CAPITULO XXXII.

_Embaraço, em que se vio Junot a respeito das provincias occupadas

pelos Hespanhoes, e como delle se tirou facilmente, pela inercia

da corte de Madrid. Repetem-se as ordens para a prohibição das

armas em todo o reino, e para se dissolverem as milicias daquellas

provincias. Varios regulamentos para a administração interna, e para se

accommodarem os aventureiros Francezes, que vinhão buscar fortuna._

[Sidenote: 1808

Fev.]

OS decretos do 1.^o de fevereiro derão a Junot o titulo de Governador

de Portugal, mas não lhe augmentárão o poder nas provincias do seu

mando primitivo, porque tudo lhe estava completamente subordinado.

Vio-se porém em algum embaraço, quanto ás provincias occupadas pelos

Hespanhoes; e delle se tiraria difficultosamente, se tivesse a tratar

com outras cabeças; porque transtornava o plano de occupação de

Portugal, a que o Rei Catholico subscrevêra, e os Generaes Hespanhoes

ainda não tinhão recebido ordens a este respeito. Estes forão assás

prudentes, ou por natureza, ou porque a corte de Madrid lhes tivesse

com a sua irresolução inspirado esta virtude, para se não oppôrem aos

decretos do General em chéfe do que chamavão omnipotente Napoleão;

contentárão-se com escrever a Junot, que com prazer ficarião ás suas

ordens; mas que precisavão serem para isso authorizados pelo seu

ministerio; e no mesmo dia, em que elle se investio no novo governo,

recebeo finalmente Solano as ordens, para se não oppôr a esta novidade.

[Sidenote: 1808

Fev.]

As mesmas se expedirião provavelmente a Taranco; mas este tinha

fallecido poucos dias antes. Por sua morte ficou provisoriamente

fazendo as sua vezes D. Domingos Bellesta; mas Junot decidio,

que entrasse no commando o General Carraffa; e foi obedecido sem

difficuldade.

Seria incomprehensivel o comportamento do governo Hespanhol, se não

fossem tão conhecidos os talentos, e a politica do Principe da Paz,

que continuava a exercitar o seu imperio sobre o infeliz Carlos IV.

Elle fluctuava ainda entre as esperanças de obter a soberania, que

lhe fôra garantida nos conciliabulos de Fontainebleau, e o medo de

perder a sua fortuna, e talvez a sua existencia, que via ameaçadas

de perto; por isso humas vezes queria mandar retirar de Portugal as

tropas Hespanholas, para o sustentarem, e a corte, sendo possivel, e

outras queria entregar-se todo nas mãos de Napoleão; e como não tinha a

firmeza de espirito necessaria, para abraçar, e sustentar hum partido,

recebia, como massa inerte, todas as impressões, que querião dar-lhe.

[Sidenote: 1808

Fev.]

Com hum homem destes era inevitavel o triunfo de Napoleão. As tropas

Hespanholas fizerão alguns movimentos duvidosos; mas em fim ficárão

em Portugal; e Junot continuou sem a menor opposição no exercicio do

seu governo; sendo certo, como depois se verificou por documentos

incontestaveis, que Napoleão já nesse tempo lhe ordenava, que

dispuzesse as suas forças de modo, que em caso de precisão pudessem

obrar de concerto com as tropas Francezas na Hespanha, cuja ruina tinha

decretado.

[Sidenote: 1808

Fev.]

Debaixo destas vistas se propôz a concluir o mais depressa o

desarmamento de Portugal. Existião na provincia do Além-Téjo, e reino

do Algarve, precedentemente ás ordens de Solano, 11 regimentos de

infanteria, comprehendida a legião, 5 de cavallaria, e 2 de artilheria,

que formavão hum presente sobre as armas de seis mil homens de

infanteria, mil e duzentos de cavallaria, e mil de artilheria. Na

provincia d’Entre Douro e Minho só existião 3 regimentos de infanteria,

e nada na de Tras-os-montes. Mandou pois Junot reorganizar estas

tropas, á maneira do que se tinha praticado nas outras provincias do

reino; e os preparativos começárão logo a fazer-se, para a remessa,

decretada desde o principio, do nosso exercito reduzido para França,

que era todo o empenho de Napoleão, assim como o de Junot consistia, em

que Napoleão lhe reforçasse as suas tropas com huma divisão Franceza,

em lugar de duas das tres Hespanholas, de que sempre se desejava

desembaraçar. Com hum reforço de dez, ou doze mil Francezes contava,

não só defender Portugal, mas ter ainda huma boa divisão disponivel,

para entrar na Hespanha, sendo preciso; mas vierão-lhe apenas alguns

detalhes de corpos, que se achavão na Hespanha.

[Sidenote: 1808

Fev.]

Repetio-se a 15 de fevereiro, para todo o reino em geral, a ordem de

4 de dezembro precedente sobre a prohibição das armas, que sómente

fora publicada para as provincias então occupadas pelos Francezes; e

decretou-se, para as que occupavão os Hespanhoes, o licenciamento das

milicias, e remessas das suas armas, na fórma praticada com as outras.

