Principio do veraõ fermoso e brando,
Que com nova alegria
Estaõ denunciando,
As aves namoradas
Dos floridos raminhos penduradas.
Jà abre a bella Aurora
Com nova luz as portas do Oriente,
E mostra a linda Flora
O prado mais contente,
Vestido de boninas,
Aljofradas de gotas cristalinas.
Jà o Sol mais fermoso
Està ferindo as agoas prateadas,
E Zefiro queyxoso
Hora as mostra encrespadas
A vista dos penedos,
Hora sobre ellas move os arvoredos.
De reluzente area
Se mostra mais fermosa a rica prata,
Cuja riba se arrea
Do alemo, et da faya,
Do freyxo, et do salgueyro,
Do ulmo, da aveleyra, et do loureyro.
[219] For instance, at the close of a beautiful cançaõ, which a
shepherd sings in his solitude.
Porem, se sonha fora
Como este prado e valle inda apparece,
Estas ramos sombrios, este onteiro,
Que mostram ainda agora
A verdura das folhas, que escurece
A falta do seu sol, como primeiro?
Como naõ foi ligeiro
O monte, a valle, as plantas e a verdura
Tras sua formosura!
Porque era todo agreste;
Solo que ella levava, era celeste.
[220] For example:--
Passa o bem como sombra, et na memoria
He mayor quanto foy mais desejado;
A pena ensina a conhecer a gloria,
Naõ se conhece o bem senaõ passado.
Em mim o caso soube desta historia,
E no que mostrou ja meu cuydado,
Vejo no que naõ vejo, et no que via,
Quaõ pouco tempo dura huma alegria,
Quanto melhor me fora se naõ vira
Hum enganoso, et vaõ contentamento,
Que ainda que faltarme alli sentira,
Era muyto menor o sentimento.
Mas vio minha alma o bem porque suspira,
Foy traz elle seguindo o pensamento,
Que como era novel, naõ conhecia
Quam pouco tempo dura huma alegria.
[221] As in the following pleasing sonnet:--
Agoas, que penduradas desta altura
Cahis sobre os penedos descuydadas,
Aonde em branca escuma levantadas
Offendidas mostrais mais fermosura;
Se achais essa dureza tam segura,
Para que porfiais aguas cansadas?
Ha tantos annos ja desenganadas,
E esta rocha mais aspera, et mais dura.
Voltay a traz por entre os arvoredos,
Aonde os camenhareis com liberdade,
Atè chegar ao fim tam desejado.
Mas ay que saõ de amor estes segredos,
Que vos naõ valerà propria vontade,
Como a mim naõ valeo no meu cuidado.
[222]
Sae o Sol desejado,
Dà aos campos a cor, o ser ao dia,
O pasto ao manso gado.
Correndo vem traz elle a noyte fria,
Onde jà sua luz naõ resplandece,
E alli quando amanhece
Nos deyxe conhecer,
Que para aparecer desaparece.
Hum dia vay fugindo,
E o que corre traz elle nos alcança,
E todos se vaõ rindo
De meu engano vaõ, minha esperança,
Que por mais que a ventura me desvia,
Vivo nesta porfia,
Segundo meus enganos,
Esperando em mil annos hum só dia.
[223] They must be transcribed here at length, for fragments would not
afford an idea of their spirit. It would be difficult to find any more
tender sports of fancy of this kind.
_Reposta de Ardenio à pergunta primeyra._
Quem ama sem esperança,
Se ama mais perfeytamente?
Ninguem ama sem querer,
Ninguem quer sem esperar,
O que ama, espera, et quer,
Poderà nunca alcançar,
Mas sempre ha de pertender.
Se a era lhe falta à planta,
Em cujo tronco se arrime,
Nem cresce, nem se alevanta,
Que em fim naõ tem força tanta,
Que se levante, et sublime.
E se a amor lhe faltàra
Esperança, que o sustente,
Na raiz propria se cura,
E inda naõ sey se brotàra,
Ou se afogára a semente.
De sorte que em qualquer peyto,
Sem esperança ou favor
De seu desejado objecto,
Naõ só falta Amor perfeyto,
Mas falta de todo Amor.
_Reposta da pastora Dinarea à mesma pergunta._
Amor, que a proprio respeyto
Todo o dezejo offerece
Só por seu gosto, ou proveyto,
Naõ se chame amor perfeyto,
Antes perfeyto interesse.
Amor he somente amar,
Este he seu meyo, et seu fim,
E o que pretende alcançar,
Nem se ha de lembrar de sim,
Nem do que pode esperar.
O que he verdadeyro amante
Naõ se funda na esperança,
Só seu querer poem diante,
E se por ventura alcança,
Sem ventura he mais constante.
Quando n’alma huma bellesa
Mostra seu rayo invencivel,
E amor seu preço, et grandeza,
Naõ faz differente empreza
Entre facil, et impossivel.
E he ja cousa averiguada,
Que somente este rigor
Merece ante a cousa amada,
E o que quizer mais de amor,
Nem quer, nem mereceo nada.
[224] To these three competition songs a page or two must be devoted.
Fanciful compositions of this kind, though now out of date, are
curious; and ingenious simplicity in so elegant a form is seldom to be
met with even in romantic literature.
_Reposta de Riseo à tercera pergunta»_
Que parentesco chegado
Tem amor com o ciume.
Amor como se presume
Ouve por certa affeyçaõ,
Hum filho da ocasiaõ,
A que chàmaraõ Ciume.
He igual ao pay, et mór,
Que amor com muyta grandeza,
Palreyro por natureza,
Que em fim he filho de Amor.
Vè muyto aonde quer que vay,
Naõ voa, antes he pezado,
E em qualquer parte tocado,
Tem o topete da mãy.
Vive de enganos que faz,
E anda nelles de contino,
E como Amor he menino,
Tambem o filho he rapaz.
Dà ao pay sempre mà vida,
E assim naõ me maravilho,
Que disconheçaõ por filho,
Porque Amor mesmo duvida.
_Reposta de Egerio à mesma pergunta._
Estes irmaõs desiguaes,
Ambos de Venus nascèraõ,
E tiranos se fizeraõ
Do Imperio de seus pays.
Nasceo de Vulcano cego
O Ciume, et logo entaõ
Tomou o cargo este irmaõ,
A quem nunca deu socego.
E parecia acertado
Que hum filho que tal parece
Da fermosura nascesse,
E de hum pay desconfiado.
Ambos nascem juntamente,
E vivem fazendo dano,
Hum com redes de Vulcano,
Outro com seu fogo ardente.
Seguem differente fim,
E vivem sempre em perigo,
Cada hum do outro inimigo,
E acompanhaõ sempre assim.
Mostre por prova melhor,
Quem o contrario presume,
Se vio Amor sem ciume,
Ou ciume sem amor?
_Reposta de Lereno à mesma pergunta._
Nestes dous naõ ha liança,
Nem pode haver amizade,
Que hum he filho da vontade,
Outro da confiança.
Hum de nobre, inda que agora
Degenere do em que estava,
Ciume he filho de escrava,
E Amor filho de senhora.
E claramente se apura
Ser o outro escravo seu,
Porque em dote se lhe deu,
Casando co a fermosura.
Servio de guia, et da fè
Mil vezes falsa, et errada,
E porque Amor naõ vè nada
Lhe mostra mais do que vè.
Da senhora, et do senhor
Quem jà conheçe o costume,
Sirvase bem do Ciume,
Porque he escravo de Amor.
[225] The word _desenganado_ (in Spanish _desengañado_) is not so
happy an expression as the English _disenchanted_, or the German
_entzauberte_. It is the word commonly used to designate one who is no
longer enamoured. The _Desengaño_ (the _disenchantment_ in affairs of
love) is also employed by the Spanish poets as an allegorical character.
[226] See preceding vol. page 407.
[227] See page 171.
[228] Naõ estranheis ouvir rusticos filosofos e avisados Aldeaãs.--E
assim, como na arte do pintar representaõ as cores differentes o
natural de huma figura, e a forma della e substancia e attençaõ, porque
foy figurada, assim o que nesta minha naõ parecer que representa o modo
dos Pastores, attribui ao intento, que he, mostrar debaixo o seu barel
a condição dos vicios e o sossejo das virtudes, &c.
[229] See page 20.
[230]
Mis señores romancistas
Poetas de Lusitania,
Que hurtastes las invenciones,
A la lengua Castellana.
Buelved ya vuestros papeles,
Entregadlos a la fama,
Que donde ay tan buenas plumas
No es razon que falten alas.
No veis que estan ya sin hojas
Los laureles de Castalia,
Que dana cada español
Romancista, una grinalda, &c.
[231]
No correremos tambien
El Alhambra, el Alpuxarra,
Do estan Daraxa y Celinda,
Adalifa y Celidaxa?
[232] See preceding vol. page 306.
[233] See preceding vol. page 49.
[234] The _Ribeiras_ are here the streams which flow into the Mondego.
As, however, the word _ribeira_ also signifies a bank, the title of
this unimportant romance may in translation be more conveniently
expressed by the latter sense.
[235] The commencement of the tale may be transcribed here as a
specimen. It is preceded by an introductory song:--
Se alguem chorando canta, assi cantava hum pastor à vista do Rio
do Mondego, sentado sobre huma sepultura, cuja antiguidade a pezar
do tempo, et da inveja descobria a fama entre as ruynas de huns
derribados edificios na entrada de hum valle, a quem altos Cyprestes,
et outras funebras plantas faziaõ com carregadas sombras morada
eterna da tristeza. Corria o Rio alegre, et nunca tanto atras da
fermosa Arethusa o namorado Alpheo. Agora com appressado curso, por se
appartar das Ribeyras humildes, que o perseguem, mostrava seu furor na
crespa escuma, et logo desfazendoa jà livre dellas hia mais vagoroso.
Retratavaõse nelle (como em espelho) os frescos arvoredos, que de huma,
e doutra parte o assombravaõ em cerrada espessura.
[236] Let, for example, the following verses be compared with similar
passages in the works of Camoens and Rodriguez Lobo:--
Faz o tempo hum breve ensayo
Do bem, que em nacendo morre,
E mostrame quanto corre
Na ligeireza de hum rayo:
Passa o bem, e o tempo assi,
De hum, et doutro vivo ausente,
E vejo, porque o perdi,
Para lembrarme sòmente
Aquelle tempo, que vi.
Em quanto quiz a ventura,
O que meus olhos naõ vem,
Entaõ via sò meu bem,
Mas hoje quam pouco dura!
Faz o tempo o officio seu,
E o bem no mal, a que venho,
Larga experiencia deu,
Este bem he o que naõ tenho,
Que sò pude chamar meu.
[237] _Rebello_ is sometimes called _Rebelo_, and sometimes _Rabelo_.
And, in like manner, in his tales the names of _Justin_ and _Leonidas_
are occasionally written _Gustino_ and _Leonitas_, The _Constante
Florinda_ has been frequently printed. The edition which I have before
me was published so recently as the year 1722. There have also been
several editions of Rebello’s novels.
[238] In the preface he moralizes thus:--
Muytos servos há no Mundo, que sam servos do Mundo, os quais sò com
elle tratam seus negocios, metidos em os bosques de cuydades mundanos,
sustentando-se em os montes de pensamentos altivos: sem quererem tomar
conselho com hum livro espiritual que lhes ensine o que devem fazer.
