Veio de Almeida ésta xácara; e de nenhuma outra parte do reino me chegou

outra licção d’ella, nem vestigio. Bem antiga me parece. O fronteiro

que mandou ao mar a armada do cavalleiro ausente, faz pensar que isto

seja coisa do tempo das nossas emprezas de Africa. O logar da scena é

inquestionavelmente na raia—e bem pôsto está ao romance o titulo de

‘Noiva arraiana’. Mas aqui ha mar, e armadas que vão ao mar: não póde

pois ser outra a raia senão a do Algarve. O stylo da cantiga é ingenuo

e purissimo; os costumes que descreve primitivos e patriarchaes; ha um

sabor homerico n’este narrar e n’este fallar, que ninguem póde confundir

com o dizer estudado de trovadores mais modernos. Poetas de civilisação

mais adeantada não sabem ou não podem chegar tanto a rés da natureza.

O facto é simples e mil vezes visto. Outra edição da Lucia de Lamermoor,

outro cavalleiro de Ravenswood que apparece de repente no meio da voda

de sua debil e mal constante namorada, quando ella, ja desposada com

outro, menos esperava tornar a ver o primeiro amante—o seu, o que ella

unicamente quer. Quem não lembra de Walter-Scott, e de Donizetti tambem,

e do que vibram na alma as palavras de um, as notas do outro, inspiradas

por ésta situação altamente dramatica; sublime de angústia e desesperação?

O nosso trovador arraiano tomou as coisas com mais tento e socêgo; não

indoudeceu nem mattou a sua Lucia; e nem d’ella nem do seu Ravenswood nos

diz que mattassem a mais ninguem. O cavalleiro portuguez faz justiça por

outro modo nos que o tinham atraiçoado. Levou-lhes a noiva, e deixou-lhes

ficar a voda e o jantar.

A NOIVA ARRAIANA

—‘Deus vos salve, minha tia,

Na vossa roca a fiar!’

—‘Venha embora o cavalleiro

Tam cortez no seu fallar!’

—‘Má hora se elle foi, tia,

—‘Má hora torna a voltar!

Que ja ninguem o conhece

De mudado que hade estar.

Por lá o mattassem moiros,

Se assim tinha de tornar!’

—‘Ai sobrinho de minha alma,

Que es tu pelo teu fallar!

Não ves estes olhos, filho,

Que cegaram de chorar?’

—‘E meu pae e minha mãe,

Tia, que os quero abraçar?’

—‘Teu pae é morto, sobrinho,

Tua mãe foi a interrar.’

—‘Qu’é da minha armada, tia,

Que eu aqui mandei estar?’

—‘A tua armada, sobrinho,

Mandou-a o fronteiro ao mar.’

—‘Qu’é do meu cavallo, tia,

Que eu aqui deixei ficar?’

—‘O teu cavallo, sobrinho,

Elrei o mandou tomar.’

—‘Qu’é de minha dama, tia,

Que aqui ficou a chorar?’

—‘Tua dama faz hoje a voda,

Ámanhan se vai casar.’

—‘Dizei-me onde é, minha tia,

Que me quero lá chegar.’

—‘Sobrinho, não digo, não,

Que te podem lá mattar.’

—‘Não me mattam, minha tia;

Cortezia eu sei usar:

E onde faltar cortezia,

Ésta espada hade chegar.’

—‘Salve Deus, ó lá da voda,

Em bem seja o seu folgar!’

—‘Venha embora o cavalleiro,

E que se chegue ao jantar!’

—‘Eu não pretendo da voda

Nem tam pouco do jantar;

Pretendo fallar á noiva,

Que é minha prima carnal.’

Vindo ella lá de dentro

Toda lavada em chorar,

Mal que viu o cavalleiro,

Quiz morrer, quiz desmaiar.

—‘Se tu choras por me veres,

Ja me quero retirar;

Se é os teus gastos que choras,

Aqui estou para os pagar.’

—‘Pagar devia co’a vida

Quem me queria inganar,

Quando te deram por morto

N’essas terras d’além-mar.

Mas que fiquem com a voda

E bem lhes preste o jantar,

Que os meus primeiros amores

Ninguem m’os hade quitar.’

—‘Venha juiz de Castella,

Alcaide de Portugal;

Que, se aqui não ha justiça,

Co’ésta espada a heide tomar.’