Vimos no lugar competente, que Taranco, e Solano tinhão principiado

esta diligencia; mas não a havião concluido.

A administração interna foi-se reduzindo ao modo Francez; mas a este

respeito caminhou Junot mais lentamente, menos no que respeitava a

finanças, arsenaes, e marinha; repartições, que forão logo modeladas

segundo os seus principios. No decreto de organização do novo governo

tinha elle promettido, que os tribunaes, ministros, camaras, e todos

os encarregados da administração, ficarião conservados, á excepção das

_reducções_, que o interesse público mostrasse, que era necessario

fazerem-se pelo tempo adiante, e das _mudanças_ nos objectos

relativos aos seus cargos, que a _nova organização do governo_

julgasse indispensaveis: estas palavrinhas querião dizer muito; mas

Junot não teve tempo, para desenvolver todos os seus planos.

[Sidenote: 1808

Fev.]

[Sidenote: 1808

Fev.]

Principiou pelas secretarias, e contadorias, supprimindo hum grande

número dos officiaes, que servião no erario, arsenaes, &c. O arsenal

da marinha foi principalmente o que lhe mereceo os maiores cuidados; e

a sua administração ficou muito reduzida, e simplificada. A contadoria

dos arsenaes, por exemplo, que se compunha de mais de trinta pessoas,

reduzio-se a hum chéfe de _comptabilité_, (introduzírão-se

esta, e outras denominações Francezas) e seis officiaes. Os armazens

baptizárão-se com o nome de depositos, e forão numerados por esta

fórma: n.^o 1.^o o deposito da madeira, n.^o 2.^o o da ferragem, n.^o

3.^o o da enxarcia, n.^o 4.^o o deposito geral. Por este detalhe

ficou separado o armazem dos viveres, tanto em superior, que se ficou

denominando commissario em chéfe, como na numeração. Creou-se huma nova

repartição com o titulo de _bureau_ dos armamentos de navios. O

inspector do arsenal ficou com o titulo de chéfe dos movimentos do

porto. Houve mais hum _bureau_ de todas as officinas do arsenal,

e casa de ponto, com o seu commissario em chéfe; hum engenheiro,

constructor em chéfe; e praticárão-se outras mudanças, entregando-se

a Francezes, ou a pessoas, em que estes se confiavão, os empregos de

maior entidade, em quanto os fiéis Portuguezes, ou erão expulsos, ou

ficavão escurecidos nos empregos inferiores.

Tinha chegado de França hum grande número de aventureiros, com

ordens positivas, para serem empregados nas differentes estações da

administração de Portugal. Por decreto de 20 de fevereiro se entregou

a hum Guichard a inspecção geral das alfandegas do reino; a hum Milié

a das contribuições; a hum Loye a das matas, e dos dominios da corôa,

infantado, e quaesquer outros pertencentes aos Principes da Casa Real,

e fidalgos, que acompanhárão o Principe Regente para o Brasil.

[Sidenote: 1808

Fev.]

No mesmo decreto se declarou expressamente, que os empregados, que

Loye trouxe comsigo por ordem do Ministro das finanças, poderião ser

nomeados por subinspectores; e o não terem sido todos empregados por

Herman, foi hum dos pontos, sobre que se formárão grandes queixas

contra este homem. O célebre Champagny na furiosa carta, de que ha

pouco fiz menção, tambem lhe reprehendeo o consentir, que ainda

houvessem Portuguezes na administração das alfandegas; ordenando-lhe,

accommodasse nestas repartições os sujeitos, que vinhão nomeados.

[Sidenote: 1808

Fev.]

Huma só vez tinha Portugal passado a dominio estrangeiro, desde o

estabelecimento da monarquia; e que differença nas duas épocas! Na de

Filippe II. foi quasi imperceptivel a mudança; porque este Principe,

tão prudente nas suas combinações politicas, como ambicioso nos seus

projectos, respeitou as leis, e os costumes do paiz, deixando-lhe as

suas instituições, e os seus empregos: quiz occultar com favores o

grilhão, que lançava aos Portuguezes, e segurar pela politica, o que

tinha alcançado pelas armas. Pelo contrario na de Napoleão tocárão-se

os extremos da independencia, e da escravidão, sem se deixar lugar ás

sombras, que devião encher o intervallo; porque o usurpador, fiel ás

maximas da sua politica devastadora, encheo logo tudo de Francezes,

tudo quiz innovar, e entregou a sua chamada conquista ao saque, com a

intenção de se apropriar da maior parte, e deixar o resto, para pasto

dos seus satéllites. He a politica dos selvagens da America, que cortão

as arvores, para lhes colherem o fruto. Succedeo-lhe porém o inverso

do que pensava; porque os seus levárão muito, e elle conseguio apenas

alguns restos.

Historia geral da invasão dos francezes em Portugal e da restauração deste reino (Volume II) · 第 13 / 35 题