CAPITULO XLIII.

_Fernando VII. he obrigado a renunciar a corôa a seu pai; Murat

Lugar-tenente de Carlos IV., e Presidente da Junta do governo em

Hespanha; como faz partir para Bayona os ultimos restos da Familia

Real; successos de 2 de maio em Madrid; novas renúncias forçadas a

favor de Napoleão; aviso util aos Soberanos da Europa._

[Sidenote: 1808

Maio.]

CUSTA a acreditar, que a viagem dos Reis pais a Bayona não tivesse

outro objecto, que o serem os instrumentos da oppressão, e desgraça de

seus filhos, e de toda a sua familia; mas he o que se vio, e o que será

transmittido ás idades futuras em documentos incontestaveis. O poder,

e a perfidia de Napoleão triunfárão da propria natureza; e por ultimo

resultado os pais forão envolvidos na mesma desgraça, que cavárão para

os filhos.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Carlos teve o valor de dizer a Fernando, que não queria reinar,

nem voltar para Hespanha, mas que exigia delle a renúncia da corôa:

renúncia, que era evidente não ter outro fim, que o de fazer

presente desta mesma corôa a hum estrangeiro. Fernando, prisioneiro,

conduzido pelo respeito, e obrigado pelas circumstancias, dirigio

com effeito no 1.^o de maio huma carta a seu pai com a renúncia, mas

ligada ás seguintes condições: 1.^a que S. M. Carlos IV., em cujo

favor renunciava, voltasse a Madrid, para onde elle desistente o

acompanharia, e o serviria, como seu filho mais respeitoso; 2.^a que

em Madrid se reunirião as cortes; e pois que S. M. (Carlos) recusava

huma congregação tão numerosa, se convocarião para este effeito todos

os tribunaes, e os deputados do reino; 3.^a que á vista desta assembléa

se formalizaria a sua renúncia, expondo-se os motivos, que a ella o

conduzião, a saber, o amor, que tinha aos seus vassallos, e o desejo de

corresponder ao que estes lhe consagravão, remindo-os dos horrores de

huma guerra civil, por meio de huma renúncia dirigida a seu Pai, para

outra vez empunhar o sceptro, e governallos; 4.^a que S. M. não levaria

comsigo pessoas, que justamente tinhão incurrido no odio da nação; 5.^a

que se S. M. não queria reinar, nem voltar para Hespanha, como lhe

tinha dito, elle desistente governaria, como seu Lugar-tenente.

Não se admittião condições, e por isso não agradou a renúncia; e

deo isto motivo a huma carta, que Carlos dirigio no dia seguinte a

Fernando, cheia de queixas, e invectivas, em que se está manifestando

palpavelmente a mão Franceza, que a produzíra. O ministerio Francez a

mandou inserir no _moniteur_ de 11; mas ao pé della devia tambem

inserir-se a resposta de Fernando, que Cevallos nos conservou entre os

documentos da sua obra, e responde de hum modo energico ás arguições do

Rei pai.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Entretanto expedia Carlos IV. hum decreto (he do dia 4) em que nomeava

Tenente-General do reino d’Hespanha, e Presidente da junta do governo

a seu amado irmão Murat, _a nuestro amado hermano_, formaes

palavras, _el gran duque de Berg, que manda al mismo tempo las tropas

de nuestro aliado el Emperador de los Francezes_. O seu amado

irmão era o que lhe estava devastando o reino, e alagando as ruas de

Madrid com o sangue dos seus vassallos; o seu alliado era este mesmo

Napoleão, que lhe roubava a corôa, e a toda a sua geração, que o tinha

já prisioneiro, e a huma parte da sua familia, e o resto em marcha

para Bayona; e que hum momento depois sepultou a todos no interior da

França, onde consta, que passão huma vida miseravel. Vejamos, como se

executavão estas cousas.

[Sidenote: 1808

Maio.]

No 1.^o de maio, dia da primeira renúncia de Fernando VII., ordenou

Murat em Madrid, que sahisse a Rainha d’Etruria para Bayona, e

como encostado a ella o Infante D. Francisco espalhou vozes, e deo

providencias, tendentes a dispôr os animos, para receberem huma nova

dynastia. A sessão da Junta do governo foi nesse dia extraordinaria;

mas obedeceo, e não diciou. Dissolveo-se á huma hora depois da meia

noite, tendo sido interrompida por tres Alcaides da corte, com a

noticia, de que o exercito Francez fazia movimentos, occupando a essa

mesma hora os pontos mais importantes de Madrid, e principalmente as

avenidas do palacio.

