_Fernando VII. he obrigado a renunciar a corôa a seu pai; Murat
Lugar-tenente de Carlos IV., e Presidente da Junta do governo em
Hespanha; como faz partir para Bayona os ultimos restos da Familia
Real; successos de 2 de maio em Madrid; novas renúncias forçadas a
favor de Napoleão; aviso util aos Soberanos da Europa._
[Sidenote: 1808
Maio.]
CUSTA a acreditar, que a viagem dos Reis pais a Bayona não tivesse
outro objecto, que o serem os instrumentos da oppressão, e desgraça de
seus filhos, e de toda a sua familia; mas he o que se vio, e o que será
transmittido ás idades futuras em documentos incontestaveis. O poder,
e a perfidia de Napoleão triunfárão da propria natureza; e por ultimo
resultado os pais forão envolvidos na mesma desgraça, que cavárão para
os filhos.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Carlos teve o valor de dizer a Fernando, que não queria reinar,
nem voltar para Hespanha, mas que exigia delle a renúncia da corôa:
renúncia, que era evidente não ter outro fim, que o de fazer
presente desta mesma corôa a hum estrangeiro. Fernando, prisioneiro,
conduzido pelo respeito, e obrigado pelas circumstancias, dirigio
com effeito no 1.^o de maio huma carta a seu pai com a renúncia, mas
ligada ás seguintes condições: 1.^a que S. M. Carlos IV., em cujo
favor renunciava, voltasse a Madrid, para onde elle desistente o
acompanharia, e o serviria, como seu filho mais respeitoso; 2.^a que
em Madrid se reunirião as cortes; e pois que S. M. (Carlos) recusava
huma congregação tão numerosa, se convocarião para este effeito todos
os tribunaes, e os deputados do reino; 3.^a que á vista desta assembléa
se formalizaria a sua renúncia, expondo-se os motivos, que a ella o
conduzião, a saber, o amor, que tinha aos seus vassallos, e o desejo de
corresponder ao que estes lhe consagravão, remindo-os dos horrores de
huma guerra civil, por meio de huma renúncia dirigida a seu Pai, para
outra vez empunhar o sceptro, e governallos; 4.^a que S. M. não levaria
comsigo pessoas, que justamente tinhão incurrido no odio da nação; 5.^a
que se S. M. não queria reinar, nem voltar para Hespanha, como lhe
tinha dito, elle desistente governaria, como seu Lugar-tenente.
Não se admittião condições, e por isso não agradou a renúncia; e
deo isto motivo a huma carta, que Carlos dirigio no dia seguinte a
Fernando, cheia de queixas, e invectivas, em que se está manifestando
palpavelmente a mão Franceza, que a produzíra. O ministerio Francez a
mandou inserir no _moniteur_ de 11; mas ao pé della devia tambem
inserir-se a resposta de Fernando, que Cevallos nos conservou entre os
documentos da sua obra, e responde de hum modo energico ás arguições do
Rei pai.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Entretanto expedia Carlos IV. hum decreto (he do dia 4) em que nomeava
Tenente-General do reino d’Hespanha, e Presidente da junta do governo
a seu amado irmão Murat, _a nuestro amado hermano_, formaes
palavras, _el gran duque de Berg, que manda al mismo tempo las tropas
de nuestro aliado el Emperador de los Francezes_. O seu amado
irmão era o que lhe estava devastando o reino, e alagando as ruas de
Madrid com o sangue dos seus vassallos; o seu alliado era este mesmo
Napoleão, que lhe roubava a corôa, e a toda a sua geração, que o tinha
já prisioneiro, e a huma parte da sua familia, e o resto em marcha
para Bayona; e que hum momento depois sepultou a todos no interior da
França, onde consta, que passão huma vida miseravel. Vejamos, como se
executavão estas cousas.
[Sidenote: 1808
Maio.]
No 1.^o de maio, dia da primeira renúncia de Fernando VII., ordenou
Murat em Madrid, que sahisse a Rainha d’Etruria para Bayona, e
como encostado a ella o Infante D. Francisco espalhou vozes, e deo
providencias, tendentes a dispôr os animos, para receberem huma nova
dynastia. A sessão da Junta do governo foi nesse dia extraordinaria;
mas obedeceo, e não diciou. Dissolveo-se á huma hora depois da meia
noite, tendo sido interrompida por tres Alcaides da corte, com a
noticia, de que o exercito Francez fazia movimentos, occupando a essa
mesma hora os pontos mais importantes de Madrid, e principalmente as
avenidas do palacio.
