Bernardim-Ribeiro vaga triste e solitario pelas margens de um rio escuro

e cuberto de arvoredo. Apparece-lhe o seu _Cuidado_ na figura de um

velho incannecido que lhe mostra o seu fatal _Desejo_ todo cuberto de

dó; chorando e pensativo declara-lhe que em má hora o viu porque nunca

mais o hade esquecer. Some-se a visão; e elle caminha rio abaixo, até dar

‘antre uns medonhos penedos’ (se será Cintra?) onde a _Phantasia_ lhe

apresenta sua triste _Lembrança_ na figura de uma bella mulher de ‘loiros

cabellos e olhos verdes,’ cuberta de um negro manto. É Beatriz que elle

ama, que o adora e que não póde ser sua! Escura noite lhe esconde a visão

bemaventurada; e de um ‘alto oiteiro’ lhe bradam (porque não dos Alpes,

do Piemonte onde lh’a tinham levado?)—‘Bernardim-Ribeiro, olha onde

estás.’

Da demasiada altura onde subiram, seus atrevidos pensamentos lhe fazem

recordar quam baixo o tinha pôsto a sorte para se atrever a tanto.—O

namorado trovador cerra os olhos para nunca mais os abrir. Que lhe resta

a elle que ver o mundo?

Este romance seria feito ao ordenar-se o casamento da infanta com o

duque de Saboia? Não vem inserto nas SAUDADES, como o antecedente, da

Ama, e o subsequente de Avalor: por isso aqui pôs claro o seu nome

de Bernardim-Ribeiro, que no mysterioso livro de cavallarias, ora se

disfarça em anagrammas de suas proprias lettras, ora sob as de outros se

desfigura, para confundir e inredar a todo o que não tivesse a chave do

querido segredo. O nome porêm da infanta nem aqui, nem em parte nenhuma

o expôs a ser deciphrado pela mais remota inducção. N’este romance não ha

nomes femininos; os que se incontram em tudo quanto escreveu, assim podem

ser Maria, Antonia, como Joanna, etc. Em nenhum ha lettras ou sons que se

pareçam com os de Beatriz.

Nada digo do stylo, é o mesmo da peça precedente. As bellezas são

infinitas; nenhum poeta portuguez escreveu tanto com o sangue de seu

coração.

CUIDADO E DESEJO

Ao longo de uma ribeira

Que vai pelo pé da serra,

Aonde me a mi fez a guerra

Muito tempo o grande amor,

Me levou a minha dor:

Ja era tarde do dia,

E a agua d’ella corria

Por antre um alto arvoredo,

Onde ás vezes ia quedo

O rio, e ás vezes não.

Entrada era do verão,

Quando começam as aves

Com seus cantares suaves

Fazer tudo gracioso.

Ao ruido saudoso

Das aguas cantavam ellas:

Todalas minhas querellas

Se me puseram deante;

Alli morrer quizera ante

Que ver por onde passei.

Mas eu que digo—passei!

Antes inda heide passar,

Em quanto hi houver pezar,

Que sempre o hi hade haver.

As aguas, que de correr

Não cessavam um momento,

Me trouxera’ ao pensamento

Que assim eram minhas mágoas,

D’onde sempre correm aguas

Por estes olhos mesquinhos,

Que têem abertos caminhos

Pelo meio do meu rosto.

E ja não tenho outro gôsto

Na grande desdita minha.

O que eu cuidava que tinha

Foi-se-me assim não sei como,

D’onde eu certa crença tómo

Que, para me leixar, veio.

Mas, tendo-me assi alheio

De mi o que alli cuidava,

Da banda d’onde agua estava

Vi um homem todo cam[121],

Que lhe dava pelo cham

A barba e o cabello.

Ficando eu pasmado d’ello,

Olhando elle para mi,

Fallou-me e disse-me assi:

—Tambem vai ésta agua ao Tejo.’

