_A divisão Solano evacua Portugal, e em seu lugar vão tropas
Francezas guarnecer as provincias do sul ás ordens de Kellerman, e
Maurin. Estes Generaes impõe novas contribuições, que são mandadas
suspender pelas representações de alguns magistrados. Continuão os
roubos; aventura do Corregedor de Lagos; sentimentos de hum General
Francez da antiga escola._
[Sidenote: 1808
Març.]
HE necessario continuar o fio das nossas desgraças. Novos movimentos
tinhão dado nova direcção á cabeça do Principe da Paz, e as tropas
Hespanholas tiverão ordem para sahirem de Portugal. Conseguio Junot
deter ainda as que guarnecião as provincias do norte, e todas as da
divisão de Carraffa; mas a de Solano principiou o seu movimento pelos
principios de março; e em pouco tempo evacuou Portugal. O exercito
Francez ficou então enfraquecido; e forão necessarios novos arranjos,
para se guarnecer com elle todo o reino, menos o que fica ao norte do
Douro.
Kellerman foi commandar as provincias da Extremadura, e Além-Téjo,
Maurin o Algarve. Erão ambos Generaes de cavallaria; e esta escolha
não foi sem motivos: Junot contava sempre, que seria necessaria a
cooperação do seu exercito contra a Hespanha; e he para esta parte, que
elle devia empregar a maior força possivel em cavallaria.
[Sidenote: 1808
Març.]
Estabeleceo Kellerman o seu quartel-general em Setubal; porém mandou
o forte das suas tropas para a provincia do Além-Téjo, onde erão mais
precisas. O coronel Miquel foi mandado para o governo de Elvas; e em 11
de março entrárão os Francezes nesta praça, ficando ainda por alguns
dias guarnição Hespanhola no forte de Santa Luzia, e mesmo alguns
corpos desta nação na praça. Da divisão Carraffa se conservárão sempre
algumas tropas na provincia, até os principios de junho, em que humas
desertárão, e outras forão desarmadas.
[Sidenote: 1808
Març.]
Solano, não só tinha conservado os Generaes, e mais empregados
Portuguezes, que achou de posse dos seus cargos, mas até admittio de
novo alguns, que ainda estavão de fóra, e tinhão sido despachados
pelo Principe Regente. Tal foi o General Francisco de Paula Leite,
substituido ao Marquez d’Alorna; e entre a vinda do Marquez para
Lisboa, e a ida de Leite para o Além-Téjo, tinha admittido no governo
interino da provincia, e da praça d’Elvas o General Portuguez Antonio
José de Miranda Henriques, contentando-se com aggregar-lhe o Brigadeiro
Hespanhol D. Vicente Maria Maturana, para governar a praça em 2.^o A
politica Franceza era muito differente: não admittia Portuguezes nos
postos importantes, a não serem alguns, de quem muito se confiava, e
nas praças de menor importancia.
Maurin fixou-se em Faro pelos fins de março, estendendo para os
lados por todo o Algarve os seus subalternos, e as suas tropas, que
consistião na legião do meio-dia, em hum batalhão do regimento 26, huma
companhia de dragões, e outra de artilheiros. D’entre os subalternos
era o principal, e hum dos que se fizerão mais notaveis, o coronel
Maransin, que foi governar a cidade de Lagos, e sua corregedoria, como
elles lhe chamavão.
[Sidenote: 1808
Març.]
Alongou-se pois esta praga por toda a extensão das provincias, que
ficão ao sul do Téjo, para as ir assolar, como tinha feito ás do norte.
Kellerman, e Maurin parece, que andavão ao desafio em materias de
avareza, e libertinagem; o primeiro empregava mais violencia, o segundo
mais arte nos meios de adquirir dinheiro. Principiárão por expedir
ordens a todos os Corregedores dos seus districtos, para lhes fazerem
apromptar grandes sommas, com o pretexto das despezas extraordinarias
do exercito; mas sem duvida para as suas particulares. Alguma cousa
chegárão a receber por esta via; e fazendo-se em Setubal huma especie
de thesouraria, debaixo da inspecção do Corregedor da comarca, ainda
nella se achou algum dinheiro na época da restauração.
[Sidenote: 1808
Març.]
Alguns magistrados, como forão o Juiz de fóra d’Elvas, e os
Corregedores do Algarve, tiverão o valor de se queixarem destas
extorsões pela secretaria d’Estado dos negocios do interior, e
obtiverão ordens, para a suspensão dellas. Vi o original de Kellerman
ao Corregedor d’Elvas (por ausencia deste fazia o Juiz de fóra as suas
vezes) datada de Setubal em 14 de março: ordenava-lhe, que dentro de
seis horas, depois que a recebesse, enviasse a Setubal hum deputado
com oito mil cruzados novos, (por sinal que a palavra _novos_ se
escreveo por entrelinha) e que para os mezes seguintes se regularião
as quantias, que mais devia remetter; que esta somma seria tirada das
camaras, e se estas não tivessem dinheiro disponivel, se cobraria
pelo modo, que elle Corregedor julgasse conveniente, sem outra alguma
demora. Tambem vi a ordem expedida por Herman, que mandou suspender
esta contribuição, e restituir o que della se tivesse cobrado: he de
26 do mesmo mez. Daqui resultou aos magistrados, que se oppuzerão, o
soffrerem as maiores insolencias; o Corregedor de Faro, Manoel José
Placido da Silva Negrão, dizem, que até levou pontapés, quando foi
apresentar a ordem a Maurin.
[Sidenote: 1808
Març.]
