_Murat envia emissarios ás provincias, e ás colonias; deputação dos
150 Hespanhoes a Bayona; valor heroico do Bispo de Orense; Junot obra
de concerto com Murat; movimentos do exercito Francez em Portugal;
planos de expedições maritimas; novos projectos de oppressão contra os
Portuguezes._
[Sidenote: 1808
Maio.]
A Catastrofe de Madrid foi seguida de emissarios ás provincias, que
acalmárão por pouco tempo a fermentação, que se ia manifestando por
toda a parte; e a Junta do governo ainda cooperou para este fim. Murat
porém, que não cessava de espalhar gazetas, decretos, proclamações,
e outros partos da sua officina, tendentes a illudir, e enganar os
póvos, sempre confiava mais na força do seu exercito, e fez adiantar
todas as suas tropas disponiveis para as provincias, que ainda não
estavão occupadas por ellas. Lançou especialmente os olhos sobre Cadix,
emporio principal da Hespanha, onde então se achava huma forte esquadra
Franceza, commandada pelo Almirante Rosilly; teve porém de contentar-se
com os desejos.
Executor fiel das ordens de Napoleão, elle estendeo igualmente as
suas vistas para as colonias, e com particularidade para as vastas
possessões d’America. Para ellas se expedirão emissarios, de que alguns
chegárão aos seus destinos; mas felizmente nenhum delles foi bem
succedido na sua missão.
[Sidenote: 1808
Maio.]
As forjas de Bayona continuavão ainda a produzir instrumentos para
a desolação da Hespanha. Segundo as ordens de Napoleão, Murat, e a
sua Junta do governo convocárão huma deputação de 150 Hespanhoes,
que logo nomeárão, tirados das classes do clero, nobreza, e estado
geral, para se reunirem em Bayona até 15 do mez seguinte, para alli
se tratar da felicidade de toda a Hespanha, _proponiendo todos los
males, que el anterior systema le han ocasionado, y las reformas, y
remedios mas convenientes, para destruirlos en toda la nacion, y en
cada provincia en particular_. Esta era a formula do decreto; mas
alterou-se depois, por outro do proprio Napoleão, empregando-se os
deputados em formalizar a nova constituição da Monarquia Hespanhola,
que devia pôr-se em execução com a chegada do novo Rei José, que elle
já lhe tinha destinado. O conselho Real de Castella, forçado como as
outras corporações a mandar os seus deputados, adoptou o arbitrio de
os expedir, sem poderes, nem instrucções; a maior parte dos outros
deputados não tiverão mais titulos, que a ordem de partir, e muitos
não pertencião a corpo, ou classe determinada: tudo era o mesmo na
presença de hum usurpador, armado de huma força enorme, que na falta de
direitos, só procurava pretextos.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Dos 150 nomeados sómente se ajuntárão 90; porque os outros se
escusárão, e alguns com valor heroico. Entre estes não deixarei
esquecido o velho D. Pedro de Quevedo Quintano, Bispo de Orense, o
mesmo que depois foi Presidente da Junta desta cidade, e ultimamente
nomeado em 29 de janeiro de 1810, primeiro vogal do Conselho de
Regencia do reino de Hespanha, e Indias. Penso, que he delle a
_Vingança da patria_, ou proclamação da cidade de Orense, huma das
primeiras, que se publicárão na Hespanha, e em que as sublimes paixões
do amor da patria, e odio aos usurpadores se exaltão de hum modo
maravilhoso.
Este digno Prelado, vendo a Hespanha sepultada em hum cativeiro, de
que talvez não previsse então o fim, teve com tudo o valor de expôr, e
publicar na resposta á sua nomeação os seus sentimentos patrioticos,
manifestando com firmeza ao mundo o que toda a nação conhecia, mas o
que ninguem ousava dizer: a illegalidade, e as incoherencias deste
informe ajuntamento.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Veneravel Quintano! A tua virtude he inabalavel, e os annos não tem
podido diminuir o vigor do teu espirito! Eu te recommendo á posteridade.
Junot obrava em Portugal de acordo com Murat, tanto nos movimentos do
seu exercito, dispondo-o para coadjuvar os que occupavão a Hespanha,
como nos preparativos maritimos, devendo expedir-se por Lisboa os
correios para a America. Mesmo elle se ensaiava para grandes emprezas
navaes, a pezar do bloquêo dos nossos portos, que continuava sem a
menor relaxação; mas em nenhum destes objectos pôde cumprir exactamente
os avisos.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Quanto ao exercito, Junot se achava reduzido a cousa de 20$000
Francezes, e ás tropas Hespanholas, que ainda conservava. Elle teve
ordem para enviar 6$ homens a Cadix; conservar 4$ Hespanhoes no Porto,
e mandar igual número para o Algarve. As tropas Hespanholas tiverão
entretanto o destino, que direi em seu lugar, e vendo Junot, que ficava
muito enfraquecido, enviando os 6$ homens para Cadix, foi espaçando por
algum tempo a remessa.