N’isto olhei, vi meu Desejo

Estar de trás triste e só,

Todo cuberto de dó,

Chorando sem dizer nada,

A cara em sangue lavada,

Na bôcca posta ũa mão,

Como que a grande paixão,

Sua falla lhe tolhia.

E o velho que tudo via,

Vendo-me tambem chorar

Começou a assi fallar:

—‘Eu mesmo são[122] teu Cuidado

Que n’outra terra criado,

N’esta primeiro nasci.

E ess’outro que está aqui

É o teu Desejo triste;

Que má hora o tu viste

Pois nunca te esquecerá!

A terra e mar passará

Traspassando a mágoa a ti’

Quando lhe eu aquisto ouvi,

Soltei suspiros ao chôro;

Alli clarante o fôro

Meus olhos tristes pagaram

De um bem só que elles olharam,

Que outro nunca mais tiveram.

Nem o tive, nem m’o deram,

Nem o esperei somente:

De só ver fui tam contente,

Que pera mais esperar

Nunca me deram logar.

E n’aquisto, triste estando

Com os olhos tristes olhando

D’aquellas bandas d’alêm,

Olhei e não vi ninguem.

Dei então a caminhar

Rio abaixo, até chegar

A cêrca de Montemór.

Com meus males de redor,

Da banda do meio-dia,

Alli minha Phantasia,

D’antre uns medrosos penedos,

Onde aves que fazem medos

De noite os dias vão ter,

Me sahiu a receber

Com ũa mulher pelo braço,

Que, ao parecer de cansaço

Não podia ter-se em si,

Dizendo:—‘Vês, triste, aqui

A triste Lembrança tua.’

Minha vista então na sua

Pus, d’ella todo me enchi:

A prima coisa que vi

E a derradeira tambem,

Que no mundo vão e vem!

Seus olhos verdes rasgados

De lagrymas carregados,

Logo em vendo-os, pareciam

Que de lagrymas enchiam

Contino as suas faces,

Que eram, gran’ tempo, paces[123]

Antre mi e meus cuidados.

Loiros cabellos ondados

Um negro manto cubria:

Na tristeza parecia

Que lhe convinha morrer.

Os seus olhos de me ver,

Como furtados, tirou,

Depois em cheio me olhou.

Seus alvos peitos rasgando

Em voz alta se aqueixando,

Disse assi mui só sentida:

—‘Pois que mor dor ha na vida

Para que houve ahi morrer?’

Callou-se sem mais dizer.

Eu de mi gemidos dando,

Fui-me para ella chorando

Para a haver de consolar...

N’isto pôs-se o sol ao mar,

E feze-se noite escura,

E disse mal á ventura

E á vida, que não morri...

E muito longe d’alli,

Ouvi de um alto oiteiro

Chamar:—‘Bernardim-Ribeiro!’

E dizer:—‘olha onde estás!’

Olhei de ante e de traz

E vi tudo escuridão,

Cerrei meus olhos então,

E nunca mais os abri,

Que depois que a perdi

Nunca vi tam grande bem.

Porêm inda mal, porêm!

XXXIV

O CORDÃO DE OIRO

Não parece ésta uma d’aquellas _verdes_ anecdotas que a prosa de Bocacio

e os versos de Lafontaine immortalizaram? O stylo é menos licencioso,

porque, sincera e nua ás vezes, comtudo é sempre mais casta a poesia

primitiva. O seu pudor é o da ingenuidade que se despe porque mal não

pensa, não o da hypocrisia que por maliciosa se cobre. Comtudo os dois

ultimos versos são um verdadeiro remate de epigramma que faria honra a

um poeta da eschola de Voltaire, e podia ser feixo de uma cantiga de

vaudeville de Scribe. Entre portuguezes, só D. Francisco Manuel de Mello

ou Nicolau Tolentino os faria tam naturaes e tam picantes ao mesmo tempo.

