Rubião passou o resto da manhã alegremente. Era domingo; dous amigos
vieram almoçar com elle, um rapaz de vinte e quatro annos, que roia as
primeiras aparas dos bens da mãe, e um homem de quarenta e quatro ou
quarenta e seis, que ja não tinha que roer.
Carlos Maria chamava-se o primeiro, Freitas o segundo. Rubião gostava
de ambos, mas differentemente; não era só a edade que o ligava mais
ao Freitas, era tambem a indole deste homem. Freitas elogiava tudo,
saudava cada prato e cada vinho com uma phrase particular, delicada, e
sahia de lá com as algibeiras cheias de charutos, provando assim que
os preferia a quaesquer outros. Tinha-lhe sido apresentado em certo
armazem da rua Municipal, onde jantaram uma vez juntos. Contaram-lhe
alli a historia do homem, a sua boa e má fortuna, mas não entraram
em particularidades. Rubião torceu o nariz; era naturalmente algum
naufrago, cuja convivencia não lhe traria nenhum prazer pessoal nem
consideração publica. Mas o Freitas attenuou logo essa primeira
impressão; era vivo, interessante, anecdotico, alegre como um homem que
tivesse cincoenta contos de renda. Como Rubião fallasse das bonitas
rosas que possuia, elle pediu-lhe licença para ir vel-as: era doudo por
flores. Poucos dias depois appareceu lá, disse que ia ver as bellas
rosas, eram poucos minutos, não se incommodasse o Rubião, se tinha que
fazer. Rubião, ao contrario, gostou de ver que o homem não se esquecêra
da conversação, desceu ao jardim onde elle ficara esperando, e foi
mostrar-lhe as rosas. Freitas achou-as admiraveis; examinava-as com tal
affinco que era preciso arrancal-o de uma roseira para leval-o a outra.
Sabia o nome de todas, e ia apontando muitas especies que o Rubião não
tinha nem conhecia,--apontando e descrevendo, assim e assim, deste
tamanho (indicava o tamanho abrindo e arredondando o dedo pollegar e o
index), e depois nomeava as pessoas que possuiam bons exemplares. Mas
as do Rubião eram das melhores especies; esta, por exemplo, era rara, e
aquella tambem, etc. O jardineiro ouvia-o com espanto. Tudo examinado,
disse Rubião:
--Venha tomar alguma cousa. Que hade ser?
Freitas contentou-se com qualquer cousa. Chegando acima, achou a casa
muito bem posta. Examinou os bronzes, os quadros, os moveis, olhou para
o mar.
--Sim, senhor! disse elle, o senhor vive como um fidalgo.
Rubião sorriu; fidalgo, ainda por comparação, é palavra que se ouve
bem. Veiu o creado hespanhol com a bandeija de prata, varios licores, e
calices, e foi um bom momento para o Rubião. Offereceu elle mesmo, este
ou aquelle licor; recommendou afinal um que lhe deram como superior a
tudo que, em tal ramo, poderia existir no mercado. O Freitas sorriu
incredulo.
--Talvez seja encarecimento, disse elle.
Tomou o primeiro trago, saboreou-o devagar, depois segundo, depois
terceiro. No fim, pasmado, confessou que era um primor. Onde é que
comprara aquillo? Rubião respondeu que um amigo, dono de um grande
armazem de vinhos, o presenteara com uma garrafa; elle, porém, gostou
tanto que já encommendára tres duzias. Não tardou que se estreitassem
as relações. E o Freitas vae alli almoçar ou jantar muitas vezes,--mais
vezes ainda do que quer ou póde,--porque é difficil resistir a um homem
tão obsequioso, tão amigo de ver caras amigas.