_Marcha do exercito Portuguez para França, e sua infeliz sorte.
Principia a executar-se o projecto de tirar do reino os parentes
da Casa Real, e as personagens de maior consideração. Deputação a
Bayona._
[Sidenote: 1808
Març.]
A Retirada das tropas Hespanholas fez demorar algum tempo a marcha
das Portuguezas, que se destinavão para França; mas Napoleão tinha
este negocio muito em vista. Em consequencia das suas ordens positivas
partírão com effeito de Portugal pelos fins de março cousa de 6$
infantes, e quatro regimentos de cavallaria incompletos, tudo tropa
escolhida, pela estrada de Almeida, e Valladolid; devendo receber nesta
ultima cidade as ordens, para o seu ulterior destino.
[Sidenote: 1808
Març.]
Erão commandantes deste pequeno, mas brilhante exercito, os
Tenentes-Generaes Marquez d’Alorna, e Gomes Freire d’Andrada; Marechaes
de campo João de Brito Mouzinho, D. José Carcome Lobo, e Manoel Ignacio
Martins Pamplona; este, que era do corpo da cavallaria, ia tambem com
o posto de chéfe do estado maior; Brigadeiro João Ribeiro; Gram-Major
Marquez de Valença; Coronel, Ajudante General Manoel de Brito Mouzinho;
Coroneis o Marquez de Ponte de Lima, o Conde de S. Miguel, Joaquim de
Saldanha irmão do Conde da Ega, e Francisco Ferrari; chéfe de esquadrão
o Conde do Sabugal.[11] Entre a officialidade tambem partio huma porção
consideravel da mocidade illustre de Portugal. Forão prostituir os seus
braços ao usurpador da Europa, em lugar de os reservarem para o serviço
da patria; mas ás instigações de alguns dos seus chéfes devem elles
esta desgraça, e a patria huma perda tão sensivel. D’entre os soldados
muitos pudérão subtrahir-se; porque, assim que se virão arrancar dos
seus lares, para serem arrastados a paizes remotos, por mais que os
lisongeassem com esperanças, a deserção foi extraordinaria.
[Sidenote: 1808
Març.]
_Os valerosos Portuguezes, incorporados com os vencedores de
Marengo, de Austerlitz, e de Jena, vão formar parte do exercito da
grande nação_: tal he a linguagem, de que se usava para com estas
tropas; promettião-se-lhes o soldo, e as prerogativas do exercito
grande; e punha-se-lhes diante dos olhos, principalmente aos officiaes,
hum futuro cheio de fortuna, e de gloria; e a sorte, que os esperava,
era a de escravos, e de algozes. Já Napoleão tinha dado ordens, para se
fazerem partir a pé os corpos de cavallaria, a fim de serem remettidos
todos os cavallos para as suas tropas da Hespanha, e a huma boa parte
delles se deo na verdade esta applicação, tirados primeiro os precisos
para a remonta do exercito Francez de Portugal; mas tomou Junot sobre
si o alterar a execução das ordens, fazendo marchar montados os
soldados, e propondo a Napoleão, que seria mais facil fazellos apear
em Burgos, ou Bayona, do que em terras de Portugal. Não sei o que se
praticou com elles; e poucas noticias vierão a Portugal deste exercito,
depois que se entranhou na Hespanha.
[Sidenote: 1808
Març.]
Sabe-se, que huma parte destas tropas foi obrigada a manchar as
suas espadas contra os patriotas Hespanhoes, sendo ao mesmo tempo
aggressores, e victimas, no primeiro cerco de Saragoça, quando algum
tempo antes nos tinhão annunciado, que ião a ser postas de guarnição em
Pau, no Bearn, e em Auch. Depois de muitos mezes de perfeito silencio,
ellas apparecêrão dispersas pelo Hanover, pela Austria, Baviera, e
Tyrol, servindo a iniqua causa dos seus, e nossos oppressores; e mais
recentemente huma carta interceptada do Conde da Ega nos dá a noticia
de que pelejárão valerosamente contra a Austria, sendo mortos, e
feridos alguns officiaes.
[Sidenote: 1808
Març.]
Ficárão apenas em Portugal os artilheiros, dos quaes não podia Junot
dispensar-se, o corpo da policia, commandado pelo seu Novion, o dos
engenheiros, a que deo por chéfe a Vincent, escolhendo d’entre elles 50
mais dilectos, que empregava nas suas commissões particulares, e alguns
restos, que ainda existião da brigada da marinha. Se ficou mais alguma
cousa de tropa em algum canto do reino, he tão insignificante, que não
merece attenção.
