_Embaraço, em que se vio Junot a respeito das provincias occupadas
pelos Hespanhoes, e como delle se tirou facilmente, pela inercia
da corte de Madrid. Repetem-se as ordens para a prohibição das
armas em todo o reino, e para se dissolverem as milicias daquellas
provincias. Varios regulamentos para a administração interna, e para se
accommodarem os aventureiros Francezes, que vinhão buscar fortuna._
[Sidenote: 1808
Fev.]
OS decretos do 1.^o de fevereiro derão a Junot o titulo de Governador
de Portugal, mas não lhe augmentárão o poder nas provincias do seu
mando primitivo, porque tudo lhe estava completamente subordinado.
Vio-se porém em algum embaraço, quanto ás provincias occupadas pelos
Hespanhoes; e delle se tiraria difficultosamente, se tivesse a tratar
com outras cabeças; porque transtornava o plano de occupação de
Portugal, a que o Rei Catholico subscrevêra, e os Generaes Hespanhoes
ainda não tinhão recebido ordens a este respeito. Estes forão assás
prudentes, ou por natureza, ou porque a corte de Madrid lhes tivesse
com a sua irresolução inspirado esta virtude, para se não oppôrem aos
decretos do General em chéfe do que chamavão omnipotente Napoleão;
contentárão-se com escrever a Junot, que com prazer ficarião ás suas
ordens; mas que precisavão serem para isso authorizados pelo seu
ministerio; e no mesmo dia, em que elle se investio no novo governo,
recebeo finalmente Solano as ordens, para se não oppôr a esta novidade.
[Sidenote: 1808
Fev.]
As mesmas se expedirião provavelmente a Taranco; mas este tinha
fallecido poucos dias antes. Por sua morte ficou provisoriamente
fazendo as sua vezes D. Domingos Bellesta; mas Junot decidio,
que entrasse no commando o General Carraffa; e foi obedecido sem
difficuldade.
Seria incomprehensivel o comportamento do governo Hespanhol, se não
fossem tão conhecidos os talentos, e a politica do Principe da Paz,
que continuava a exercitar o seu imperio sobre o infeliz Carlos IV.
Elle fluctuava ainda entre as esperanças de obter a soberania, que
lhe fôra garantida nos conciliabulos de Fontainebleau, e o medo de
perder a sua fortuna, e talvez a sua existencia, que via ameaçadas
de perto; por isso humas vezes queria mandar retirar de Portugal as
tropas Hespanholas, para o sustentarem, e a corte, sendo possivel, e
outras queria entregar-se todo nas mãos de Napoleão; e como não tinha a
firmeza de espirito necessaria, para abraçar, e sustentar hum partido,
recebia, como massa inerte, todas as impressões, que querião dar-lhe.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Com hum homem destes era inevitavel o triunfo de Napoleão. As tropas
Hespanholas fizerão alguns movimentos duvidosos; mas em fim ficárão
em Portugal; e Junot continuou sem a menor opposição no exercicio do
seu governo; sendo certo, como depois se verificou por documentos
incontestaveis, que Napoleão já nesse tempo lhe ordenava, que
dispuzesse as suas forças de modo, que em caso de precisão pudessem
obrar de concerto com as tropas Francezas na Hespanha, cuja ruina tinha
decretado.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Debaixo destas vistas se propôz a concluir o mais depressa o
desarmamento de Portugal. Existião na provincia do Além-Téjo, e reino
do Algarve, precedentemente ás ordens de Solano, 11 regimentos de
infanteria, comprehendida a legião, 5 de cavallaria, e 2 de artilheria,
que formavão hum presente sobre as armas de seis mil homens de
infanteria, mil e duzentos de cavallaria, e mil de artilheria. Na
provincia d’Entre Douro e Minho só existião 3 regimentos de infanteria,
e nada na de Tras-os-montes. Mandou pois Junot reorganizar estas
tropas, á maneira do que se tinha praticado nas outras provincias do
reino; e os preparativos começárão logo a fazer-se, para a remessa,
decretada desde o principio, do nosso exercito reduzido para França,
que era todo o empenho de Napoleão, assim como o de Junot consistia, em
que Napoleão lhe reforçasse as suas tropas com huma divisão Franceza,
em lugar de duas das tres Hespanholas, de que sempre se desejava
desembaraçar. Com hum reforço de dez, ou doze mil Francezes contava,
não só defender Portugal, mas ter ainda huma boa divisão disponivel,
para entrar na Hespanha, sendo preciso; mas vierão-lhe apenas alguns
detalhes de corpos, que se achavão na Hespanha.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Repetio-se a 15 de fevereiro, para todo o reino em geral, a ordem de
4 de dezembro precedente sobre a prohibição das armas, que sómente
fora publicada para as provincias então occupadas pelos Francezes; e
decretou-se, para as que occupavão os Hespanhoes, o licenciamento das
milicias, e remessas das suas armas, na fórma praticada com as outras.