Assim a adivinhar, que é o unico modo de entrar n’estes pontos, orço a

data d’esta composição pelos tempos da guerra da acclamação, isto é, por

meados do seculo XVII.

É ommisso nos romanceiros dos nossos vizinhos; e em Portugal não tenho

noticia de que se incontre senão na tradição oral de Tras-os-Montes, onde

achei tres cópias d’elle, uma mais completa que as outras: d’ellas se

appurou o presente texto. As variantes quasi todas despreziveis.

O CORDÃO DE OIRO

Lá se vai o capitão

C’os seus soldados á guerra:

Duzentos eram quintados,

Eram duzentos de leva[124].

Se todos elles vão tristes,

Um mais que todos o era;

Baixa trás a sua espada,

Seus olhos postos em terra.

Lá no meio do caminho

O capitão lhe dissera:

—‘Porque vais triste, soldado,

Essa paixão por quem era?’

—‘Não é por pae nem por mãe,

Nem por irman que eu tivera[125],

É pela espôsa que deixo

Lá tam só na minha terra.

Este cordão de oiro fino,

Que sette arrateis bem pésa,

Mais me pésa a mim levá-lo,

Que ao partir lh’o não dera!’

—‘Soldado, tens sette dias

Para que voltes a vê-la.

Se a incontrares chorando,

Ficas sette annos com ella:

Senão, nem mais uma hora

Terás de aguardo ou de espera.’

Quem saltava de contente

O meu soldadito era.

Deixou estrada direita,

Por atalhos se mettêra;

Inda não é meia-noite,

Á sua porta batêra.

—‘Quem bate á minha porta;

Quem bate com tanta pressa?’

—‘É um soldado, senhora,

Que vos trás novas da guerra.’

—‘Mal haja a nova que trás,

E mais quem veio trazê-la!

Ergue-te tu, minha vida,

Assoma-te a essa janella;

Despede-me esse soldado

Que a tam má hora aqui chega.’

—‘Amigo, vindes errado

Co’as vossas novas da guerra:

Deixae-nos dormir em paz,

Que bem precisamos d’ella.’

Foi-se d’alli o soldado

Mais prompto do que viera:

—‘Bem haja o meu capitão

Pelo bem que me fizera!

Com sette dias de aguardo...

Nem sette horas carecêra

Para me quitar saudades,

Livrar-me de toda a pena!

Tomae lá meu capitão

Os mimos da minha terra;

Este cordão de oiro fino,

Que agora inda mais me pésa.

Minha mulher não precisa,

Que os primos podem mantê-la.’

—‘Pois tua mulher tem primos,

E tu vinhas com dó d’ella!...’

XXXV

O CEGO

Ha duas balladas escriptas em dialecto escocez por elrei James V de

Escocia, que ambas se parecem muito com ésta. Uma especialmente, ‘_The

Gaberlunzie man_,’ até no metro e nas fórmas exteriores dá bastantes ares

da nossa xácara. Começa assim:

The pauky auld carle come ovir the lee

Wi’ mony good-eens and days to mee,

Saying: Goodwife, for zour courtesie,

Will ze lodge a silly poor man?[126]

O rei James, que morreu de trinta e tres annos, em 13 de Dezembro de

1542, era um joven rei, tunante e maganão, que se disfarçava em trajos de

mendigo, de adello, ou que taes, para andar correndo baixas aventuras

pelas aldeas ou pelos bairros escusos das cidades. Cantor de seus

proprios feitos, celebrava-os depois em gallantes trovas, a que não falta

a graça nem o chiste do genero. A que se intitula _The Jolly Beggar_, e

que por licenciosa e fresca de mais, a não admittiu o bispo Percy na sua

collecção, talvez tenha ainda mais merito de arte.

O _Gaberlunzie man_ da real ballada é porêm todo inteiro o _Cego_ da

nossa xácara, menos em certos incidentes que são mais poeticos e mais

interessantes na composição portugueza.

