Eis-me de repente lançado no turbilhão do mundo.
Ao cabo de quatro annos de tirocinio na advocacia, a imprensa diaria, na
qual apenas me arriscara como folhetinista, arrebatou-me. Em fins de
1856 achei-me redactor chefe do _Diario do Rio de Janeiro_.
É longa a historia dessa lucta, que absorveu cerca de tres dos melhores
annos de minha mocidade. Ahi se acrisolaram as audacias que desgostos,
insultos, nem ameaças conseguiram quebrar até agora; antes parece que as
afiam com o tempo.
Ao findar o anno, houve idéa de offerecer aos assignantes da folha, um
mimo de festa. Sahiu um romancete, meu primeiro livro, se tal nome cabe
á um folheto de 60 paginas.
Escrevi _Cinco minutos_ em meia duzia de folhetins que iam sahindo na
folha dia por dia, e que foram depois tirados em avulso sem nome do
author. A promptidão com que em geral antigos e novos assignantes
reclamavam seu exemplar, e a procura de algumas pessoas que insistiam
por comprar a brochura, somente destinada á distribuição gratuita entre
os subscriptores do jornal; foi a unica, muda mas real, animação que
recebeu essa primeira prova.
Bastou para suster a minha natural perseverança. Tinha leitores e
expontaneos, não illudidos por falsos annuncios. Os mais pomposos
elogios não valiam, e nunca valerão para mim, essa silenciosa
manifestação, ainda mais sincera nos paizes como o nosso de opinião
indolente.
Logo depois do primeiro ensaio, veiu a _Viuvinha_. Havia eu em epocha
anterior começado este romancete, invertendo a ordem chronologica dos
acontecimentos. Deliberei porem mudar de plano, e abri a scena com o
principio da acção.
Tinha eu escripto toda a primeira parte, que era logo publicada em
folhetins; e contava aproveitar na segunda o primitivo fragmento; mas
quando o procuro, dou pela falta.
Sabidas as contas, Leonel[2] que era então o encarregado da revista
semanal, _Livro do domingo_, como elle a intitulou; achando-se um
sabbado em branco pediu-me alguma coisa com que encher o rodapé da
folha. Occupado com outros assumptos, deixei que buscasse entre os meus
borrões. No dia seguinte lograva elle aos leitores dando-lhes em vez da
habitual palestra, um conto. Era este o meu principio de romance ao qual
elle tinha posto, com uma linha de reticencias e duas de prosa, um
desses subitos desenlaces que fazem o effeito de uma guilhotina
litteraria.
Fatigado do trabalho da vespera, urgido pelas occupações do dia, em
constantes tribulações, nem sempre podia eu passar os olhos por toda a
folha.
Nesse domingo não li a revista, cujo teor já me era conhecido, pois
sahira-me da pasta.
Imagine, como fiquei, em meio de um romance, cuja continuação o leitor
já conhecia oito dias antes. Que fazer? Arrancar do _Livro do domingo_,
as paginas já publicadas? Podia-o fazer; pois o folhetinista não as dera
como suas, e deixara entrever o author; mas fôra matar a illusão.
D'ahi veiu o abandono desse romancete, apezar dos pedidos que surgiam á
espaços, instando pela conclusão. Só tres annos depois, quando meu amigo
e hoje meu cunhado Dr. Joaquim Bento de Souza Andrade, quiz publicar uma
segunda edição de _Cinco Minutos_, escrevi eu o final da _Viuvinha_, que
faz parte do mesmo volume.
O desgosto que me obrigou a truncar o segundo romance, levou-me o
pensamento para um terceiro, porem este já de maior folego. Foi o
_Guarany_, que escrevi dia por dia para o folhetim do _Diario_, entre os
mezes de fevereiro e abril de 1857, si bem me recordo.
No meio das labutações do jornalismo, oberado não somente com a redacção
de uma folha diaria, mas com a administração da empreza, desempenhei-me
da tarefa que me impuzera, e cujo alcance eu não medira ao começar a
publicação, apenas com os dois primeiros capitulos escriptos.
Meu tempo dividia-se desta forma. Accordava por assim dizer na meza do
trabalho; e escrevia o resto do capitulo começado no dia antecedente
para envial-o á typographia. Depois do almoço entrava por novo capitulo,
que deixava em meio. Sahia então para fazer algum exercicio antes do
jantar no Hotel de Europa. A tarde, até nove ou dez horas da noite,
passava no escriptorio da redacção, onde escrevia o artigo edictorial e
o mais que era preciso.
O resto do serão era repousar o espirito dessa ardua tarefa jornaleira,
em alguma distração, como o theatro e as sociedades.
Nossa casa no Largo do Rocio n. 73 estava em reparos. Trabalhava eu n'um
quarto do segundo andar, ao estrepito do martelo, sobre uma banquinha de
cedro que apenas chegava para o mister da escripta; e onde a minha velha
caseira Angela servia-me o parco almoço. Não tinha comigo um livro; e
soccorria-me unicamente á um canhenho, em que havia em notas o fructo de
meus estudos sobre a natureza e os indigenas do Brasil.
Disse alguem, e repete-se por ahi de outiva que o Guarany é um romance
ao gosto de Cooper. Si assim fosse, haveria coincidencia, e nunca
imitação; mas não é. Meus escriptos se parecem tanto com os do illustre
romancista americano, como as varzeas do Ceará com as margens do
Delaware.
