da prioridade do descobrimento da costa occidental da Africa, e
particularmente d'esta costa da Malagueta pelos portuguezes, mui
deliberadamente a não tenho querido tratar, porque, com prefeita
sinceridade e desprendido de todo o falso patriotismo a julgo fóra
de contestação. No entanto, não posso deixar de recordar que Villaud
de Bellefond, diz do Rio dos Cestos, que fôra assim chamado pelos
portuguezes: «_a cause d'une espèce de poivre qui y croit, quils
appellent sextos:_» e em outra parte, fallando dos negros da Costa,
diz: _le peu de langage qu'on peut entendre est français. Ils
n'appellent pas ce poivre sextos a la portugaise, ni grain a la
hollandaise, mais malaguette._» É difficil accumular tantos e tão
palmares erros em tão poucas palavras! Pena é que estas ridiculas
asserções fossem admittidas por escriptores serios e de boa nota.
[82] Veja-se a p. 25.
[83] Taes foram as viagens feitas pelos hespanhoes no anno de 1475,
de que falla D. Diogo Ortiz de Zuniga (_Annales ecl. y sec. de
Sevilla_, p. 373. Madrid, 1677); e outras levadas a cabo, ou
projectadas, no anno de 1478, a que se refere um documento citado
por Navarrete (_Coll._ t. II, pag. 386). Mas logo no anno seguinte
de 1479, feitas as pazes com Hespanha, se reconheceram os direitos
de Portugal ao exclusivo do commercio de Guiné. Veja-se tambem em
Garcia de Rezende (_Chron. d'elrey D. João III_, cap. XXXIII e cap.
LXXIII) a relação das duas embaixadas enviadas a Inglaterra em
resultado dos preparativos, feitos por João Tintam e Guilherme
Fabiam, por ordem do duque de Medina Sidonia, para passar a Guiné,
no anno de 1481; e annos depois, no de 1484, em virtude de egual
tentativa do conde de Penamacor. Em um e outro caso foram desde logo
dadas ordens expressas para que taes viagens não tivessem logar,
sendo mesmo o conde de Penamacor encarcerado na torre de Londres.
Sobre estas e outras reclamações diplomaticas, veja-se o que diz o
visconde de Santarem (_Recherches sur la déc._, etc., p. 198 a 222).
[84] (_Annaes de el-rey D. João III_ por fr. Luiz de Sousa,
publicados por Alexandre Herculano, p. 374.) Os plenipotenciarios
francezes, cujos nomes citei com a orthographia usada nos Annaes,
eram: Antonio du Prat, chanceller de França, que abraçando em edade
já avançada o estado ecclesiastico, veiu a ser arcebispo de Sens,
cardeal e legado a latere: o bem conhecido Anne de Montmorenci, que
então ainda não fôra elevado á dignidade de condestavel, sendo
simplesmente grão mestre: e provavelmente João de Gontault, barão de
Biron, que consta fôra empregado em missões diplomaticas junto do
imperador e do rei de Portugal. No entanto não o encontro entre os
almirantes de França, sendo este cargo desempenhado, na data das
negociações, por Philippe de Chabot, conde de Charny: é porém
possivel, que exercesse as funcções de almirante temporariamente e
no impedimento do titular.
Estas negociações sobre as viagens dos francezes, e as cartas de
marca, continuaram por muito tempo, passando a França o conde da
Castanheira, e depois Bernardim de Tavora. Este ultimo levava, ao
que parece, instrucções para offerecer ao chanceller, ao grão-mestre
e ao almirante, quatro mil cruzados a cada um, em cada anno, para os
dispor melhor em favor dos interesses de Portugal. Veja-se (_Ann.
d'el-rei D. João III_. p. 370 e 379), e o que diz o visconde de
Santarem (_Recherches sur la déc_. etc. p. 216 e seguintes).
[85] Os capitulos de concerto foram passados a 11 de julho de 1531.