Era aprazada a manhã do dia 2, para a sabida da Rainha d’Etruria;
e o povo, que tinha concurrido á praça do palacio, a vê sahir com
indifferença. Apôs a Rainha sahe o Infante; então fermenta o povo, e
correndo ao coche, que o conduzia, lhe corta os tirantes. Os Francezes,
que estavão preparados para o successo, voão a sustentar o roubo do
Infante, e principía huma scena das mais sanguinosas, que a historia
conservará em seus annaes.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Era hum povo numeroso; porque o movimento se communicou rapidamente
a toda a capital, e seus suburbios; mas inerme, e sem plano fixo, a
combater com hum exercito prompto, disciplinado, e armado; porque não
só entrárão na acção as tropas, que estavão em Madrid, mas corrêrão ao
mesmo tempo as que se achavão no Retiro, e em varios acampamentos. Para
maior desgraça, as tropas Hespanholas, ou não tomárão parte, ou se a
tomárão, foi contra o povo: a policia, e os magistrados só cuidavão em
suffocar os movimentos. Pensavão provavelmente, que poupavão o sangue
dos seus compatriotas, e não fizerão senão poupar o dos inimigos.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Dia horroroso! Não me demorarei em contar as tuas atrocidades. O
successo não podia ser duvidoso, mas não foi, senão depois de muitas
horas de carniceria, que os Francezes ficárão senhores das ruas, e das
praças daquella infeliz capital, todas desertas de vivos, mas cobertas
de cadaveres. Entrárão então pelas casas, e pelos templos, exercitando
por toda a parte as suas crueldades, e conduzirão ainda 140 victimas
para o Pardo, onde forão barbaramente assassinados na noite immmediata.
E vós, magistrados, vós, soldados, que tanto tinheis forcejado para
conter o povo, que remorsos não sentistes, ao ouvir os lamentos destes
desgraçados, ao ver o clarão das tochas, que alumiavão o supplicio?
[Sidenote: 1808
Maio.]
Os diarios Francezes publicárão relações destes successos, todas
cheias de circumstancias falsas, em que a perda dos Hespanhoes se eleva
a muitos milhares de mortos, e a dos Francezes sómente a 25 mortos, e
45 a 50 feridos: não são estas as fontes, onde deve beber a verdade,
quem a procura. Alguns escritores Hespanhoes avalião a perda dos
Francezes em mais de 1700, e a dos seus em 300 mortos, quando muito.
Tambem não julgo exacto este calculo; porque da parte de hum povo
tumultuoso, e mal armado a perda devia ser muito maior, do que da de
corpos regulares, completamente armados. He certo, que a carniceria
foi horrorosa; porque como durou muitas horas, o povo teve tempo de
procurar algumas armas, o valor, e a raiva lhe augmentavão as forças,
e nas voltas das esquinas, e outros lugares semelhantes, fazia ataques
furiosos sobre os corpos unidos dos Francezes.
[Sidenote: 1808
Maio.]
A Junta do governo ajudou Murat a desarmar o povo por hum decreto.
Este regulo sahio mesmo no dia 2 com huma proclamação cheia de
ameaças, e de promessas, e com huma ordem do dia, em que decretou a
carniceria do Pardo, e fulminou incendios, e fuzilerias contra toda a
cidade, villa, ou aldêa, onde se matasse hum Francez, e contra todo o
ajuntamento de mais de 8 pessoas. _Los amos_ accrescentava hum
artigo, _responderan de sus creados; los impresarios de fabricas de
sus officiales; los padres de sus hijos; y los Prelados de conventos de
sus religiosos_. Que principios! Muitas outras peças de semelhante
natureza, e accomodadas ao mesmo fim, enchêrão a gazeta de Madrid, o
_moniteur_, e os diarios da Europa.