XXIX

GUIMAR

Dona Guimar—ou Dona Agueda—de Mexia, como lhe chama a licção do Alemtejo,

é um interessante romancinho que apparece na tradição d’aquella provincia

e na de Extremadura. Por ambas se apurou o texto que aqui dou.

Nem por outras provincias nossas, nem pelas collecções castelhanas ha

outro vestigio d’elle, que eu saiba.

Não é muito antigo o stylo. Mas o facto celebrado é o de uma morte

apparente com a qual parece se julgou dissolvido o matrimonio: e d’isto

houve exemplos em tempos remotos em que tinham por certa a morte, e por

verdadeira resurreição o tornar a si o supposto defuncto.

Seja porêm qual for a data d’esta composição, ha coplas d’ella que vão

de par com o mais bello e original da poesia mais primitiva. Notarei

especialmente a volta de Dom João á sua terra n’aquella manhan de maio,

que os passarinhos cantavam, os sinos tangiam e o rir da natureza se

misturava com o chorar dos homens. Tambem não creio que haja nada mais

bello que estoutros versos quanto a morta vai tornando a si e pondo olhos

no amante:

Volta a vida que se fôra

Com todo o amor que não se ia.

GUIMAR

Era a menina mais linda[92]

Que n’aquella terra havia;

Tam formosa e tam discreta

De outra egual se não sabia.

Muito lhe quer Dom João,

Muito demais lhe queria:

Seus amores, seus requebros

Não cessam de noite e dia.

Por fidalgo e gentil moço

Ninguem tanto a merecia;

Senão que o pae da donzella[93]

Outro conselho seguia:

Casá-la quer muito ricca

Com um mercador que ahi havia,

Sem fazer caso de amores,

Sem lhe importar fidalguia.

Dom João, quando isto soube[94],

Por pouco se não morria:

Foi-se d’alli muito longe

Sem dizer para onde ia.

Tres mezes por lá andou,

Tres mezes n’essa agonia;

A vida que lhe pesava

Soffrê-la ja não podia.

Mandou sellar seu cavallo

Sem cuidar no que fazia;

Deitou por esses caminhos

Sem saber adonde ia.

O cavallo é quem mandava,

Cavalleiro obedecia.

Passou por terras e terras,

Nenhuma não conhecia.

Á sua tinha chegado,

Onde estava não sabia.

Era por manhan de maio,

Todo o campo florecia,

Os passarinhos cantavam,

O prado verde surria;

Lá de dentro da cidade

Um triste clamor se ouvia

Eram sinos a dobrar,

E era toda a clerezia,

Eram nobres, era povo

Que da egreja sahia...

Entrou de portas a dentro,

De rua em rua seguia,

Chegou á de sua dama[95],

Essa sim que a conhecia.

As casas onde morava,

Janellas aonde a via,

Tudo é cuberto de preto,

Mais preto que ser podia[96].

Mandou chamar uma dona[97]

Que ella comsigo trazia:

—‘Dizei-me por Deus, senhora,

Dizei-me por cortezia,

Esse lutto tam pesado

Por quem trazeis, que seria?’

—‘Trago-o por minha senhora,

Dona Guimar de Mexia[98],

Que é com Deus a sua alma,

Seu corpo na terra fria.

E por vós foi, Dom João,

Por vosso amor que morria[99].’

Dom João quando isto ouviu[100]

Por morto em terra cahia,

Mas a dor era tammanha[101]

Que á fôrça d’ella vivia.

Os seus olhos não choravam,

Sua bôcca não se abria.

Mirava a gente em redor

Para ver o que faria.

Vestiu-se todo de preto,

Mais preto que ser podia[102],

Foi-se direito á egreja

Onde sua dama jazia[103]:

—‘Eu te rogo, sacristão,

Por Deus e Sancta Maria,

Eu te rogo que me ajudes[104]

A erguer ésta campa fria.’

Alli a viu tam formosa

Tal como d’antes, a via;

Alli, morta, sepultada,

Inda outra egual não havia,

Pôs os joelhos em terra,

Os braços ao ceo erguia,

Jurou a Deus e á sua alma

Que mais a não deixaria.

Puchou de seu punhal de oiro[105],

Que na cintura trazia,

Para a accompanhar na morte

Ja que em vida não podia.