Com tudo elle cooperou em outras medidas muito efficazmente com o plano
de Murat. Despedio para Almeida o General Loison com hum corpo, que se
compunha de hum batalhão do regimento 32.^o de mais de 1:000 homens,
de hum regimento provisorio de infanteria, formado dos regimentos de
infanteria ligeira 2.^o, e 4.^o de 2$100 homens, e de hum regimento
de dragões de 500 cavallos; levava mais 80 cavallos de artilheria,
equipados, para tirarem 8, ou 10 peças de campanha de Almeida: o que
tudo se dispunha para ir auxiliar as operações do General Bessieres,
que vinha atravessando a Castella, e se encaminhava para o reino de
Leão. Loison, passando por Coimbra, levou mais hum destacamento de
cousa de 50 homens, que ahi se achavão.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Em quanto esta expedição, da qual tenho ainda de contar altas
façanhas, marchava para o seu destino, Junot mandou tambem estacionar
em Elvas o General Kellerman com 2$ homens de infanteria, para vigiar
Badajoz, podendo reforçar-se mais, em caso de precisão, com alguns
pequenos corpos, que existião por aquellas partes; e em fim chegou a
fazer marchar ás ordens do General Avril o corpo, que destinava para
Cadix, o qual consistia no regimento 86.^o de linha de 1800 homens, a
que mandou aggregar a legião do meio-dia de 800 homens, que ainda se
conservava no Algarve, e hum regimento provisorio de 450 dragões, que
estavão em Evora. Tinha mais 10 peças com os competentes preparos; e
devia penetrar por Alcoitim, para cooperar com Dupont, que entrava na
Andaluzia.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Rompendo entretanto o volcão em Badajoz, Junot mudou o destino a
este corpo, mandando-o ficar ás ordens de Kellerman, dando a mesma
disposição a hum batalhão de infanteria ligeira, e á companhia de
granadeiros, e voltijadores da legião do meio-dia, que tinha mandado
ficar sobre o Guadiana em Mertola, e Moura, para cobrir esta parte da
fronteira, e cortar as communicações.
Quanto á marinha, elle a pôz em bastante actividade. Tempos antes havia
feito apromptar os navios da corôa, que admittião concerto, e armar
em guerra alguns mercantes. Napoleão mandou-lhe alguns soldados da
marinha, porém tudo recrutas, e elle expedio avisos a Vigo, para lhe
serem enviados 100 marinheiros Francezes, que ahi se achavão na náo
Atlas, e outros ao Almirante Rossily, estacionado em Cadix, para tambem
lhe fornecer gente.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Parece sem dúvida, que se preparava alguma grande expedição, em que
devia entrar a esquadra Russiana; porque Junot teve a este respeito
conferencias com Siniavin, e tratou-se de prover, e armar completamente
esta esquadra, e a Portugueza, levando viveres, para seis mezes.
Dous navios da Russiana, que vierão armados em transportes, devião
desguarnecer-se, para esquipar a náo Vasco da Gama. Não se querião
marinheiros, senão Francezes, ou Russianos.
Eu ignoro, qual era o destino desta expedição; mas se me he licito
expôr as minhas conjecturas, direi, que presumo se dirigia ao Rio da
prata; pelo menos he certo, que este ponto he o que se tinha mais em
vista, e que Junot teve prompta huma embarcação ligeira, para sahir com
despachos de Murat para aquella paragem, esperando sómente occasião
de máo tempo, para poder escapar á esquadra Ingleza. Os successos
posteriores parecem mostrar, que os Francezes contavão muito com o
Governador de Buenos-ayres.