Disfarçado em trajos de cego mendigo, um senhor de alta jerarchia fallou

de amores a uma donzella de muito inferior nascimento que vivia com sua

velha mãe. Por accôrdo, mais ou menos expresso entre os dois amantes,

se appresenta este por noite á porta da velha com sua caramunha. A mãe

dorme; e Anninhas, que responde ao cego, parece fazê-lo ou com ironia ou

em pique de ciumes, e por nenhum modo lhe quer abrir ‘porta ou postigo.’

Põe-se o cego a cantar lamentosamente a soa desgraça; e com a chorada

cantilena se abranda ou finge abrandar-se o coração da rapariga. Desperta

a mãe para que o venha ouvir; e quando ésta condoida lhe manda dar

esmola, o cego recusa, não quer senão que o ponham no caminho que perdeu.

É a propria velha, coitada, a que diz á filha que lh’o va insinar. E

assim fogem os dois, com a maior tranquilidade com que ainda fugiram

amantes.

Note porêm a maestria do nosso poeta popular. A fugitiva sustenta sempre

aquella tam perdoavel hypocrisia feminina, último protesto do pudor

moribundo. Fiando homericamente na sua roca, vai fingindo guiar o cego,

vai parecendo acreditar que não sabe aonde nem a que vai. Senão quando,

apparece um tropel de cavalleiros: é a comitiva do nosso rei incuberto,

principe ou conde pelo menos. Adeus gaivão de cego, e andrajos de

mendigo! A cavallo e trotar largo! Ja o cego vê, ja a donzella sabe onde

vai. E com este seu fino e malicioso ditto, conclue a trova:

Um cego me leva, e vejo o caminho!

Tal é o argumento da cantiga portugueza muito mais romanesco do que o das

escocezas, pôsto que seja o mesmo o fundo da anecdota.

Não duvido suppor que talvez de Glasgow ou de Aberdeen trouxessem os

nossos mareantes ésta historia, e de Vianna ou do Porto se internasse

pelo Minho onde ella é mais vulgar. Não lh’o pagariamos so em vinho e

frutta aos nossos amigos do norte, porque em mercadorias d’aquelle mesmo

genero para lá temos exportado bastante.

A forma métrica é a do romance de Sancta Iria. O texto foi restituido com

difficuldade, porque ésta fórma se presta ainda mais á corrupção do que

a outra, desafiando o prolifico talento dos nossos trovadores de aldea

a bordar seus pretenciosos floripondios sôbre a singela telagarsa do

original.

Vão por ementa, appontadas algumas variantes menos absurdas.

O CEGO

—‘Abre a porta, Anna, abre de mansinho[127],

Que venho ferido, morto do caminho.’

—‘Se vindes ferido, pobre coitadinho!

Ireis muito embora por outro caminho.’

—‘Ai! abre-me a porta, abre de mansinho,

Que tam cego venho, não vejo o caminho.’

—Porta nem postigo não abro ao ceguinho,

Va-se na má hora pelo mau caminho.’

—‘Ai do pobre cego que anda sosinho

Cantando e pedindo por esse caminho!’

Minha mãe acorde, oiça aqui baixinho[128]

Como canta o cego que perdeu o caminho.’

—‘Se elle canta e pede, da-lhe pão e vinho;

E o pobre cego que va o seu caminho.’

—‘O teu pão não quero, não quero o teu vinho,

Quero só que Anninhas[129] me insine o caminho.’

—‘Toma a roca, Anna, carrega-a de linho,

Vai com o pobre cego, pô-lo a caminho.’

—‘Espiou-se a roca, acabou-se o linho,

Fique embora o cego, que este é o seu caminho.’

—‘Anda mais, Anninhas, mais um bocadinho,

Sou um pobre cego, não vejo o caminho.’

—Ai! arreda, arreda para este altinho,

Que ahi véem cavalleiros por esse caminho.’