Mas não quiz a Virgem sancta[106],

A Virgem Sancta Maria,

Que assim se perdesse uma alma

Que só de amor se perdia.

Por juizo alto de Deus

Um milagre se fazia:

A defuncta a mão direita

Ao seu amante extendia,

Seus lindos olhos se abriram,

A sua bôcca sorria;

Volta a vida que se fôra,

Com todo o amor que não se ia.

Seu pae, o foram buscar,

Que ja estava na agonia;

Véem amigos, véem parentes,

Todos em grande alegria.

Dão graças á Sancta Virgem,

Cujo milagre seria;

E a Dom João dão a espôsa,

Que tam bem a merecia.

XXX

DOM DUARDOS

O último conhecido dos nossos poetas populares antigos, o verdadeiro

fundador do theatro d’Hespanha, Gil-Vicente, não era só poeta comico,

segundo vulgarmente se crê ás cegas, porque poucos abrem os olhos para

o ler com attenção, para estudar n’elle, como todos deviam, lingua,

costumes, stylo, côr e tom nacional da epocha: nenhum outro escriptor

portuguez os teve tam verdadeiros, tam characterizados e sinceros.

O romance heroico ou epico, isto é, o que celebrava grandes feitos

e successos nacionaes, ou interessantes aventuras de guerras e de

amores—que d’elle tomaram depois o appellido de _romanescas_, ou porque

não _romancescas_? hoje mais inglezadamente _romanticas_—este que tambem

rhymou muitas vezes devotas legendas de sanctos e de milagres, os passos

da historia sagrada de ambos os Testamentos, e até os proprios mysterios

do dogma; o romance epico em toda a sua primitiva simpleza foi tambem

cultivado por Gil-Vicente.

Com elle e com Bernardim-Ribeiro creio que morreu, litterariamente

fallando, nos fins do seculo XV, principios do XVI, para resuscitar

depois, á primeira trombeta do seiscentismo, como todos os generos

populares que por essa reacção resurgiram; mas rebicado e contrafeito,

secante de metaphoras, pesado de conceitos, escripto emfim com a penna

d’aza da ‘Phenix-renascida.’

Quanto elle fôra estimado e cultivado entre nós em tempos de Gil-Vicente,

vê-se de muitos logares de seus dramas. E ahi se vê tambem que

promiscuamente compunham os nossos trovadores ja no dialecto de Castella,

ja no de Portugal, e ainda o mesmo romance ou soláo ora se cantava em

uma, ora n’outra linguagem.

Para exemplo e próva, leia-se com attenção o dialogo do feiticeiro

com a ama de Cismena na scena II de Rubena[107]. Ahi véem citados como

portuguezes e em portuguez, apar de outras cantigas castelhanas, muitos

romances que alguns passam hoje por legitimos filhos de Castella e em

suas collecções se incontram; de outros nem por ellas ha memorias. Tal é

o que começa:

‘Eu me sam Dona Giralda’;

de que não achei outro vestigio nem nos romanceiros castelhanos, nem na

nossa tradição oral. Tal é est’outro:

‘Em Paris está Donalda’;

que vem nos citados romanceiros, pôsto que differentemente escripto.

Tambem no auto dos _Quatro tempos cantam estes ‘até chegar ao presepio,’_

manda a rubrica[108], _uma cantiga franceza que diz_:

‘Ai de la noble

Villa de Paris!

É claro que este é um romance; e romance conhecido, e que não era

castelhano nem portuguez, mas francez. E d’aqui se deprehende tambem

uma coisa que muitas vezes tenho julgado intrever, e de que tenho quasi

uma consciencia íntima, sem ousar dá-la por certa, porque não ha ainda

todas as próvas documentaes que se precisam para uma asserção que hade

parecer atrevida: e é—que os romances primitivos quasi que eram communs

ás linguas _romanas_, e que nenhuma os vindicava exclusivamente; porque

o trovador catalão ou provençal, portuguez, normando ou castelhano

pertencia mais á _republica litteraria_ e artistica de sua profissão,

do que a nenhum reino ou nação, ou divisão politica do paiz. Cantava-se

o romance para lá do Ebro? davam-se ás palavras desinencias mais curtas

e contrahidas; dizia-se para cá d’elle? produziam-se mais arredondadas.

Entre Portugal e Castella menos era preciso ainda, porque as linguas,

ja tam similhantes, ainda o eram mais então, e no especial dialecto do

romance dobradamente.