Compadecido destes quis disfarçar exemplos, et moralidades com as
roupas de historias humanas. Para que vindo buscar recreaçam, para o
entendimento, em a elegancia das palavras, em o enredo das historias,
em a curiosidade das sentenças, et em a liçaõ das fabulas, achem
tambem e proveyto, que estam offerecendo, que he hum claro desengano
das cousas do Mundo, et fiquem livres dos perigos, a que estaõ muy
arriscados, cõ seus ruins conselhos.
[239] Thus, in describing melancholy, he with pompous gravity compares
it to sea sickness:--
Assim como os que navegaõ sobre as ondas do mar que enjoande em hum
navio, nem por se passarem a outro perdem a nauzea que os atormenta,
porque naõ nasce do lugar, senaõ dos ruins humores que em si trazem
levantados. Assim os tristes, et affligidos ainda que mudem o lugar,
nem por isso deyxa a fortuna de os perseguir; porque naõ lhes nascem
os males do lugar que deyxaõ, se naõ da fortuna que contra elles anda
levantada.--_Part II. cap, 5._
[240] See preceding vol. p. 205.
[241] _Asia de Joaõ de Barros, dos feitos que os Portuguezes fizeram
no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente._ The first
edition of the first decade was published at Lisbon in the year 1553.
The whole work has been frequently printed since that period.
[242] For example, (in _Decad 1. livr._ iii. _cap. 2._) Barros
describes Columbus as visiting the King of Portugal with a malignant
joy on his return from his expedition to America, and as acting the
part of an empty boaster. But was the discoverer of America a braggart?
[243] The following is the commencement of the description of the city
of Ormus, which before the discovery of the new passage by the Cape of
Good Hope, was the mart for the merchandize of India in its progress to
Alexandria:--
A cidade Ormuz estâ situada em huma pequena ilha chamada Gerum, que
jaz quasi na garganta de dentro do estreito do mar Persio, taõ perto
da costa de terra de Persia, que averâ de huma â outra tres leguoas,
et dez da outra Arabia, et terà em roda pouco mais de tres leguoas:
toda mui esteril, et a major parte huma maneira de sal, et enyofre
sem naturalmente ter hum ramo ou herva verde. A cidade em si he mui
magnifica em edificios, grossa em trato por ser huma escala, onde
concorrem todalas mercadorias orientaes, et occidentaes a ella, et
as que vem da Persia, Armenia, et Tartaria que lhe jazem ao Norte:
de maneira, que naõ tendo a ilha em si cousa propria per carreto tem
todalas estimadas do mundo. Porque atè aguoa, cousa taõ cõmum, tirando
alguma de tres poços et cisternas, toda lhe vem da terra firme da
Persia, della em vasilhas, et outra solta em barcas cõ toda hortaliça,
verdura, fruta verde et sorodea que despende, que he em abastança: assi
da comarca a que elles chamaõ Mogostaõ, como destas ilhas que tem por
vinzinhas, Queixome, Larec, et outras com que a cidade he taõ vizosa
et abastada, que dizem os moradores della, que o mundo he hum anel, et
Ormuz huma pedra preciosa engastada nelle.--_Decada II. livr. ii. cap.
2._
[244] Of this an excellent example is afforded in the description
of the perplexing situation in which the Portuguese were placed
at the taking of the Indian town of Calecut, when confined in the
narrow streets, and overpowered by the fatigues of the combat, they
were in danger of being forced to yield to an enemy far weaker than
themselves:--
E certo que era cousa digna de admiraçaõ, et pera se muito condoer de
taõ triste caso, porque contemplando obra de seiscentos homens que
seriaõ os nossos, entalados entre aquelles vallos: tanto sobrelevava
o fervor do sol, et a poeira dos pés, et trabalho que a noite passada
té aquelles oras tinhaõ sofrido, sobre toda a força do seu animo, que
naõ se podiaõ defender de até otienta Naires, que pela estrada os
perseguiaõ derribando poucos et poucos: et o que era maes miseravel, se
de cima dos vallos lançavaõ naquelle cardume dos nossos hum zarguncho,
huma seta, huma pedrada, nunca dava no chaõ, et qualquer que acurvava
os pés de todos trilhando o acabavaõ de matar. Finalmente aqui dous,
ali quatro, seis, oito, sempre foraõ caindo té que sairaõ daquella
estreiteza do vallo ao largo da cidade: a qual ainda que ardia em fogo,
menos sentiraõ o que nella andava, que aquella forno de morte, donde
vinhaõ afogados, et cegos de sede et pó. E vendo neste largo quaõ
poucos eraõ os imigos que os perseguiaõ fezeraõ rosto a elles: cõ que
converterão parte da soltura que traziaõ, em fugir, et naõ em cometer
como d’ante faciaõ.--_Dec. II. livr. 4. cap. 1._
[245] The Portuguese Public is introduced speaking, in order to
represent in a forcible way the disapprobation with which the
enterprizing spirit of the Infante Henry was at first regarded:--
Ora onde o Infante manda descobrir, he ja tanto dentro no fervor de
sol, que de brancos que os homems sam, se la for algum de nós, ficará
(se escapar) taõ negro como sam os Guineos vezinhos a esta quentura. Se
ao Infante parece que como ora achou estas duas ilhas que o tem maes
elevado neste descobrimento, póde achar outras terras hermas grossas et
fertiles como dizem que ellas sam: terras et maninhos ha no Reyno pera
romper, et a proveitar sem perigo de mar, nem despesas desordenadas.
E maes temos exemptos contrarios a esta sua opiniaõ, porque os Reyes
passados deste Reyno sempre dos Reynos alheos pera o seu trouxeraõ
gente a este a fazer novas povoações: et elle quer levar os naturaes
Portugueses a povoar terras hermas per tantos perigos, de mar, de fome
et sede, como vemos que passam os que lá vam.--_Dec. I. Livr. i. cap.
4._
[246] He makes Antaõ Gonsalvez, a Portuguese admiral, thus address his
inferior officers:--
Amigos, nós temos feito parte daquillo a que somos inviados, que ora
carregar este navio: et dado que os servos muito mereçaõ em acabar
os mandados de quem os invia, mayor louvor será se fizermos o que o
Infante mais deseja, que he levarlhe alguma lingua desta terra. Porque
a sua tençaõ neste descobrimento, naõ he a fim da mercadoria que
levamos, mas buscar gente desta terra taõ remota da Igreja, et a trazer
ao baptismo: et depois ter com elles communicaçaõ et commercio pera
hõra et proveito do Reyno. E pois isto a todos he mui notorio, justa
cousa me parece trabalharmos por levar algum dos moradores desta terra:
porque a meu ver se Affonso Gonçalvez per esta comaria per onde este
rio vem achou gente, buscandonos bem per força devemos achar alguma
provoaçaõ, &c.--_Dec. I. livr. i. cap. 6._
[247] A continencia do seu vulto era assossegada, a palavra mança et
constante no que dizia, et sempre eraõ castas et honestas: et esta
religiaõ de honestidade guardou naõ somente em as obras, mas ainda nos
vestidos, trajos de sua pessoa, et serviço de casa. Todas estas cousas
procediaõ da limpeza de sua alma, porque se ere que foi virgem. Em seus
trabalhos et paixões, era mui sofrido et senhor de si: et em ambas
as fortunas humildoso, et taõ benigno em perdoar erros que lhe foi
tachado. Teve grande memoria et concelho a cerca dos negocios: et muita
authoridade pera os graves, et de muito peso.--_Dec. II. livr. i. cap.
16._
[248] This _Historia do descobrimento e da conquista da India pelos
Portuguezes, feita por Fernaõ Lopez de Castanheda_, was on account of
its historical merit reprinted with the old orthography at Lisbon, in
the year 1797, in two octavo volumes.
[249] _Commentarios do grande Affonso d’Alboquerque, &c._ An elegant
edition was published at Lisbon in 1774, in four octavo volumes. In
order to understand this work the reader must not spare himself the
pains of learning the maritime language of Portugal. The book will
sufficiently repay this trifling labour.
[250] These celebrated Commentaries are written throughout nearly in
the style of the following passage:--
Passadas todas estas cousas, mandou o grande Afonso Dalboquerque aos
Capitães, que levassem suas amarras, e partio-se do porto de Adem
a quatro dias do mes de Agosto, e com toda sua Armada foi á vista
do cabo de Guardafum, e dali fizeram sua navegaçaõ á outra banda da
terra, e afferrâram Diolocindi, e foram correndo toda a costa de
longo, e chegáram a Diu, onde foram muito bem recebidos de Miliqueaz,
e bem festejados de dadivas, que deo a todos os Capitães, e ali
estave seis dias, e mandou concertar os bateis das náos, que vinham
muito desbaratados; e como chegou, veio logo Miliqueaz velo á nào, e
estiveram ambos praticando em cousas desapegadas.--_Parte IV. cap. 12._
[251] _Monarchia Lusitana, composta por Frey Bernardo de Brito, &c._
The edition with which I am acquainted is in two folio volumes. The
first volume was printed in the convent of Alcobaça, in the year 1597,
and the second by a bookseller of Lisbon, in 1609.
[252] See preceding vol. p. 315.
[253] In order to form a just notion of Brito’s rhetorical merit, it
is necessary to peruse the second part of his work, in which he had no
longer the opportunity of following the ancient writers; for example,
his description of the final stroke of fate which visited the Visigoth
King Roderick, who lost the decisive battle against the Arabs. He thus
describes how the king in his retreat took refuge in the church of a
deserted convent:--
Chegado el Rey a este lugar cõ desejo de achar nelle alguma consolaçaõ
pera seu spiritu, encontrou materia de mayor lastima, et dobrado
sentimento, por que os mõges atemorizados cõ a nova que chegara poucos
dias antes et solicitos por salvar os ornamentos, et cousas sagradas,
huns eraõ jà fugidos pera dentro de Merida, outros se retiraraõ
pella terra dentro buscando guarida em outros conventos, et os menos
aguardavaõ o fim do negocio dentro no mosteiro, desejando acabar a vida
pella honra et defensão da Fé Catholica dentro naquelle santuario.
Entrou el Rey na Igreja, et vendoa nua de ornamentos, et desempesada de
Religiosos, se pos em oraçaõ com tanta dòr et angustia de coraçaõ, que
desfeito em lagrimas, se naõ lembrava que podia ser ouvido de alguma
pessoa, aquem o excesso dellas desse conhecimento de quem podia ser,
et como a fraqueza de naõ ter comido alguns dias, o desfalecimento do
cerebro, pella falta do sono, et o quebrantamento de caminhar a pé,
lhe tivessem as forças debilitadas, se lhe cerraraõ os spiritus, de
maneira, que ficou em terra com hum desmayo em que esteve privado dos
sentidos a te o achar hum monge antigo, &c.--_Livr. VII. cap. 3._
The facility of the accentuation in these long sentences is
particularly remarkable.
[254] Me deziam, que--me livrara da _grosseria_ o ruim methodo de
historiar da Portugueza.
[255] Tendo dentro de si _filhos tam ingratos_, que a modo de
_venenosas viboras_ lhe rasgaô a reputaçaõ.
