--Deus de misericordia! Você acredita mesmo que vae para o ceu?
--Já cá estou, ha vinte minutos. Pois que é esta sala, tranquilla,
fresca, tão longe da gente que anda lá fóra? Aqui conversamos os
dous, sem ouvir blasphemias, sem aturar espiritos aleijados, tisicos,
escrophulosos, insupportaveis, o proprio inferno, em summa. Aqui é o
ceu,--ou um pedaço do ceu; uma vez que nós cabemos nelle, vale pelo
infinito. Conversamos de Santa Sonora, de S. Carlos Maria e de Santa
Fernanda, que, para contrastar com S. Gonçalo, fez-se casamenteira das
moças. Onde é que ha outro ceu como este?
--Em Pelotas.
--Pelotas fica tão longe! suspirou elle estendendo as pernas e pondo os
olhos no lustre da sala.
--Está bom, é só a primeira investida; darei outras, até você acabar de
querer.
Carlos Maria sorriu e olhou para as borlas cahidas do cordão de seda
que ella trazia á cintura, atado por um laço frouxo; ou para ver
as borlas, ou para notar a gentileza do corpo. Viu bem, ainda uma
vez, que a prima era uma bella creatura. A plastica levou-lhe os
olhos,--o respeito os desviou; mas, não foi só a amizade que o fez
demorar ainda alli, e o trouxe novamente áquella casa. Carlos Maria
amava a conversação das mulheres, tanto quanto, em geral, aborrecia
a dos homens. Achava os homens declamadores, grosseiros, cançativos,
pesados, frivolos, chulos, triviaes. As mulheres, ao contrario, não
eram grosseiras, nem declamadoras, nem pesadas. A vaidade nellas ficava
bem, e alguns defeitos não lhes iam mal; tinham, ao demais, a graça e
a meiguice do sexo. Das mais insignificantes, pensava elle, ha sempre
alguma cousa que extrahir. Quando as achava insipidas ou estupidas,
tinha para si que eram homens mal acabados.
Entretanto, as relações de D. Fernanda e Maria Benedicta iam-se
estreitando. Esta, além de acanhada, andava triste por aquelle tempo;
foi justamente a disparidade de caracter e de situação que as prendeu
uma á outra. D. Fernanda possuia, em larga escala, a qualidade da
sympathia; amava os fracos e os tristes, pela necessidade de os
fazer ledos e corajosos. Contavam-se della muitos actos de piedade e
dedicação.
--A senhora que tem? perguntou ella um dia á amiguinha. Quasi nunca ri,
anda sempre com os olhos espantados, pensando...
Maria Benedicta, respondeu que não tinha nada, que era o seu modo; e
sorria dizendo isto, por simples condescendencia. Fallou tambem na
perda da mãe, como uma das causas de suas melancolias. D. Fernanda
entrou a leval-a a toda parte, a trazel-a para jantar, a dar-lhe
logar no camarote, se ia ao theatro; e graças a isso, e ao seu
genio galhofeiro, sacudiu da alma da moça os corvos aborrecidos que
lá avoejavam. Costume e affeição depressa as fizeram intimas. Não
obstante, Maria Benedicta continuou a calar o seu mysterio.
--Seja qual fôr o mysterio, pensou um dia D. Fernanda, acho que o
melhor é casal-a com o Carlos Maria; a Sonora que espere.
--Você precisa casar, Maria Benedicta, disse-lhe dalli a dous dias,
da manhã, na chacara, em Matta-cavallos; Maria Benedicta tinha ido ao
theatro com ella, e passára lá a noite.--Não quero estremecimentos;
precisa casar e hade casar... Desde antehontem que estou para lhe dizer
isto, mas estas cousas falladas em sala ou na rua, não tem força. Aqui
na chacara é differente. E se você tem animo de trepar commigo um
pedaço do morro, então é que ficaremos hem. Vamos?
--Está fazendo calor...
--É mais poetico, menina. Ah! carioca sem sangue! Vocês só tem agua nas
veias. Pois fiquemos aqui neste banco. Sente-se; assim, eu fico aqui
ao pé, armada, para tudo. Casa ou morre. Não me replique. Você não é
feliz,--continuou mudando o tom; por mais que faça, eu vejo que você
passa a vida sem gosto. Venha cá, diga-me com franqueza, tem inclinação
a alguem? Se tem, confesse, que eu mando procurar a pessoa.
