CAPITULO XV

Tal era a clausula. Rubião achou-a natural, posto que só tivesse

pensamento para cuidar na herança. Espreitára uma deixa, e sae-lhe

do testamento a massa toda dos bens. Não podia acabar de crer; foi

preciso que lhe apertassem muito as mãos, com força,--a força dos

parabens,--para não suppor que era mentira.

--Sim, senhor, lavre um tento, dizia-lhe o dono da pharmacia que

ministrara os remedios ao Quincas Borba.

Herdeiro já era muito; mas universal... Esta palavra inchava as

bochechas á herança. Herdeiro de tudo, nem uma colherinha menos. E

quanto seria tudo? ia elle pensando. Casas, apolices, acções, escravos,

roupa, louça, alguns quadros, que elle teria na côrte, porque era homem

de muito gosto, fallava de cousas de arte com grande saber. E livros?

devia ter muitos livros, citava muitos delles. Mas emquanto andaria

tudo? Cem contos? Talvez duzentos. Era possível; trezentos mesmo não

havia que admirar. Trezentos contos! trezentos! E o Rubião tinha

impetos de dansar na rua. Depois aquietava-se; duzentos que fossem,

ou cem, era um sonho que Deus Nosso Senhor lhe dava, mas um sonho

comprido, para não acabar mais.

Aqui a ideia do cachorro pôde tomar pé no torvelinho de ideias que iam

pela cabeça do nosso homem. Rubião achava que a clausula era natural,

mas desnecessaria, porque elle e o cão eram dous amigos, e nada mais

certo que ficarem juntos, para lembrar o terceiro amigo, o extincto, o

autor da felicidade de ambos. Havia, sem duvida, umas particularidades

na clausula, uma historia de urna, e não sabia que mais; mas tudo se

havia de cumprir, ainda que o céo viesse abaixo... Não, com a ajuda de

Deus, emendava elle. Bom cachorro! excellente cachorro!

Rubião não esquecia que muitas vezes tentára enriquecer com emprezas

que morreram em flor. Suppoz-se n'aquelle tempo um desgraçado, um

caipora, quando a verdade era que «mais vale quem Deus ajuda, do que

quem cedo madruga.» Tanto não era impossivel enriquecer, que estava

rico.

--Impossivel, o que? exclamou em voz alta. Impossivel é a Deus peccar.

Deus não falta a quem promette.

Ia assim, descendo e subindo as ruas da cidade, sem guiar para casa,

sem plano, com o sangue aos pulos, e as ideias baralhadas. De repente,

surgiu-lhe este grave problema:--se iria viver no Rio de Janeiro, ou

se ficaria em Barbacena. Sentia cocegas de ficar, de brilhar onde

escurecia, de quebrar a castanha na bocca aos que antes faziam pouco

caso delle, e principalmente aos que se riram da amizade do Quincas

Borba. Mas logo depois, vinha a imagem do Rio de Janeiro, que elle

conhecia, com os seus feitiços, movimento, theatros em toda a parte,

moças bonitas, «vestidas á franceza.» Resolveu que era melhor, podia

subir muitas e muitas vezes á cidade natal.

Quincas Borba · 第 24 / 218 题