Curta foi a visita de Rubião. As nove horas levantou-se elle
discretamente, esperando qualquer palavra de Sophia, um pedido para
que ficasse ainda algum tempo, que esperasse o marido que já vinha, um
espanto que fosse: _Já!_ mas nem isso. Sophia estendeu-lhe a mão, em
que elle mal pôde tocar. Comtudo, a moça, durante a visita, mostrou-se
tão natural, tão sem azedume... Não teve seguramente os olhos longos e
loquazes, como d'antes; parecia até que não houvera nada, nem bem nem
mal, nem morangos, nem lua. Rubião tremia, não achava palavras; ella
achava todas as que queria, e, se era preciso olhar para elle, fazia-o
direitamente, tranquillamente...
--Lembranças ao nosso Palha, murmurou elle de chapéo e bengala na mão.
--Obrigada! Foi fazer uma visita; parece que ouço passos; hade ser elle.
Não era elle; era Carlos Maria. Rubião ficou espantado de o ver alli,
mas achou logo que a presença da fazendeira e da filha explicaria tudo;
podia ser até que fossem aparentados.
--Ia saindo, quando o senhor entrou, disse-lhe Rubião depois de o ver
sentado ao pé de D. Maria Augusta.
--Ah! respondeu o outro, olhando para o retrato de Sophia.
Sophia foi até á porta despedir-se do Rubião; disse-lhe que o marido
ficaria com pena de não estar em casa; mas que a visita era imperiosa.
Negocios... Iria pedir-lhe desculpa.
--Que desculpa? acudiu Rubião.
Parece que quiz dizer ainda alguma cousa; mas o aperto de mão de Sophia
e a reverencia que esta lhe fez, deram-lhe o signal de despedida.
Rubião inclinou-se, atravessou o jardim, ouvindo a voz de Carlos Maria,
na sala:
--Vou denunciar seu marido, minha senhora; é homem de muito mau gosto,
e _le mauvais goût mène au crime..._
Rubião parou.
--Porque? disse Sophia.
--Tem este seu retrato na sala, continuou Carlos Maria; a senhora é
muito mais bella, infinitamente mais bella que a pintura... Comparem,
minhas senhoras.