Apponto isto aqui somente como ementa, para mais devagar se reflectir

e estudar no que indico. Ha grande verdade na indicação; mas até onde

ella chega, não sei dizer porora, nem saberei talvez nunca, porque me

não sobra tempo nem paciencia para dar professadamente a estas coisas.

Vou escrevendo o que me occorre como curioso. A sciencia fará o seu

officio com o tempo. Eu não pretendo a litterato nem a crítico, e n’estas

coisas menos que em nenhuma. Occupo as minhas horas vagas com estes

divertimentos innocentes; não faço mais nada.

Tornando ao nosso Gil-Vicente, na segunda scena—acto, jornada, ou parte

II—da _Rubena_, canta a Cismena em portuguez outro princípio de romance

mui notavel pelo metro pouco usado na nossa lingua:

‘Grandes bandos andam na côrte,

Traga-me Deus meu bonamore.’

Muitas outras próvas achará alli o leitor curioso de que este genero

era o mais popular então entre nós. Como tal o cultivou Gil-Vicente; e

assim o mostra o romance dos _Padres no Limbo_ no auto da ‘Historia de

Deus’, o da _Barca dos Anjos_ no auto do ‘Purgatorio’, o da _Infanta_ no

auto das ‘Côrtes de Jupiter’, e muitos outros dispersos por suas obras

dramaticas, alêm dos dois bem conhecidos que expressamente compôs, um á

morte d’elrei Dom Manuel, outro á acclamação de Dom João III.

Este primeiro que aqui ponho é o de Dom Duardos que vem ao fim da

tragicomedia (aliás drama cavalheiresco) do mesmo titulo. Em castelhano

foi escripta a tragicomedia, e em castelhano alli vem o romance; na

collecção, que por vezes tenho citado, do cavalheiro de Oliveira,

apparece em portuguez com declaração de se incontrar assim n’um antigo

manuscripto do seculo XVI que visivelmente era contemporaneo do poeta. Eu

dou-o em ambas as linguas. E pôsto que os nossos vizinhos o codificassem

em seus romanceiros como proprio, fica assim evidente o ser elle de

fábrica portugueza e do nosso Gil-Vicente, quer primitivamente o

composesse elle na nossa lingua, quer na d’elles.

Eisaqui o que, no fim da tragicomedia, diz Artada, antes de cantar o

romance:

‘Por memoria de tal trance

Y tam terrible partida

Venturosa,

Cantemos nuevo romance

A la nueva despedida

Peligrosa.’

Acabado de cantar e findo o auto, diz o patrão, virando-se para elrei—não

o rei da comedia, mas o rei portuguez Dom João III em cuja côrte e

presença ella se representava:

‘Lo mismo iremos cantando

Por esa mar adelante,

Á las sirenas rogando

Y Vuestra Alteza mandando:

Que en la mar siempre se cante.’

Era pois novo o romance, por seu o dava Gil-Vicente, que não precisava

nem usava de brilhar com o alheio, e a elrei seu amo e seu protector,

como tal o endereçava. Não posso deixar de o crer e acceitar como seu.

A licção portugueza de Oliveira differe algum tanto da castelhana de

Gil-Vicente; e ésta não pouco da que vem no ROMANCEIRO GERAL de Duran e

no TESORO de Ochoa.

Juntam-se aqui todas tres, para que as confrontem os curiosos, e se

illustre assim a questão que, tórno a dizer, suscito, não resolvo.

DOM DUARDOS[109]

Era pelo mez de Abril,

De Maio antes um dia,

Quando lyrios e rosas

Mostram mais sua alegria;

Era a noite mais serena

Que fazer no ceo podia,

Quando a formosa infanta,

Flérida ja se partia;

E na horta de seu padre

Entre as árvores dizia:

—‘Com Deus vos ficade, flores,

Que ereis a minha alegria!

Vou-me a terras extrangeiras

Pois lá ventura me guia;

E se meu pae me buscare,

Pae que tanto me queria

Digam-lhe, que amor me leva,

Que eu por vontade não ia;

Mas tanto atimou commigo

Que me venceu co’a porfia.

Triste, não sei onde vou,

E ninguem não m’o dizía!...’

