Rubião mal sustinha o papel nos dedos. Passados alguns segundos,
advertiu que podia ser um gracejo do amigo, e releu a carta; mas a
segunda leitura confirmou a primeira impressão. Não havia duvida;
estava doudo. Pobre Quincas Borba! Assim, as exquisitices, a frequente
alteração de humor, os impetos sem motivo, as ternuras sem proporção,
não eram mais que prenuncios da ruina total do cerebro. Morria antes
de morrer. Tão bom! Tão alegre! Tinha impertinencias, é verdade; mas
a doença explicava-as. Rubião enxugou os olhos, humidos de commoção.
Depois, veiu a lembrança do possivel legado, e ainda mais o affligiu,
por lhe mostrar que bom amigo ia perder.
Quiz ainda uma vez ler a carta, agora devagar, analysando as palavras,
desconjuntando-as, para ver bem o sentido e descobrir se realmente era
uma troça de philosopho. Aquelle modo de o descompor brincando, era
conhecido; mas, o resto confirmava a suspeita do desastre. Já quasi
no fim, parou enfiado. Dar-se-hia que, provada a alienação mental do
testador, nullo ficaria o testamento, e perdidas as deixas? Rubião
teve uma vertigem. Estava ainda com a carta aberta nas mãos, quando
viu apparecer o doutor, que vinha por noticias do enfermo; o agente do
correio dissera-lhe haver chegado uma carta. Era aquella?
--É esta, mas...
--Tem alguma communicação reservada...?
--Justamente, traz uma communicação reservada, reservadissima; negocios
pessoaes. Dá licença?
Dizendo isto, Rubião metteu a carta no bolso; o medico sahiu; elle
respirou. Escapára ao perigo de publicar tão grave documento, por onde
se podia provar o estado mental de Quincas Borba. Minutos depois,
arrependeu-se, devia ter entregado a carta, sentiu remorsos, pensou em
mandal-a á casa do medico. Chamou por um escravo; quando este accudiu,
já elle mudára outra vez de idéa; considerou que era imprudencia;
o doente viria em breve,--d'alli a dias,--perguntaria pela carta,
arguil-o-hia de indiscreto, de delator... Remorsos faceis, de pouca
dura.
--Não quero nada, disse ao escravo. E outra vez pensou no legado.
Calculou o algarismo. Menos de dez contos, não. Compraria um pedaço de
terra, uma casa, cultivaria isto ou aquillo, ou lavraria ouro. O peor é
se era menos, cinco contos... Cinco? Era pouco; mas, emfim, talvez não
passasse disso. Cinco que fossem, era um arranjo menor, e antes menor
que nada. Cinco contos... Peor seria se o testamento ficasse nullo. Vá,
cinco contos!