Era aprazada a manhã do dia 2, para a sabida da Rainha d’Etruria;

e o povo, que tinha concurrido á praça do palacio, a vê sahir com

indifferença. Apôs a Rainha sahe o Infante; então fermenta o povo, e

correndo ao coche, que o conduzia, lhe corta os tirantes. Os Francezes,

que estavão preparados para o successo, voão a sustentar o roubo do

Infante, e principía huma scena das mais sanguinosas, que a historia

conservará em seus annaes.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Era hum povo numeroso; porque o movimento se communicou rapidamente

a toda a capital, e seus suburbios; mas inerme, e sem plano fixo, a

combater com hum exercito prompto, disciplinado, e armado; porque não

só entrárão na acção as tropas, que estavão em Madrid, mas corrêrão ao

mesmo tempo as que se achavão no Retiro, e em varios acampamentos. Para

maior desgraça, as tropas Hespanholas, ou não tomárão parte, ou se a

tomárão, foi contra o povo: a policia, e os magistrados só cuidavão em

suffocar os movimentos. Pensavão provavelmente, que poupavão o sangue

dos seus compatriotas, e não fizerão senão poupar o dos inimigos.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Dia horroroso! Não me demorarei em contar as tuas atrocidades. O

successo não podia ser duvidoso, mas não foi, senão depois de muitas

horas de carniceria, que os Francezes ficárão senhores das ruas, e das

praças daquella infeliz capital, todas desertas de vivos, mas cobertas

de cadaveres. Entrárão então pelas casas, e pelos templos, exercitando

por toda a parte as suas crueldades, e conduzirão ainda 140 victimas

para o Pardo, onde forão barbaramente assassinados na noite immmediata.

E vós, magistrados, vós, soldados, que tanto tinheis forcejado para

conter o povo, que remorsos não sentistes, ao ouvir os lamentos destes

desgraçados, ao ver o clarão das tochas, que alumiavão o supplicio?

[Sidenote: 1808

Maio.]

Os diarios Francezes publicárão relações destes successos, todas

cheias de circumstancias falsas, em que a perda dos Hespanhoes se eleva

a muitos milhares de mortos, e a dos Francezes sómente a 25 mortos, e

45 a 50 feridos: não são estas as fontes, onde deve beber a verdade,

quem a procura. Alguns escritores Hespanhoes avalião a perda dos

Francezes em mais de 1700, e a dos seus em 300 mortos, quando muito.

Tambem não julgo exacto este calculo; porque da parte de hum povo

tumultuoso, e mal armado a perda devia ser muito maior, do que da de

corpos regulares, completamente armados. He certo, que a carniceria

foi horrorosa; porque como durou muitas horas, o povo teve tempo de

procurar algumas armas, o valor, e a raiva lhe augmentavão as forças,

e nas voltas das esquinas, e outros lugares semelhantes, fazia ataques

furiosos sobre os corpos unidos dos Francezes.

[Sidenote: 1808

Maio.]

A Junta do governo ajudou Murat a desarmar o povo por hum decreto.

Este regulo sahio mesmo no dia 2 com huma proclamação cheia de

ameaças, e de promessas, e com huma ordem do dia, em que decretou a

carniceria do Pardo, e fulminou incendios, e fuzilerias contra toda a

cidade, villa, ou aldêa, onde se matasse hum Francez, e contra todo o

ajuntamento de mais de 8 pessoas. _Los amos_ accrescentava hum

artigo, _responderan de sus creados; los impresarios de fabricas de

sus officiales; los padres de sus hijos; y los Prelados de conventos de

sus religiosos_. Que principios! Muitas outras peças de semelhante

natureza, e accomodadas ao mesmo fim, enchêrão a gazeta de Madrid, o

_moniteur_, e os diarios da Europa.