Alli falla Dom Duardos:

—‘Não choreis, minha alegria,

Que nos reinos de Inglaterra

Mais claras aguas havia,

E mais formosos jardins,

E flores de mais valia.

Tereis trezentas donzellas

De alta genealogia;

De prata são os palacios

Para vossa senhoria;

De esmeraldas e jacynthos

E oiro fino de Turquia,

Com lettreiros esmaltados,

Que a minha vida se lia,

Contando das vivas dores

Que me déstes n’esse dia

Quando com Primalião

Fortemente combatia:

Mattastes-me vós, senhora,

Que eu a elle o não temia...’

Suas lagrymas inchugava

Flérida que isto ouvia.

Ja se foram ás galeras

Que Dom Duardos havia.

Cinquenta eram por conta,

Todas vão em companhia.

Ao som do doce remar

A princeza adormecia

Nos braços de Dom Duardos,

Que tam bem a merecia.

Saibam quantos são nascidos

Sentença que não varia:

Contra a morte e contra amor

Que ninguem não tem valia.

I

VERSÃO CASTELHANA DE GIL-VICENTE[110]

En el mes era de Abril,

De Mayo antes un dia,

Cuando lirios y rosas

Muestran mas su alegria,

En la noche mas serena

Quel el cielo hacer podia,

Cuando la hermosa infanta

Flérida ya se partia:

En la huerta de su padre

A los árboles decia:

—‘Quedaos adios, mis flores,

Mi gloria que ser solia;

Voyme á tierras estrangeras

Pues ventura alla me guia.

Si mi padre me buscare

Que grande bien me queria

Digan que amor me lleba

Que no fué la culpa mia:

Tal tema tomó conmigo

Que me venció su porfia.

Triste nó se adó vó,

Ni nadie me lo decia.’

Alli habla Don Duardos:

—‘No lloreis mi alegria,

Que en los reinos de Inglaterra

Mas claras aguas habia,

Y mas hermosos jardines

Y vuesos, señora mia.

Terneis trecientas doncellas

De alta genealogia;

De plata son los palacios

Para vuesa señoria,

De esmeraldas y jacintos,

De oro fino de Turquia

Con lettreros esmaltados

Que cuentan la vida mia,

Cuentan los vivos dolores

Que me distes aquel dia

Cuando com Primaleon

Fuertemente combatia:

Señora vos me matastes,

Que yo a el no lo temia.

Sus lagrimas consolaba

Flérida qu’esto oia;

Fueron-se a las galeras

Que Don Duardos tenia.

Cincuenta eran por cuenta,

Todas van en compañia.

Al son de sus dulces remos

La princesa se adormia

En brazos de Don Duardos

Que bien le pertenecia.

Sepan cuantos son nacidos

Aquesta sentencia mia:

Que contra la muerte y amor

Nadie no tiene valia.

II

VERSÃO CASTELHANA DE DURAN[111]

En el mes era de Abril,

De Mayo antes un dia,

Cuando los lirios y rosas

Muestran mas sua alegria,

En la noche mas serena,

Qu’el cielo hacer podria,

Cuando la hermosa infanta

Flérida ya se partia;

En la huerta de su padre

A los árboles decia:

—‘Jamas en cuanto viviere

Os veré tan solo un dia,

Ni cantar los ruiseñores

En los ramos melodia.

Quédate á Dios, agua clara,

Quédate á Dios, agua fria,

Y quedad con Dios, mis flores,

Mi gloria que ser solia.

Voime á las tierras estrañas,

Pues ventura allá me guia.

Si mi padre me buscáre,

Que grande bien me queria,

Digan que el amor me lleva,

Que no fué la culpa mia.

Tal tema tomó conmigo,

Que me forzó su porfia.

Triste nó sé donde voy:

Ni nadie me lo decia.’

Alli habló Don Duardos:

—‘No lloreis mas, mi alegria,

Que en los reinos de Inglaterra

Mas claras aguas habia,

Y mas hermosos jardines,

Y vuestros, señora mia.

Terneis trescientas doncellas

De alta genealogía;

De plata son los palacios

Para vuestra señoria;

D’esmeraldas y jacintos

Toda la tapeçaría;

Las camaras ladrilladas

D’oro fino de Turquia,

Com letreros esmaltados

Que cuentan la vida mia,

Contando vivos dolores

Que me diéstedes un dia

Cuando com Premaleon

Fuertemente combatia.

