_Aos 5 dias do mez de fevereiro de 1808 annos nesta villa de
Marvão, estando em casas de sua morada o Doutor Juiz de fóra Antonio
Leite de Araujo Bravo, onde eu escrivão vim, e o escrivão meu
companheiro Ezequiel Garção Roma, e o escrivão d’alfandega Victorino
José Antonio de Carvalho, e por elle nos foi dito, que ha 7 annos, e 4
mezes tem a honra de occupar este lugar, servindo o Principe Regente
nosso Senhor, o mais pio, e o mais amavel de todos os Monarcas; que
a sua unica gloria, e felicidade seria empregar a vida até o ultimo
alento no Real serviço de tão Augusto Senhor; mas que as circumstancias
occurrentes, em que se vê exposto á execução das ordens, que os chéfes
dos exercitos Francez e Hespanhol, expedião em nome dos seus Soberanos,
transtornando as leis patrias, e independentes da regencia do reino, o
obrigão a entregar ao Vereador mais velho a jurisdicção de tudo o que
respeita ao civil, crime, e alfandega, para em nenhum tempo prestar a
hum poder estranho a obediencia só devida ao seu legitimo Imperante;
e que o faz, não por fraqueza, pois todo o povo he testemunha dos
honrados alentos, que o animão; mas por reconhecer inuteis estes mesmos
alentos, e para não expôr com elles o socego, e tranquillidade pública,
tão recommendada, e necessaria; porém que a pezar de tudo, esperando
ainda na Omnipotencia Divina, que movendo os magnanimos corações do
grande Imperador dos Francezes, e de S. M. Rei das Hespanhas para a
paz geral, ha de ser restituido ao seu throno o seu Augusto alliado, e
nosso amado Principe, conservará sempre o honroso titulo deste cargo,
e com a sua presença, conselho, e com as suas acções ajudará este
estimavel povo, e o não desamparará participando igualmente da sua
sorte até o ultimo momento, que tiver a ventura de poder conservar o
Real nome do mesmo Senhor. E para a todo o tempo constar mandou o mesmo
ministro fazer a presente declaração, que todos assinamos.--Joaquim
Antonio da Cruz, tabellião do judicial, e notas, que o escrevi--Joaquim
Antonio da Cruz.--Ezequiel Garção Roma.--Victorino José Antonio de
Carvalho, escrivão d’alfandega.--O escrivão dos orfãos Patricio Antonio
Garção de Matos.--_
[Sidenote: 1808
Fev.]
[Sidenote: 1808
Fev.]
Chegão immediatamente a noticia, e as ordens, resultantes dos
acontecimentos do 1.^o de fevereiro; e que fará então o Juiz de fóra?
Elle reassume a vara, que tinha abdicado, convoca outra vez os seus
escrivães, e se encaminha á igreja da misericordia daquella villa,
alli implora a protecção do Omnipotente; prostrado diante da imagem do
Senhor dos passos, e levantando-se, encosta a vara á mesma imagem, de
fórma que a deixa depositada entre as suas mãos; encarregando o Senhor
de a conservar, para ser hum dia restituida áquelle, a quem pertence.
Era de esperar, que o nosso bravo não perdesse hum momento, depois
desta acção, em fugir aos raios do governo intruso; mas não o praticou
assim, antes pelo contrario voltou socegadamente para sua casa, a dar
hum novo testemunho público dos seus sentimentos, cubrindo-se de luto
desde os pés até a cabeça; e assim se conservou em Marvão. Eu não estou
no seculo XIX.! Este homem não he o Juiz de fóra de Marvão! He sem
dúvida o célebre Governador de Coimbra, Martim de Freitas, o que, vendo
submettido todo o reino ás armas do Conde de Bolonha, sabe conservar ao
seu legitimo Soberano a praça, de que lhe confiára o governo; e ainda
depois de lhe attestarem, que este he fallecido, vai a Toledo depositar
as chaves della sobre o tumulo deste infeliz Monarca!
Ou Freitas, ou Bravo, os seus votos forão ouvidos; e a vara ficou
conservada entre as mãos da Santa imagem por todo o tempo, que durou o
governo intruso. Expedírão-se ordens, para se abaterem as Armas Reaes,
e elle pedio ao vereador mais velho, que as não executasse com as da
casa da camara, servindo-lhe de pretexto o não serem estas as da Real
casa de Bragança, sim as do reino, que se usavão no tempo d’ElRei D.
Manoel, como mostravão as duas esferas, que tinhão nos lados, á maneira
das que se achão esculpidas no frontispicio do foral, dado a Marvão
por este mesmo Rei; e como o vereador por timorato não annuisse aos
seus rogos, levou para sua casa as Armas, e as teve envolvidas em huma
toalha, até que teve o gosto de elle mesmo as poder outra vez collocar
no seu lugar. Os trabalhos, e mais acções illustres deste magistrado
tornaráõ ainda a occupar a minha pena; mas pertencem á época da
restauração do reino.
[Sidenote: 1808
Fev.]
[Sidenote: 1808
Fev.]
O patriotismo he huma paixão, que se exalta, como as outras; e póde
muito o exemplo, para lhe augmentar o vôo. Hum religioso Franciscano
se deo a conhecer, como digno imitador do Juiz de fóra, por hum rasgo
de heroismo, que merece perpetuar-se nos nossos fastos. O povo de
Castello de vide veio celebrar á igreja de N. Senhora da estrella de
Marvão huma festividade, em acção de graças pelo bom tempo, em que orou
Fr. Bernardo Joaquim de Santa Anna Mourato, então morador no mesmo
convento: era na época do nosso maior abatimento, quando por toda a
parte fumavão os incensos, e escorria o sangue das victimas diante
dos altares de Napoleão; o religioso levanta a voz no meio de hum
grande concurso de gente, e faz hum elogio ao nosso legitimo, e amado
Soberano, implora o auxilio da Santa virgem a favor deste Principe,
conforta, e anima o povo, para que espere, pela mediação da mesma
virgem, o vello ainda restituido a Portugal. Estremecêrão os tímidos,
e alguns delles, que pela sua representação attrahião mais os olhos do
publico, sahírão espavoridos da igreja, antes de se acabar o Sermão.
Forão esconder nas suas casas a sua vergonha, e o religioso conservou a
sua natural serenidade, para tambem ser hum dia o que orou na acção de
graças, pela nossa feliz restauração naquella villa.