Hoje em dia quando surge algum novel escriptor, o apparecimento de seu
primeiro trabalho é uma festa, que celebra-se na imprensa com luminarias
e fogos de vistas. Rufam todos os tambores do jornalismo, e a
litteratura forma parada e apresenta armas ao genio trimphante que sobe
ao Pantheon.
Compare-se essa estrada, tapeçada de flores, tom a rota asperrima que eu
tive de abrir, atravez da indifferença e do desdem, desbravando as urzes
da intriga e da maledicencia.
Outros romances é de crer que succedessem ao _Guarany_ no folhetim do
_Diario_; si meu gosto não se voltasse então para o theatro. De outra
vez fallarei da feição dramatica de minha vida litteraria; e contarei
como e porque veiu-me essa fantazia. Aqui não se trata senão do
romancista.
Em 1862 escrevi _Luciola_, que edictei por minha conta e com o maior
sigillo. Talvez não me animasse á esse comettimento, si a venda da
segunda e terceira edição ao Sr. Garnier, não me alentasse a confiança,
provendo-me de recursos para os gastos da impressão.
O apparecimento de meu novo livro fez-se com a etiqueta, ainda hoje em
voga, dos annuncios e remessa de exemplares á redacção dos jornaes.
Entretanto toda a imprensa diaria resumiu-se nesta noticia de um
laconismo esmagador, publicada pelo _Correio Mercantil_: «Sahiu à luz um
livro intitulado _Luciola_.» Uma folha de caricaturas trouxe algumas
linhas pondo ao romance taxas de francezia.
Ha de ter ouvido algures, que eu sou um mimoso do publico, cortejado
pela imprensa, tareado de uma voga de favor, vivendo da falsa e ridicula
idolatria á um nome official. Ahi tem as provas cabaes; e por ellas
avalie dessa nova conspiração do despeito que veiu substituir a antiga
conspiração do silencio e da indifferença.
Apezar do desdem da critica de barrete, _Luciola_ conquistou seu
publico, e não somente fez caminho como ganhou popularidade. Em um anno
esgotou-se a primeira edicção de mil exemplares, e o Sr. Garnier
comprou-me a segunda, propondo-me tomar em iguaes condicções outro
perfil de mulher, que eu então gisava.
Por esse tempo fundou a sua _Bibliotheca Brasileira_, o meu amigo Sr.
Quintino Bocayuva, que teve sempre um fraco pelas minha sensaborias
litterarias. Reservou-me um de seus volumes; e pediu-me com que
enchel-o. Alem de esboços e fragmentos, não guardava na pasta senão uns
dez capitulos de romance começado.
Acceitou-os, e em boa hora os deu á lume; pois esse primeiro tomo
desgarrado excitou alguma curiosidade que induziu o Sr. Garnier á
edictar a conclusão. Sem aquella insistencia de Quintino Bocayuva, _As
Minas do Prata_, obra de maior traço, nunca sahiria da chrisalida, e os
capitulos já escriptos estariam fazendo companhia aos _Contrabandistas_.
De volta de S. Paulo, onde fiz uma excursão de saude, e já em ferias de
politica, com a dissolução de 13 de Maio de 1863, escrevi _Diva_, que
sahiu á lume no anno seguinte, edictada pelo Sr. Garnier.
Foi dos meus romances,--e já andava no quinto, não contando o volume das
_Minas de Prata_--o primeiro que recebeu hospedagem da imprensa diaria,
e foi acolhido com os cumprimentos banaes da cortezia jornalistica. Teve
mais: o Sr. H. Muzio consagrou-lhe no _Diario do Rio_ um elegante
folhetim, mas de amigo que não de critico.
Pouco depois (20 de junho de 1864) deixei a existencia descuidosa e
solteira para entrar na vida da familia onde o homem se completa. Como a
litteratura nunca fôra para mim uma Bohemia, e somente um modesto Tibur
para o espirito arredio, este sempre grande acontecimento da historia
individual não marca epocha na minha chronica litteraria.