Señora, vós me matastes,

Que yo a el no lo temia.’

Sus lagrimas consolaba

Flérida qu’esto oia,

Y fueron-se á las galeras,

Que Don Duardos habia:

Cincuenta eran por todas,

Todas van en compañia.

Al son de sus dulces remos

La infanta se adormecia

En brazos de Don Duardos,

Que bien le pertenecia.

Sepan cuantos son nacidos

Aquesta sentencia mia:

Que contra muerte y amor

Nadie no tiene valía.

XXXI

A AMA

Bernardim-Ribeiro foi natural da villa do Torrão no Alemtejo, vivia por

fins do XIV, principios do XV seculo; era moço fidalgo d’elrei Dom Manuel

e servia no paço, onde a belleza e perfeições da infanta Dona Beatriz

lhe inspiraram uma paixão de verdadeiro ‘Macias namorado.’ Ainda não

estava tam longe o tempo em que princezas e rainhas ouviam sem infado e

acceitavam sem desaire as homenagens dos trovadores. Bernardim era moço,

talvez bem parecido, discreto decerto: ha toda a razão de crer que foi

ouvido com sympathia e indulgencia. Toda a sua felicidade ficou por

aqui, segundo elle diz:

‘Que para mais esperar

Nunca me deram logar.’

E ésta deve de ser a verdade; ou elle, de fino amante, no’la occultou: em

qualquer dos casos devemos crê-lo sôbre sua palavra.

A infanta casou por procuração com o duque Carlos de Saboia, em Lisboa

nos paços da Ribeira, a 7 de Abril de 1520[112]; e em Agosto seguinte

partiu para Italia. As ‘Saudades’[113] do seu amante ficaram eternizadas

no mysterioso livro que com esse titulo compôs. D’elle se extrahiu este

romance, propriamente soláo. Tudo aqui é contado e ditto por um modo

de enigmas e allegorias inteiramente inexplicaveis para quem ignorasse

os mysteriosos amores do trovador e da princeza. Tam sincero—e amiude

grosseiro a podêr de sincero—é o modo de dizer dos antigos menestreis,

quanto este é delicado por demais, e á força de o ser, obscuro.

O argumento simplissimo diz-se em poucas palavras. Beatriz está retirada

em sua camera. Sua paixão por Bernardim é segredo para a boa ama que a

criou e que tanto lhe quer. Canta-lhe ésta um ‘cantar’ a modo de ‘soláo’

em que tristemente conta e lamenta a má ventura que desde a nascença tem

perseguido a sua querida menina, e que maiores desgraças lhe faz temer no

futuro.

O stylo tem toda a ingenuidade dos antigos cantares, todo aquelle perfume

de bonina selvagem que só se incontra pelas devezas incultas da poesia

primitiva. E todavia, se ainda são as flores singelas do monte, ja se

conhece arte no formar do ramalhete. Ja não são as notas desgarradas, e

asperas por vezes, do primeiro trovar asturiano ou leonez que tiniam á

dureza de ferro dos descendentes de Pelayo. Ja por aqui andam _modos_

de trovador proençal. A melodia porêm ainda é puramente romantica; as

harmonias é que presentem fórmas mais classicas. Vê-se o antigo toante

do romance peninsular cedendo á difficil e dura lei das complicadas

rhymas proençaes. Ha mais ainda; ha uma perfeição no _número_ dos rhytmos

que adivinha ja as doçuras italianas. É o trovador do seculo XV dando a

mão ao poeta do seculo XVI. O que predomina todavia é o modo provençal; e

este é, repitto, um legitimo soláo.

A AMA

Pençando-vos[114] estou, filha,

Vossa mãe me está lembrando;

Enchem-se-me os olhos d’agua,

N’ella vos estou lavando.

Nascestes, filha, entre mágoa;

Pera bem inda vos seja!

Pois em vosso nascimento

Fortuna vos houve inveja.

Morto era o contentamento

Nenhuma alegria ouvistes;

Vossa mãe era finada,

Nós outros eramos tristes.

Nada[115] em dor, em dor criada,

Não sei onde isto hade ir ter:

Vejo-vos, filha, fermosa,

Com olhos verdes crescer.

Não era ésta graça vossa

Pera nascer em destêrro:

Mal haja a desaventura

Que pôs mais n’isto que o êrro!