[256] Se alguma cousa me lastima, he ver, que a pouca noticia que della
(a lingoa Portugueza) tenho, me fara levar o estilo de historia menos
lustroso do que podera ir, sendo composto porque fizera seu fundamento
na elegancia e fermosura da pratica mais que na verdade e certeza do
que se conta; o que se naõ permitte em homem que professa nome de
historiador authentico.--_Prologo, p. 4._
[257] With regard to these portraits, it may be observed that they are
not well engraved; but according to the assurance of Brito, they were
faithfully copied from the best likenesses extant. It would not be easy
to find a portrait of Philip II. of Spain, who is here described as the
eighteenth King of Portugal, which so decidedly expresses the character
of that austere despot.
[258] I am acquainted with this work only by means of the Spanish
translation which is entitled:--_Historia oriental de las
peregrinaciones de Fernan Mendez Pinto, Portuguez. Madr. 1620. fol._
[259] They are noticed by Barbosa Machado.
[260] These works are more particularly noticed at the commencement of
the preceding volume, page 14.
[261] See preceding vol. page 431.
[262] A writer of Spanish verse, and the author of several approved
Spanish comedies.
[263] _Jacinto Cordero_ (according to the Spanish orthography and
pronunciation of _Cordeiro_), _Elogio de poetas Lusitanos_. Lisb. 1631.
Those who wish to study the progress of Portuguese poetry, will derive
no information from this book.
[264] A sufficient acquaintance with the more celebrated of these
Portuguese sonneteers, may be acquired from the collection of
Portuguese poems, edited by Matthias Pereira da Sylva, under the
following fantastical title:--_A Fenix renascida, ou Obras poeticas dos
melhores engenhos Portugueses_ (though only those of the seventeenth
century are included). _Segunda ediçaõ. Lisb._ 1746, in 3 volumes
octavo. Not one half of this collection is worth perusing.
[265] See preceding vol. page 428.
[266] Barbosa Machado notices this polygraphic author with nearly
as much enthusiasm as the Spaniards speak of Lope de Vega. He even
asserts, that, in point of style Faria y Sousa may be placed on a
parallel with the most distinguished of the ancient writers.
[267] They are included in the first and fourth volumes of his _Fuente
de Aganippe_. (Madrid, 1446).
[268] The following sonnet will afford a specimen of these
compositions. It is not indeed totally free from affected phrases; for
example, the sixth line. But that line is sufficiently atoned for by
the rest:--
Ninfas, Ninfas, do prado, tam fermosas
que nelle cada qual mil flores gera,
de que se tece a humana Primavera
com cores, como bellas, deleitosas;
Bellezas, ô Bellezas luminosas,
_que sois abono da constante esfera_:
que todas me acudisseys, bem quisera,
com vossas luzes, e com vossas rosas.
De todas me, trazey maes abundantes,
porque me importa neste bello dia
a porta ornar da minha Albania bella.
Mas vôs, de vosso culto vigilantes,
o adorno me negays, que eu pretendia,
porque bellas nam soys diante della.
[269]
Cante de Amor os puntas penetrantes,
Que de huns divinos olhos despedidas,
Despois de dadas immortaes feridas
Sairam do meu peito triumfantes; &c.
[270] This singular declamation is as follows:--
Vos Satiros biformes que lavando
neste ribeiro estays o pè ligeiro,
deixay, deixay, o limpido ribeiro,
que em profano exercicio ides turbando.
Porque _os aureos cabellos vem mostrando_
_sobre essa superficie o meu Luzeiro_,
que là _no fundo_ della he _Sol primeiro_,
a donde _o mesmo Sol_ està _cegando_.
Deixayme sô na liquida corrente;
porque nam sairà do vitreo seyo,
se acompanhado aqui de alguem me sente.
Assi Menalio disse de Amor cheyo:
e o lavor do lavar a torpe Gente
nam deixou nunca, nem Albania veyo.
[271]
Dizerte a minha pena me recrea;
Porem na boca sinto huma amargura,
De que he somente conhecida cura
A tua numerosa e doce vea; &c.
[272] For example, the following reminiscential sonnet, which is
disfigured only by the concluding phrase:--
Sempre que torno a ver o bello prado
onde primeira vez a soberana
divindade encontrey con forma humana,
ou humana esplendor deificado:
E me acordo do talhe delicado,
do riso donde ambrosia, e nectar mana,
da fala, que dà vida quando engana,
da branca maõ, e do cristal rosado:
Do meneo suave, que fazia
crer que de brando Zefiro tocada
a Primavera toda se movia;
De novo torno a ver a Alma abrasada;
e em desejar sômente aquelle dia
vejo a Gloria Real toda cifrada.
[273] For instance the following:--
Passáram ja por mim loucos verdores
do fresco Abril da humana vaidade;
Primavera tam fora da verdade,
que as flores sam engano, o fruto errores.
Passáram ja por mim inuteys flores,
o Veraõ passou jà da ardente idade:
prazer acomodado à mocidade;
veneno da razam em bellas cores.
Bem creo que estou dellas retirado;
mas nam sey se de assaltos vaõs, tiranos,
que tem o entendimento ao jugo atado.
Porque mal me asseguram meus enganos,
que o fruto destas flores he passado,
se os costumes nam fogem como os annos.
[274] They are contained in the first and fourth volumes of the _Fuente
de Aganippe_, see page 279.
[275] No es dar liberdad de consciencia, para introducir siempre
escorias y licencias, sino advertir que _un hombre grande puede hazer
tal vez lo que quisiere, y es gravissime crimen el pedirlo cuenta_; y
mas, si se lo pide algun Pigmeo en estudios y en juizio.
[276] Lo que ella (la poesia) _solamente_ quiere,--es invencion,
imagenes, affectos y _alarde de todas sciencias_.--And yet he has
declared shortly before, that learning is not essential to poetry. It
is not worth while to transcribe in the author’s own words, the other
critical judgments here quoted.
[277] Barbaso Machado, in his Lexicon of learned men, expressly says of
Faria e Sousa, that he was indebted to his extraordinary talents and
knowledge _de ser venerado por Oraculo_.
[278] Those who understand, or imagine they understand Portuguese, may
try how far it is practicable to translate verbally the commencement of
one of these eclogues:--
_Roque._ He gram coisa bergonha ter no rosto;
a o tella nelle antrambos ugalmente,
agora a hum põto aqui ambos ha posto
A poys tàmen dos dous algó nõ mente
digeme, ò certo, se de mim Martinho
mal falou honte a aquella boa gente.
_Afons._ Se a todos lhe esquece o Samsodorninho,
como lhes lembrarias? Sò tratàmos
de dar ós bolos fim, a fim o binho.
Em tè, maes nom querer todos folgamos.
[279] The commentary on the Lusiad is published separately. It is
entitled, _Lusiadas de Luis de Camoens, &c. commentadas por Manuel de
Faria y Sousa_. Madr. 1639, 4 parts, in 2 folio volumes. The commentary
on the miscellaneous poems of Camoens is entitled: _Rimas varias de
Luis de Camoens, &c. commentadas por Man. de Faria y Sousa_. Lisb.
1685, in 7 small folio volumes. The latter, therefore, was not printed
until thirty-six years after the death of Faria e Sousa.
[280] An abundant collection of comic sonnets, _decimas_, _canções_ and
epigrams by Noronha, may be found in the fifth volume of the _Fenix
renascida_, already quoted.
[281] A specimen shall be given here, little worthy as such fooleries
are of perusal. The sonnet is written to rhymed endings (_com
consoantes forçados_.)
Naõ socegue eu mais, que hum bonifrate,
De agoa sobre mim se vase hum pote,
As galas, que eu vestir, sejaõ picote,
Com sede me dem agua em açafate;
Se jogar o xadrez, me dem hum mate,
E jogando às trezentas hum capote,
Faltemme consoantes para hum mote,
E sem o ser me tenhaõ por orate;
Os licores, que beba, sejaõ mornos,
Os manjares, que coma, sejaõ frios,
Naõ passee mais ruo, que a dos fornos;
E para minhas chagas saltem fios,
Na cabeça por plumas traga cornos,
Se meus olhos por ti mais forem rios.
[282] The language of this sonnet will enable the reader to form a
right idea of the merits of the author, who was, however, much admired
in the age in which he lived!
Desdourem-se as areas do Pactolo,
Turvem-se as claras aguas do Canópo,
O bebado de Bacco entorne o copo,
Rache a guitarra o franchinote Apollo.
Desencache-se o Ceo de polo a polo,
A douda Venus morra, e o seu cachopo,
Em fim pereça tudo quanto topo,
Que a Lereno matou o villaõ de Eolo.
Por Jesu Christo se entre maõs tomara
Este villaõ ruim, o Rei do vento,
Com hum vergalho de boy o debreara.
Por S. Pedro do Ceo, que hum momento
A miseravel alma lhe mandara
C’um piparote ao reino do tormento.
[283] The _Obras poeticas_ of Barbosa Bacellar were printed at Lisbon
in the year 1716. The greater part consists of poems which are also
dispersed through the _Fenix renascida_.
[284] For instance, the following to a nightingale in a cage; a
favourite theme with the Portuguese sonneteers:--
Ave gentil cativa, que os accentos
Inda dobras com tanta suavidade,
Como quando gozavas liberdade,
Sendo do cãpo Amfiaõ, Orfeo dos ventos:
Da vida livre os doces pensamentos
Perdestes junto à clara suavidade
De hum ribeirinho, que com falsidade
Grilhões guardava a teus cõtentamentos.
Eu tambem desse modo fuy cativo,
Que amor me tinha os laços emboscados
Na luz de huns claros olhos excellentes.
Mas tu vives alegre, eu triste vivo,
Com que somos conformes nos estados,
E somos na ventura diferentes.
[285] The Portuguese _Saudades_ must by no means be confounded with
the Spanish _Soledades_ in the style of Gongora. (See preceding vol.
page 435). In the Portuguese word _Saudade_ are singularly blended the
significations of _Saùde_ (a salutation), and _Soledad_ (the Spanish
word for solitude). Hence also the untranslatable adjective _Saudoso_.
[286] In these _Saudades_ Aonio thus discourses with flowers. He
turns from one to another, and finds in each a peculiar sympathy with
himself:--
Cada flor o detinha,
E a cada flor attento
Sequellas inferia ao seu tormento,
Huma rosa encarnada
Com melindres de bella.
Com presumpções de estrella
Fazia aqui galante
Ostentaçaõ de purpura brilhante:
Aonio commovido
Lhe disse eternecido:
Ay fermosa memoria,
Retrato de huma gloria,
Que possui taõ breve,
Nevoa ao Sol, fumo ao ar, ao vento neve,
Mal lograda fermosa,
Rosa defunta, quando a penas rosa.
Em huma mata verde
Hum jasmim odorifero nevava,
E derramando cheiro
Ao vento suavizava,
Quando Aonio passando,
As vezes a cabeça meneando,
Disse comsigo: Ah triste!
Quanto ha jà que me falta o brando alento
Daquella voz branda o doce acento,
Que alegre a meus ouvidos respirava,
Com que a vida animava,
Fazendo verdadeiras docemente
Mentiras do Oriente.
But these beautiful plays of fancy are protracted to a tedious length.
[287]
Ouvi de hum pastor triste
De _injusto_ amor o sentimento _justo_.
[288] De huma _alma morta_ o _sentimento vivo_.
[289]
Porem vive a memoria
_Na bronze de alma_.
[290] Some are included in the second volume of the _Fenix renascida_,
and among them are the _Saudades de Albano_.
[291] These comic tales and other poems by Freire de Andrada, are
printed in the third volume of the _Fenix renascida_.
