CAPITULO XLVII

Rubião não era philosopho; a comparação que alli fez entre os seus

cuidados e os do maltrapilho apenas lhe trouxe á alma uma sombra de

inveja. Aquelle malandro não pensa em nada, disse elle comsigo; d'aqui

a pouco está dormindo, emquanto eu...

--Meu amo, entre que o animal é bom. Vamos lá em quinze minutos.

Os outros dois cocheiros diziam-lhe a mesma cousa, quasi por eguaes

palavras:

--Meu amo, venha aqui e verá...

--Olhe o meu cavallinho...

--Faça favor; são treze minutos de viagem. Em treze minutos está em

casa.

Rubião, depois de hesitar ainda, deu consigo dentro do tilbury que

lhe ficava á mão, e mandou tocar para Botafogo. Então lembrou-se

de um velho episodio esquecido, ou foi o episodio que lhe deu

inconscientemente a solução. Uma ou outra cousa, Rubião guiou o

pensamento, com o fim de escapar ás sensações daquella noite.

La iam longos annos. Elle era então muito rapaz, e pobre. Um dia, ás

oito horas da manhã, sahiu de casa, que era na rua do Cano (Sete do

Setembro), entrou no largo do S. Francisco do Paula; d'alli desceu pela

rua do Ouvidor. Ia com alguns cuidados; morava em casa de um amigo,

que começava a tratal-o como hospede de tres dias, e elle ja o era de

quatro semanas. Dizem que os de trez dias cheiram mal; muito antes

d'isso cheiram mal os defuntos, ao menos nestes climas quentes... Certo

é que o nosso Rubião, singelo como um bom mineiro, mas desconfiado

como um paulista, ia cheio de cuidados, pensando em retirar-se quanto

antes. Póde crer-se que desde que sahiu de casa, entrou no largo de S.

Francisco, e desceu a rua do Ouvidor até a dos Ourives, não viu nem

ouviu cousa nenhuma.

Na esquina da rua dos Ourives deteve-o um ajuntamento de pessoas, e um

prestito singular. Um homem, judicialmente trajado, lia em voz alta um

papel, a sentença. Havia mais o juiz, um padre, soldados, curiosos.

Mas, as principaes figuras eram dous pretos. Um delles, mediano,

magro, tinha as mãos atadas, os olhos baixos, a côr fula, e levava uma

corda enlaçada no pescoço; as pontas do baraço iam nas mãos de outro

preto. Este outro olhava para a frente e tinha a cor fixa e retinta.

Sustentava com galhardia a curiosidade publica. Lido o papel, o

prestito seguiu pela rua dos Ourives adeante; vinha do aljube e ia para

o largo do Moura.

Rubião naturalmente ficou impressionado. Durante alguns segundos esteve

como agora á escolha de um tilbury. Forças intimas offereciam-lhe o

seu cavallo, umas que voltasse para traz ou descesse para ir aos seus

negocios,--outras que fosse ver enforcar o preto. Era tão raro ver um

enforcado! Senhor, em vinte minutos está tudo findo!--Senhor, vamos

tratar de outras cousas! E o nosso homem fechou os olhos, e deixou-se

ir ao acaso. O acaso, em vez de leval-o pela rua do Ouvidor abaixo

até á da Quitanda, torceu-lhe o caminho pela dos Ourives, atraz do

prestito. Não iria ver a execução, pensou elle; era só ver a marcha do

réo, a cara do carrasco, as cerimonias... Não queria ver a execução. De

quando em quando, parava tudo, chegava gente ás portas e janellas, e o

porteiro dos auditorios relia a sentença. Depois, o prestito continuava

a andar com a mesma solemnidade. Os curiosos iam narrando o crime,--um

assassinato em Mata-porcos. O assassino era dado como homem frio e

feroz. A noticia dessas qualidades fez bem a Rubião; deu-lhe força para

encarar o réo, sem deliquios de piedade. Não era já a cara do crime; o

terror dissimulava a perversidade. Sem reparar, deu consigo no largo

da execução. Já alli havia bastante gente. Com a que vinha formou-se

multidão compacta.

--Voltemos, disse elle consigo.

Verdade é que o réo ainda não subira a forca; não o matariam de

relance; sempre era tempo de fugir. E, dado que ficasse, porque não

fecharia os olhos, como fez certo Alypio deante do expectaculo das

feras? Note-se bem que Rubião nada sabia desse tal rapaz antigo;

ignorava, não só que fechára os olhos, mas tambem que os abrira logo

depois, devagarinho e curioso...

Eis o réo que sobe a forca. Passou pela turba um fremito. O carrasco

pôz mãos á obra. Foi aqui que o pé direito de Rubião descreveu uma

curva na direcção exterior, obedecendo a um sentimento de regresso; mas

o esquerdo, tomado de sentimento contrario, deixou-se estar; lutaram

alguns instantes... Olhe o meu cavallo!--Veja, é um rico animal!--Não

seja máo!--Não seja medroso! Rubião esteve assim alguns segundos,

os que bastaram para que chegasse o momento fatal. Todos os olhos

fixaram-se no mesmo ponto, como os delle. Rubião não podia entender

que bicho era que lhe mordia as entranhas, nem que mãos de ferro lhe

pegavam da alma e a retinham alli. O instante fatal foi realmente um

instante; o réo esperneou, contrahiu-se, o algoz cavalgou-o de um modo

airoso e destro; passou pela multidão um rumor grande, Rubião deu um

grito, e não viu mais nada.

Quincas Borba · 第 56 / 218 题