—‘Se vêem cavalleiros, vêem de vagarinho,

Que ha muito me tardam por este caminho.’

A cavallaria passou de mansinho...

Cego, lo meu cego ja via o caminho[130].

Montou-me a cavallo com muito carinho...

Um cego me leva... e vejo o caminho!

XXXVI

LINDA-A-PASTORA

Quem desce Tejo abaixo, por ésta margem do Norte onde está Lisboa, e

tendo saudado o precioso monumento de Belem, a sua tôrre não menos bella,

entra no fashionavel Pedroiços e d’ahi segue ás praias do Dafundo até

á Cruz-quebrada, tem dado o mais bonito passeio que se póde dar nas

vizinhanças da capital, e visitado os sitios que, depois de Cintra,

mais frequenta a sociedade elegante da nossa terra. De fins de Agosto

a principios de Novembro é que tudo alli corre, e que os banhos do mar

povoam aquelles bellos ermos, nas outras estações desamparados.

Quem tiver porêm o bom gôsto de resistir ao despotismo tarifeiro da moda,

e se abalançar em Maio ou Junho a este largo passeio, que no estado dos

nossos caminhos é antes uma pequena viagem, creia que hade ser pago de

sua nobre ousadia. Não ha palavras que digam todas as bellezas d’aquella

terra, d’aquelle ceo, d’aquellas aguas. Á esquerda o Tejo, os navios

que entram e sahem, as frotas de barcos pescarejos, a areia alva juncto

á beira d’agua, e logo pegada á salsugem, a prodigiosa vegetação das

plantas que a amam e em que se pasce gulloso e largo á vontade o gado.

Perto, um saveiro que chegou á terra e cuja companha pucha ao longo da

praia pela rede que arrasta os innumeraveis cardumes de peixes que logo

virão saltar na areia. Á direita nas eminencias, as ruinas picturescas

de conventos desertos, de moinhos abandonados, de fortes, de atalaias. E

tudo isto incastoado na verdura viçosa e florida da primavera que ainda

não queimou o sol do estio. No fim do verão quando vai todo o mundo,

ja não ha senão resteva nos campos, talos de hervas seccas nos montes,

árvores sem folha, poeira nos ares, e uma ventaneira despregada que não

cessa.

Ja me eram familiares de annos aquelles sitios; mas posso dizer que os

não conheci bem e como elles são devéras, senão quando, haverá hoje

tres annos, alli fui um dia primeiro de Maio. Fui, como de maravilha em

maravilha, por todos os pontos que tenho nomeado; mas chegando á ribeira

de Jamor, parei extasiado no meio de sua ponte, porque a varzea que d’ahi

se extende, recurvando-se pela direita para Carnaxide, e os montes que

a abrigam em deredor, estava tudo de uma belleza que verdadeiramente

fascinava. O trigo verde e viçoso ondeava com a viração desde as veigas

que rega o Jamor, até os altos onde velejam centenares de moinhos.

Árvores grandes e bellas, como rara vez se incontram n’esta provincia

_dendroclasta_, rodeavam melancholicamente, no mais fundo do vale, a

velha mansão do Rodizio. E lá, em prespectiva, no fundo do quadro, uma

aldea de Suissa com suas casinhas brancas, suas ruas em soccalcos, seu

presbiterio ornado de um ramalhete de faias; grandes massas de basalto

negro pelo meio de tudo isto, parreiraes, jardinzitos quasi pensis,

e uma graça, uma simplicidade alpina, um sabor de campo, um cheiro de

montanha, como é difficil de incontrar tam perto de uma grande capital.

O logarejo é bem conhecido de nome e fama, chama-se Linda-a-Pastora.

Porque? Não sei. Tem-me jurado antiquarios de ‘meia-tijella’ que o seu

nome verdadeiro é _Niña a Pastora_. Mas emquanto não achar algum de

‘tijella inteira’ que me saiba dar a razão por que se havia de chamar

assim, meio em portuguez meio em castelhano, um aldeote de aopé de

Lisboa—heide chamar-lhe eu, como os seus habitantes e toda a gente diz:

Linda-a-Pastora.