[292]
Naõ mais, Plataõ, cançada fantasia,
Que me tem cõ tres onças de discreto
Mais carregado jà, que huma elegia,
E mais sentencioso, que hum Soneto:
Levar á praça quero a livraria,
Vender da Instituta até o Decreto.
Com os Juristas Vinnios, e Donelos,
E os Letrados do tempo Machavelos.
Livros a meus estudos sempre ingratos,
Hoje vossa liçaõ deixo importuna;
Passome ao bairro jà dos mentecatos,
Só por avisinhar com a fortuna:
Cuidey fosseis a meus trabalhos gratos,
E do minhas paredes a coluna,
Fiey muito no tempo, andey errado;
Porque tratey o Mundo como honrado, &c.
[293]
Ja para as Musas faço outra mudança,
Divertindo entre burlas tanto engano,
Que por ver, se de gosto o lança hum dia,
Joga com dados falsos a alegria.
[294]
Os olhos de atrevidos ou de honrados
Naõ conhecem no Ceo luzes mais bellas.
Piratos sam do Sol, ja rebellados,
Outro Flandes emfim contra as estrellas.
[295]
Corada a boca està fazendo afrontes
As rosas que secar de inveja vemos.
[296]
Se he que me pedem campo, estou rendido,
Pois em dous olhos vejo o Sol partido.
[297]
Quem a casa destroe, aonde mora?
Muito mas o altar, onde se adora.
[298]
Naõ das fruto às aveças, comodo errado,
As lagrimas primeiro que o peccado.
[299]
Que o Demonio da carne acobardado
Foge da _Cruz_, e chega-se ao _Cruzado_.
The word _Cruzado_, which is the name of a Portuguese coin with the
impression of a cross, may likewise signify a person who is crossed, or
who bears the sign of the cross, or the cross of a military order.
[300]
Diz, que nasceo guerreiro--
No signo de _Leão_, que he deshumano.
Eu sey, que no do _Tauro_, e naõ me engano.
[301]
E se pecca no quinto mandamento,
Somente he por palavra, ou pensamento.
[302]
Tinha Narcisso assomos de soldado
Animados do tinto, e do palhete,
Porém este Annibal, este alentado
Melhor despeja os frascos, que o mosquete.
Sobremesa Leaõ com rosto irado,
O campo da batalha era o bofete,
Bizarrias nos traz já muito usadas.
Que ergueo sempre copas, joga espadas.
Meteo maõ trinta vezes na estacada,
Nunca ferio ninguem co’a columbrina,
Todos lhe sabem a cõpleiçaõ da espada,
Que he colerica sim, mas naõ sanguina.
Jà mais trouxe a tizona ensanguentada,
Sempre temava seca a disciplina,
Que he valente opilado alguem presume,
Por naõ trazer na espada o seu costume; &c.
[303] There is only sufficient space for a short specimen of this
prattling nonsense:--
Leva de amor privilegios
E de Diana licenças
Para castigo de brutos,
Para encanto de bellezas.
Contra as bellezas dos bosques,
E os moradores das penhas
Dos olhos fulmina rayos,
E das maõs despede settas.
Lastima, e horror a hum tempo
Monte, e valle representa,
Naquelle gemendo brutos,
Neste suspirando Deosas; &c.
[304] Even this sonnet is inserted in the _Fenix renascida_ as a sample
of excellence:--
Naõ viste, ó Licio, o ar de horror vestido
Arrastar negras sombras enlutado?
Melancolico o Ceo como enfiado
No regaço da noite adormecido?
Naõ viste, que de luz destituido
Deo ao orbe celeste esse cuidado
O Sol, paludamente agonizado,
De opposiçaõ maligna comprehendido?
Pois agora verás no mal presente
Pela morte de Filis toda a esfera
Padecer alta dor, grave accidente.
Que se em fim nesta ordem, que se altera,
Por hum Sol eclipsado isto se sente
Por hum Sol já defunto que se espera?
[305] The collection is entitled, _Parnasso Lusitano de divinos e
humanos versos_, Lisb. 1733, in two vols. octavo. Several of Violante
do Ceo’s poems, both Portuguese and Spanish, particularly sonnets, are
included in the first volume of the _Fenix renascida_.
[306] The whole sonnet is here subjoined. Were it not for the celebrity
of the authoress, it would scarcely be worth while to augment this
collection of examples by such a specimen:--
Musas, que no jardim do Rey do dia
Soltando a doce voz, prendeis o vento:
Deidades, que admirando o pensamento
As flores augmentais, que Apollo cria;
Deixay, deixay do Sol a companhia,
Que fazendo invejoso o Firmamento
Huma Lua, que he Sol, e que he portento,
Hum jardim vos fabrica de harmonia.
E porque naõ cuideis que tal ventura
Póde pagar tributo á variedade
Pelo que tem de Lua a luz mais pura:
Sabey que por mercé da divinidade,
Este jardim canoro se assegura
Com o muro immortal da eternidade.
[307]
Si fue _para tal Sol_ el mundo Occaso,
Tambien es _de tal Sol_ el ciel Oriente.
[308]
Tu que Arraes deves ser da vital barca
Que navega no mar do mal tyranno,
Novo Galeno, Apollo Lusitano,
Medico em fim do Portuguez Monarca.
[309] The following is a patriotic sonnet in question and answer.
Violante do Ceo could not easily have paid a more affected compliment
to King John IV.
Que logras Portugal? Hum rey perfeito.
Quem o cõstituîo? Sacra piedade.
Que alcançaste com elle? A liberdade.
Que liberdade tens? Serlhe sujeito.
Que tens na sujeição? Hõra, e proveito.
Que he o novo Rey? Quasi deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deos feito.
Que eras antes delle? Hum labyrinto.
Que te julgas agora? Hum firmamento.
Temes alguem? Naõ temo a mesma Parca.
Sentes alguma pena? Huma só sinto.
Qual he? Naõ ser hum mundo, ou naõ ser cento,
Para ser mais capaz de tal Monarca.
[310] The five escutcheons which constitute the Portuguese arms.
[311] This interminable epistle commences thus:--
Já que haveis de surcar as crystalinas
Aguas da Foz do Tejo áquellas prayas,
Que o mundo vio ao tremolar das Quinas.
Em quanto as vossas voadoras fayas
As azas desfraldando, levaõ ao vento,
Seguindo as suas prateadas rayas;
Ouvi o rouco som deste instrumento,
Que inda que toca, os pontos desentoa,
Que he differente a voz do pensamento.
Naõ julgueis o que he pelo que soa,
Que se na citra do papel a penna
Toca suave, rijamente atroa; &c.
[312] It is contained in the second vol. of the _Fenix renascida_.
[313] The fame of this Bahia must at last have totally died away.
Barbosa Machado does not mention him. The editor of the _Fenix
renascida_ seems, however, to have entertained a particular partiality
for this rhymester; for Bahia’s witticisms occupy a considerable
portion of that work.
[314] The following octave, which forms the commencement of Bahia’s
Polyphemus, may be quoted as the last specimen of this monstrous style.
These lines were afterwards parodied:--
Donde Neptuno cõ grilhões de argento
Prende o robusto pé do Lilibeo,
Que ao Ceo dá gosto, á terra dá tormento,
Gloria de Jove, inferno de Tyfeo:
Entre hum campo, que tem no monte assento,
Colosso o monte, o campo Colysseo,
Cerra hum penhasco huma caverna fria,
Donde a noite naõ sahe, nem entre o dia.
[315] Such humorous descriptions as the following, occur not
unfrequently in Bahia’s long romances of travels:--
As mininas dos meus olhos
Choravaõ como mininas
Pedaços d’alma, que entaõ
De cantaro parecia.
Perlas netas naõ choravaõ,
Que como saõ taõ tenrinhas,
Inda naõ tem perlas netas,
A penas tem perlas filhas.
Dava-me a agua pela barba,
E creyo se affogaria,
O meu rosto, se o meu rosto
Naõ nadára com bexigas.
Mas a fim, que o dia, e hora
Da jornada me esquecia,
Porque sobre ingenium tardum
Sou tambem memoria infirma; &c.
[316] This lyric eulogy is thus superscribed:--
_Ao serenissimo Rey D. Affonso, quando mandou alistar por soldado a
Santo Antonio de Lisboa._
Bahia advises his sovereign to suspend the further levying of troops.
He says:--
Deixay mais listas, pois jà
Santo Antonio se alistou,
Que como suo pay livrou,
Sua patria livrarà.
[317] Barbosa Machado notices him in an ostentatious manner, and
enumerates all his writings.
[318] In the following the idea, though false in itself, is
interestingly expressed. The poet asserts, that he who tells his pain,
suffers more than he who conceals it.
Na queixa o sentimento se engrãdece,
No silencio se afrouxa o sentimento,
Que se o lembrar da dor dobra o tormento,
Quem suffoca o pezar, menos padece.
No silencio talvez a dor se esquece;
Na voz naõ póde ter esquecimento,
Com que a dor no silencio perde o alento,
Quando a magoa na queixa reverdece.
Se a memoria do mal dobra o penoso,
E quem o diz desperta essa memoria,
Mais sente, que quem dentro a pena feixa;
Porque este no silencio tem repouso,
E aquelle augmenta a dor, se a faz notoria,
Pois renova o pezar, quando se queixa.
[319] The following sonnet, which is poetically conceived and executed
shall serve as an example. It is addressed to a laurel tree against
which a sun-flower reclines:--
Aqui tens a fineza bem nascida,
Se aqui tens Febo a queixa bem fundada,
Pois te segue huma flor enamorada,
Se te foge huma planta endurecida.
Nasce huma Clicie de attençaõ vestida,
Junto a huma Dafne de aspereza armada,
Que onde a belleza blasonou de amada,
Naõ se queixe a belleza de offendida.
Eu amo, e meu amor nada consegue,
E porque de esperanças me despoje,
O que me desagrada me persegue:
Oh como estamos differentes hoje,
Que a ti te foge o tronco, a flor te segue,
A mim me segue o tronco, a flor me foge.
[320] His works have been with great veneration preserved by different
collectors, and were published by Domingos Carneiro, under the title of
_Poesias varias da Andre Nunes da Sylva, recolhidas, &c._ Lisb. 1671,
in one vol. octavo, dedicated to the author.
[321] The following sonnet on the catholic worship of the cross may
serve as a specimen:--
Se em golfo de sereas proceloso,
Empenho repetido do cuidado,
O sabio Grego, ao duro Mastro, atado
âs Sereas escapa cauteloso.
Eu, no mar deste mundo tormentoso
De Sirtes et Sereas povoado,
â vossa Cruz, Senhor, sempre abraçado
Os perigos escape venturoso.
Oh livraime, meu Deos, de tanto astuto
Laberintho, de tanto cego encanto,
Para que colha desta planta o fruto;
Que he justo, doce Amor, em risco tanto,
Se salva a Ulisses hum madeiro bruto,
Que a mim me salve este madeiro Santo.
[322]
O tumulo de Isabella,
_Do firmamento flor, do campo estrella_.
And then again:--
Muzico Rouxinol, _joga animada_--
Es _Orpheo aos sentidos, flor á vista_.
