CAPITULO CLVIII

--Porque não o tratam? perguntou uma noite D. Fernanda, que alli o

conhecera no anno anterior; póde ser que se cure.

--Parece que não é cousa grave, acudiu o Palha; tem desses accessos,

mas assim mansos, como viu, ideias de grandeza, que passam logo; e

repare que, fóra daquillo, conversa perfeitamente. Comtudo, póde ser...

Que acha V. Ex.?

Theophilo, o marido de D. Fernanda, respondeu que sim, que era possivel.

--Que fazia elle, ou que faz agora? continuou o deputado.

--Nada, nem agora nem antes. Era rico,--mas gastador. Conhecemol-o

quando veiu de Minas, e fomos, por assim dizer, o seu guia no Rio de

Janeiro, aonde não voltara desde longos annos. Bom homem. Sempre com

luxo, lembra-se? Mas, não ha riqueza inexgotavel, quando se entra pelo

capital; foi o que elle fez. Hoje creio que tenha pouco...

--Podia salvar-lhe esse pouco, fazendo-se nomear curador, em quanto

elle se trata. Não sou medico, mas póde ser que esse seu amigo fique

bom.

--Não digo que não. Realmente, é pena... Dá-se com todos e presta seus

serviços. Sabe que esteve para ser nosso parente? Pois não! quis casar

com Maria Benedicta.

--A proposito de Maria Benedicta, interrompeu D. Fernanda, ia-me

esquecendo que trago uma carta della para mostrar á senhora; recebi-a

hontem. Já ha de saber que, em breve, estão de volta? Está aqui.

Entregou a carta a Sophia, que a abriu sem enthusiasmo, e a leu com

tedio. Era mais que uma vulgar carta transatlantica, era um deposito

moral, uma confissão intima e completa de pessoa feliz e agradecida.

Contava os mais recentes episodios da viagem, desordenadamente, porque

os viajantes eram sobrepostos a tudo, e as mais bellas obras do homem

ou da natureza valiam menos que os olhos que as miravam. Ás vezes,

um incidente de hospedaria ou de rua comia mais papel e trazia mais

interesse que outros, pela razão de pôr em relevo as qualidades do

marido. Maria Benedicta amava tanto ou ainda mais que no primeiro

dia. No fim, a medo, em _post-scriptum_, pedindo que o não dissesse a

ninguem, confessava que era mãe.

Sophia dobrou o papel, não já com tedio, senão com despeito, e por dous

motivos que se contradizem; mas a contradicção é deste mundo. Cotejada

aquella carta com as que recebera de Maria Benedicta, dir-se-hia

que ella era apenas uma conhecida, sem outro laço de sangue ou de

affecto; e, comtudo, não quereria ser confidente d'aquella felicidade

cochichada do outro lado do oceano, cheia de minucias, de adjectivos,

de exclamações, do nome de Carlos Maria, dos olhos de Carlos Maria, dos

ditos de Carlos Maria, finalmente do filho de Carlos Maria. Parecia

acinte, e quasi fazia crer na complicidade de D. Fernanda.

Habil, sabendo domar-se a tempo, Sophia dissimulou o despeito, e

restituiu sorrindo a carta da prima. Quiz dizer que, pelo texto, a

felicidade de Maria Benedicta devia estar intacta como a levara daqui,

mas a voz não lhe passou da garganta. D. Fernanda é que se incumbiu da

conclusão:

--Vê-se bem que é feliz!

--Parece que sim.

Quincas Borba · 第 171 / 218 题