Tinha aqui sua sepultura

Vossa mãe, e a mágoa a nós!

Não éreis vós, filha, não,

Pera morrerem por vós.

Não ouvem fados razão,

Nem se consentem rogar;

De vosso pae hei mor dó,

Que de si se ha de queixar.

Eu vos ouvi a vós só

Primeiro que outrem ninguem;

Não foreis vós se eu não fôra:

Não sei se fiz mal se bem.

Mas não póde ser, senhora,

Pera mal nenhum nascerdes,

Com esse riso gracioso

Que tendes sob olhos verdes.

Confôrto, mas duvidoso,

Me é este que tómo assi!

Deus vos dê melhor ventura

Do que tivestes téaqui.

A Dita e a Fermosura,

Dizem patranhas antigas,

Que pelejaram um dia,

Sendo d’antes muito amigas.

Muitos hão[116] que é phantesia:

Eu, que vi tempos e annos,

Nenhuma coisa duvido

Como ella é azo de damnos[117].

Nem nenhum mal não é crido,

O bem so é esperado:

E na crença e na esperança,

Em ambas ha hi cuidado,

Em ambas ha hi mudança.

XXXII

AVALOR

Este, que é verdadeiro romance na fórma assim como no stylo, parece ter

sido feito á partida da infanta para Saboia, ou talvez por occasião da

viagem que Bernardim-Ribeiro alli fez para a ver.

Fôsse como ou quando fôsse, elle é admiravel. Ha menos artificio metrico,

não menos belleza de poesia que nos outros, não menos sentimento. O stylo

é mais desleixado, mais vago, mais de romance.

Em todas as vastissimas collecções castelhanas não ha nada tam bello

de elegante simplicidade. Ja se vê que não faço a comparação no genero

heroico ou historico; digo-o dos romances de amor e aventura.

AVALOR

Pela ribeira de um rio

Que leva as aguas ao mar,

Vai o triste de Avalor,

Não sabe se hade tornar.

As aguas levam seu bem,

Elle leva o seu pesar;

E so vai, sem companhia,

Que os seus fôra elle leixar;[118]

Ca quem não leva descanço

Descança em so caminhar.

Descontra d’onde ia a barca,

Se ia o sol a baixar;

Indo-se abaixando o sol,

Escurecia-se o ar;

Tudo se fazia triste

Quanto havia de ficar.

Da barca levantam remos,

E ao som do remar

Começaram os remeiros

Da barca este cantar:

—‘Que frias eram as aguas!

Quem as haverá de passar?’

Dos outros barcos respondem:

—‘Quem as haverá de passar?’

Frias são as aguas, frias,

Ninguem n’as póde passar;

Senão quem pôs a vontade

Donde a não póde tirar.[119]

Tra’la barca lhe vão olhos

Quanto o dia dá logar:

Não durou muito, que o bem

Não póde muito durar.

Vendo o sol pôsto contr’elle[120],

Não teve mais que pensar;

Soltou redeas ao cavallo

Á beira do rio a andar.

A noite era callada

Pera mais o magoar,

Que ao compasso dos remos

Era o seu suspirar.

Querer contar suas mágoas

Seria areias contar;

Quanto mais ia alongando,

Se ia alongando o soar.

Dos seus ouvidos aos olhos

A tristeza foi egualar;

Assi como ia a cavallo

Foi pela agua dentro entrar.

E dando um longo suspiro

Ouvia longe fallar:

Onde mágoas levam olhos,

Vão tambem corpo levar.

Mas indo assi por acêrto,

Foi c’um barco n’agua dar

Que estava amarrado á terra,

E seu dono era a folgar.

Saltou assi como ia, dentro,

E foi a amarra cortar:

A corrente e a maré

Acertaram-n’o a ajudar.

Não sabem mais que foi d’elle,

Nem novas se podem achar:

Suspeitaram que foi morto,

Mas não é pera affirmar:

Que o imbarcou ventura,

Pera so isso aguardar.

Mas mais são as mágoas do mar

Do que se podem curar.

XXXIII

CUIDADO E DESEJO

Todo este soláo—e creio que propriamente este é tambem um verdadeiro

soláo—todo elle é alegorico dos mysteriosos amores do ‘poeta das

saudades.’

Romanceiro III: Romances Cavalherescos Antigos · 第 2 / 6 段