A composição dos cinco ultimos volumes das _Minas de Prata_ occupou-me
tres mezes entre 1864 e 1865; porem a demorada impressão estorvou-me um
anno, que tanto durou. Ninguem sabe da má influencia que tem exercido na
minha carreira de escriptor, o atraso da nossa arte typographica, que um
constante caiporismo torna em pessima para mim.
Si eu tivesse a fortuna de achar officinas bem montadas com habeis
revisores, meus livros sahiriam mais correctos; a attenção e o tempo por
mim despendidos em rever, e mal, provas truncadas, seriam melhor
aproveitadas em compor outra obra.
Para publicar _Iracema_ em 1869 fui obrigado á edictal-o por minha
conta; e não andei mal inspirado pois antes de dois annos a edicção
extinguiu-se.
De todos os meus trabalhos deste genero nenhum havia merecido as honras
que a sympathia e a confraternidade litteraria se esmeram em
prestar-lhes. Alem de agasalhado por todos os jornaes, inspirou á
Machado de Assis uma de suas mais elegantes revistas bibliographicas.
Até com sorpresa minha atravessou o oceano, e grangeou a attenção de um
critico illustrado e primoroso escriptor portuguez, o Sr. Pinheiro
Chagas, que dedicou-lhe um de seus ensaios criticos.
Em 1868 a alta politica arrebatou-me ás lettras para só restituir-me em
1870. Tão vivas eram as saudades dos meus borrões, que apenas despedi a
pasta auri-verde dos negocios de estado, fui tirar da gaveta onde a
havia escondido, a outra pasta de velho papelão, todo rabiscado, que era
então a arca de meu thezouro.
Ahi começa outra idade de author, a qual eu chamei de minha _velhice
litteraria_, adoptando o pseudonymo de _senio_, e outros querem seja a
da decrepitude. Não me affligi com isto, eu que, digo-lhe com todas as
veras, desejaria fazer-me escriptor posthumo, trocando de boa vontade os
favores do presente pelas severidades do futuro.
Desta segunda idade, que V. tem acompanhado, nada lhe poderia referir de
novo; sinão um ou outro pormenor de psychologia litteraria, que omitto
por não alongar-me ainda mais. Afóra isso, o resto é monotono; e não
passaria de datas, entremeados da inexgotavel serrazina dos authores
contra os typographos que lhes estripam o pensamento.
Ao cabo de vinte e dois annos de gleba na imprensa, achei afinal um
edictor, o Sr. B. Garnier, que espontaneamente offereceu-me um contracto
vantajoso em meiados de 1870.
O que lhe deve a minha collecção, ainda antes do contracto, terá visto
nesta carta; depois, trouxe-me esta vantagem, que na concepção de um
romance e na sua feitura, não me turva a mente a lembrança do tropeço
material, que pode matar o livro, ou fazer delle uma larva.
Deixe arrotarem os poetas mendicantes. O _Magnus Apollo_ da poesia
moderna, o deus da inspiração e pae das musas deste seculo, é essa
entidade que se chama edictor, e o seu _Parnaso_ uma livraria. Si
outr'ora houve Homeros, Sophocles, Virgilios, Horacios e Dantes, sem
typographia nem impressor, é porque então escrevia-se nessa pagina
immortal que se chama a tradicção. O poeta cantava; e seus carmes se iam
gravando no coração do povo.
Todavia ainda para o que teve a fortuna de obter um edictor, o bom livro
é no Brasil e por muito tempo será para seu author, um desastre
financeiro. O cabedal de intelligencia e trabalho que nelle se emprega,
daria em qualquer outra applicação, lucro centuplo.
Mas muita gente acredita que eu me estou cevando em ouro, producto de
minhas obras. E, ninguem ousaria acredital-o, imputam-me isso á crime,
alguma cousa como sordida cobiça.
Que paiz é este onde forja-se uma falsidade, e para que? Para tornar
odiosa e despresivel a riqueza honestamente ganha pelo mais nobre
trabalho, o da intelligencia!
Dir-me-ha que em toda a parte ha dessa praga; sem duvida, mas é praga; e
não tem foros e respeitos de jornal, admittido ao gremio da imprensa.