[Sidenote: 1808
Març.]
Em quanto por este modo se realizava o projecto de atenuar por todos
os modos este reino, despojando-o das suas riquezas, e da sua força
armada, procurava-se tambem completar o outro, que estava igualmente
premeditado ainda antes da invasão, o de tirar de Portugal todos
os parentes da Casa Real, e as pessoas de maior consideração, e
conduzillas ao interior da França, para ficarem servindo de refens
ao usurpador. A idéa de huma deputação, que he muito do seu gosto, e
andava na forja havia muitos tempos, servio agora para facilitar a
primeira remessa.
[Sidenote: 1808
Març.]
Forão nomeados, para irem cumprimentar o Imperador dos Francezes da
parte da nação Portugueza (e a nação não o soube, senão quando os vio
partir) da ordem do clero o Bispo de Coimbra, o Inquisidor geral, e o
Prior mór da ordem de Avis; da nobreza o Marquez de Penalva, o Marquez
de Marialva, (este já se achava em França) o Marquez de Valença, os
Marquezes d’Abrantes pai, e filho, D. Nuno Alvares Pereira de Mello,
(irmão do Duque de Cadaval ausente no Brasil) o Conde do Sabugal, o
Visconde de Barbacena, e D. Lourenço de Lima, o mesmo, que tinha sido
Embaixador em França; do Senado da camara os Desembargadores Joaquim
Alberto Jorge, e Antonio Thomás da Silva Leitão. O parentesco com
a Casa Real foi o que sacrificou o Marquez de Valença, e Dom Nuno;
os Marquezes de Abrantes tambem não podião ficar excluidos, por
terem as honras de parentes. Cumprio Junot a promessa, que fizera
ao Marquez Pai, e ainda lhe aggregou o filho; mas sempre lhe faltou
com a presidencia. Não faltárão sustos aos outros membros do antigo,
e legitimo governo; porque lhes tinhão ficado bem impressas as boas
esperanças, que o mesmo Junot lhes havia dado de os empregar na
deputação.
[Sidenote: 1808
Març.]
Os predestinados forão instruidos das suas nomeações por avisos da
parte de Junot, annunciando-se-lhes juntamente, que devião achar-se
em Bayona entre 5, e 10 de abril, que era o tempo, em que alli devia
chegar Napoleão. Todos o cumprírão, e oxalá que o prazo fosse mais
demorado, acharião já vedado o transito pela Hespanha. Inculcavão os
avisos (mais huma impostura das que são muito familiares a esta gente)
que a deputação tinha sido pedida pelos proprios Portuguezes; mas huma
deputação nacional não póde ser pedida, senão pela propria nação,
ou por algum corpo, que a represente: a nação não a pedio; porque
ignorava absolutamente o facto, e o abominou, quando lhe foi conhecido;
corpo, que a represente, não o temos; e ainda que como tal se quizesse
considerar o governo legitimo, esse se achava supprimido.
[Sidenote: 1808
Març.]
Se a deputação fosse pedida pela nação, ou por alguma authoridade,
que se arrogasse o direito de fallar em nome della, que alarde não
faria Junot deste acto de vassallagem? Que assumpto para a gazeta de
Lisboa, e para todos os periodicos dependentes de Napoleão? E nesse
caso a nação, ou a authoridade, que a tivesse pedido, deveria tambem
nomear os deputados. A verdade he, que a deputação foi tão pedida pelos
Portuguezes, como o tinhão sido as de tantos póvos, que tem concurrido,
para arrastarem o carro ensanguentado dos triunfos de Napoleão, e como
pouco tempo depois a dos 150 Hespanhoes, que tambem forão convocados
a Bayona, para irem, como se pertendia, destruir as bases do antigo
edificio da monarquia Hespanhola.
[Sidenote: 1808
Març.]
Aos 14, que se chamavão deputados, ainda se ajuntárão mais algumas
pessoas de consideração, que augmentárão o número destes infelices
prisioneiros, conduzidos pelos seus interesses, bem ou mal entendidos,
ou pelo delirio de quererem viajar em tempos tão críticos; mas isto
era sómente hum ensaio: a procissão devia ir continuando, se os
acontecimentos da Hespanha lhe não embargassem os passos.