Debaixo deste ponto de vista mandou trabalhar em huma memoria sobre a
facilidade, ou difficuldade de sahir huma expedição do porto de Lisboa,
estando bloqueado; e deo-se por certo, que era facil nos equinoccios, e
com os ventos do sul, e do poente; porque então as correntes obrigavão
os navios a affastarem-se a 20 leguas da costa.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Mandou igualmente apromptar a escuna curiosa, e varias embarcações
pequenas, boas de véla, de cousa de 30 homens de equipagem, e 2 peças
cada huma, para levarem avisos a Vera-cruz, e varios outros portos
d’America, e provimentos de espingardas. Era tal o empenho nestes
provimentos, que se tirou a artilheria á escuna curiosa, deixando-lhe
sómente 4 peças, de 16, que podia montar, a fim de arrumar maior número
de espingardas. Todos estes projectos lhe ficárão frustrados: era
chegado o momento, em que se interrompêrão as suas communicações com
Murat; e ambos elles começárão a experimentar revezes.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Chegárão-lhe os seus dias de amargura precisamente no tempo, em que
novos projectos de oppressão ião aggravar ainda os nossos males. Não
he huma simples conjectura, não são imputações vagas, he huma verdade
demonstrada por hum modo authentico, que se traçavão os meios de
transportar a mocidade Portugueza para os exercitos da França. Pelos
fins de maio se lastimava Junot, de que os movimentos das suas tropas
lhe não permittissem por então entrar nesta diligencia; porque seis
semanas, que o seu exercito estivesse em repouso, elle offereceria
ao Imperador 25$ homens da maior belleza, a que não faltaria cousa
alguma do seu equipamento, e vestido. Tal era a importancia da primeira
remessa.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Tinha-se já transportado de Portugal muito em effeitos, e começava a
sahir o dinheiro, por saques immediatos do governo Francez (não trato
aqui dos particulares) tendo-se já pago dous milhões, penso que de
francos, para o fornecimento dos exercitos Francezes da Hespanha, e
existindo ordens, para se remetterem mais quatro milhões a Paris, ou
Madrid. Ignoro, até que ponto estas se executárão; Junot pedio tempo,
porque quando as recebêra, não havia dinheiro no erario, e era preciso
dar lugar a que viesse correndo o da contribuição, e se fossem cunhando
as pratas das igrejas, que era o recurso, que achava mais prompto,
e assim mesmo muito lento, por falta de expedição; a pezar de ter
decuplado o trabalho da casa da moeda.
Annunciou-se com effeito formalmente a reducção da contribuição
extraordinaria de guerra a 50 milhões de francos; mas como, e porque?
Destinando-se huma porção dos dominios da corôa, para o pagamento dos
outros 50, de fórma que se preenchessem em todo o caso os 100, que
forão impostos; e isto porque os mappas, e relações, que se tirárão,
convencêrão os exactores da impossibilidade de os tocarem por inteiro,
a pezar de toda a violencia da exacção, sem este recurso extraordinario.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Loye, o inspector geral dos dominios, fez huma memoria admiravel a
este respeito, que comprehendia pontos mui diversos, e de tal natureza,
que Junot, propondo-a a seu amo, dava ao mesmo tempo a conhecer a
difficuldade de a executar em hum povo, que chamava muito fanatico, no
momento, em que elle se via obrigado a diminuir as suas forças, com
as expedições da Hespanha. Este Loye era hum homem, que pela cara, e
pelas palavras todos dirião, que era hum santo; mas, segundo o que
se alcançou da sua memoria, pertendia com ella fazer a sua fortuna,
por meio de hum jogo de administrações dos bens da Casa Real, e dos
pertendidos emigrados, de que ficava sendo o chéfe.
[Sidenote: 1808
Maio.]
E não era sómente a memoria de Loye, erão ordens positivas de Napoleão
as que estavão a ponto de nos trazerem innovações de primeira ordem.
Pobre clero, pobres conventos! Os vossos bens, que excitavão tanto
a cobiça dos invasores, quando ainda estavão em França, achavão-se
proximos a mudar de donos. A extincção das ordens religiosas, e
principalmente das monasticas, que he donde se esperava a grande
colheita, chegou a propôr-se nos conciliabulos de Junot perante os
conselheiros Portuguezes;[20] e quando se propôz, he porque já estava
decretada. Eu posso affirmar mais, que Junot cuidava em tirar o mappa
dos conventos do reino, e dos seus bens; que andava entre mãos o
plano da reforma do clero, quando a nova face dos negocios públicos
o obrigou a desistir desta, e de outras emprezas, para não accelerar
a fermentação dos póvos, que já era universal por todo o reino pelos
fins de maio. Com tudo eu terei ainda de referir muitos, e muito
extraordinarios actos de crueza, e de rapina, que elle, e os seus
praticárão em Portugal; porque nesta parte foi invariavel o seu systema
até os ultimos paroxismos do seu governo. Reservo a sua exposição
chronologica para a nova época, em que vou entrar; e ponho aqui termo á
da invasão.
_Fim do Tomo II._