Napoleão, apenas informado dos successos de 2 de maio, correo a levar

esta boa nova a Carlos IV., que se acreditamos o _moniteur_ de

11, rompeo em exclamações contra os agitadores do povo, dizendo mais,

que elle o tinha previsto. Como tudo se voltava a favor do homem, que

tudo governava, e de tudo era o movel, foi este hum pretexto, para a

nomeação, que já indiquei, feita por aquelle pobre Rei, de Murat para

seu Lugar-tenente.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Quando esta nomeação chegou a Madrid, já não era necessaria; porque

sendo datada de 4 (como tudo ia de concerto!) nesse mesmo dia se

tinha Murat apresentado á Junta do governo, como dictador, e obtido

della hum decreto, que o nomeou seu Presidente. O decreto faz menção

de ter passado com unanimidade de votos; mas o A. do _Manifesto

imparcial_ affirma, que houverão debates, e que elle só passára pela

pluralidade de hum voto, sendo 5, incluso o da presidencia, os que o

approvárão, e 4 os que o impugnárão á face mesmo de Murat. Esta Junta

era então hum corpo informe, que tinha variado, e variava todos os

dias, da sua primitiva instituição. Aos Secretarios d’Estado tinhão-se

ajuntado alguns magistrados; e destes huns desertavão, e outros vinhão

de novo, segundo as occurrecias. Daqui por diante ficou sendo huma

formula sem sujeito; porque a Junta foi Murat.

Restava ainda em Madrid o Infante D. Antonio: Murat o remetteo

neste mesmo dia para Bayona, e he por este modo aleivoso, que forão

exterminados da Hespanha todos os ramos da florecente dynastia, que

occupava o throno, por titulos tão incontestaveis, que ninguem podia,

nem ousava disputar-lhe, sendo hum delles a vontade geral da nação

Hespanhola.

[Sidenote: 1808

Maio.]

No dia 5 de tarde foi Napoleão visitar os Reis pais; e depois de

huma hora de conferencia, Fernando foi chamado, para ouvir da boca de

seu pai, na presença da Rainha, e do Imperador, expressões, e ditos

tão offensivos, e humiliadores, que o modesto Cevallos, deixando-os

entrever pelas proprias palavras, de que acabo de usar, accrescenta,

que a sua mão se nega a escrevellos. Todos estavão assentados, menos

Fernando, a quem seu pai ordenou positivamente, que fizesse huma

renúncia absoluta, pena de ser tratado com toda a sua comitiva, como

usurpador da corôa, e conspirador contra a vida de seus pais. Consta,

que Napoleão accrescentára na despedida: _Prince, il faut opter entre

la cession, et la mort_: Principe he necessario escolher entre a

cessão, e a morte.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Fernando assás tinha resistido; mas não póde sustentar-se por mais

tempo contra tantos, e tão pezados golpes. Em carta de 6 remetteo

finalmente a seu pai a renúncia, para que o governo da Hespanha

tornasse ao estado, em que se achava a 19 de abril, quando o mesmo seu

pai o havia abdicado; mas não deixou de dar na mesma carta bastantes

idéas do seu justo sentimento contra os ultrajes não merecidos, que

delle recebêra, e contra a injustiça, com que o obrigava a renunciar

huma corôa, que tão espontaneamente elle mesmo lhe havia collocado

sobre a cabeça. Neste dia houve huma horrorosa tormenta em Lisboa, que

arrojou hum raio sobre a náo almirante Russiana, que lhe destruio o

mastro grande.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Seguio-se a cessão da corôa d’Hespanha, e Indias feita por Carlos IV.

a favor do tyranno, que o tinha prisioneiro, a que se deo a fórma, e o

titulo irrisorio de hum tratado; cessão que ratificárão com a corda na

garganta o Rei Fernando, e os Infantes. E não se envergonha Napoleão

de recorrer a titulos tão inuteis, como illegaes, que attestaráõ até

a ultima posteridade a sua infamia, e a sua perfidia! Era-lhe menos

vergonhoso recorrer sómente á força; porque ao menos o seu nome

ficaria collocado entre os de tantos ladrões illustres, chamados

conquistadores, que o precedêrão, sem aquella ignominiosa marca, que

elle mesmo lhe imprimio.