Mais tarde os nossos direitos foram tambem reconhecidos no tratado
concluido em Lyão a 14 de julho de 1536, e nas cartas patentes de
Francisco I, datadas de Valença e de Lyão de 8 e 27 de agosto do
mesmo anno. Veja-se o visconde de Santarém (_Recherches_, etc., pag.
219).
[86] Em um extenso e curioso despacho, de que vi o original na Torre
do Tombo (_Corp. Chron_. p. I, maço 47, doc. 75).
[87] Veja-se (_Delle nav. et viagg._, etc. III, p. 417, v.º ed. de
1565).
[88] _Annaes d'el-rey D. João III_, p. 306.
[89] (Ibid., p. 404.) Deve-se notar, que o conde se não refere
unicamente ao trato da droga, mas ao commercio de toda a costa, pois
a palavra malagueta significa aqui a região e não a especiaria.
Encontra-se muitas vezes, nos escriptores d'aquelle tempo, empregada
a expressão _a malagueta_, por costa da Malagueta.
Se este documento é, como parece, do anno de 1542, segue-se que as
viagens dos francezes haviam começado pelos annos de 1513 ou 1514,
um pouco mais cedo do que suppõe o visconde de Santarem
(_Recherches_, etc., pp. 213-223).
[90] As narrativas d'estas viagens, publicadas por Eden e outros,
foram depois reunidas na importante collecção de Hakluyt. Não tive
esta obra á minha disposição, e só póde consultar a versão franceza
má e incompleta, que faz parte da (_Hist. gén. des voyages_, etc. II
p. 242 e seguintes. Paris, 1746).
[91] Penteado tinha feito viagens a Africa, sendo mesmo encarregado
da guarda da costa da Malagueta, antes de passar a Inglaterra,
aggravado por uma prisão que julgou injusta. Dos esforços feitos
pelo infante D. Luiz para que voltasse ao reino, se deduz que era
pessoa de importancia. Foi victima n'esta viagem dos maus tratos e
dissabores, porque o fizeram passar os inglezes.
[92] A _bota_ ou antes _botta_, segundo a orthographia proposta por
Duarte Nunes de Leão, correspondia a duas terças partes de uma pipa.
Dava-se tambem este nome a um barril grande ou barrica d'aquellas
dimensões. Em barricas se trazia então habitualmente a malagueta.
João Lok, trouxe em 1554 «_thirty six butts of graines_.» O _butt_ é
uma barrica da capacidade de cento e vinte e seis gallões.
[93] O visconde de Santarem cita brevemente este despacho, e diz que
elle fixa a época em que a primeira malagueta foi levada ao mercado
de Ruão. Do theor do despacho não resulta bem claramente que fosse a
primeira vez, e unicamente se vê que não era um acontecimento vulgar
e corrente.
[94] ... _a very hote fruit, and much like unto a fig, as it groweth
on the tree_. (Hakluyt II, p. 12, citado por Daniell.)
[95] _They grow a foot and a half, or two foot from the ground, and
are red as blood when they are gathered. The graines themselves are
called by the Physicians Grana Paradisi._ (Ibid. p. 22, citado por
Daniell.)
[96] Já fiz notar que esta asserção, referindo-se a uma época
posterior perto de um seculo ao descobrimento d'aquella parte da
costa, nenhuma importancia tem relativamente á primitiva origem do
nome.
[97] _Annaes d'el-rei D. João III_, etc., p. 378.
[98] (Ibid. p. 401). Esta venda foi talvez realisada nas feitorias
de Flandres, que ainda então existiam, sendo n'este anno feitor
Jorge de Barros: a feitoria de Flandres só foi desfeita no anno de
1549.
[99] Flükiger and Hanbury (_Pharmacographia_ p. 592.)
Notas de transcrição:
Foram encontrados e corrigidos alguns erros de impressão que não têm
influencia no significado das frases.
No original existiam algumas palavras em grego, que nesta versão não é
possível representar. Essas palavras foram transliteradas para caracteres
latinos e rodeadas pelos caracteres ++, ex. +peperi+.