[323] The following is a stanza of one of his patriotic odes:--
Suspendese confuso o Castelhano
De ver de Portugal o brio ouzado,
E guarnecendo a praça, troca ufana
O trofeo em cuidado;
Retirarse procura,
Porem o Luzo altivo
A batalha o provoca vingativo;
A hum monte se encomenda cautelozo;
Azas o Luzo veste bellicozo,
Hum comete feroz, outro reziste,
Este se anima, aquelle cahe por terra,
Tudo he mal, tudo he pena, tudo he guerra,
Que neste duro empenho de Mavorte
Reina a ira, arde o fogo, impéra a morte.
[324] Besides the _Fenix renascida_, which contains an account of most
of the Portuguese sonneteers of the seventeenth century, there is a
later, but upon the whole a much worse collection of the same sort,
which comprises only two volumes, though it extends beyond the close of
the eighteenth century. It is entitled:--_Eccos que o clarim da Fama
dà; Postilhaõ de Apollo, &c._ (Echos which resound from the trumpet
of Fame, or the Postillion of Apollo.) The title is still longer, and
the remainder is in still worse taste. The collection was published at
Lisbon in the year 1761.
[325] _Retiro de cuidados, e vida de Carlos e Rosaura, composto pelo
Padre Matheus Ribeyro, &c._ Lisb. 1688. 4 parts in 2 vol. oct.
[326] _Seram politico, abuso emendado, &c. por Felix da Castanheira
Turacem._ Lisb. 1704, in 4to. Some of the certificates of the Censors,
which are printed with this work, are dated in 1695. In old Portuguese
the word _Politico_, signifies all that belongs to polite manners.
Hence Rodriguez Lobo’s works are entitled, _Obras politicas_, see page
227. _Seram_ or _seraõ_ properly signifies the place where an evening
party, for some period, regularly assembles.--Felix de Castanheira’s
name does not occur in Machado’s dictionary of learned men.
[327] Escrevo entre o rasteiro, et o empolado, que saõ o Scilla, et
Charibdes no vasto mar da locuçaõ: algumas vezes me detenho a fazer
aquada no esprayado da digressão; mas faço quanto posso por naõ perder
de vista o difficil porto da clareza; com alguma me vou explicando,
_sed libera nos à metaphora_.
[328] The following passage, which will serve as an example, is the
description of the fair Isabella, an intelligent young lady, who
sustains a principal character in these evening parties.
Acompanhavaõ na mesma quinta duas primas, et huma irmã à fermosa
Isabel, belleza tam adorada nos curtos limites de Villa Franca, como
applaudida nas melhores escolas de Lisboa: contava _vinte Primaveras,
tam filhas de seu rosto, que segundo os numerava por flores, parece,
que tirava os annos das faces_; entendimento sem aquelles estrondos
que levando as mulheres a cõpositoras, lhe estragaõ o patrimonio de
sezudas: vicio introduzido em as Damas, que se passaõ da almofada à
escola, et do estrado à academia: como se natureza se deixasse vencer
da industria, ou como se no governo de hum recato, naõ tivera harto
que fazer hum entendimento. Era Isabel sezuda sem as affectaçoens de
soberba; retirada sem os melindres de presumida; &c.
[329] The discourse is not satirical, and notwithstanding the trivial
nature of the subject, it recommends itself by style and diction. It
commences thus:--
Nam ha mais dificil palestra que o do entendimento.
Nos encontros de Marte, se he varonil o animo, sempre sahe victorioso o
pulso:--nas contendas de Minerva, inda quando he claro o entendimento,
se nevoa tal vez o discurso. Naquelles atè com as cegueiras triunfa
a colera; nestas, inda com as perspicacias desatina a agudeza. Nunca
pasmou o animo o Alexandre no mais subito assalto do inimigo, et
suspendeo-se à vista do enlaçado labyrinto, que se lhe offereceo no
templo; porque o primeiro pertencia ao braço, o segundo ao engenho.
Monarca era Alexandre, naõ menos entendido, que valeroso, et para que
se visse quanto mais difficuldades encontrava o juizo, que o valor,
antes se resolveo a romper em huma temeridade, que a aconselhar huma
resolução. Cortou he huma golpe o difficultoso laço: acabou a espada, o
que temeo a agudeza.
[330] To the honour of Portugal this book has been frequently
reprinted. Its title is simply as follows:--_Vida de Dom Joaõ de
Castro, quarto Viso-Rey da India, por Jacinto Freire de Andrada_.
Barbaso Machado’s catalogue states that the first edition appeared in
folio in the year 1651. A neat pocket edition in octavo was published
by a Lisbon bookseller in Paris in the year 1759. The work was
translated into English in the seventeenth century by Henry Herringman,
and shortly afterwards a latin translation was executed by the Italian
Jesuit Del Rosso, who in reference to Andrada’s historical style,
not injudiciously observes: _Elegantiam sectatur, sed non ieiunam;
acumen, sed minime illiberale_. To men of education, wishing to learn
the Portuguese language, there is no book that I would more strongly
recommend than this excellent biography.
[331] The following are his own words:--
Outros queriam que me valesse do estrepito de vozes novas, a que
chamam Cultura, deixando a estrada limpa, por caminhos fragosos, et
trocando com estimaçam pueril, o que he melhor, pelo que mais se usa.
Mas como _nam determiney lisongear a gostos estragados_, quiz antes
com a singeleza da verdade servir ao applauso dos melhores, que à fama
popular, et errada.
[332] Escreverei a vida de Dom Joaõ de Castro, varaõ ainda mayor que
seu nome, mayor que suas victorias; cujas noticias saõ hoje no Oriente,
de pays a filhos, hum livro successivo, conservandose a fama de suas
obras sempre viva; et nòs ajudaremos o pregaõ universal de sua gloria
cõ este pequeno brádo: porque duraõ as memorias menos nas tradiçoens,
que nos escritos.
[333] One passage must be quoted as a specimen of Portuguese classical
prose: it relates to the conquest of an Indian garrison.
Entràraõ os nossos de envolta com os Mouros a Cidade, onde os
miseraveis se detinhaõ presos do amor, et lagrimas das mulheres, et
filhos, que acompanhavaõ ja com piedade inutil, mais como testimanhas
de seu sangue, que defensores d’elle; taes houve, que abraçadas com
os maridos se deixavaõ trespassar de nossas lanças, inventando os
miseraveis nova dor, como remedio novo; dos nossos soldados, huns as
roubavaõ, outras as defendiaõ; quaes seguiaõ os affectos do tempo, que
os da natureza. Algumas d’estas mulheres com desesperado amor se metiaõ
por entre as esquadras armadas a buscar os seus mortos, mostrando animo
para perder as vidas; lastimosas nas feridas alheas, sem lastima nas
suas.
[334] The following is the commencement of a speech of Coge Cofar to
the Turkish soldiers, who had followed him to India.
Companheiros, et amigos, nam vos ensinarey a temer, nem a desprezar
esses poucos Portugueses, que d’entro d’aquelles muros estais vendo
encerrados, porque nã chegaõ a ser mais que homens, inda que saõ
soldados. Em todo o Oriente atègora os acompanhou, ou servio a fortuna,
et a fama das primeiras victorias lhes facilitou as outras. Com hum
limitado poder fazem guerra ao mundo, nam podendo naturalmente durar
hum Imperio sem forças, sustentado na opiniaõ, ou fraqueza dos que lhes
saõ sugeitos. Apenas tem quinhentos homens naquella fortaleza, os mais
d’elles soldados de presidio, que sempre custumaõ ser os pobres, ou os
inuteis; por terra naõ podem ter soccorro, os do màr lhes tem cerrado o
inverno.
[335] A good account of the mode in which the Portuguese language was
disfigured by the introduction of French words and phrases, may be
found in the fourth volume of the _Memorias de Litteratura Portugueza_,
(Lisb. 1793,) in a treatise by Antonio de Naves Pereira, on the
language of the best Portuguese writers of the sixteenth century.
These _Memorias_ must, in the course of the present work, be more
particularly noticed.
[336] Even a learned Portuguese, well acquainted with the literature
of his country, of whom I made enquiries respecting the fate of the
_Academia Portugueza_, could give me no further information than that
the institution was no longer in existence.
[337] _The Memorias da Academia Real das Sciencias de Lisboa_, in which
that academy exhibits its labours for the advancement of knowledge,
more particularly of the mathematical and physical sciences, are
totally distinct from the _Memorias de Litteratura Portugueza_, which
have been published by that academy since the year 1792. These last
_Memorias_ consist partly of philological and critical treatises on the
Portuguese language and literature, and partly investigations relating
to the ancient history and constitution of Portugal. The singular
union of two departments so essentially distinct, arose out of the
French idea of _littérature_, which had been adopted in Portugal. The
worthy members of the academy well might, as indeed they intimately
did, find it difficult to determine what was to be called literature.
To reconcile all opinions, therefore, they included under that title
national history. Germans, however, are by no means entitled to make
this mistake, a subject of reproach, while they continue to employ
the comprehensive word _literature_ to designate merely the knowledge
of books.--I have seen as yet only six volumes of the _Memorias de
Litteratura Portugueza_. The sixth was published in the year 1796.
[338] Barbosa Machado, in his dictionary of learned men, gives a
catalogue of the writings of the Count da Ericeyra, including those
which remained unprinted up to the year 1747. None of these unprinted
works have, it seems, been submitted to the press since that period,
though they comprise a whole collection of the minor _Obras Poeticas_
of the author, together with several prose works, on subjects of
general utility; as for example, a _Methodo dos Estudos_ (Plan of
Study.)
[339] _Henriqueida, poema heroico, &c. composto pelo illustrissimo e
excellentissimo Conde da Ericeyra D. Francisco Xavier de Menezes, &c._
(including all the titles of the Count), _Lisboa occidental_, 1741, in
4to. The distinction of _Lisboa oriental_ and _Lisboa occidental_ is
founded on an ecclesiastical division of the city.
[340] See page 246.
[341] The poem commences thus:--
Eu canto as Armas, e o Varaõ famoso,
Que deo a Portugal principio Regio,
Conseguindo por forte, e generoso,
Em guerra, e paz o nome mais egregio;
E animado de espirito glorioso
Castigou dos infieis o sacrilegio
Deixando por prudente, e por ousado,
Nas virtudes o Imperio eternizado.
Europa foy da espada fulminante
Teatro illustre, victima gloriosa,
Asia vio no seu braço a Cruz brilhante,
E ficou do seu nome temerosa:
De Africa a gente barbara, e triumfante
Selhe postrou rendida, e receosa,
Para ser fundador de hum quinto Imperio
Que do Mundo domine outro Emisferio.
[342]
Naõ Calliope heroica agora invoco.
Tu me inspira, ó Deidade, &c.
[343] The following is part of the picturesque description of Henry’s
entrance into the sybil’s cave.
Da horrenda gruta e entrada defendiaõ
Agudas folhas da arvore do Averno,
E enlaçadas raizes, que se uniaõ,
Mais que de Gordio no embaraço eterno:
Penhascos desde a terra ao Ceo sobiaõ
Lubricos os fez tanto o frio inverno,
Que Henrique vio, subindo resolutos,
Precipitarse os mais velozes brutos.
O mar, e a terra em horrida disputa
Gritavaõ com clamores desmedidos;
Que naõ entrassem na funesta gruta
Os que assim o intentavaõ presumidos:
A constancia mais forte, e resoluta,
De ondas, e rochas tragicos bramidos,
Temia vendo unirse em dura guerra
Contra hum sò coraçaõ o Mar, e a Terra.
