CAPITULO XLIV.

_Murat envia emissarios ás provincias, e ás colonias; deputação dos

150 Hespanhoes a Bayona; valor heroico do Bispo de Orense; Junot obra

de concerto com Murat; movimentos do exercito Francez em Portugal;

planos de expedições maritimas; novos projectos de oppressão contra os

Portuguezes._

[Sidenote: 1808

Maio.]

A Catastrofe de Madrid foi seguida de emissarios ás provincias, que

acalmárão por pouco tempo a fermentação, que se ia manifestando por

toda a parte; e a Junta do governo ainda cooperou para este fim. Murat

porém, que não cessava de espalhar gazetas, decretos, proclamações,

e outros partos da sua officina, tendentes a illudir, e enganar os

póvos, sempre confiava mais na força do seu exercito, e fez adiantar

todas as suas tropas disponiveis para as provincias, que ainda não

estavão occupadas por ellas. Lançou especialmente os olhos sobre Cadix,

emporio principal da Hespanha, onde então se achava huma forte esquadra

Franceza, commandada pelo Almirante Rosilly; teve porém de contentar-se

com os desejos.

Executor fiel das ordens de Napoleão, elle estendeo igualmente as

suas vistas para as colonias, e com particularidade para as vastas

possessões d’America. Para ellas se expedirão emissarios, de que alguns

chegárão aos seus destinos; mas felizmente nenhum delles foi bem

succedido na sua missão.

[Sidenote: 1808

Maio.]

As forjas de Bayona continuavão ainda a produzir instrumentos para

a desolação da Hespanha. Segundo as ordens de Napoleão, Murat, e a

sua Junta do governo convocárão huma deputação de 150 Hespanhoes,

que logo nomeárão, tirados das classes do clero, nobreza, e estado

geral, para se reunirem em Bayona até 15 do mez seguinte, para alli

se tratar da felicidade de toda a Hespanha, _proponiendo todos los

males, que el anterior systema le han ocasionado, y las reformas, y

remedios mas convenientes, para destruirlos en toda la nacion, y en

cada provincia en particular_. Esta era a formula do decreto; mas

alterou-se depois, por outro do proprio Napoleão, empregando-se os

deputados em formalizar a nova constituição da Monarquia Hespanhola,

que devia pôr-se em execução com a chegada do novo Rei José, que elle

já lhe tinha destinado. O conselho Real de Castella, forçado como as

outras corporações a mandar os seus deputados, adoptou o arbitrio de

os expedir, sem poderes, nem instrucções; a maior parte dos outros

deputados não tiverão mais titulos, que a ordem de partir, e muitos

não pertencião a corpo, ou classe determinada: tudo era o mesmo na

presença de hum usurpador, armado de huma força enorme, que na falta de

direitos, só procurava pretextos.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Dos 150 nomeados sómente se ajuntárão 90; porque os outros se

escusárão, e alguns com valor heroico. Entre estes não deixarei

esquecido o velho D. Pedro de Quevedo Quintano, Bispo de Orense, o

mesmo que depois foi Presidente da Junta desta cidade, e ultimamente

nomeado em 29 de janeiro de 1810, primeiro vogal do Conselho de

Regencia do reino de Hespanha, e Indias. Penso, que he delle a

_Vingança da patria_, ou proclamação da cidade de Orense, huma das

primeiras, que se publicárão na Hespanha, e em que as sublimes paixões

do amor da patria, e odio aos usurpadores se exaltão de hum modo

maravilhoso.

Este digno Prelado, vendo a Hespanha sepultada em hum cativeiro, de

que talvez não previsse então o fim, teve com tudo o valor de expôr, e

publicar na resposta á sua nomeação os seus sentimentos patrioticos,

manifestando com firmeza ao mundo o que toda a nação conhecia, mas o

que ninguem ousava dizer: a illegalidade, e as incoherencias deste

informe ajuntamento.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Veneravel Quintano! A tua virtude he inabalavel, e os annos não tem

podido diminuir o vigor do teu espirito! Eu te recommendo á posteridade.

Junot obrava em Portugal de acordo com Murat, tanto nos movimentos do

seu exercito, dispondo-o para coadjuvar os que occupavão a Hespanha,

como nos preparativos maritimos, devendo expedir-se por Lisboa os

correios para a America. Mesmo elle se ensaiava para grandes emprezas

navaes, a pezar do bloquêo dos nossos portos, que continuava sem a

menor relaxação; mas em nenhum destes objectos pôde cumprir exactamente

os avisos.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Quanto ao exercito, Junot se achava reduzido a cousa de 20$000

Francezes, e ás tropas Hespanholas, que ainda conservava. Elle teve

ordem para enviar 6$ homens a Cadix; conservar 4$ Hespanhoes no Porto,

e mandar igual número para o Algarve. As tropas Hespanholas tiverão

entretanto o destino, que direi em seu lugar, e vendo Junot, que ficava

muito enfraquecido, enviando os 6$ homens para Cadix, foi espaçando por

algum tempo a remessa.