He bem sabido o grande trato de pescarias, que se faz por toda a costa
do Algarve; este ramo o mais vantajoso, e o que occupa mais gente
naquelle reino, devendo por isso ser o mais protegido, o foi na verdade
á Franceza, debaixo da influencia, e governo de Maurin. Todos os barcos
forão sujeitos a huma extraordinaria finta, que se regulava segundo
as suas lotações, e era recebida por hum homem arvorado com o titulo
de capitão do mar; e sem ser paga, nenhum obtinha licença, para sahir
ao alto. Por dinheiro se fazia tudo; mas tambem daqui resultou algum
bem; porque até se conseguia irem embarcações da costa commerciar a
Gibraltar, e he por este meio, que começárão as communicações de terra
com a esquadra Ingleza. Huma mulher, com quem muito se familiarizou
Maurin, foi tambem o conducto, por onde se conseguírão muitas graças, e
se praticárão muitas violencias.
[Sidenote: 1808
Març.]
O seu digno substituto Maransin fazia por imitallo em Lagos. Mudou
duas vezes de residencia; porque queria ser aquartelado em casa, onde
o sustentassem com grandeza, e o conseguio com effeito na do capitão
mór, homem rico, e liberal, que ajuntando a estas qualidades a de
honrado, nunca lhe apresentou sua mulher, e filhas. Offendido desta
reserva, Maransin o desfeiteava pública, e escandalosamente; e os seus
criados lhe destruião a casa: servião-se das mais finas roupas, para
pannos da cozinha, e tudo lhe despedaçavão, e arruinavão. Pessoa muito
authorizada me asseverou ter presenciado hum dia, que assistio a hum
dos seus jantares, que ao café, vindo hum criado de Maransin com huma
bandeja cheia de garrafas de licor, vidros, e chavenas preciosas, tudo
da casa, a lançára ao chão, despedaçando quanto ia nella, com todos os
visos de ser de proposito. Referirei mais hum facto, para se conhecer o
caracter deste homem.
[Sidenote: 1808
Març.]
[Sidenote: 1808
Març.]
O Corregedor de Lagos, Joaquim Nicoláo Mascarenhas Cordovil, filho
segundo de huma casa illustre, e rica, além das mais qualidades, que
o ornão, tinha a de ser hum bom patriota, e muito addicto ao partido
Inglez, tendo gozado da amizade successiva dos tres Ministros da corte
de Londres em Lisboa, Mr. Frere, Lord Fitz-Gerald, e Lord Strangford:
que titulos, para incorrer no odio dos Francezes? O capitão Filippon,
confidente de Maransin, o procura hum dia, e lhe dá a seguinte nova:
_Sabe-se, que vós sois hum grande apaixonado dos Inglezes, e o canal,
por onde elles tem a sua communicação com a terra, e que consentis, que
os seus navios venhão ao cabo de S. Vicente; estais perdido; porque
já está feita a conta, que se dá contra vós ao General..._ Qual
não seria o assombro de Cordovil, ouvindo proposições tão desabridas!
Com tudo Filippon as adoçou hum pouco, continuando: _mas tudo se
póde ainda remediar, dando dous cartuxos, cada hum de cem moedas,
em peças de 6$400_. Não deixou Cordovil de argumentar-lhe com a
impossibilidade de apromptar este dinheiro, por ser hum filho segundo,
e pelo pouco rendimento do lugar, que occupava; mas Filippon a tudo
achava resposta, replicando-lhe, já com seu irmão mais velho, que
lho apromptaria, se lho pedisse, e já com o dinheiro das decimas,
que dizia, que elle Corregedor havia de ter em seu poder, e podia
depois preencher de outra parte; argumento, que Cordovil desvanecia,
mostrando-lhe as suas contas, e entradas no erario; mas em fim, para
encurtar palavras, o Francez concluio, que não havia mais que tratar,
que apromptasse cem moedas para Maransin, e vinte e oito peças de 6$400
para elle Filippon, que era o menos, em que podia ficar, e que no dia
seguinte pela manhã as ia buscar. Cumprio a sua palavra, e o Corregedor
não teve outro remedio, senão apromptar este dinheiro; comprando com
elle a sua tranquillidade, e talvez a sua vida. He notavel a franqueza,
com que Filippon lhe disse nesta occasião, que aquellas erão as gages,
que o Imperador lhes dava; e que ia remetter para París as suas vinte e
oito peças, para ser admittido na legião d’honra.
[Sidenote: 1808
Març.]
Em todas as terras de Portugal, que os Francezes pizavão, se
reproduzião incessantemente as mesmas scenas: Generaes, officiaes, e
soldados roubavão por toda a parte com a energia, que he propria da
nova escola, de que erão alumnos; mas sobre tudo a legião do meio-dia
fazia maravilhas: compunha-se na maior parte de vadios, e facinororos
da Italia, commandados por officiaes Francezes, ou afrancezados; e que
cousas não devião esperar-se de hum composto, em que as maximas, e as
subtilezas Italianas se achavão combinadas com a voracidade Franceza?
[Sidenote: 1808
Març.]
Houve hum General Francez da antiga escola, (não declaro o seu nome,
para o não comprometter com os malvados, a quem tem a desgraça de se
achar unido) que clamava na casa, onde se achava aboletado, que o
exercito estava perdido; e perguntando-se-lhe o motivo, respondia,
que tinha visto furtar muito, mas nunca com tanto excesso; e que hum
exercito, em se lhe dando licença para furtar, está perdido. _Ladrão
de Laborde_, gritava elle, batendo com o pé no sobrado, _ladrão
Kellerman_, _ladrão Loison_, &c.