CAPITULO XXXIV.

_A divisão Solano evacua Portugal, e em seu lugar vão tropas

Francezas guarnecer as provincias do sul ás ordens de Kellerman, e

Maurin. Estes Generaes impõe novas contribuições, que são mandadas

suspender pelas representações de alguns magistrados. Continuão os

roubos; aventura do Corregedor de Lagos; sentimentos de hum General

Francez da antiga escola._

[Sidenote: 1808

Març.]

HE necessario continuar o fio das nossas desgraças. Novos movimentos

tinhão dado nova direcção á cabeça do Principe da Paz, e as tropas

Hespanholas tiverão ordem para sahirem de Portugal. Conseguio Junot

deter ainda as que guarnecião as provincias do norte, e todas as da

divisão de Carraffa; mas a de Solano principiou o seu movimento pelos

principios de março; e em pouco tempo evacuou Portugal. O exercito

Francez ficou então enfraquecido; e forão necessarios novos arranjos,

para se guarnecer com elle todo o reino, menos o que fica ao norte do

Douro.

Kellerman foi commandar as provincias da Extremadura, e Além-Téjo,

Maurin o Algarve. Erão ambos Generaes de cavallaria; e esta escolha

não foi sem motivos: Junot contava sempre, que seria necessaria a

cooperação do seu exercito contra a Hespanha; e he para esta parte, que

elle devia empregar a maior força possivel em cavallaria.

[Sidenote: 1808

Març.]

Estabeleceo Kellerman o seu quartel-general em Setubal; porém mandou

o forte das suas tropas para a provincia do Além-Téjo, onde erão mais

precisas. O coronel Miquel foi mandado para o governo de Elvas; e em 11

de março entrárão os Francezes nesta praça, ficando ainda por alguns

dias guarnição Hespanhola no forte de Santa Luzia, e mesmo alguns

corpos desta nação na praça. Da divisão Carraffa se conservárão sempre

algumas tropas na provincia, até os principios de junho, em que humas

desertárão, e outras forão desarmadas.

[Sidenote: 1808

Març.]

Solano, não só tinha conservado os Generaes, e mais empregados

Portuguezes, que achou de posse dos seus cargos, mas até admittio de

novo alguns, que ainda estavão de fóra, e tinhão sido despachados

pelo Principe Regente. Tal foi o General Francisco de Paula Leite,

substituido ao Marquez d’Alorna; e entre a vinda do Marquez para

Lisboa, e a ida de Leite para o Além-Téjo, tinha admittido no governo

interino da provincia, e da praça d’Elvas o General Portuguez Antonio

José de Miranda Henriques, contentando-se com aggregar-lhe o Brigadeiro

Hespanhol D. Vicente Maria Maturana, para governar a praça em 2.^o A

politica Franceza era muito differente: não admittia Portuguezes nos

postos importantes, a não serem alguns, de quem muito se confiava, e

nas praças de menor importancia.

Maurin fixou-se em Faro pelos fins de março, estendendo para os

lados por todo o Algarve os seus subalternos, e as suas tropas, que

consistião na legião do meio-dia, em hum batalhão do regimento 26, huma

companhia de dragões, e outra de artilheiros. D’entre os subalternos

era o principal, e hum dos que se fizerão mais notaveis, o coronel

Maransin, que foi governar a cidade de Lagos, e sua corregedoria, como

elles lhe chamavão.

[Sidenote: 1808

Març.]

Alongou-se pois esta praga por toda a extensão das provincias, que

ficão ao sul do Téjo, para as ir assolar, como tinha feito ás do norte.

Kellerman, e Maurin parece, que andavão ao desafio em materias de

avareza, e libertinagem; o primeiro empregava mais violencia, o segundo

mais arte nos meios de adquirir dinheiro. Principiárão por expedir

ordens a todos os Corregedores dos seus districtos, para lhes fazerem

apromptar grandes sommas, com o pretexto das despezas extraordinarias

do exercito; mas sem duvida para as suas particulares. Alguma cousa

chegárão a receber por esta via; e fazendo-se em Setubal huma especie

de thesouraria, debaixo da inspecção do Corregedor da comarca, ainda

nella se achou algum dinheiro na época da restauração.

[Sidenote: 1808

Març.]

Alguns magistrados, como forão o Juiz de fóra d’Elvas, e os

Corregedores do Algarve, tiverão o valor de se queixarem destas

extorsões pela secretaria d’Estado dos negocios do interior, e

obtiverão ordens, para a suspensão dellas. Vi o original de Kellerman

ao Corregedor d’Elvas (por ausencia deste fazia o Juiz de fóra as suas

vezes) datada de Setubal em 14 de março: ordenava-lhe, que dentro de

seis horas, depois que a recebesse, enviasse a Setubal hum deputado

com oito mil cruzados novos, (por sinal que a palavra _novos_ se

escreveo por entrelinha) e que para os mezes seguintes se regularião

as quantias, que mais devia remetter; que esta somma seria tirada das

camaras, e se estas não tivessem dinheiro disponivel, se cobraria

pelo modo, que elle Corregedor julgasse conveniente, sem outra alguma

demora. Tambem vi a ordem expedida por Herman, que mandou suspender

esta contribuição, e restituir o que della se tivesse cobrado: he de

26 do mesmo mez. Daqui resultou aos magistrados, que se oppuzerão, o

soffrerem as maiores insolencias; o Corregedor de Faro, Manoel José

Placido da Silva Negrão, dizem, que até levou pontapés, quando foi

apresentar a ordem a Maurin.

[Sidenote: 1808

Març.]