[344]
Aves, penhascos, feras, troncos, ramas,
O Heroe venceo, e os mesmos elementos,
_Pois fez o coraçaõ com vivas chamas
Secar as ondas, e acender os ventos._
Tu, diz Henrique, ó Genio, que me inflamas,
De sacrilegos livra os meus intentos;
Deixarey hum perigo, que se encobre,
Venerando ao sagrado hum medo nobre.
[345]
Exaltando o valor, e a fermosura
Em dous tronos os Principes sentados,
Na sala da mais rara arquitetura
Os Generaes esperaõ convocados:
A ouvir da gruta a incognita aventura
Alegres se apressaraõ, e adornados
_De plumas, que elevando aos Ceos as glorias,
Escreveraõ sem letras as victorias._
[346]
No Porto as mesmas pedras das muralhas
Pareciaõ sensiveis aos clamores,
_E quasi descobrirão as medalhas_,
_Que enterraraõ os claros fundadores_:
Os povos ja taõ destros nas batalhas,
Que igualaõ os Soldados vencedores,
Ao pronto susto de pezar taõ alto
Se rendem à entrepreza deste assalto.
[347] For example, in the first canto where Henry is compared to an
eagle:--
Como no campo azul aves vorazes
De sangue, e pennas em diluvio vago,
Com o odio nativo contumazes
A terra inundaõ no funesto estrago,
Mas vendo do Aguia os voos efficazes,
Fogem do seu valor regio, e presago:
Assim vendo de Henrique o braço forte,
Fogem os Mouros da infalivel morte.
[348] Thus, in the following stanza, where Henry, whose astonishment
is to be described, is first compared to a frozen stream; then he is
himself called a stream rich in virtues, and finally he is denominated
a statue of fire and snow.
Rio, que corre em rapido desvelo
Parando ao forte impulso do Austro frio
Naõ muda o vago argente em duro gelo,
Que só rompe a prisaõ no ardente estio:
Como _Henrique_, que em nobre paralelo
_He de virtudes caudeloso rio,_
A hum perigo, a que heroico naõ se atreve,
_Estatua ali se vio de fogo, e neve._
[349] Lest it should appear that in this collection of examples justice
had not been rendered to Ericeyra, three more stanzas, from the last
canto of his poem, are here transcribed. The following passage is from
the description of the last combat between Henry and Ali, his Moorish
enemy.
Torrente de cristal, que arrebatada
Inunda os valles, e supèra os montes,
Exhalaçaõ sulfurea, que inflamada
Fulmina os torres, rasga os orisontes,
Vento setentrional, que em furia irada
Agita os mares, e congela as fontes,
De Deucalion o rapido diluvio,
Chamas do Ethna, ardores do Vesuvio.
Ainda que com seus rapidos effeitos
Causem no mundo estragos, e terrores,
A tanto impulso de cair desfeitos
Toda a izençaõ dos globos superiores,
Naõ sey se excedem dos valentes peitos
As nobres iras, e inclitos ardores,
Com que se vio ao impeto iracundo
Parar o Ceo, estremecerse o mundo.
Recebem os escudos taõ constantes
Os rayos nos seus globos refulgentes,
Que com tremor os braços arrogantes
Resistiraõ aos impetos ardentes:
Mas se os braços tremerão inconstantes,
Os escudos ficaraõ permanentes,
E todos do valor pelos effeitos
Viraõ tremer os braços, naõ os peitos.
[350] The author introduces his plays of wit in a song to the
miraculous image of _Senhor Jesus de Pedra_, (Lord Jesus of Stone),
which was celebrated for its power of exciting in sinners a feeling of
bitter repentance:--
Nessa Cruz (meu bom Jesus)
Dar sinal de vós quereis,
Quando eu cuido, que fareis
De nós o sinal da Cruz.
Para contrições lograr
Essa Pedra Almas desperta:
Mas quando huma pedra acerta,
A quem naõ fará chorar?
Mais rica Pedra naõ deo
A terra, que a manifesta
Taõ única, que só esta
Por milagre appareceo.
Se a compungir-se haõ de vir
Os Fieis, que vos vem buscar,
Se trouxerem que chorar,
Sempre levaõ que sentir, &c.
[351] Here are two of the most intelligible; the first is on a barber
who has an evil tongue:--
Se a tua lingua trabalha
Do credito, e honra em mingoa,
Face-me a barba co a lingoa,
Que corta mais que a navalha.
The following is addressed to an old man who paints his eyebrows:--
Deixe, ó Licio, o teu cuidado
Desse pincel o aparelho;
Que a tua Dama por velho
Nem te póde ver pintado.
[352] His sonnet on a rose growing over the grave of a lady, deserves
to be transcribed:--
Se essa Flor he padraõ, que à formosura
Erigio nesse jaspe a natureza;
Mal recorda os triunfos da belleza,
Se se funda no horror da sepultura.
Se até nas cinzas ostentar procura
Floridas producções a gentileza;
A mesma Rosa, a quem de flor se preza,
Que he caduco o seu ser hoje assegura;
O quanto ao desengano nos convida,
Ver hoje o fim, a que apressada corre
Desde que nasce a flor da humana vida!
Pois bem nos mostraõ (já a razaõ discorre)
Huma flor sepultada, outra nacida,
Quaõ perto está o que nace, do que morre.
[353] For this little notice I am indebted to the verbal information of
a literary Portuguese, through whose means I could have obtained from
Lisbon, the name of this Hebrew dramatist, had the recording it been an
object of importance.
[354] I have seen two of these collections. The oldest, printed in
the year 1746, is entitled, _Operas Portuguezas que se representaram
nos theatros publicos desta Corte, &c._ It contains eight dramas in
two octavo volumes. The latest collection is entitled _Theatro comico
Portuguez, ou Collecçaõ das Operas Portuguezas que se representaram,
&c._ in two octavo volumes, fourth edition, Lisbon, 1787. As to any
merit which may be discovered in these collections they are nearly
equal.
[355] To shew that no injustice is done to the author, it will be
sufficient to quote some of the witticisms, by which Æsop distinguishes
himself in the first act:--
_Zeno._ Donde Esopo vás? Tu naõ ouves? Com quem fallo eu?
_Esop._ He comigo?
_Zen._ Sim.
_Esop._ Eu naõ me chamo Esopo Vaz, sou Esopo só, nú, e espurio como
minha mãi me pario.
_Zen._ Aonde hias, entremetido?
_Esop._ Se eu fora entremetido perguntára a Vossa Mercé para que nos
traz hoje a esta grande feira.
_Zen._ Para vender-vos a todos tres, pois todos tres sois intoleraveis
pelas vossas manhas, porque tu és hum bebado, e tu hum ladraõ.
_Esop._ Visto isso, quem comprar a este sendo ladraõ, comprao siza, e
tudo. E eu, Senhor, quaes saõ as minhas habilidades, ou virtudes?
_Zen._ Saõ boas; primeiramente mexiriqueiro, e bacharel.
_Esop._ Se eu fora Bacharel soubera Direito; seu eu soubera. Direito eu
me endereitára, e naõ fora corcovado; naõ he por ahi que vai o gato ás
filhozes; tem mais de que se accuse? &c.
[356] The following is the commencement of the trial of wit:--
_Xant._ Está com subtileza. Ora dize-me; como te chamaõ?
_Esop._ A mim chamaõ-me como me querem chamar; naõ ha meia hora que
huns me chamáraõ Poeta, e outros carcunda.
_Xant._ Pergunto o teu nome.
_Esop._ Eu, Senhor, com perdaõ de Vossa Mercé chamo-me Esopo.
_Xant._ Donde nasceste?
_Esop._ Do ventre de minha mãi.
_Xant._ Naõ me entendes? Em que lugar nasceste?
_Esop._ Tambem naõ me disse minha mãi se me pario em lugar alto, ou
baixo; mas cuido que foi ahi a algures ao pé de alguma cousa.
_Periand._ Ennio, o escravo tem atacado ao Filosofo nosso Mestre.
_Xant._ Ou és mui simples, ou mui velhaco; pergunto-te, de donde és
natural?
_Esop._ A’ que d’El Rei, Senhor, eu sou legitimo, naõ sou natural.
_Xant._ Valha-te Deos; aonde he a tua patria?
_Esop._ Isso he outra cousa; sou de donde me vai bem, que ahi he a
minha terra.
[357] The commencement of this duet will serve as a specimen of the
verse of these operas.
_Euripedes._ Ingrata filha!
_Filena._ Brava mãisinha!
_Eurip._ Sempre doudinha
Te hei de encontrar!
_Filen._ Sempre doudinha
Me ha de chamar?
_Eurip._ Tu com amores!
_Filen._ Eu! Naõ ha tal.
_Eurip._ Para que negas?
_Filen._ Eu! Naõ ha tal.
_Eurip._ Eu bem ouvia,
Que lhe dizias,
Que lhe querias,
E que morrias;
Tudo sei já.
_Filen._ Basta mãisinha
De consumir-me
Ai, ouça cá.
_Eurip._ Ai, guarda lá.
_Amb._ Naõ quer ouvir-me?
_Filen._ Ai, ouça cá.
_Eurip._ Ai, guarda lá.
[358] _Obras de Claudio Manoel da Costa, &c. Coimbra_ 1768, in 8vo.
The preface in which this amiable author unaffectedly communicates some
notices respecting himself, is a very instructive contribution to the
history of Portuguese poetry.
[359] The following may serve as a specimen of the modern style of the
Portuguese sonnet:--
Onde estou? Este sitio desconhêço:
Quem fez taõ differente aquelle prado!
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplallo timido esmoreço.
Huma fonte aqui houve; eu naõ me esqueço
De estar a ella hum dia reclinado
Alli em valle hum monte esta mudado.
Quanto póde dos annos o progresso!
Arvores aqui vi taõ florescentes,
Que faziaõ perpetua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.
Eu me engano: a regiaõ esta naõ era.
Mas que venho a estranhar, se estaõ prezentes
Meus males, com que tudo degenera.
[360] For example:--
Nize? Nize? onde estás? Aonde espera
Achar-te huma alma, que por ti suspira:
Se quanto a vista se dilata, e gira,
Tanto mais de encontrar-te dezespera!
Ah se ao menos teu nome ouvir pudéra
Entre esta aura suave, que respira!
Nize, cuido, que diz; mas he mentira.
Nize, cuidei que ouvia; e tal naõ era.
Grutas, troncos, penhascos da espessura,
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,
Mostray, mostray-me a sua formozura.
Nem ao menos o ecco me responde!
Ah como he certa a minha desventura!
Nize? Nize? onde estás? aonde? aonde?
[361] One of Da Costa’s epicedios on the death of a friend commences
thus:--
Commigo fallas; eu te escuto; eu vejo,
Quanto a pezar de meu lethargo, e pejo,
Me intentas persuadir, ò sombra muda,
Que tudo ignora, quem te naõ estuda.
Há poucas horas, que hum activo alento
Te dirigia o ardente movimento;
E em breve instante (oh dor!) em breve instante
Se torna em luto o resplendor brilhante.
Arrebatado em vaõ te solicito
Por qualquer parte, que se estenda o grito:
E aos eccos, ao clamor, que aos troncos passa,
(Funestissimo avizo da desgraça)
Apenas falla, apenas me responde
O dezengano, que esta penha esconde; &c.
[362] _Tornou innocentes os genios; restituio ao mundo a justiça_, says
Da Costa, in allusion to the dreaded Pombal; for this minister’s rigid
system of judicial reform rendered him at first an object of terror.