Napoleão, apenas informado dos successos de 2 de maio, correo a levar
esta boa nova a Carlos IV., que se acreditamos o _moniteur_ de
11, rompeo em exclamações contra os agitadores do povo, dizendo mais,
que elle o tinha previsto. Como tudo se voltava a favor do homem, que
tudo governava, e de tudo era o movel, foi este hum pretexto, para a
nomeação, que já indiquei, feita por aquelle pobre Rei, de Murat para
seu Lugar-tenente.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Quando esta nomeação chegou a Madrid, já não era necessaria; porque
sendo datada de 4 (como tudo ia de concerto!) nesse mesmo dia se
tinha Murat apresentado á Junta do governo, como dictador, e obtido
della hum decreto, que o nomeou seu Presidente. O decreto faz menção
de ter passado com unanimidade de votos; mas o A. do _Manifesto
imparcial_ affirma, que houverão debates, e que elle só passára pela
pluralidade de hum voto, sendo 5, incluso o da presidencia, os que o
approvárão, e 4 os que o impugnárão á face mesmo de Murat. Esta Junta
era então hum corpo informe, que tinha variado, e variava todos os
dias, da sua primitiva instituição. Aos Secretarios d’Estado tinhão-se
ajuntado alguns magistrados; e destes huns desertavão, e outros vinhão
de novo, segundo as occurrecias. Daqui por diante ficou sendo huma
formula sem sujeito; porque a Junta foi Murat.
Restava ainda em Madrid o Infante D. Antonio: Murat o remetteo
neste mesmo dia para Bayona, e he por este modo aleivoso, que forão
exterminados da Hespanha todos os ramos da florecente dynastia, que
occupava o throno, por titulos tão incontestaveis, que ninguem podia,
nem ousava disputar-lhe, sendo hum delles a vontade geral da nação
Hespanhola.
[Sidenote: 1808
Maio.]
No dia 5 de tarde foi Napoleão visitar os Reis pais; e depois de
huma hora de conferencia, Fernando foi chamado, para ouvir da boca de
seu pai, na presença da Rainha, e do Imperador, expressões, e ditos
tão offensivos, e humiliadores, que o modesto Cevallos, deixando-os
entrever pelas proprias palavras, de que acabo de usar, accrescenta,
que a sua mão se nega a escrevellos. Todos estavão assentados, menos
Fernando, a quem seu pai ordenou positivamente, que fizesse huma
renúncia absoluta, pena de ser tratado com toda a sua comitiva, como
usurpador da corôa, e conspirador contra a vida de seus pais. Consta,
que Napoleão accrescentára na despedida: _Prince, il faut opter entre
la cession, et la mort_: Principe he necessario escolher entre a
cessão, e a morte.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Fernando assás tinha resistido; mas não póde sustentar-se por mais
tempo contra tantos, e tão pezados golpes. Em carta de 6 remetteo
finalmente a seu pai a renúncia, para que o governo da Hespanha
tornasse ao estado, em que se achava a 19 de abril, quando o mesmo seu
pai o havia abdicado; mas não deixou de dar na mesma carta bastantes
idéas do seu justo sentimento contra os ultrajes não merecidos, que
delle recebêra, e contra a injustiça, com que o obrigava a renunciar
huma corôa, que tão espontaneamente elle mesmo lhe havia collocado
sobre a cabeça. Neste dia houve huma horrorosa tormenta em Lisboa, que
arrojou hum raio sobre a náo almirante Russiana, que lhe destruio o
mastro grande.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Seguio-se a cessão da corôa d’Hespanha, e Indias feita por Carlos IV.
a favor do tyranno, que o tinha prisioneiro, a que se deo a fórma, e o
titulo irrisorio de hum tratado; cessão que ratificárão com a corda na
garganta o Rei Fernando, e os Infantes. E não se envergonha Napoleão
de recorrer a titulos tão inuteis, como illegaes, que attestaráõ até
a ultima posteridade a sua infamia, e a sua perfidia! Era-lhe menos
vergonhoso recorrer sómente á força; porque ao menos o seu nome
ficaria collocado entre os de tantos ladrões illustres, chamados
conquistadores, que o precedêrão, sem aquella ignominiosa marca, que
elle mesmo lhe imprimio.