He bem sabido o grande trato de pescarias, que se faz por toda a costa

do Algarve; este ramo o mais vantajoso, e o que occupa mais gente

naquelle reino, devendo por isso ser o mais protegido, o foi na verdade

á Franceza, debaixo da influencia, e governo de Maurin. Todos os barcos

forão sujeitos a huma extraordinaria finta, que se regulava segundo

as suas lotações, e era recebida por hum homem arvorado com o titulo

de capitão do mar; e sem ser paga, nenhum obtinha licença, para sahir

ao alto. Por dinheiro se fazia tudo; mas tambem daqui resultou algum

bem; porque até se conseguia irem embarcações da costa commerciar a

Gibraltar, e he por este meio, que começárão as communicações de terra

com a esquadra Ingleza. Huma mulher, com quem muito se familiarizou

Maurin, foi tambem o conducto, por onde se conseguírão muitas graças, e

se praticárão muitas violencias.

[Sidenote: 1808

Març.]

O seu digno substituto Maransin fazia por imitallo em Lagos. Mudou

duas vezes de residencia; porque queria ser aquartelado em casa, onde

o sustentassem com grandeza, e o conseguio com effeito na do capitão

mór, homem rico, e liberal, que ajuntando a estas qualidades a de

honrado, nunca lhe apresentou sua mulher, e filhas. Offendido desta

reserva, Maransin o desfeiteava pública, e escandalosamente; e os seus

criados lhe destruião a casa: servião-se das mais finas roupas, para

pannos da cozinha, e tudo lhe despedaçavão, e arruinavão. Pessoa muito

authorizada me asseverou ter presenciado hum dia, que assistio a hum

dos seus jantares, que ao café, vindo hum criado de Maransin com huma

bandeja cheia de garrafas de licor, vidros, e chavenas preciosas, tudo

da casa, a lançára ao chão, despedaçando quanto ia nella, com todos os

visos de ser de proposito. Referirei mais hum facto, para se conhecer o

caracter deste homem.

[Sidenote: 1808

Març.]

[Sidenote: 1808

Març.]

O Corregedor de Lagos, Joaquim Nicoláo Mascarenhas Cordovil, filho

segundo de huma casa illustre, e rica, além das mais qualidades, que

o ornão, tinha a de ser hum bom patriota, e muito addicto ao partido

Inglez, tendo gozado da amizade successiva dos tres Ministros da corte

de Londres em Lisboa, Mr. Frere, Lord Fitz-Gerald, e Lord Strangford:

que titulos, para incorrer no odio dos Francezes? O capitão Filippon,

confidente de Maransin, o procura hum dia, e lhe dá a seguinte nova:

_Sabe-se, que vós sois hum grande apaixonado dos Inglezes, e o canal,

por onde elles tem a sua communicação com a terra, e que consentis, que

os seus navios venhão ao cabo de S. Vicente; estais perdido; porque

já está feita a conta, que se dá contra vós ao General..._ Qual

não seria o assombro de Cordovil, ouvindo proposições tão desabridas!

Com tudo Filippon as adoçou hum pouco, continuando: _mas tudo se

póde ainda remediar, dando dous cartuxos, cada hum de cem moedas,

em peças de 6$400_. Não deixou Cordovil de argumentar-lhe com a

impossibilidade de apromptar este dinheiro, por ser hum filho segundo,

e pelo pouco rendimento do lugar, que occupava; mas Filippon a tudo

achava resposta, replicando-lhe, já com seu irmão mais velho, que

lho apromptaria, se lho pedisse, e já com o dinheiro das decimas,

que dizia, que elle Corregedor havia de ter em seu poder, e podia

depois preencher de outra parte; argumento, que Cordovil desvanecia,

mostrando-lhe as suas contas, e entradas no erario; mas em fim, para

encurtar palavras, o Francez concluio, que não havia mais que tratar,

que apromptasse cem moedas para Maransin, e vinte e oito peças de 6$400

para elle Filippon, que era o menos, em que podia ficar, e que no dia

seguinte pela manhã as ia buscar. Cumprio a sua palavra, e o Corregedor

não teve outro remedio, senão apromptar este dinheiro; comprando com

elle a sua tranquillidade, e talvez a sua vida. He notavel a franqueza,

com que Filippon lhe disse nesta occasião, que aquellas erão as gages,

que o Imperador lhes dava; e que ia remetter para París as suas vinte e

oito peças, para ser admittido na legião d’honra.

[Sidenote: 1808

Març.]

Em todas as terras de Portugal, que os Francezes pizavão, se

reproduzião incessantemente as mesmas scenas: Generaes, officiaes, e

soldados roubavão por toda a parte com a energia, que he propria da

nova escola, de que erão alumnos; mas sobre tudo a legião do meio-dia

fazia maravilhas: compunha-se na maior parte de vadios, e facinororos

da Italia, commandados por officiaes Francezes, ou afrancezados; e que

cousas não devião esperar-se de hum composto, em que as maximas, e as

subtilezas Italianas se achavão combinadas com a voracidade Franceza?

[Sidenote: 1808

Març.]

Houve hum General Francez da antiga escola, (não declaro o seu nome,

para o não comprometter com os malvados, a quem tem a desgraça de se

achar unido) que clamava na casa, onde se achava aboletado, que o

exercito estava perdido; e perguntando-se-lhe o motivo, respondia,

que tinha visto furtar muito, mas nunca com tanto excesso; e que hum

exercito, em se lhe dando licença para furtar, está perdido. _Ladrão

de Laborde_, gritava elle, batendo com o pé no sobrado, _ladrão

Kellerman_, _ladrão Loison_, &c.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume II) · 第 17 / 35 题