Namorei-me do sitio por modo, que alli passei o verão todo; e d’alli

fiz deliciosas excursões pelas vizinhanças, que todas são bonitas. Foi

n’este proprio e appropriado sitio que a Sr.ª Francisca, lavadeira bem

conhecida do logar, me deu a última e, ao parecer, mais correcta licção

que do presente romance tinha obtido. Em outras partes do reino traz elle

o titulo de ‘Pastorinha;’ aqui era justo e natural que se lhe désse o de

Linda-a-Pastora’, que assentei conservar-lhe.

Na fórma é um romance em endeixas, mas o fundo é de uma verdadeira

pastourella do genero provençal; nem a fariam mais graciosa Giraud

Riquier ou Giraud de Borneill.

Tem muitas variantes, porque todo o reino a sabe e canta. Eu noto somente

as principaes.

LINDA-A-PASTORA

—‘Linda pastorinha, que fazeis aqui?’

—‘Procuro o meu gado que por ahi perdi.’

—‘Tam gentil senhora a guardar o gado!’

—‘Senhor, ja nascemos para esse fado.’

—‘Por éstas montanhas em tam grande p’rigo!’

Diga-me, ó menina, se quer vir commigo.’

—‘Um senhor tam guapo dar tam mau conselho[131].

Querer que se perca o gado alheio!’

—‘Não tenha esse medo que o gado se perca[132]

Por aqui passarmos uma ora de sésta.’

—‘Tal razão como essa não n’a ouvirei[133]:

Ja dirão meus amos que de mais tardei.’

—‘Diga-lhe, menina, que se demorou

Co’esta nuvem de agua que tudo molhou.’

—‘Fallarei verdade, que mentir não sei:

Á volta do gado eu me descuidei.’

—‘Pastorinha, escute, que oiço ballar gado...’

—‘Serão as ovelhas que me tem faltado.’

—‘Eu lh’as vou buscar ja muito depressa,

Mas que me espedace por essa charneca.’

—‘Ai como vai grave de meias de seda!

Olhe não as rompa por essa resteva[134].’

—‘Meias e sapatos[135], tudo romperei[136]

So por lhe dar gôsto, minha alma, meu bem.’

—‘Ei-lo aqui vem; é todo o meu gado.’

—‘Meu destino foi ser vosso criado.’

—‘Senhor, va-se embora, não me dê mais pena,

—‘Que hade vir meu amo trazer-me a merenda.’

—‘Se vier seu amo, venha muito embora;

Diremos, menina, que cheguei agora.’

—‘Senhor, va-se, va-se, não me dê tormento:

Ja não quero vê-lo nem por pensamento.’

—‘Pois adeus, ingrata da Linda-a-Pastora!

Fica-te, eu me vou pela serra fóra[137].’

—‘Venha cá, Senhor, torne atrás correndo...

Que o amor é cego, ja me está rendendo.’

Sentaram-se á sombra... tudo estava ardendo...[138]

Quando ellas não querem, então ’stão querendo.

XXXVII

O MARQUEZ DE MANTUA

Ei-lo que se apea de seu classico barbante em que tantos annos cavalgou,

e despindo o papel-pardo em que o imbrulhavam os cegos e vendilhões de

nossas feiras, vem o nobre ‘Marquez de Mantua’ tomar o seu logar entre

os mais venerandos e antigos romances do cyclo de Carlos-Magno. Sua

nobre origem bem sabida é e bem manifesta: franceza ou provençal. Se foi

a lingua _d’oeil_ ou a lingua _d’oc_ a primeira que fallou, não sei;