--Não tenho.
--Não? Pois é justamente o que nos serve. Não precisa pôr escriptos no
coração; conheço um bom inquilino.
Maria Benedicta voltou-se de todo para ella, com os labios entreabertos
e os olhos escancarados. Parecia receiar da proposta ou anciar por
ella. D. Fernanda, não atinando com o verdadeiro estado da amiga,
pegou-lhe na mão primeiro, e pediu que lhe dissesse tudo. De força que
amava a alguem, era claro, via-se-lhe nos olhos, cumpria confessal-o,
instava, rogava,--intimaria, se preciso fosse. A mão de Maria Benedicta
esfriara, os olhos cavavam o chão, e, por alguns instantes, nenhuma
dellas disse nada.
--Vamos, falle, repetiu D. Fernanda.
--Não tenho que dizer.
D. Fernanda fazia gestos de incredulidade; apertava-a cada vez mais,
passou-lhe a mão pela cintura, e ligou-a muito a si; disse-lhe
baixinho, dentro do ouvido, que era como se fosse sua propria mãe.
E beijava-a na face, na orelha, na nuca, encostava-lhe a cabeça
ao hombro, acarinhava-a com a outra mão. Tudo, tudo, queria saber
tudo. Se o namorado estava na lua, mandaria buscal-o á lua,--fosse
onde fosse,--excepto no cemiterio; mas, se estivesse no cemiterio,
dar-lhe-hia outro muito melhor, que faria esquecer o primeiro em poucos
dias. Maria Benedicta ouvia agitada, palpitante, não sabendo por onde
escapasse,--prestes a fallar, e calando a tempo, como se defendesse o
seu pudor. Não negava, não confessava,--mas, como tambem não sorria, e
tremia de commoção, era facil adivinhar meia verdade, ao menos.
--Mas então não sou sua amiga, não tem confiança em mim? Faça de conta
que sou sua mãe.
Maria Benedicta pouco mais resistiu; gastára as forças e sentia a
necessidade de revellar alguma cousa. D. Fernanda escutou-a commovida.
O sol vinha já lambendo as cercanias do banco, não tardou que lhes
trepasse aos sapatos, á barra dos vestidos e aos joelhos; mas nenhuma
deu por elle. O amor as absorvia; a exposição de uma tinha para a
outra um enlevo raro. Era uma paixão não sabida, não compartida, não
adivinhada; paixão que ia perdendo de indole e de especie para se
converter em adoração pura. A principio, quando ella via a pessoa
amada, passava por dous estados mui diversos,--um que não podia
definir, alvoroço, tonteira, pancadas no coração, quasi um desmaio; o
segundo era de contemplação. Agora era quasi que só este. Tinha chorado
muito, comsigo, perdera noites e noites de saudades; pagou caro a
ambição das suas esperanças. Mas não perderia nunca a certeza de que
elle era superior a todos os demais homens, um ente divino, que, ainda
não fazendo caso della, mereceria sempre ser adorado.
--Bem, disse D. Fernanda, quando a amiga se calou de todo. Vamos ao
essencial, que é não ficar penando á tôa. Não, queridinha, isto de
adorar a um homem que não faz caso da gente, é poesia. Deixe-se de
poesia. Olhe que só você perde no negocio, por que elle casa com outra,
os annos passam, a paixão monta na garupa delles, e um dia, quando você
menos pensar, accorda sem amor nem marido. E quem é esse barbaro?
--Isso não digo, respondeu Maria Benedicta, levantando-se do banco.
--Pois não diga, acudiu D. Fernanda, pegando-lhe nos pulsos e fazendo-a
sentar nos seus joelhos. A questão principal é casar;--não podendo ser
com esse, será com outro.
--Não, não caso.
--Só com elle?
--Nem sei se com elle, respondeu Maria Benedicta, depois de alguns
instantes. Gósto delle, como gósto de Deus, que está no ceu.
--Virgem Santissima! Que blasphemia! Duas blasphemias, menina; a
primeira é que não se deve amar a ninguem como a Deus,--a segunda é que
um marido, ainda sendo máo, sempre é melhor que o melhor dos sonhos.