Rubião, logo que chegou a Barbacena e começou a subir a rua que ora se
chama de Tiradentes, exclamou parando:
--Ao vencedor, as batatas!
Tinha-as esquecido de todo, a formula e a allegoria. De repente, como
se as syllabas houvessem ficado no ar, intactas, aguardando alguem
que as podesse entender, uniu-as, recompoz a formula, e proferiu-a
com a mesma emphasis daquelle dia em que a tomou por lei da vida e da
verdade. Não se lembrava inteiramente da allegoria; mas, a palavra
deu-lhe o sentido vago da luta e da victoria.
Subiu, acompanhado do cão, e foi parar defronte da egreja. Ninguem
lhe abriu a porta; não viu sombra de sacristão. Quincas Borba, que
não comia desde muitas horas, collava-se-lhe ás pernas, cabisbaixo,
esperando. Rubião voltou-se, e do alto da rua estendeu os olhos abaixo
e ao longe. Era ella, era Barbacena; a velha cidade natal ia-se-lhe
desentranhando das profundas camadas da memoria. Era ella; aqui
estava a egreja, alli a cadeia, acolá a pharmacia, donde vinham os
medicamentos para o outro Quincas Borba. Sabia que era ella, quando
chegou; mas, á medida que os olhos se derramavam, as reminiscencias
vinham vindo, escassas, mais numerosas, em bando. Não via ninguem;
uma janella, a esquerda, parecia ter alguem que espiava. Tudo o mais
deserto.
--Talvez não saibam que cheguei, pensou Rubião.