Ella tinha quinze annos; era um anjo
de graça, candidez e de bondade,
e aquelle coração de meiga pomba
amava como se ama nessa idade.
A todos occultava aquelle affecto
que su'alma marchetava de illusões;
dos sonhos côr de rosa que ella tinha
quem pode descrever as emoções?
De manhã apoz a prece fervorosa,
fictados nos do Christo os olhos bellos,
regava o seu canteiro, e de violetas
um raminho prendia entre os cabellos.
«Tomava o seu balaio de costura,
tirava linha, agulhas e dedal,
e sentava-se a coser o dia inteiro
á sombra da mangueira do quintal.
Ás vezes descuidando seu trabalho,
parada co'o olhar ficto na estrada,
no mar da phantasia, como um cysne,
boiava da corrente á flôr levada.
V
Tal era a mimosa filha
do velho Simão da Cruz;
de sua velhice o arrimo,
alegria, vida e luz.
Revia no rosto della
a companheira extremosa,
que lhe deixara, murchando,
o rebentão de outra rosa.
Vio-a crescer sob os olhos;
estudou-lhe o coração,
e lia nelle os mysterios
d'aquella ardente paixão.
Um dia toma-lhe o braço,
fal-a sentar a seu lado,
e diz-lhe rindo o bom velho:
«Já tens algum namorado?»
Enrubece, treme, ensaia
dizer uma phrase, em vão!
repete o velho a pergunta,
e ella responde «--Não...
--Não mintas, filha! não sabes
que é um peccado mentir?
--Perdão meu pai!--Não perdôo
a quem me busca illudir.»
Dos bellos olhos da moça
o pranto desce a torrentes,
cujas bagas vão no seio
embeber-se encandescentes.
O velho, ameigando a falla,
apoz miral-a um instante,
lhe torna: «--Vamos! não chores!
não é Pedro o teu amante?
«Bom rapaz! é de meu gosto...
já fallou-te em casamento?
e tu disseste que sim,
sem o meu consentimento?!
Como os filhos são ingratos!
este mundo como vae!
quem de uma filha os segredos
guardará melhor que um pai?
«Mas vamos lá! estou por tudo;
disseste que sim? está dito!...
fizeste mal em negal-o;
isto assim não é bonito.
Não chores, dá-me um abraço!
será Pedro o teu marido;
é justo, se o amas tanto...
se foi o teu preferido...