Se a manhã seguinte não fosse chuvosa, outra seria a disposição de
Sophia. O sol nem sempre é official de boas ideias; mas, ao menos,
permitte sahir, e a troca do expectaculo muda as sensações. Quando
Sophia acordou já a chuva cahia grossa e continua, e o céo e o mar era
tudo um, tão baixas estavam as nuvens, tão espessa era a cerração.
Tedio por dentro e por fóra. Nada em que espraiasse a vista e
descançasse a alma. Sophia metteu a alma em um caixão de cedro,
encerrou a este no caixão de chumbo do dia, e deixou-se estar
sinceramente defuncta. Não sabia que os defunctos pensam, que um enxame
de noções novas vem substituir as velhas, e que elles saem criticando
o mundo como os expectadores saem do theatro criticando a peça e os
actores. A defuncta sentiu que algumas noções e sensações continuavam
a vida. Vinham de mistura, mas tinham um ponto de partida commum,--a
carta da vespera e as recordações que lhe trouxe de Carlos Maria.
Em verdade, cuidára ter arredado para longe essa figura aborrecida, e
eil-a que reapparecia, que sorria, que a fitava, que lhe sussurrava ao
ouvido as mesmas palavras do vadio egoista e enfatuado, que a convidou
um dia á valsa do adulterio e a deixou sosinha no meio do salão. Á
volta dessa vinham outras; Maria Benedicta, por exemplo, um caco de
gente, que ella foi buscar á roça para lhe dar lustre de cidade, e que
esqueceu todos os beneficios para só se lembrar das suas ambições. E
D. Fernanda tambem, madrinha dos seus amores, que de caso pensado,
trouxera na vespera a carta de Maria Benedicta com o _post-scriptum_
confidencial. Não advertiu que o prazer da amiga bastava a explicar
o esquecimento da parte reservada da carta; menos ainda indagou se
a natureza moral de D. Fernanda comportava essa supposição. Vieram
assim outras ideias e imagens, e tornaram as primeiras, e todas se iam
ligando e desligando. Entre ellas, appareceu uma lembrança da vespera.
O marido de D. Fernanda, envolvera Sophia em um grande olhar de
admiração. Ella, em verdade, estava nos seus melhores dias; o vestido
sublinhava admiravelmente a gentileza do busto, o estreito da cintura e
o relevo delicado das cadeiras;--era _foulard_, côr de palha.
--Côr de _palha_, accentuou Sophia rindo, quando D. Fernanda o elogiou,
pouco depois de entrar; côr de _palha_, como uma lembrança deste senhor.
Não é facil dissimular o prazer da lisonja; o marido sorriu cheio de
vaidade, procurando ler nos olhos dos outros o effeito daquella prova
minuciosa de amor. Theophilo elogiou tambem o vestido, mas era difficil
miral-o sem mirar tambem o corpo da dona; d'alli os olhos compridos
que lhe deitou, sem concupiscencia, é certo, e quasi sem reincidencia.
Pois essa lembrança da vespera, um gesto sem convite, uma admiração
sem desejo, veiu metter-se de permeio agora, quando Sophia cuidava na
maldade da outra.
Carlos Maria, Theophilo... Outros nomes relampejavam no céo daquella
possibilidade, como ficou expresso no cap. CLIV. E vieram todos agora,
porque a chuva continuava a cair e o céo e o mar estavam ainda unidos
pela mesma cerração. Vieram todos esses nomes, com os proprios sujeitos
correspondentes, e até vieram sujeitos sem nomes,--os adventicios e
ignorados,--que uma só vez passaram por ella, cantaram o hymno da
admiração e receberam o obolo da boa vontade. Porque não reteve algum
de tantos, para ouvil-o cantar e enriquecel-o? Não é que os obolos
enriqueçam a ninguem, mas ha outras moedas de maior valia. Porque não
reteve um de tantos nomes elegantes, e até egregios? Essa pergunta sem
palavras correu-lhe assim pelas veias, pelos nervos, pelo cerebro, sem
outra resposta mais que a agitação e a curiosidade.