CAPITULO CXXXIII

Ainda não disse,--porque os capitulos atropellam-se debaixo da

penna,--mas aqui está um para dizer que, por aquelle tempo, as relações

de Rubião tinham crescido em numero. Camacho puzera-o em contacto com

muitos homens politicos, a commissão das Alagoas com varias senhoras,

os bancos e companhias com pessoas do commercio e da praça, os theatros

com alguns frequentadores e a rua do Ouvidor com toda a gente. Já então

era um nome repetido. Conhecia-se o homem. Quando appareciam as barbas

e o par de bigodes longos, uma sobre-casaca bem justa, um peito largo,

bengala de unicornio, e um andar firme e senhor, dizia-se logo que era

o Rubião,--um ricaço de Minas.

Tinham-lhe feito uma lenda. Diziam-n'o discipulo de um grande

philosopho, que lhe legára immensos bens,--um, tres, cinco mil contos.

Extranhavam alguns que elle não fallasse nunca de philosophia, mas a

lenda explicava esse silencio pelo proprio methodo philosophico do

mestre, que consistia em ensinar sómente aos homens de boa vontade.

Onde estavam esses discipulos? Iam á casa delle, todos os dias,--alguns

duas vezes, de manhã e de tarde; e assim ficavam definidos os

comensaes. Não seriam discipulos, mas eram de boa vontade. Roiam fome,

á espera, e ouviam calados e risonhos os discursos do amphytrião. Entre

os antigos e os novos, houve tal ou qual rivalidade, que os primeiros

accentuaram bem, mostrando maior intimidade, dando ordens aos criados,

pedindo charutos, indo ao interior, assobiando, etc. Mas o costume os

fez supportaveis entre si, e todos acabaram na doce e commum confissão

das qualidades do dono da casa. Ao cabo de algum tempo, tambem os novos

lhe deviam dinheiro, ou em especie,--ou em fiança no alfaiate, ou

endosso de lettras, que elle pagava ás escondidas, para não vexar os

devedores.

Quincas Borba andava ao collo de todos. Davam estalinhos, para vel-o

saltar, alguns chegavam a beijar-lhe a testa; um delles, mais habil,

achou modo de o ter á mesa, ao jantar ou almoço, sobre as pernas, para

lhe dar migalhas de pão.

--Ah! isso não! protestou Rubião á primeira vez.

--Que tem? retorquiu o comensal. Não ha pessoas extranhas.

Rubião reflectiu um instante.

--Verdade é que está ahi dentro um grande homem, disse elle.

--O philosopho, o outro Quincas Borba, continuou o conviva, circulando

o olhar pelos novatos, para mostrar a intimidade das relações entre

elle e Rubião; mas, não logrou sosinho a vantagem, por que os outros

amigos da mesma éra, repetiram, em coro:

--É verdade, o philosopho.

E Rubião explicou aos novatos a allusão ao philosopho, e a razão do

nome do cão, que todos lhe attribuiam. Quincas Borba (o defuncto) foi

descripto e narrado como um dos maiores homens do tempo,--superior aos

seus patricios. Grande philosopho, grande alma, grande amigo. E no fim,

depois de algum silencio, batendo com os dedos na borda da mesa, Rubião

exclamou:

--Eu o faria ministro de Estado!

Um dos convivas exclamou, sem convicção, por simples officio:

--Oh! sem duvida!

Nenhum daquelles homens sabia, entretanto, o sacrificio que lhes

fazia o Rubião. Recusava jantares, passeios, interrompia conversações

apraziveis, só para correr a casa e jantar com elles. Um dia achou meio

de conciliar tudo. Não estando elle em casa ás seis horas em ponto,

os criados deviam pôr o jantar para os amigos. Houve protestos; não,

senhor, esperariam até sete ou oito horas. Um jantar sem elle não tinha

graça.

--Mas é que posso não vir, explicou Rubião.

Assim se cumpriu. Os convivas ajustaram bem os relogios pelos da casa

de Botafogo. Davam seis horas, todos á mesa. Nos dous primeiros dias

houve tal ou qual hesitação; mas os criados tinham ordens severas. Ás

vezes, Rubião chegava pouco depois. Eram então risos, ditos, intrigas

alegres. Um queria esperar, mas os outros... Os outros desmentiam o o

primeiro; ao contrario, foi este que os arrastou, tal fome trazia,--a

ponto que, se alguma cousa restava, eram os pratos. E Rubião ria com

todos.

Quincas Borba · 第 146 / 218 题