Com tudo elle cooperou em outras medidas muito efficazmente com o plano

de Murat. Despedio para Almeida o General Loison com hum corpo, que se

compunha de hum batalhão do regimento 32.^o de mais de 1:000 homens,

de hum regimento provisorio de infanteria, formado dos regimentos de

infanteria ligeira 2.^o, e 4.^o de 2$100 homens, e de hum regimento

de dragões de 500 cavallos; levava mais 80 cavallos de artilheria,

equipados, para tirarem 8, ou 10 peças de campanha de Almeida: o que

tudo se dispunha para ir auxiliar as operações do General Bessieres,

que vinha atravessando a Castella, e se encaminhava para o reino de

Leão. Loison, passando por Coimbra, levou mais hum destacamento de

cousa de 50 homens, que ahi se achavão.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Em quanto esta expedição, da qual tenho ainda de contar altas

façanhas, marchava para o seu destino, Junot mandou tambem estacionar

em Elvas o General Kellerman com 2$ homens de infanteria, para vigiar

Badajoz, podendo reforçar-se mais, em caso de precisão, com alguns

pequenos corpos, que existião por aquellas partes; e em fim chegou a

fazer marchar ás ordens do General Avril o corpo, que destinava para

Cadix, o qual consistia no regimento 86.^o de linha de 1800 homens, a

que mandou aggregar a legião do meio-dia de 800 homens, que ainda se

conservava no Algarve, e hum regimento provisorio de 450 dragões, que

estavão em Evora. Tinha mais 10 peças com os competentes preparos; e

devia penetrar por Alcoitim, para cooperar com Dupont, que entrava na

Andaluzia.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Rompendo entretanto o volcão em Badajoz, Junot mudou o destino a

este corpo, mandando-o ficar ás ordens de Kellerman, dando a mesma

disposição a hum batalhão de infanteria ligeira, e á companhia de

granadeiros, e voltijadores da legião do meio-dia, que tinha mandado

ficar sobre o Guadiana em Mertola, e Moura, para cobrir esta parte da

fronteira, e cortar as communicações.

Quanto á marinha, elle a pôz em bastante actividade. Tempos antes havia

feito apromptar os navios da corôa, que admittião concerto, e armar

em guerra alguns mercantes. Napoleão mandou-lhe alguns soldados da

marinha, porém tudo recrutas, e elle expedio avisos a Vigo, para lhe

serem enviados 100 marinheiros Francezes, que ahi se achavão na náo

Atlas, e outros ao Almirante Rossily, estacionado em Cadix, para tambem

lhe fornecer gente.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Parece sem dúvida, que se preparava alguma grande expedição, em que

devia entrar a esquadra Russiana; porque Junot teve a este respeito

conferencias com Siniavin, e tratou-se de prover, e armar completamente

esta esquadra, e a Portugueza, levando viveres, para seis mezes.

Dous navios da Russiana, que vierão armados em transportes, devião

desguarnecer-se, para esquipar a náo Vasco da Gama. Não se querião

marinheiros, senão Francezes, ou Russianos.

Eu ignoro, qual era o destino desta expedição; mas se me he licito

expôr as minhas conjecturas, direi, que presumo se dirigia ao Rio da

prata; pelo menos he certo, que este ponto he o que se tinha mais em

vista, e que Junot teve prompta huma embarcação ligeira, para sahir com

despachos de Murat para aquella paragem, esperando sómente occasião

de máo tempo, para poder escapar á esquadra Ingleza. Os successos

posteriores parecem mostrar, que os Francezes contavão muito com o

Governador de Buenos-ayres.