Vimos no lugar competente, que Taranco, e Solano tinhão principiado
esta diligencia; mas não a havião concluido.
A administração interna foi-se reduzindo ao modo Francez; mas a este
respeito caminhou Junot mais lentamente, menos no que respeitava a
finanças, arsenaes, e marinha; repartições, que forão logo modeladas
segundo os seus principios. No decreto de organização do novo governo
tinha elle promettido, que os tribunaes, ministros, camaras, e todos
os encarregados da administração, ficarião conservados, á excepção das
_reducções_, que o interesse público mostrasse, que era necessario
fazerem-se pelo tempo adiante, e das _mudanças_ nos objectos
relativos aos seus cargos, que a _nova organização do governo_
julgasse indispensaveis: estas palavrinhas querião dizer muito; mas
Junot não teve tempo, para desenvolver todos os seus planos.
[Sidenote: 1808
Fev.]
[Sidenote: 1808
Fev.]
Principiou pelas secretarias, e contadorias, supprimindo hum grande
número dos officiaes, que servião no erario, arsenaes, &c. O arsenal
da marinha foi principalmente o que lhe mereceo os maiores cuidados; e
a sua administração ficou muito reduzida, e simplificada. A contadoria
dos arsenaes, por exemplo, que se compunha de mais de trinta pessoas,
reduzio-se a hum chéfe de _comptabilité_, (introduzírão-se
esta, e outras denominações Francezas) e seis officiaes. Os armazens
baptizárão-se com o nome de depositos, e forão numerados por esta
fórma: n.^o 1.^o o deposito da madeira, n.^o 2.^o o da ferragem, n.^o
3.^o o da enxarcia, n.^o 4.^o o deposito geral. Por este detalhe
ficou separado o armazem dos viveres, tanto em superior, que se ficou
denominando commissario em chéfe, como na numeração. Creou-se huma nova
repartição com o titulo de _bureau_ dos armamentos de navios. O
inspector do arsenal ficou com o titulo de chéfe dos movimentos do
porto. Houve mais hum _bureau_ de todas as officinas do arsenal,
e casa de ponto, com o seu commissario em chéfe; hum engenheiro,
constructor em chéfe; e praticárão-se outras mudanças, entregando-se
a Francezes, ou a pessoas, em que estes se confiavão, os empregos de
maior entidade, em quanto os fiéis Portuguezes, ou erão expulsos, ou
ficavão escurecidos nos empregos inferiores.
Tinha chegado de França hum grande número de aventureiros, com
ordens positivas, para serem empregados nas differentes estações da
administração de Portugal. Por decreto de 20 de fevereiro se entregou
a hum Guichard a inspecção geral das alfandegas do reino; a hum Milié
a das contribuições; a hum Loye a das matas, e dos dominios da corôa,
infantado, e quaesquer outros pertencentes aos Principes da Casa Real,
e fidalgos, que acompanhárão o Principe Regente para o Brasil.
[Sidenote: 1808
Fev.]
No mesmo decreto se declarou expressamente, que os empregados, que
Loye trouxe comsigo por ordem do Ministro das finanças, poderião ser
nomeados por subinspectores; e o não terem sido todos empregados por
Herman, foi hum dos pontos, sobre que se formárão grandes queixas
contra este homem. O célebre Champagny na furiosa carta, de que ha
pouco fiz menção, tambem lhe reprehendeo o consentir, que ainda
houvessem Portuguezes na administração das alfandegas; ordenando-lhe,
accommodasse nestas repartições os sujeitos, que vinhão nomeados.
[Sidenote: 1808
Fev.]
Huma só vez tinha Portugal passado a dominio estrangeiro, desde o
estabelecimento da monarquia; e que differença nas duas épocas! Na de
Filippe II. foi quasi imperceptivel a mudança; porque este Principe,
tão prudente nas suas combinações politicas, como ambicioso nos seus
projectos, respeitou as leis, e os costumes do paiz, deixando-lhe as
suas instituições, e os seus empregos: quiz occultar com favores o
grilhão, que lançava aos Portuguezes, e segurar pela politica, o que
tinha alcançado pelas armas. Pelo contrario na de Napoleão tocárão-se
os extremos da independencia, e da escravidão, sem se deixar lugar ás
sombras, que devião encher o intervallo; porque o usurpador, fiel ás
maximas da sua politica devastadora, encheo logo tudo de Francezes,
tudo quiz innovar, e entregou a sua chamada conquista ao saque, com a
intenção de se apropriar da maior parte, e deixar o resto, para pasto
dos seus satéllites. He a politica dos selvagens da America, que cortão
as arvores, para lhes colherem o fruto. Succedeo-lhe porém o inverso
do que pensava; porque os seus levárão muito, e elle conseguio apenas
alguns restos.