O cão ladrou de dentro; mas, logo que Rubião entrou, recebeu-o com
grande alegria; e por mais importuno que fosse, Rubião desfez-se em
caricias. A idéa de poder estar alli o testador dava-lhe arrepios.
Subiram juntos a escada de pedra; alli ficaram por alguns instantes,
á luz do lampeão que Rubião mandára deixar acceso. Rubião era mais
credulo que crente; não tinha razões para atacar nem para defender
nada:--terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer cousa.
A vida da côrte deu-lhe até uma particularidade; entre incredulos,
chegava a ser incredulo...
Olhou para o cão, emquanto esperava que lhe abrissem a porta. O cão
olhava para elle, de tal geito que parecia estar alli dentro o proprio
e defuncto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do philosopho,
quando examinava as cousas humanas... Novo arrepio; mas o medo, que era
grande, não era tão grande que lhe atasse as mãos. Rubião estendeu-as
sobre a cabeça do animal, coçando-lhe as orelhas e a nuca.
--Pobre Quincas Borba! Gosta de seu senhor, não gosta? Rubião é muito
amigo de Quincas Borba...
E o cão movia devagar a cabeça, para a esquerda e para a direita,
ajudando a distribuição das caricias ás duas orelhas pendentes;
depois levantava o queixo, para que lhe coçasse em baixo, e o dono
obedecia; mas então os olhos do cão, meio fechados de gosto, tinham
um ar dos olhos do philosopho, na cama, contando-lhe cousas de que
elle entendia pouco ou nada... Rubião fechava os seus. Abriram-lhe a
porta; despediu-se do cão, mas com taes carinhos, que era o mesmo que
pedir-lhe que entrasse. O creado hespanhol incumbiu-se de o levar para
baixo.
--Não lhe dê pancadas, recommendou Rubião.
Não lhe deu pancadas; mas só a descida era dolorosa, e o cão amigo
gemeu por muito tempo no jardim. Rubião entrou, despiu-se e deitou-se.
Ah! tinha vivido um dia cheio de sensações diversas e contrarias, desde
as recordações da manhã, e o almoço aos dous amigos, até aquella ultima
ideia de metempsycose, passando pela lembrança do enforcado, e por uma
declaração de amor não aceita, mal repellida, parece que adivinhada
por outros... Misturava tudo; o espirito ia de um para outro lado como
bola de borracha entre mãos de creanças. Comtudo, a sensação maior era
a do amor. Rubião estava admirado de si mesmo, e arrependia-se; mas
o arrependimento era obra da consciencia, ao passo que a imaginação
não soltava por nenhum preço a figura da bella Sophia... Uma, duas,
tres horas... Sophia ao longe, os latidos do cão embaixo... O somno
esquivo... Onde iam já as tres horas? Tres e meia... Emfim, depois de
muito cuidar, appareceu-lhe o somno, espremeu os classicas papoulas, o
foi um instante; Rubião dormiu antes das quatro.