Taes forão os resultados da funesta alliança, e das condescendencias
impoliticas de Carlos IV. com o inimigo da sua casa, e de todas as
antigas dynastias da Europa, das quaes sómente se tem servido, para
o manterem na posse das suas usurpações. Taes os frutos da politica
insensata, e pérfida de hum valido, que de simples fidalgo pobre, e
guarda de _corpus_, chegou em poucos annos, sem outro merecimento,
que o do artificio, e esse muito grosseiro, a governar despoticamente
a Hespanha; e com a quimerica esperança de huma soberania em proprio,
vendeo os seus Reis, e a sua patria.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Soberanos da Europa, que ainda existis, posto que em huma situação
precaria, ponde os olhos neste quadro, e lede nos acontecimentos da
Hespanha a historia dos vossos. Não he o poder do conquistador o que
vos tem subjugado, he a fraqueza, e a ignorancia, ou a perfidia dos
Pequenos Godoys, em que tendes posto a vossa confiança, em lugar
de escolherdes homens robustos, fiéis, e experimentados, os vossos
verdadeiros amigos, para dirigirem os vossos conselhos. São esses
fracos, ou esses pérfidos os que forjárão as cadêas, que hoje arrastais.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Quando era necessario combater, elles vos mettêrão em negociações;
quando se devia empregar todo o dinheiro em augmentar, e disciplinar
o exercito, em abastecer os arsenaes f e fortificar as praças, elles
exhaurírão os vossos thesouros, e empobrecêrão os vossos vassallos,
para fazerem passar sommas immensas ás mãos do usurpador, com que
engrossavão mais, e mais o seu poder. Quando a Inglaterra vos propunha
a sua alliança, e vos offerecia os seus socorros, para resistir ao
inimigo commum, pintavão-vos o governo Inglez, como o tyranno dos
mares; propunhão-vos systemas de commercio, e vos entretinhão com
chitas, algodões, quincalharias, quando só devia tratar-se de segurar
a vossa existencia. Se alguem se atrevia a contradizellos, fallando
diante de vós com o valor, que a virtude inspira, disserão-vos, que era
hum louco, hum intrigante, e o separárão de vós.
Ainda fizerão mais. Mettêrão a discordia entre vós, e os vossos
vassallos, e suscitárão partidos contra vós nos vossos proprios
Estados; porque alienavão os espiritos, abusando da vossa confiança,
vendendo as graças, collocando nos empregos os ignorantes, os
libertinos, e os fracos, em quanto o merecimento, e a virtude ficavão
enterrados na lama, donde lhes não deixavão levantar cabeça, fazendo
odiosos os vossos governos, por todas as terriveis consequencias desta
má escolha dos empregados.
Eis-aqui porque cahírão as vossas praças, e forão destruidos os vossos
exercitos: eis-aqui porque o inimigo achou sempre grandes partidos nos
vossos Estados; elle os tinha conquistado, antes de os combater.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Vede a Gram-Bretanha, que nunca deo accesso a este falsa politica,
vede, como o seu poder tem aumentado progressivamente, e contrabalança
a desmedida influencia de Napoleão sobre o Continente. Vede a Hespanha,
debatendo-se ha mais de dous annos pela sua independencia, vede
Portugal resgatado, e desenvolvendo com a ajuda do seu grande alliado
recursos, que nunca se julgou, que coubessem nas suas forças. Univos a
estes pontos de apoio, que a Providencia quiz conservar-vos; e reuni
a elles as forças, que vos restão, se quereis sahir da escravidão com
apparencias de tutela, em que o usurpador vos conserva, sómente em
quanto convém aos seus interesses; mas principiai por arredar de vós os
vossos inimigos internos, senão estais perdidos.
[Sidenote: 1808
Maio.]
Quereis conhecellos? Eu vos dou huma regra infallivel. Aquelle,
que sempre vos acha razão; aquelle, que só procura lisongear-vos, e
tranquilizar os vossos espiritos sobre perigos reaes, que não podem
ser-vos occultos; aquelle, que abusa da vossa confiança, para vos
importunar, e perturbar na concessão das graças, que são devidas
sómente ao merecimento, e aos serviços, e nunca ás protecções, ou ao
dinheiro, e na distribuição dos premios, e dos castigos, distribuição,
que nunca he justa, senão quando se funda no necessario conhecimento
de causa; aquelle em fim, que em lugar de illuminar-vos sobre os
males verdadeiros, que soffrem os vossos póvos, para lhes acudirdes
com o remedio, vos representa, que tudo vai bem, contando em nada as
vidas, as honras, e as fortunas dos vossos vassallos, he hum traidor,
que, afagando-vos, vos crava o punhal; he o vosso inimigo, que mais
depressa, do que imaginais, dará comvosco no precipicio.