Vagaram sem destino. O estomago de Rubião interrogava, exclamava,
intimava; por fortuna, o delirio vinha enganar a necessidade com os
seus banquetes das Tulherias. Quincas Borba é que não tinha egual
recurso. E toca a andar acima e abaixo. Rubião, de quando em quando,
sentava-se no lagedo, e o cão trepava-lhe ás pernas, para dormir a
fome; achava as calças molhadas, e descia; mas tornava logo a subir,
tão frio era o ar da noite, já noite alta, já noite morta. Rubião
passava-lhe as mãos por cima, resmungando algumas palavras magras.
Se, apezar de tudo, Quincas Borba conseguia adormecer, accordava logo,
porque Rubião levantava-se e punha-se outra vez a descer e subir
ladeiras. Soprava um triste vento, que parecia faca, e dava arrepios
aos dois vagabundos. Rubião andava de vagar; o proprio cançaço não lhe
permittia as grandes pernadas do principio, quando a chuva cabia em
bategas. As paradas eram agora mais frequentes. O cão, morto de fome e
de fadiga, não entendia aquella odysséa, ignorava o motivo, esquecera
o logar, não ouvia nada, senão as vozes surdas do senhor. Não podia
ver as estrellas, que já então rutilavam, livres de nuvens. Rubião
descobriu-as; chegara á porta da egreja, como quando entrou na cidade;
acabava de sentar-se e deu com ellas. Estavam tão bonitas, reconheceu
que eram os lustres do grande salão e ordenou que os apagassem. Não
pôde ver a execução da ordem; adormeceu alli mesmo, com o cão ao pé
de si. Quando accordaram de manhã, estavam tão juntinhos que pareciam
pegados.