--Olá! estão apreciando a lua? Realmente, está deliciosa; está uma
noite para namorados... Sim, deliciosa... Ha muito que não vejo uma
noite assim... Olhem só para baixo, os bicos de gaz... Deliciosa!
para namorados... Os namorados gostam sempre da lua. No meu tempo, em
Icarahy...
Era Siqueira, o terrivel major. Rubião não sabia que dissesse; Sophia,
passados os primeiros instantes readquiriu a posse de si mesma;
respondeu que, em verdade, a noite era linda; depois contou que Rubião
teimava em dizer que as noites do Rio não podiam comparar-se ás de
Barbacena, e, a proposito disso, referira uma anecdota de um padre
Mendes... Não era Mendes?
--Mendes, sim, o padre Mendes, murmurou o Rubião.
O major mal podia conter o assombro. Tinha visto as duas mãos presas,
a cabeça do Rubião meia inclinada, o movimento rapido de ambos, quando
elle entrou no jardim; e sae-lhe de tudo isto um padre Mendes... Olhou
para Sophia; viu-a risonha, tranquilla, impenetravel. Nenhum medo,
nenhum acanhamento; fallava com tal simplicidade, que o major pensou
ter visto mal. Mas o Rubião estragou tudo. Vexado, calado, não fez
mais que tirar o relogio para ver as horas, leval-o ao ouvido, como se
lhe parecesse que não andava, depois limpal-o com o lenço, devagar,
devagar, sem olhar para um nem para outro...
--Bem, conversem, vou vêr as amigas, que não podem estar sós. Os homens
já acabaram o maldito voltarete?
--Já, respondeu o major olhando curiosamente para Sophia. Já, e até
perguntaram por este senhor; por isso é que eu vim ver se o achava no
jardim. Mas estavam aqui ha muito tempo?
--Agora mesmo, disse Sophia.
Depois, batendo carinhosamente no hombro do major,passou do jardim á
casa; não entrou pela porta da sala de visitas, mas por outra que dava
para a de jantar; de maneira que, quando chegou áquella pelo interior,
era como se acabasse de dar ordens para o chá.
Rubião, voltando a si, ainda não achou que dizer, e comtudo urgia dizer
alguma cousa. Boa ideia era a anecdota do padre Mendes; o peior é que
não havia padre nem anecdota, e elle era incapaz de inventar nada.
Pareceu-lhe bastante isto:
--O padre! o Mendes! Muito engraçado o padre Mendes!
--Conheci-o, disse o major sorrindo. O padre Mendes? Conheci-o; morreu
conego. Esteve algum tempo em Minas?
--Creio que esteve, murmurou o outro, espantado.
--Era filho aqui de Saquarema; era um que não tinha este olho,
continuou o major levando o dedo ao olho esquerdo. Conheci-o muito, se
é que é o mesmo; póde ser que seja outro.
--Póde ser.
--Morreu conego. Era homem de bons costumes, mas amigo de ver moças
bonitas, como se mira um painel de mestre; e que maior mestre que Deus?
dizia elle. Esta D. Sophia, por exemplo, nunca elle a viu na rua que me
não dissesse: Hoje vi aquella bonita senhora do Palha... Morreu conego;
era filho de Saquarema... E, na verdade, tinha bom gosto... Realmente,
a mulher do nosso Palha, é um primor, bella de cara e de figura; eu
ainda a acho mais bem feita que bonita... Que lhe parece?
--Parece que sim...
--E boa pessoa, excellente dona de casa; continuou o major accendendo
um charuto.
A luz do phosphoro deu á cara do major uma expressão de escarneo, ou de
outra cousa menos dura, mas não menos adversa. Rubião sentiu correr-lhe
um frio pela espinha. Teria ouvido? visto? adivinhado? Estava alli um
indiscreto, um mexeriqueiro? A cara do homem dizia que sim e que não;
em todo caso, era mais seguro crer no peior. Aqui temos o nosso heroe
como alguem que, depois de navegar cosido com a praia, longos annos,
acha-se um dia entre as ondas do alto mar; felizmente o medo tambem é
official de ideias, e deu-lhe alli uma, lisongear o interlocutor. Não
hesitou em achal-o gracioso e interessante, e dizer-lhe que tinha uma
casa ás suas ordens, na praia de Botafogo, numero tantos. Dava-lhe
muita honra em travar relações com elle. Contava poucos amigos aqui: o
Palha, a quem devia grandes obsequios,--D. Sophia que era uma senhora
de rara gravidade, e mais tres ou quatro pessoas. Vivia só; podia ser
até que se retirasse para Minas.
--Já?
--Não digo já, mas póde ser que me não demore. Sabe que uma pessoa que
viveu toda a sua vida em um logar, custa-lhe muito a acostumar-se em
outro.
--Isso conforme.
--Sim, conforme... Mas é a regra.
--Regra será, mas o senhor vae ser uma excepção. A côrte é o diabo;
apanha-se uma paixão como se apanha uma constipação; basta uma fresta
de ar, fica-se perdido. Olhe, eu não me dava de apostar que o senhor,
antes de seis mezes, está casado...
--Não viu nada, pensou Rubião.
E depois, alegre:
--Póde ser, mas tambem em Minas ha casamentos; nem lá faltam padres.
--Falta o padre Mendes, acudiu rindo o major.
Rubião sorriu constrangido, não entendendo se a palavra do major era
innocente ou maliciosa. Este é que colheu as rédeas ao assumpto, e
fallou de outras cousas, do tempo, da cidade, do ministerio, da guerra,
e do marechal Lopez. E vede o contraste da occasião: esse aguaceiro,
maior que o da entrada, pareceu um raio de sol ao nosso Rubião.
Eil-o que espaneja a alma ao calor do discurso infinito do major,
intercallando alguma palavrinha, se pode, e sempre cabeceando com
applauso. E pensava outra vez que não, que elle não vira nada.
--Papae Papae está ahi? disse uma voz á porta que dava para o jardim.
Era D. Tonica; vinha chamal-o para irem embora. O chá estava na meza, é
verdade; mas não podia esperar mais, tinha dor de cabeça, disse ella ao
pae, baixinho. Depois estendeu os dedos ao Rubião; este pediu-lhe que
ficasse ainda alguns minutos; o estimavel major...
--Perde o seu tempo, interrompeu o major; ella é que me governa.
Rubião offereceu-lhe a casa com instancia; exigiu até que lhe marcasse
um dia, n'aquella mesma semana, mas o major acudiu que não podia dispor
de dia certo; iria, logo que lhe fosse possivel. A vida delle era muito
trabalhosa; tinha os negocios do arsenal, que já eram muitos, e tinha
mais...
--Papae! vamos!
--Vamos. Está vendo? Não posso conversar um instante. Já te despediste?
Onde está o meu chapéo?