Rubião não era philosopho; a comparação que alli fez entre os seus
cuidados e os do maltrapilho apenas lhe trouxe á alma uma sombra de
inveja. Aquelle malandro não pensa em nada, disse elle comsigo; d'aqui
a pouco está dormindo, emquanto eu...
--Meu amo, entre que o animal é bom. Vamos lá em quinze minutos.
Os outros dois cocheiros diziam-lhe a mesma cousa, quasi por eguaes
palavras:
--Meu amo, venha aqui e verá...
--Olhe o meu cavallinho...
--Faça favor; são treze minutos de viagem. Em treze minutos está em
casa.
Rubião, depois de hesitar ainda, deu consigo dentro do tilbury que
lhe ficava á mão, e mandou tocar para Botafogo. Então lembrou-se
de um velho episodio esquecido, ou foi o episodio que lhe deu
inconscientemente a solução. Uma ou outra cousa, Rubião guiou o
pensamento, com o fim de escapar ás sensações daquella noite.
La iam longos annos. Elle era então muito rapaz, e pobre. Um dia, ás
oito horas da manhã, sahiu de casa, que era na rua do Cano (Sete do
Setembro), entrou no largo do S. Francisco do Paula; d'alli desceu pela
rua do Ouvidor. Ia com alguns cuidados; morava em casa de um amigo,
que começava a tratal-o como hospede de tres dias, e elle ja o era de
quatro semanas. Dizem que os de trez dias cheiram mal; muito antes
d'isso cheiram mal os defuntos, ao menos nestes climas quentes... Certo
é que o nosso Rubião, singelo como um bom mineiro, mas desconfiado
como um paulista, ia cheio de cuidados, pensando em retirar-se quanto
antes. Póde crer-se que desde que sahiu de casa, entrou no largo de S.
Francisco, e desceu a rua do Ouvidor até a dos Ourives, não viu nem
ouviu cousa nenhuma.
Na esquina da rua dos Ourives deteve-o um ajuntamento de pessoas, e um
prestito singular. Um homem, judicialmente trajado, lia em voz alta um
papel, a sentença. Havia mais o juiz, um padre, soldados, curiosos.
Mas, as principaes figuras eram dous pretos. Um delles, mediano,
magro, tinha as mãos atadas, os olhos baixos, a côr fula, e levava uma
corda enlaçada no pescoço; as pontas do baraço iam nas mãos de outro
preto. Este outro olhava para a frente e tinha a cor fixa e retinta.
Sustentava com galhardia a curiosidade publica. Lido o papel, o
prestito seguiu pela rua dos Ourives adeante; vinha do aljube e ia para
o largo do Moura.
Rubião naturalmente ficou impressionado. Durante alguns segundos esteve
como agora á escolha de um tilbury. Forças intimas offereciam-lhe o
seu cavallo, umas que voltasse para traz ou descesse para ir aos seus
negocios,--outras que fosse ver enforcar o preto. Era tão raro ver um
enforcado! Senhor, em vinte minutos está tudo findo!--Senhor, vamos
tratar de outras cousas! E o nosso homem fechou os olhos, e deixou-se
ir ao acaso. O acaso, em vez de leval-o pela rua do Ouvidor abaixo
até á da Quitanda, torceu-lhe o caminho pela dos Ourives, atraz do
prestito. Não iria ver a execução, pensou elle; era só ver a marcha do
réo, a cara do carrasco, as cerimonias... Não queria ver a execução. De
quando em quando, parava tudo, chegava gente ás portas e janellas, e o
porteiro dos auditorios relia a sentença. Depois, o prestito continuava
a andar com a mesma solemnidade. Os curiosos iam narrando o crime,--um
assassinato em Mata-porcos. O assassino era dado como homem frio e
feroz. A noticia dessas qualidades fez bem a Rubião; deu-lhe força para
encarar o réo, sem deliquios de piedade. Não era já a cara do crime; o
terror dissimulava a perversidade. Sem reparar, deu consigo no largo
da execução. Já alli havia bastante gente. Com a que vinha formou-se
multidão compacta.
--Voltemos, disse elle consigo.
Verdade é que o réo ainda não subira a forca; não o matariam de
relance; sempre era tempo de fugir. E, dado que ficasse, porque não
fecharia os olhos, como fez certo Alypio deante do expectaculo das
feras? Note-se bem que Rubião nada sabia desse tal rapaz antigo;
ignorava, não só que fechára os olhos, mas tambem que os abrira logo
depois, devagarinho e curioso...
Eis o réo que sobe a forca. Passou pela turba um fremito. O carrasco
pôz mãos á obra. Foi aqui que o pé direito de Rubião descreveu uma
curva na direcção exterior, obedecendo a um sentimento de regresso; mas
o esquerdo, tomado de sentimento contrario, deixou-se estar; lutaram
alguns instantes... Olhe o meu cavallo!--Veja, é um rico animal!--Não
seja máo!--Não seja medroso! Rubião esteve assim alguns segundos,
os que bastaram para que chegasse o momento fatal. Todos os olhos
fixaram-se no mesmo ponto, como os delle. Rubião não podia entender
que bicho era que lhe mordia as entranhas, nem que mãos de ferro lhe
pegavam da alma e a retinham alli. O instante fatal foi realmente um
instante; o réo esperneou, contrahiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo
airoso e destro; passou pela multidão um rumor grande, Rubião deu um
grito, e não viu mais nada.