[363] For example, the poet says to his lyre, which he proposes to
abandon:--
Amei-te (eu o confesso)
E fosse noite, ou dia,
Já mais tua harmonia
Me viste abandonar.
Qualquer penozo excesso,
Que atormentasse esta alma;
A teu obzequio em calma
Eu pude serenar.
Ah! Quantas vezes, quantas
Do somno despertando,
Doce instrumento brando,
Te pude temperar!
Só tu (disse) me encantas;
Tu só, bello instrumento,
Tu es o meu alento
Tu o meu bem serás.
Vê, de meu fogo ardente,
Qual he o activo imperio:
Que em todo emisferio
Se attende respirar.
O coraçaõ que sente
Aquelle incendio antigo,
No mesmo mal, que sigo,
Todo o favor me dá.
[364] For example, in this passage:--
Sentado junto ao rio,
Me lembro, fiel Pastora,
Daquella feliz hora,
Que n’alma impressa está.
Que triste eu tinha estado,
Ao ver teu rosto irado!
Mas quando he, que tu viste
Hum triste
Respirar!
De Filis, de Lizarda
Aqui entre desvelos,
Me pede amantes zelos
A causa de meu mal.
Alegre o seu semblante
Se muda a cada instante:
Mas quando he, que tu viste
Hum triste
Respirar!
Aqui colhendo flores
Mimosa a Ninfa cara,
Hum ramo me prepara,
Talvez por me agradar:
Anarda alli se agasta;
Dalizo aqui se affasta:
Mas quando he, que tu viste
Hum triste
Respirar!
[365] The following, which is the shortest of Da Costa’s cantatas, may
be transcribed here, as a thing perfect in its kind:--
Naõ vejas, Nize amada,
A tua gentileza
No cristal dessa fonte. Ella le engana:
Pois retrata o suave,
E encobre o rigorozo. Os olhos bellos
Volta, volta a meu peito:
Verás, tyranna, em mil pedaços feito
Gemer hum coraçaõ: verás huma alma
Ancioza suspirar: verás hum rosto
Cheyo de pena, cheyo de desgosto.
Observa bem, contempla
Toda a mizera estampa. Retratada
Em hum copia viva
Verás distincta, e pura;
Nize cruel, a tua formosura.
Naõ te engane, ó bella Nize,
O cristal da fonte amena.
Que essa fonte he mui serena,
He muy brando esse cristal.
Se assim como vés teu rosto,
Viras, Nize, os seus effeitos,
Pode ser, que em nossos peitos
O tormento fosse igual.
[366] _Odes de Q. Horatio Flacco, &c._ Lisb. 1781.
[367] _Satyras de Sulpicia, &c._ Lisb. 1786.
[368] _Cartas de Ovidio, chamadas Heroides, &c._ Lisb. 1789.
[369] _Comedias de Terencio, &c._ Lisb. 1788.
[370] _Arminio, ou Alemanha Libertada, trad. de Aleman do Baron
Schönaich._ Lisb. 1791.
[371] _Lisboa reedificada, poema epico, por Miguel Mauricio Ramalho._
Lisb. 1784.
[372] _Satyras e Elegias, por Miguel do Couto Guerreiro._ Lisb. 1786.
[373] _Sonho, poema heroico, por Luis Rafael Soyé._ Lisb. 1786.
[374] _Triumpho da Innocencia, poema epico, por José Anastasio da
Costa._ Lisb. 1785.
[375] _Lusitania transformada, por F. Alvares do Oriente._ Lisb. 1781.
[376] _Gaticanea, &c. por J. J. de Carvalho._ Lisb. 1781.
[377] _Obras poeticas de Pedro Antonio Correa Garçaõ._ Lisb. 1778, in
8vo. Some of the poems in this collection seem to have been written
about the middle of the eighteenth century. I have not been able to
gather any particulars respecting the life of Garçaõ.
[378] For example, in the Ode to Winter, which begins thus:--
Vê, Silvio, como sacondido o Inverno
As negras azas, sólta a grossa chuva!
Cobre os outeiros das erguidas serras
Humida nevoa.
Na longa costa brada o mar irado
Sobre os cachopos; borbotões de espuma
Erguem as ondas; as crueis cabeças
Nágoa negrejaõ.
O frio Noto, rigido soprando
Dobra os ulmeiros, os curraes derruba:
E o gado junto, pavido balando
Une os focinhos.
[379] The following passage will afford a specimen of this and also of
the didactic character of Garçaõ’s odes:--
Cobre a Virtude co’ as azas lubricas
O veloz tempo, logo que ao feretro
Cede o passo a Lisonja,
Rasgando a torpe mascara.
Com tardos passos calcando os tumulos
O Esquecimento, da maõ esqualida
Sólta as confusas cinzas,
Que espalha o vento rapido.
Mas eu ingrato, Silvio magnanimo,
Soffrer podia, que o canto melico
Esquecido deixasse
O teu nome magnifico?
[380] See page 126.
[381] It commences thus:--
_Strophe._
Naõ Arabico incenso, ouro luzente,
Nem pérolas do Ganges,
Naõ tenho que offrecer-vos reverente
Malhas, arnezes, punicos alfanges
Mas soberbas Phalanges
De almos Hymnos Dirceos, q’immortaes tecem
Mil croas á Virtude, me obedecem.
_Antistrophe._
Fuja o profano Vulgo, qual nos montes
O rebanho medroso
Quando vè fuzilar nos horizontes
O farpado corisco pavoroso,
Ouve o trovaõ ruidoso,
Correndo pelo valle se derrama,
E em seu balido o Pegureiro chama.
_Epodo._
Nos mansos ares vejo
Já sobre as azas luzidas pezados
Meus fogosos Etontes, que banhados.
No doce, flavo Téjo
Os freios de diamantes mastigavaõ
Quando as Ninfas de rosas os croavaõ.
[382] The commencement of this dythirambic deserves, on account of its
literary singularity, to be transcribed here:--
Os brilhantes trançados enastrando
Com verde mirto, com cheirosas flores,
Nos lindos olhos vivo rutilando
O doce lume
Do cego Nume,
Alvas donzellas
A quem vos ama,
Da crespa rama
Que Bassareu
Ao mundo deo,
Co’ as brancas maõs no cópo crystallino
Lançai ligeiras
Louro Falerno, rubido Sabino,
Eia, voai,
Deitai, deitai;
Gró gró, tá tá,
Que cheio está.
Ora brindemos
As gentis Graças, castos Amores:
No mar lancemos
Rixas, tristezas, mágoas, temores. &c.
[383] It is not easy to select a passage as a specimen; but the
following, in which Garçaõ speaks of Portuguese poetry, may be quoted
on account of its auxiliary interest.
Naõ busques pensamentos exquisitos
Em denegridas nuvens embrulhados;
Naõ tragas naõ metaforas violentas,
Imitando esse Corvo do Mondego,
Que entre os Cisnes do Téje anda grasnando:
Usa da pura lingua Portugueza,
Que aprendido já tens no bom Ferreira,
No Camões immortal, em Sousa, e Barros:
Em Grego naõ me escrevas, nem Latim;
Dá me conta da tua larga vida;
Desejo que me digas se inda preza
No pensamento trazes a Cachopa;
Se com tres companheiros n’uma banca
De panno verde ornada o Whist jogas;
Se ouves fallar Francez; e se inda lavra
O mal, de que hoje tantos adoecem;
Fallo daquella praga desastrada
Dos enfermos Poetas, que naõ querem
Os remedios tomar para sararem, &c.
[384] For example, at the close of the epistle, which treats of the
difficulties of house-keeping.
Que facil he sonhar felicidades!
Tu já rico me crês; eu já supponho,
Agora que te escrevo, e que te fallo:
Mas esta Scena subito se muda;
O Chico mostra rotos os çapatos;
Huma quer lenços, outra quer roupinhas,
O Nadegas dinheiro para a ceia;
A’ porta esta batendo o Alfaiate.
Se alguem aos caens lançou os patrios ossos;
Se foi traidor á Patria, se he falsario,
Seja lançado a filhos, e credores.
[385]
Sentemo-nos Senhores;
Que grave Tribunal! Que magestoso!
Mal sabe o Mundo agora, que pendente
Deste conclave está o seu destino.
Oh quanto, amada Patria, quanto deves
A teu bom Cidadaõ Aprigio Tafes,
Suando, e tressuando por salvarte
Do pélago profundo da Ignorancia,
Onde pobre jazias, atolada,
Entre pessimos Dramas corviqueiros! &c.
[386] The following is a part of this patriotic apostrophe:--
Vós Manes do _Ferreira_, e de _Miranda_:
E tu, ó _Gil Vincente_, a quem as graças
Embaláraõ o berço, e te gravaraõ
Na honrada campa o nome de Terencio;
Esperai esperai, q’inda vingados,
E soltos vos vereis do esquecimento.
Illustres Portuguezes, no Theatro
Naõ negueis hum lugar ás vossas Musas:
Ellas, naõ as alheias, publicaráõ
De vossos bons Avôs os grandes feitos,
Que eternos soaráõ em seus Escritos:
E podeis esperar paga taõ nobre,
Se detestando parecer ingrato,
Lhe defenderdes o Paterno Ninho,
E quizerdes com honra agazalhallas.
[387] In old and genuine Portuguese the word _partida_ means parting,
and has not the signification of the French _partie_.
[388] _Poesias de Paulino Cabral de Vasconcellos_, &c. _Porto_, 1786,
in 8vo. A second volume of these poems has been printed, but I have not
seen it.
[389] For example, the following sonnet on modern judges, who are at
the same time men of fashion.
Vós que o mundo regeis, Padres conscriptos,
(O que eu vos naõ invéjo) e que prudentes
De promessas encheis aos pretendentes,
E de esperanças vans aos Réos afflictos:
Vós que lêdes processos infinitos;
Que soffreis cavilózos requerentes;
Cartas, memoriaes impertinentes;
E por fim castigaes poucos delictos;
Vós ficai-vos em paz; porque occupados
Naõ deveis ser com clausulas escriptas
De quem sem pleitos vive, e sem cuidados.
Basta-me só que ás vezes nas vizîtas.
As vêjaõ Petimetres namorados,
As ouçaõ sem desprêzo as Senhorîtas.
[390] For example, the following:--
Ou fosse, Nize, em nós pouca cautella,
Ou que alguem presentisse o nosso enleyo,
Tudo se sábe já: tudo hé já cheio,
Qu’ algum cuidado ha muito nos disvella.
Dizem, qu’eu son feliz, que tu es bella;
E ás vêzes com satirico rodeio,
Hum murmûra, outra zomba, e sem receio
A fama cada qual nos atropella.
Mas se nunca se tapa a boca á gente,
E se amôr sempre activo nos devóra,
Porque aquella he mordaz, porque este ardente;
Adorêmo-nos pois como até agora:
Siga-se amôr; arraste-se a corrente;
E se o mundo fallar, que falle embóra.
[391] _Osmîa, tragedia de assumpto Portuguez, em cinco actos, coroada
pela Academia Real das Sciencias de Lisboa, em 13 de Mayo de 1788.
Segundo ediçaõ, Lisboa, 1795, in 4to._
[392] A fragment from the scene in which Osmia first betrays a
reciprocal love for the Prætor, will afford a specimen, though an
imperfect one, of the merit of this tragedy.
