,

o rebentão de outra rosa.

Vio-a crescer sob os olhos;

estudou-lhe o coração,

e lia nelle os mysterios

d'aquella ardente paixão.

Um dia toma-lhe o braço,

fal-a sentar a seu lado,

e diz-lhe rindo o bom velho:

«Já tens algum namorado?»

Enrubece, treme, ensaia

dizer uma phrase, em vão!

repete o velho a pergunta,

e ella responde «--Não...

--Não mintas, filha! não sabes

que é um peccado mentir?

--Perdão meu pai!--Não perdôo

a quem me busca illudir.»

Dos bellos olhos da moça

o pranto desce a torrentes,

cujas bagas vão no seio

embeber-se encandescentes.

O velho, ameigando a falla,

apoz miral-a um instante,

lhe torna: «--Vamos! não chores!

não é Pedro o teu amante?

«Bom rapaz! é de meu gosto...

já fallou-te em casamento?

e tu disseste que sim,

sem o meu consentimento?!

Como os filhos são ingratos!

este mundo como vae!

quem de uma filha os segredos

guardará melhor que um pai?

«Mas vamos lá! estou por tudo;

disseste que sim? está dito!...

fizeste mal em negal-o;

isto assim não é bonito.

Não chores, dá-me um abraço!

será Pedro o teu marido;

é justo, se o amas tanto...

se foi o teu preferido...

Scenas da Roça: Poema de costumes nacionaes · 第 12 / 48 题