Debaixo deste ponto de vista mandou trabalhar em huma memoria sobre a

facilidade, ou difficuldade de sahir huma expedição do porto de Lisboa,

estando bloqueado; e deo-se por certo, que era facil nos equinoccios, e

com os ventos do sul, e do poente; porque então as correntes obrigavão

os navios a affastarem-se a 20 leguas da costa.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Mandou igualmente apromptar a escuna curiosa, e varias embarcações

pequenas, boas de véla, de cousa de 30 homens de equipagem, e 2 peças

cada huma, para levarem avisos a Vera-cruz, e varios outros portos

d’America, e provimentos de espingardas. Era tal o empenho nestes

provimentos, que se tirou a artilheria á escuna curiosa, deixando-lhe

sómente 4 peças, de 16, que podia montar, a fim de arrumar maior número

de espingardas. Todos estes projectos lhe ficárão frustrados: era

chegado o momento, em que se interrompêrão as suas communicações com

Murat; e ambos elles começárão a experimentar revezes.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Chegárão-lhe os seus dias de amargura precisamente no tempo, em que

novos projectos de oppressão ião aggravar ainda os nossos males. Não

he huma simples conjectura, não são imputações vagas, he huma verdade

demonstrada por hum modo authentico, que se traçavão os meios de

transportar a mocidade Portugueza para os exercitos da França. Pelos

fins de maio se lastimava Junot, de que os movimentos das suas tropas

lhe não permittissem por então entrar nesta diligencia; porque seis

semanas, que o seu exercito estivesse em repouso, elle offereceria

ao Imperador 25$ homens da maior belleza, a que não faltaria cousa

alguma do seu equipamento, e vestido. Tal era a importancia da primeira

remessa.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Tinha-se já transportado de Portugal muito em effeitos, e começava a

sahir o dinheiro, por saques immediatos do governo Francez (não trato

aqui dos particulares) tendo-se já pago dous milhões, penso que de

francos, para o fornecimento dos exercitos Francezes da Hespanha, e

existindo ordens, para se remetterem mais quatro milhões a Paris, ou

Madrid. Ignoro, até que ponto estas se executárão; Junot pedio tempo,

porque quando as recebêra, não havia dinheiro no erario, e era preciso

dar lugar a que viesse correndo o da contribuição, e se fossem cunhando

as pratas das igrejas, que era o recurso, que achava mais prompto,

e assim mesmo muito lento, por falta de expedição; a pezar de ter

decuplado o trabalho da casa da moeda.

Annunciou-se com effeito formalmente a reducção da contribuição

extraordinaria de guerra a 50 milhões de francos; mas como, e porque?

Destinando-se huma porção dos dominios da corôa, para o pagamento dos

outros 50, de fórma que se preenchessem em todo o caso os 100, que

forão impostos; e isto porque os mappas, e relações, que se tirárão,

convencêrão os exactores da impossibilidade de os tocarem por inteiro,

a pezar de toda a violencia da exacção, sem este recurso extraordinario.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Loye, o inspector geral dos dominios, fez huma memoria admiravel a

este respeito, que comprehendia pontos mui diversos, e de tal natureza,

que Junot, propondo-a a seu amo, dava ao mesmo tempo a conhecer a

difficuldade de a executar em hum povo, que chamava muito fanatico, no

momento, em que elle se via obrigado a diminuir as suas forças, com

as expedições da Hespanha. Este Loye era hum homem, que pela cara, e

pelas palavras todos dirião, que era hum santo; mas, segundo o que

se alcançou da sua memoria, pertendia com ella fazer a sua fortuna,

por meio de hum jogo de administrações dos bens da Casa Real, e dos

pertendidos emigrados, de que ficava sendo o chéfe.

[Sidenote: 1808

Maio.]

E não era sómente a memoria de Loye, erão ordens positivas de Napoleão

as que estavão a ponto de nos trazerem innovações de primeira ordem.

Pobre clero, pobres conventos! Os vossos bens, que excitavão tanto

a cobiça dos invasores, quando ainda estavão em França, achavão-se

proximos a mudar de donos. A extincção das ordens religiosas, e

principalmente das monasticas, que he donde se esperava a grande

colheita, chegou a propôr-se nos conciliabulos de Junot perante os

conselheiros Portuguezes;[20] e quando se propôz, he porque já estava

decretada. Eu posso affirmar mais, que Junot cuidava em tirar o mappa

dos conventos do reino, e dos seus bens; que andava entre mãos o

plano da reforma do clero, quando a nova face dos negocios públicos

o obrigou a desistir desta, e de outras emprezas, para não accelerar

a fermentação dos póvos, que já era universal por todo o reino pelos

fins de maio. Com tudo eu terei ainda de referir muitos, e muito

extraordinarios actos de crueza, e de rapina, que elle, e os seus

praticárão em Portugal; porque nesta parte foi invariavel o seu systema

até os ultimos paroxismos do seu governo. Reservo a sua exposição

chronologica para a nova época, em que vou entrar; e ponho aqui termo á

da invasão.

_Fim do Tomo II._

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume II) · 第 33 / 35 题