Sophia encolhera-se muito ao canto. Podia ser extranheza da situação,
podia ser medo; mas era principalmente repugnancia. Nunca esse homem
lhe fez sentir tanta aversão, asco, ou outra cousa menos dura, se
querem, mas que se reduzia á incompatibilidade,--como direi que não
aggrave os ouvidos?--á incompatibilidade da epiderme. Onde iam os
sonhos de ha poucos dias? Ao simples convite de um passeio, a sós, á
Tijuca, subiu com elle a montanha, a galope, desmontou, ouviu palavras
de adoração, e sentiu um beijo na nuca. Onde iam essas imaginações?
Onde iam os olhos fixos e grandes, as mãos amigas e longas, os pés
inquietos, as palavras meigas e os ouvidos cheios de misericordia? Tudo
esqueceu, tudo desappareceu, agora que ambos se achavam deveras sós,
insulados pelo carro e pelo escandalo.
E os cavallos continuavam a andar, sacudindo as patas, arrastando
lentamente o carro, pelas pedras da rua Bella da Princeza. Que faria
ella chegando ao Cattete? iria á cidade com elle? Pensou em seguir
para a casa de alguma amiga deixal-o-hia dentro, diria ao cocheiro que
se fosse embora. Contaria tudo ao marido. No meio daquella agonia,
atravessaram-lhe o cerebro algumas memorias banaes, ou extranhas
á situação, como a noticia de um roubo de joias lida de manhã nos
jornaes, a ventania da vespera, um chapéo. Afinal fixou-se em um só
cuidado. Que lhe ia dizer o Rubião? Viu que elle continuava a olhar
para a frente, calado, com o castão da bengala no queixo. Não lhe
ficava mal a attitude, tranquilla, séria, quasi indifferente; mas então
para que se metteu no carro? Sophia quiz romper o silencio; por duas
vezes moveu nervosamente as mãos; quasi que a irritou a quietação do
homem, cuja acção só podia ser explicada pela paixão antiga e violenta.
Depois, imaginou que elle proprio estaria arrependido, e disse-lh'o em
bons termos.
--Não vejo que me possa arrepender de cousa nenhuma, acudiu elle,
voltando-se. Quando a senhora disse que era máu irmos assim, á vista do
publico, abaixei as cortinas. Não concordei, mas obedeci.
--Chegamos ao Cattete, atalhou ella; quer que o leve a casa? Não
podemos ir juntos para a cidade.
--Podemos andar á tôa.
--Como?
--Á tôa, os cavallos vão andando e nós vamos conversando, sem que nos
ouçam nem adivinhem...
--Pelo amor de Deus! não me falle assim, deixe-me, saia do carro, ou eu
saio aqui mesmo, e o senhor toma conta d'elle. Que é que quer dizer?
Bastam poucos minutos... Olhe, já dobramos para o lado da cidade; mande
ir para Botafogo, vou deixal-o a porta de casa...
--Mas eu sahi ha pouco de casa, vou para a cidade. Que mal ha em
levar-me até lá? Se é para que não nos vejam, como foi com as cortinas,
apeio-me, em qualquer logar,--na praia de Santa Luzia, por exemplo,--do
lado do mar...
--O melhor é descer aqui mesmo.
--Mas porque não iremos até a cidade?
--Não, não póde ser. Peço-lhe por tudo que lhe for mais sagrado! Não
faça escandalo; vamos, diga-me o que é preciso para obter uma cousa tão
simples? Quer que me ajoelhe aqui mesmo?
Apezar da estreiteza do espaço, ia dobrando os joelhos; mas Rubião
deu-se pressa em fazel-a sentar-se outra vez.
--Não é preciso que se ajoelhe, disse com brandura.
--Obrigada; peço-lhe então por Deus, por sua mãe, que está no ceu...
--Deve estar no ceu, confirmou Rubião. Era uma santa senhora! As mães
são sempre boas; mas daquella, ninguem que a conheceu poderá dizer
outra cousa senão que era uma santa. E prendada, como poucas. Que
dona de casa! Hospedes, para ella, tanto fazia cinco como cincoenta,
era a mesma cousa, cuidava de tudo a tempo e a hora, e criou fama. Os
escravos davam-lhe o nome de _Sinhá Mãe_, porque era, realmente, mãe
para todos. Deve estar no céu!
--Bem, bem, atalhou Sophia. Pois faça-me isto por amor de sua mãe; faz?
--Isto que?
--Apeiar-se aqui mesmo?
--E ir a pé para a cidade? Não posso. É scisma sua; ninguem nos vê. E
depois estes seus cavallos são magnificos. Já reparou como atiram as
patas, lentamente, plás... plás... plás... plás...
Cançada de pedir, Sophia calou-se, cruzou os braços e coseu-se ainda
mais, se era possivel, ao cantinho do carro.
--Agora me lembro, pensou ella; mando parar á porta do armazem do
Christiano; digo-lhe o modo por que este homem se introduziu no
_coupé_, os pedidos que lhe fiz o as respostas que me deu. Antes isso
que fazel-o apear mysteriosamente em qualquer rua.
Entretanto, Rubião estava quieto. De vez em quando volvia no dedo o
annel de brilhante,--um solitario explendido. Não olhava para ella,
não lhe dizia nem pedia nada. Iam como um casal de aborrecidos. Sophia
começava a não entender que razão o teria levado a entrar no carro.
Necessidade de transporte não podia ser. Vaidade, tambem não; fechára
as cortinas, á sua primeira queixa de publicidade. Nenhuma palavra
amorosa,--uma allusão remota que fosse, a medo, cheia de veneração e
supplica. Era um inexplicavel, um monstro.