Mas--ó lance da fortuna! ó equidade da natureza!--os desperdicios do
nosso amigo, se não tinham remedio, tinham compensação. Já o tempo
não passava por elle como por um vadio sem ideias. Rubião, á falta de
ideias, tinha agora imaginação. Outr'ora vivia mais dos outros que de
si, não achava equilibrio interior, e o ocio esticava as horas, que não
acabavam mais. Tudo ia mudando; agora a imaginação, que, a relampagos,
lhe apparecia ultimamente, tendia a pousar um pouco. Sentado na loja do
Bernardo, gastava toda uma manhã, sem que o tempo lhe trouxesse fadiga,
nem a estreiteza da rua do Ouvidor lhe tapasse o espaço. Repetiam-se
as visões deliciosas, como a das bodas (Cap. LXXXI) em termos a que
a grandeza não tirava a graça. Houve quem o visse, mais de uma vez,
saltar da cadeira e ir até á porta ver bem pelas costas alguma pessoa
que passava. Conhecel-a-hia? Ou seria alguem que, casualmente, tinha as
feições da creatura imaginaria que elle estivera mirando? São perguntas
de mais para um só capitulo; basta dizer que uma dessas vezes nem
passou ninguem, elle proprio reconheceu a illusão, voltou para dentro,
comprou uma teteia de bronze para dar á filha do Camacho, que fazia
annos, e ia casar em breve, e saiu.