CAPITULO XXXV.

_Marcha do exercito Portuguez para França, e sua infeliz sorte.

Principia a executar-se o projecto de tirar do reino os parentes

da Casa Real, e as personagens de maior consideração. Deputação a

Bayona._

[Sidenote: 1808

Març.]

A Retirada das tropas Hespanholas fez demorar algum tempo a marcha

das Portuguezas, que se destinavão para França; mas Napoleão tinha

este negocio muito em vista. Em consequencia das suas ordens positivas

partírão com effeito de Portugal pelos fins de março cousa de 6$

infantes, e quatro regimentos de cavallaria incompletos, tudo tropa

escolhida, pela estrada de Almeida, e Valladolid; devendo receber nesta

ultima cidade as ordens, para o seu ulterior destino.

[Sidenote: 1808

Març.]

Erão commandantes deste pequeno, mas brilhante exercito, os

Tenentes-Generaes Marquez d’Alorna, e Gomes Freire d’Andrada; Marechaes

de campo João de Brito Mouzinho, D. José Carcome Lobo, e Manoel Ignacio

Martins Pamplona; este, que era do corpo da cavallaria, ia tambem com

o posto de chéfe do estado maior; Brigadeiro João Ribeiro; Gram-Major

Marquez de Valença; Coronel, Ajudante General Manoel de Brito Mouzinho;

Coroneis o Marquez de Ponte de Lima, o Conde de S. Miguel, Joaquim de

Saldanha irmão do Conde da Ega, e Francisco Ferrari; chéfe de esquadrão

o Conde do Sabugal.[11] Entre a officialidade tambem partio huma porção

consideravel da mocidade illustre de Portugal. Forão prostituir os seus

braços ao usurpador da Europa, em lugar de os reservarem para o serviço

da patria; mas ás instigações de alguns dos seus chéfes devem elles

esta desgraça, e a patria huma perda tão sensivel. D’entre os soldados

muitos pudérão subtrahir-se; porque, assim que se virão arrancar dos

seus lares, para serem arrastados a paizes remotos, por mais que os

lisongeassem com esperanças, a deserção foi extraordinaria.

[Sidenote: 1808

Març.]

_Os valerosos Portuguezes, incorporados com os vencedores de

Marengo, de Austerlitz, e de Jena, vão formar parte do exercito da

grande nação_: tal he a linguagem, de que se usava para com estas

tropas; promettião-se-lhes o soldo, e as prerogativas do exercito

grande; e punha-se-lhes diante dos olhos, principalmente aos officiaes,

hum futuro cheio de fortuna, e de gloria; e a sorte, que os esperava,

era a de escravos, e de algozes. Já Napoleão tinha dado ordens, para se

fazerem partir a pé os corpos de cavallaria, a fim de serem remettidos

todos os cavallos para as suas tropas da Hespanha, e a huma boa parte

delles se deo na verdade esta applicação, tirados primeiro os precisos

para a remonta do exercito Francez de Portugal; mas tomou Junot sobre

si o alterar a execução das ordens, fazendo marchar montados os

soldados, e propondo a Napoleão, que seria mais facil fazellos apear

em Burgos, ou Bayona, do que em terras de Portugal. Não sei o que se

praticou com elles; e poucas noticias vierão a Portugal deste exercito,

depois que se entranhou na Hespanha.

[Sidenote: 1808

Març.]

Sabe-se, que huma parte destas tropas foi obrigada a manchar as

suas espadas contra os patriotas Hespanhoes, sendo ao mesmo tempo

aggressores, e victimas, no primeiro cerco de Saragoça, quando algum

tempo antes nos tinhão annunciado, que ião a ser postas de guarnição em

Pau, no Bearn, e em Auch. Depois de muitos mezes de perfeito silencio,

ellas apparecêrão dispersas pelo Hanover, pela Austria, Baviera, e

Tyrol, servindo a iniqua causa dos seus, e nossos oppressores; e mais

recentemente huma carta interceptada do Conde da Ega nos dá a noticia

de que pelejárão valerosamente contra a Austria, sendo mortos, e

feridos alguns officiaes.

[Sidenote: 1808

Març.]

Ficárão apenas em Portugal os artilheiros, dos quaes não podia Junot

dispensar-se, o corpo da policia, commandado pelo seu Novion, o dos

engenheiros, a que deo por chéfe a Vincent, escolhendo d’entre elles 50

mais dilectos, que empregava nas suas commissões particulares, e alguns

restos, que ainda existião da brigada da marinha. Se ficou mais alguma

cousa de tropa em algum canto do reino, he tão insignificante, que não

merece attenção.