quando atravessou os Pyreneus e veio para nós, certo que era ja familiar

com ambas. Passou muito tempo em Hespanha por ser composição de Jeronymo

Treviño[139]; hoje com razão se crê que o Treviño não foi senão o editor

que em 1598 o imprimiu: sem dúvida o romance é muito mais antigo que

isso; so da licção portugueza me parece que posso responder que é dos

fins do XIV, principios—quando muito—do XV seculo. E todavia a fórma em

que elle apparece em portuguez não creio que fosse a primitiva que entre

nós teve, e me inclino a que ella seja posterior á que teem os nossos

vizinhos castelhanos em suas collecções[140]. Aqui é mais dramatico, lá

mais épico: nas multiplicadas edições dos cegos chegou a obter o nome de

tragedia. Todavia, não deixarei de observar que revestidos d’esta mesma

fórma ha romances muito mais antigos do que os narrativos. As rúbricas de

_aqui falla o marquez, agora diz o imperador_ etc., não são indisputavel

próva de que a composição fôsse para se representar theatralmente.

Sem profundar nenhuma d’estas questões, contento-me de sacar do lixo

da “feira-da-ladra”, ésta bella reliquia da nossa litteratura popular

e romanesca, e de restituir ao seu eminente logar o nobre marquez de

Mantua, embora me criminem e escarneçam os superciliosos academicos de

todas as academias reaes e não reaes d’este mundo.

O MARQUEZ DE MANTUA

Na caça andava perdido

De Mantua o velho marquez,

E no peito presentido

O coração traz de envez;

Mais, não sabe o succedido!

Farto ja de caminhar

Por tam fragosa montanha,

Cançado assim sem companha,

Sem ter onde repousar

N’essa terra tam extranha,

Vendo o mato tam cerrado,

Assentou de se apear

E o seu cavallo deixar

Porque estava de cançado

Que ja não podia andar:

FALLA O MARQUEZ

—Fortunosa caça é ésta

Que a fortuna me ha mostrado,

Poisque, por ser manifesta

Minha pena e gran’ cuidado,

Me mostrou ésta floresta.

Nunca vi tam forte brenha

Desque me accordo de mi,

Eu creio que Margasi

Fez ésta serra Dardenha,

Estes campos de Methli.

Quero tocar a bosina

Por ver se algum me ouvirá;

Mas cuido que não será,

Porque minha gran’ mofina

Commigo começou ja.

Todavia quero ver

Se mora alguem n’esta serra

Que me diga d’esta terra

Cuja é para saber;

Que quem pergunta não erra.

Agora vejo-me aqui

N’esta tam grande espessura,

Que nem eu me vejo a mi,

Nem sei de minha ventura,

Nem menos será cordura.

DIZ VALDEVINOS

—Oh Virgem minha senhora,

Madre do rei da verdade,

Por vossa gran’ piedade

Sêde minha intercessora

Em tanta necessidade.

Oh summa regina pia,

Radiante luz phebea,

Custodia animæ meæ,

Pois está na terra fria

A alma de pezar chea,

Pois es amparo dos teus,

Consola os desconsolados,

Rainha dos altos ceos,

E roga a meu senhor Deos

Que perdoe meus peccados.

FALLA O MARQUEZ

—Não sei quem ouço gemer

E chorar de quando em quando:

Alguem deve de aqui estar...

Segundo se esta queixando,

Deve ter grande pezar.

FALLA VALDEVINOS

—Domine, memento mei,

Lembrae-vos de minha alma,

Pois que sois da glória rei,

Nascido da flor da palma,

Remedio de nossa lei.

DIZ O MARQUEZ

—Segundo d’elle se espera,

Aquelle home anda perdido,

Ou, por ventura ferido

De alguma besta fera.

Quero ver este mysterio,

Que a falla me dá ousadia,

Porque dois em companhia

Terão grande refrigerio

Para qualquer agonia.

DIZ VALDEVINOS

Romanceiro III: Romances Cavalherescos Antigos · 第 3 / 6 段