Taes forão os resultados da funesta alliança, e das condescendencias

impoliticas de Carlos IV. com o inimigo da sua casa, e de todas as

antigas dynastias da Europa, das quaes sómente se tem servido, para

o manterem na posse das suas usurpações. Taes os frutos da politica

insensata, e pérfida de hum valido, que de simples fidalgo pobre, e

guarda de _corpus_, chegou em poucos annos, sem outro merecimento,

que o do artificio, e esse muito grosseiro, a governar despoticamente

a Hespanha; e com a quimerica esperança de huma soberania em proprio,

vendeo os seus Reis, e a sua patria.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Soberanos da Europa, que ainda existis, posto que em huma situação

precaria, ponde os olhos neste quadro, e lede nos acontecimentos da

Hespanha a historia dos vossos. Não he o poder do conquistador o que

vos tem subjugado, he a fraqueza, e a ignorancia, ou a perfidia dos

Pequenos Godoys, em que tendes posto a vossa confiança, em lugar

de escolherdes homens robustos, fiéis, e experimentados, os vossos

verdadeiros amigos, para dirigirem os vossos conselhos. São esses

fracos, ou esses pérfidos os que forjárão as cadêas, que hoje arrastais.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Quando era necessario combater, elles vos mettêrão em negociações;

quando se devia empregar todo o dinheiro em augmentar, e disciplinar

o exercito, em abastecer os arsenaes f e fortificar as praças, elles

exhaurírão os vossos thesouros, e empobrecêrão os vossos vassallos,

para fazerem passar sommas immensas ás mãos do usurpador, com que

engrossavão mais, e mais o seu poder. Quando a Inglaterra vos propunha

a sua alliança, e vos offerecia os seus socorros, para resistir ao

inimigo commum, pintavão-vos o governo Inglez, como o tyranno dos

mares; propunhão-vos systemas de commercio, e vos entretinhão com

chitas, algodões, quincalharias, quando só devia tratar-se de segurar

a vossa existencia. Se alguem se atrevia a contradizellos, fallando

diante de vós com o valor, que a virtude inspira, disserão-vos, que era

hum louco, hum intrigante, e o separárão de vós.

Ainda fizerão mais. Mettêrão a discordia entre vós, e os vossos

vassallos, e suscitárão partidos contra vós nos vossos proprios

Estados; porque alienavão os espiritos, abusando da vossa confiança,

vendendo as graças, collocando nos empregos os ignorantes, os

libertinos, e os fracos, em quanto o merecimento, e a virtude ficavão

enterrados na lama, donde lhes não deixavão levantar cabeça, fazendo

odiosos os vossos governos, por todas as terriveis consequencias desta

má escolha dos empregados.

Eis-aqui porque cahírão as vossas praças, e forão destruidos os vossos

exercitos: eis-aqui porque o inimigo achou sempre grandes partidos nos

vossos Estados; elle os tinha conquistado, antes de os combater.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Vede a Gram-Bretanha, que nunca deo accesso a este falsa politica,

vede, como o seu poder tem aumentado progressivamente, e contrabalança

a desmedida influencia de Napoleão sobre o Continente. Vede a Hespanha,

debatendo-se ha mais de dous annos pela sua independencia, vede

Portugal resgatado, e desenvolvendo com a ajuda do seu grande alliado

recursos, que nunca se julgou, que coubessem nas suas forças. Univos a

estes pontos de apoio, que a Providencia quiz conservar-vos; e reuni

a elles as forças, que vos restão, se quereis sahir da escravidão com

apparencias de tutela, em que o usurpador vos conserva, sómente em

quanto convém aos seus interesses; mas principiai por arredar de vós os

vossos inimigos internos, senão estais perdidos.

[Sidenote: 1808

Maio.]

Quereis conhecellos? Eu vos dou huma regra infallivel. Aquelle,

que sempre vos acha razão; aquelle, que só procura lisongear-vos, e

tranquilizar os vossos espiritos sobre perigos reaes, que não podem

ser-vos occultos; aquelle, que abusa da vossa confiança, para vos

importunar, e perturbar na concessão das graças, que são devidas

sómente ao merecimento, e aos serviços, e nunca ás protecções, ou ao

dinheiro, e na distribuição dos premios, e dos castigos, distribuição,

que nunca he justa, senão quando se funda no necessario conhecimento

de causa; aquelle em fim, que em lugar de illuminar-vos sobre os

males verdadeiros, que soffrem os vossos póvos, para lhes acudirdes

com o remedio, vos representa, que tudo vai bem, contando em nada as

vidas, as honras, e as fortunas dos vossos vassallos, he hum traidor,

que, afagando-vos, vos crava o punhal; he o vosso inimigo, que mais

depressa, do que imaginais, dará comvosco no precipicio.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume II) · 第 32 / 35 题