--Mas que peccado é este que me persegue? pensava elle andando. Ella é
casada, dá-se bem com o marido, o marido é meu amigo, tem-me confiança,
como ninguem... Que tentações são estas?
Parava, e as tentações paravam tambem. Elle, um Santo Antão leigo,
differençava-se do anachoreta em amar as suggestões do diabo, uma vez
que teimassem muito. D'ahi a alternação dos monologos:
--É tão bonita! e parece querer-me tanto! Se aquillo não é gostar, não
sei o que seja gostar. Aperta-me a mão com tanto agrado, com tanto
calor... Não posso affastar-me; ainda que elles me deixem, eu é que não
resisto.
Quincas Borba sentiu-lhe os passos, e começou a latir. Rubião deu-se
pressa em soltal-o; era soltar-se a si mesmo por alguns instantes
daquella perseguição.
--Quincas Borba! exclamou, abrindo-lhe a porta.
O cão atirou-se fóra. Que alegria! que enthusiasmo! que saltos em volta
do amo! chega a lamber-lhe a mão de contente, mas Rubião dá-lhe um
tabefe, que lhe doe; elle recua um pouco, triste, com a cauda entre as
pernas; depois o senhor dá um estalinho com os dedos, e eil-o que volta
novamente com a mesma alegria.
--Socega! socega!
Quincas Borba vae atraz delle pelo jardim fóra, contorna a casa, ora
andando, ora aos saltos. Saboreia a liberdade, mas não perde o amo de
vista. Aqui fareja, alli pára a coçar uma orelha, acolá cata uma pulga
na barriga, mas de um salto galga o espaço e o tempo perdido, e cose-se
outra vez com os calcanhares do senhor. Parece-lhe que Rubião não pensa
em outra cousa, que anda agora de um lado para outro unicamente para
fazel-o andar tambem, e recuperar o tempo em que esteve retido. Quando
Rubião estaca, elle olha para cima, á espera; naturalmente, cuida
delle; é alguma ideia, algum projecto, sairem juntos, ou cousa assim
agradavel. Não lhe lembra nunca a possibilidade de um pontapé ou de
um tabefe. Tem o sentimento da confiança, e muito curta a memoria das
pancadas. Ao contrario, os affagos ficam-lhe impressos e fixos, por
mais distrahidos que sejam. Gosta de ser amado. Contenta-se de crer que
o é.
A vida alli não é completamente boa nem completamente má. Ha um moleque
que o lava todos os dias em agua fria, usança do diabo, a que elle se
não acostuma. Jean, o cosinheiro, gosta do cão, o criado hespanhol não
gosta nada. Rubião passa muitas horas fóra de casa, mas não o trata
mal, e consente que vá acima, que assista ao almoço e ao jantar, que o
acompanhe á sala ou ao gabinete. Brinca ás vezes com elle; fal-o pular.
Se chegam visitas de alguma ceremonia, manda-o levar para dentro ou
para baixo, e, resistindo elle sempre, o hespanhol toma-o a principio
com muita delicadeza, mas vinga-se d'ahi a pouco, arrastando-o por
uma orelha ou por uma perna, atira-o ao longe, e fecha-lhes todas as
communicações com a casa:
--_Perro del infierno!_
Machucado, separado do amigo, Quincas Borba vae então deitar-se a um
canto, e fica alli muito tempo, calado; agita-se um pouco, até que acha
posição definitiva, e cerra os olhos. Não dorme, recolhe as idéas,
combina, relembra; a figura vaga do finado amigo passa-lhe ao longe,
muito ao longe, aos pedaços, depois mistura-se á do amigo actual, e
parecem ambas uma só pessoa; depois outras ideias...
Mas já são muitas ideias,--são ideias demais; em todo caso são ideias
de cachorro, poeira de ideias,--menos ainda que poeira, explicará o
leitor. Mas a verdade é que este olho que se abre de quando em quando
para fixar o espaço, tão expressivamente, parece traduzir alguma cousa,
que brilha lá dentro, lá muito ao fundo de outra cousa que não sei como
diga, para exprimir uma parte canina, que não é a cauda nem as orelhas.
Pobre lingua humana!
Afinal adormece. Então as imagens da vida brincam nelle, em sonho,
vagas, recentes, farrapo d'aqui remendo d'alli. Quando accorda,
esqueceu o mal; tem em si uma expressão, que não digo seja melancolia,
para não aggravar o leitor. Diz-se de uma paizagem que é melancolica,
mas não se diz egual cousa de um cão. A razão não pode ser outra
senão que a melancolia da paizagem está em nós mesmos, emquanto
que attribuil-a ao cão é deixal-a fóra de nós. Seja o que fôr, é
alguma cousa que não a alegria de ha pouco; mas venha um assobio do
cosinheiro, ou um gesto do senhor, e lá vae tudo embora, os olhos
brilham, o prazer arregaça-lhe o focinho, e as pernas voam que parecem
azas.