_Osmîa._ Pretor, senaõ alcanço
Saber o que pertendo, mais naõ tenho
Que saber, ou que ouvir. A Eledia torno,
Que naõ longe deixei, ou tu m’a envia,
E á minha dor me deixa em tanto entregue.
_Lelio._ Se te agrada aggravar o duro aspecto
Da tua situaçaõ, fallemos della:
Naõ falta que dizer, e verás como
Sei prestar-me a teus votos, bem que sejaõ
Contrarios a meus proprios sentimentos.
_Osmîa._ Ah! cruel! como vejo em teu semblante
Reluzir a fereza que disfarças
D’uma falsa piedade na apparencia.
_Lelio._ Chamas falsa piedade a hum sentimento,
Que todo me transporta?
_Osmîa._ Que linguagem!
_Lelio._ E quanto soffro, Osmîa, sob o pezo
Do rigido silencio que m’imponho!
_Osmîa._ Mais naõ soffras, Pretor, vai explicar-te
Onde possas melhor ser percebido.
E que, naõ partes?
_Lelio._ Parto sim, Princeza!..
E que naõ farei eu por contentar-te?
Mas vê que o meu silencio.. a tua virtude..
Ah! que eu me precipito!
_Osmîa, só._
_Osmîa._ Justos Deoses.
Valei-me! E que expressões.. que modo estranho
De persuadir!.. Que duro.. que terrivel
Incerto estado o meu! Ah! cara Eledia....
Eledia, who is apostrophized in the concluding line, is the Turdetanian
prophetess who has begun to suspect the sentiments of Osmia.
[393] The manner in which the interest rises cannot be developed in a
fragment. One of the closing scenes may, however, be transcribed as a
specimen. Osmia has made a promise to her husband to murder the Prætor.
She meets him:--
_Osmîa._ Ah! porque a vida
Naõ cortas d’uma vez, sorte inhumana!
_Lelio._ Mas tal agitaçaõ!.... tanta amargura!
_Osmîa._ Pretor, naõ imagines.. naõ.. naõ creias,
Que a minha agitaçaõ.. naõ sei que digo.
_Lelio._ Prosegue, bella Osmîa, naõ m’escondas
O mal que teus espiritos transtorna.
_Osmîa._ Grata a teus beneficios, mas ligada
Com rigidas cadeias posso a penas
Dizer-te, que a virtude me levára
A lançar maõ de quanto m’offereces.
Que a gloria o requeria; que meu peito
(Sem poder desejallo) te acceitára
Taõ illustres, taõ grandes sacrificios;
Mas sou mais infeliz. Hum Deos irado
Me obriga.. a que naõ parta.. que despreze,
Lelio, teus grandes dons.. teus preciósos
Sublimes beneficios.. sorte insana,
Me condemna a viver infame vida....
E que te perca (oh Deos!) e que naõ possa
Compensar com meu sangue..
_Lelio._ Tu deliras?
_Osmîa._ Naõ Pretor, naõ deliro, sô pertendo,
Que o campo já levantes; que me deixes
Exhalar meu espirito opprimido
Em torno áquellas aras.. Mas naõ tardes....
Parte, parte daquí. He precioso
O tempo que esperdiças; naõ te exponhas....
Naõ posso dixer mais. Em paz me deixa.
_Lelio._ Que estranha confusão!
_Osmîa._ E inda naõ partes?
Que insania te detem!.. Infeliz! vai-te....
[394] I have not had an opportunity of becoming sufficiently acquainted
either with these Portuguese interludes or the comedies of Guita. A
great number of interludes are printed at Lisbon.
[395] _Obras Poeticas de Nicolao Tolentino d’Almeida._ Lisb. 1801; 2
volumes octavo.
[396] The following sonnet on a gamester who has promised no longer
to play at the pharo-bank, is not one of the wittiest pieces of
the kind which might be selected from Tolentino’s works, but it is
characteristic:--
_A hum Taful, que protestou, naõ apontar à Banca._
Que tornas a apontar, prometto, e attesto,
Que eu, passaro bisnau, sino garoto,
Depois de já ter feito o mesmo voto,
Jógo o que trago, e jogarei de resto.
Seguimos os Tafues o mesmo aresto,
Que segue nas tormentas o Piloto;
Hum parolim desfeito, hum masto roto
Tem produzido muito vaõ protesto.
Ainda dos ardidos Jogadores
Vaõ as pragas subindo sobre o vento,
Já tornaõ para o jugo os taes Senhores.
He caso, em que naõ liga o juramento;
Qual parida, que grita com os dores,
E sabe prenhe no fim do regimento.
[397] The following are a few stanzas from a satirical poem on war:--
Dizes que se compra Quina,
Porque altas febres desterra;
E que em Collegios se ensina,
Em huma Aula, a Arte da guerra,
Em outra, a da Medicina:
Que no frio, vasto Norte,
Cem _Boerhaves_ eloquentes
Enchem de oire o cofre forte,
Porque perdidos doentes
Arrançaõ das maõs da morte:
Que alli mesmo grosso fruto
Colhe _Saxe_ entre os Soldados,
Porque em minado reducto
Fez voar despedaçados
Dez mil homens n’hum minuto.
[398] These translations are anonymously printed, and have never been
regularly published. The design with which they are written, renders
them, however, the more deserving of being known, since, according to
the express declaration of the author, their object is,--“to counteract
the too great predilection of the Portuguese nation for languishing
pastoral poetry.” The commencement of the translation of Alexander’s
Feast, shall now close the poetic portion of this selection of
Portuguese extracts:--
Era a festa Real, que ao bellicozo
Macedonio, da Persia glorioso
Vencedor acclamava.
Excelso o Eroe brilhava
No solio majestozo.
Valentes Pares seus o rodeavaõ
Que de rosas e murta a frente ornavaõ
(Como ao valor compete se croavaõ.)
Thais mostrava ao regio lado airoza,
Qual outra oriental florente esposa,
Juventude e beldade radioza.
Feliz, feliz donzella!
Ninguem, se naõ o Eroe,
Ninguem, se naõ o Eroe,
Ninguem, se naõ o Eroe merece a bella.
[399] _Advertencias preliminares ao poema heroico da Henriqueida._ See
page 340.
[400] O tenho (sc. o poema epico de Virgilio) pela obra humana, em que
se achem menos imperfecções.
[401] These critical _Dissertações_ form an appendix to the _Obras
poeticas_ of Garçaõ, already noticed.
[402] For example, in the following passage, in which Garçaõ justifies
himself to the members of the Arcadian academy against the charge of
arrogance:--
Naõ creio, ó Arcades, que em vossos corações se pervertesse a antiga
sinceridade de costumes com taõ violenta metamorfose, que para
reconciliar-me comvosco me seja preciso cantar a Palinodia. Vós estais
offendidos? Eu ultrajei-vos? Havera entre Nós algum espirito taõ
escravo da vangloria, que naõ possa, nem se atreva a soffrer a verdade?
Chamar-me heis atrevido, porque sou zeloso da honra, e do credito da
Arcadia? Porque naõ sei lisonjear-vos com fantasticas esperanças;
porque vos naõ attribuo, se possivel he, maior merecimento do que
o vosso? Ou finalmente porque naõ me atrevo a divulgar com soberba
jactancia, que restauràmos a boa Poesia, e a verdadeira Eloquencia? Que
peleijámos, e que vencemos? Naõ, Arcades, naõ sou taõ ingrato, que vos
julgue destituidos de piedade, e de benevolencia.
[403] This passage may likewise be transcribed, as a specimen of the
Portuguese prose of the middle of the eighteenth century:--
Corre o tempo: ateia-se a epidemia; desprezaõ-se os bons Authores; naõ
vale o exemplo da Antiguidade; apaga-se a memoria da Arte; e finalmente
se transforma o genio da Naçaõ. Se no fim desta Epoca apparecesse huma
Alma capaz de atalhar o damno, acha já com tantas forças o Inimigo,
que ainda que adquira a honra de atacallo, raras vezes cólhe os louros
do triunfo. Saõ taõ frequentes, e talvez taõ domesticos os exemplos,
que naõ devo respeitallos. Prouvera Deos, ó Arcades, que ainda hoje em
Portugal naõ avultassem mais as ruinas deste geral destroço, do que
as miseraveis reliquias da restuida Lisboa. Só huma Academia, huma
Sociedade de homens sabios, zelosos do bem, e da honra da sua Patria,
he o Alexandre que póde cortar este Nó Gordiano, he o Achilles de que
pende a expugnaçaõ de Troia.
[404] See page 335.
[405] _Sobre a Poesia bucolica dos Poetas Portugueses. Memoria I._ The
continuation does not appear to have been published.
[406] _Espirito da lingoa Portugueza, extrahido das Decadas do insigno
escritos Joaõ de Barros_, in the third volume of the _Memorias de Litt.
Port._
[407] _Joaõ de Barros, exemplar de mais solida eloquencia Portuguesa_;
in the fourth volume of the _Memorias de Litt. Port._
[408] _Analyse e combinações philosophicas sobre o elucaçaõ e estilo de
Sà de Miranda, &c._ in the fourth volume of the _Mem. de Litt. Port._
[409] See page 209.
[410] The selection of extracts contained in this work may be closed by
the following passage, which will afford a specimen of the recent style
of didactic prose in the Portuguese language. The author is speaking of
the value to be set on ancient and modern poetry.
Mas este concurso de circunstancias parece, que ainda naõ foi a causa
suficiente da perfeiçaõ das Linguas: inda alli se diviza hum vacuo,
que precisa ser occupado. Aqui vem a Poesia com toda a sua pompa e
magestade, desatando os vóos, pulindo e aperfeiçoando os Idiomas,
dando a tudo alma e vida, já elevando-se aos maiores assumptos
nos louvores do Ente Supremo, e no panegyrico dos grandes homens,
persuadindo a imitaçaõ das acções nobres, e dignas dos mais distinctos
applausos. Ella lhe abre os seus thesouros; ella os enriquece; ella
lhes dá força, elegancia, e harmonia, sem o que seriaõ huns cadaveres
seccos, e inanimados. Sem a Poesia, nada seriaõ talvez os Gregos, e
os Romanos, que tanto enchêraõ o mundo com o fama das suas victorias,
com a grandeza das suas acções, e muito mais com a perfeiçaõ, com que
cultiváraõ todas as artes de genio, de que tantos, e taõ admiraveis
testemunhos nos deixáraõ principalmente nos seus escritos. A Poesia
pois, que tendo entre os antigos hum caracter de harmonia muito diverso
da Poesia moderna, veio pela ignorancia dos Seculos a tal decadencia,
que pouco faltou para ficar inteiramente ignorada.
[411] _Ensayo critico, sobre qual seja o uso prudente das palavras &c._
In the fourth volume of the _Memorias de Litt. Port._ The continuation
is in the fifth volume.
[412] It forms the commencement of the fifth volume of the _Memorias de
Litt. Port._
[413] _Compendio de Rhetorica Portuguesa, por Antonio de Teixeira a
Magalhães._ Lisb. 1782, in 8vo. I know nothing of this work except the
title.
[414] _Rhetorica de Gisbert, traduzida do Frances._ Lisb. 1789, in 8vo.
[Transcriber’s Note:
Corrections listed in Errata have beeen made.
Obvious printer errors corrected silently.
Inconsistent spelling and hyphenation are as in the original.]