[Sidenote: 1808

Març.]

Em quanto por este modo se realizava o projecto de atenuar por todos

os modos este reino, despojando-o das suas riquezas, e da sua força

armada, procurava-se tambem completar o outro, que estava igualmente

premeditado ainda antes da invasão, o de tirar de Portugal todos

os parentes da Casa Real, e as pessoas de maior consideração, e

conduzillas ao interior da França, para ficarem servindo de refens

ao usurpador. A idéa de huma deputação, que he muito do seu gosto, e

andava na forja havia muitos tempos, servio agora para facilitar a

primeira remessa.

[Sidenote: 1808

Març.]

Forão nomeados, para irem cumprimentar o Imperador dos Francezes da

parte da nação Portugueza (e a nação não o soube, senão quando os vio

partir) da ordem do clero o Bispo de Coimbra, o Inquisidor geral, e o

Prior mór da ordem de Avis; da nobreza o Marquez de Penalva, o Marquez

de Marialva, (este já se achava em França) o Marquez de Valença, os

Marquezes d’Abrantes pai, e filho, D. Nuno Alvares Pereira de Mello,

(irmão do Duque de Cadaval ausente no Brasil) o Conde do Sabugal, o

Visconde de Barbacena, e D. Lourenço de Lima, o mesmo, que tinha sido

Embaixador em França; do Senado da camara os Desembargadores Joaquim

Alberto Jorge, e Antonio Thomás da Silva Leitão. O parentesco com

a Casa Real foi o que sacrificou o Marquez de Valença, e Dom Nuno;

os Marquezes de Abrantes tambem não podião ficar excluidos, por

terem as honras de parentes. Cumprio Junot a promessa, que fizera

ao Marquez Pai, e ainda lhe aggregou o filho; mas sempre lhe faltou

com a presidencia. Não faltárão sustos aos outros membros do antigo,

e legitimo governo; porque lhes tinhão ficado bem impressas as boas

esperanças, que o mesmo Junot lhes havia dado de os empregar na

deputação.

[Sidenote: 1808

Març.]

Os predestinados forão instruidos das suas nomeações por avisos da

parte de Junot, annunciando-se-lhes juntamente, que devião achar-se

em Bayona entre 5, e 10 de abril, que era o tempo, em que alli devia

chegar Napoleão. Todos o cumprírão, e oxalá que o prazo fosse mais

demorado, acharião já vedado o transito pela Hespanha. Inculcavão os

avisos (mais huma impostura das que são muito familiares a esta gente)

que a deputação tinha sido pedida pelos proprios Portuguezes; mas huma

deputação nacional não póde ser pedida, senão pela propria nação,

ou por algum corpo, que a represente: a nação não a pedio; porque

ignorava absolutamente o facto, e o abominou, quando lhe foi conhecido;

corpo, que a represente, não o temos; e ainda que como tal se quizesse

considerar o governo legitimo, esse se achava supprimido.

[Sidenote: 1808

Març.]

Se a deputação fosse pedida pela nação, ou por alguma authoridade,

que se arrogasse o direito de fallar em nome della, que alarde não

faria Junot deste acto de vassallagem? Que assumpto para a gazeta de

Lisboa, e para todos os periodicos dependentes de Napoleão? E nesse

caso a nação, ou a authoridade, que a tivesse pedido, deveria tambem

nomear os deputados. A verdade he, que a deputação foi tão pedida pelos

Portuguezes, como o tinhão sido as de tantos póvos, que tem concurrido,

para arrastarem o carro ensanguentado dos triunfos de Napoleão, e como

pouco tempo depois a dos 150 Hespanhoes, que tambem forão convocados

a Bayona, para irem, como se pertendia, destruir as bases do antigo

edificio da monarquia Hespanhola.

[Sidenote: 1808

Març.]

Aos 14, que se chamavão deputados, ainda se ajuntárão mais algumas

pessoas de consideração, que augmentárão o número destes infelices

prisioneiros, conduzidos pelos seus interesses, bem ou mal entendidos,

ou pelo delirio de quererem viajar em tempos tão críticos; mas isto

era sómente hum ensaio: a procissão devia ir continuando, se os

acontecimentos da Hespanha lhe não embargassem os passos.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume II) · 第 18 / 35 题