A impressão profunda que em mim deixou Cooper foi, já lhe disse, como
poeta do mar. Dos _Contrabandistas_, sim, poder-se-hia dizer, apezar da
originalidade da concepção, que foram inspiradas pela leitura do
_Piloto_, do _Corsario Vermelho_, do _Varredor do Mar_ etc. Quanto à
poesia americana, o modelo para mim ainda hoje é Chateaubriand; mas o
mestre que eu tive, foi esta explendida natureza que me envolve, e
particularmente a magnificencia dos desertos que eu perlustrei ao entrar
na adolescencia, e foram o portico magestoso por onde minh'alma penetrou
no passado de sua patria.
D'ahi, desse livro secular e immenso, é que eu tirei as paginas do
_Guarany_, as de _Iracema_, e outras muitas que uma vida não bastaria á
escrever. D'ahi e não das obras de Chateaubriand, e menos das de Cooper,
que não eram senão a copia do original sublime, que eu havia lido com o
coração.
O Brasil tem, como os Estados Unidos, e quaesquer outros povos da
America, um periodo de conquista, em que a raça invasora destróe a raça
indigena. Essa lucta apresenta um caracter analogo, pela semelhança dos
aborigenes. Só no Perú e Mexico differe.
Assim o romancista brasileiro que buscar o assumpto do seu drama nesse
periodo da invasão, não póde escapar ao ponto de contacto com o
escriptor americano. Mas essa approximação vem da historia, é fatal, e
não resulta de uma imitação.
Si Chateaubriand e Cooper não houvessem existido, o romance americano
havia de apparecer no Brasil á seu tempo.
Annos depois de escripto o _Guarany_, reli Cooper afim de verificar a
observação dos criticos e convenci-me de que ella não passa de um rojão.
Não ha no romance brasileiro um só personagem de cujo typo se encontre o
molde nos _Mohicanos_, _Espião_, _Outario_, _Sapadores_ e _Leonel
Lincoln_.
No _Guarany_ derrama-se o lirismo de uma imaginação moça, que tem como a
primeira rama o vicio da exhuberancia; por toda a parte a limpha, pobre
de seiva, brota em flor ou folha. Nas obras do iminente romancista
americano, nota-se a singeleza e parcimonia do prosador, que se não
deixa arrebatar pela fantazia, antes a castiga.
Cooper considera o indigena sob o ponto de vista social; e na descripção
dos seus costumes foi _realista_; apresentou-o sob o aspecto vulgar.
No _Guarany_ o selvagem é um ideal, que o escriptor intenta poetisar,
despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os chronistas, e
arrancando-o ao ridiculo que sobre elle projectam os restos embrutecidos
da quasi extincta raça.
Mas Cooper descreve a natureza americana, dizem os criticos. E que havia
elle de descrever, senão a scena do seu drama? Antes delle Walter Scott
deu o modelo dessas paisagens á penna, que fazem parte da cor local.
O que se precisa examinar é si as descripções do _Guarany_ têm algum
parentesco ou affinidade com as descripções de Cooper; mas isso não
fazem os criticos, porque dá trabalho e exige que se pense. Entretanto
basta o confronto para conhecer que não se parecem nem no assumpto, nem
no genero e estylo.
A edicção avulsa que se tirou do _Guarany_, logo depois de concluida a
publicação em folhetim, foi comprada pela livraria do Brandão por um
conto e quatro centos mil reis que cedi á empreza. Era essa edicção de
mil exemplares; porem trezentos estavam truncados, com as vendas de
volumes que se faziam á formiga na typographia. Restavam pois
setecentos, sahindo o exemplar á 2$000.
Foi isso em 1857. Dois annos depois comprava-se o exemplar á 5$000 e
mais, nos belchiores que o tinham á cavallo do cordel, embaixo dos arcos
do Paço; d'onde o tirou o Xavier Pinto para sua livraria da rua dos
Ciganos. A indifferença publica, sinão o pretencioso desdém da roda
litteraria, o tinha deixado cahir nas pocilgas dos alfarrabistas.
Durante todo esse tempo e ainda muito depois, não vi na imprensa
qualquer elogio, critica ou simples noticia do romance, á não ser em uma
folha do Rio Grande do Sul, como razão para a transcripção dos
folhetins. Reclamei contra esse abuso que cessou; mas posteriormente
soube que aproveitou-se a composição já adiantada para uma tiragem
avulsa. Com esta anda actualmente a obra na sexta edição.
Na bella introducção que Mendes Leal escreveu ao seu _Calabar_, se
extasiava ante os thezouros da poesia brasileira, que elle suppunha
completamente desconhecidos para nós. «_E tudo isto offerecido ao
romancista, virgem, intacto, para escrever, para animar, para reviver._»
Que elle o dissesse não ha extranhar; pois ainda hoje os litteratos
portuguezes não conhecem da nossa litteratura, senão o que se lhes manda
de encommenda com um offertorio de mirra e incenso. Do mais não se
occupam; uns por economia, outros por desdem. O Brasil é um mercado para
seus livros e nada mais.
Não se comprehende porem que uma folha brasileira, como era o _Correio
Mercantil_, annunciando a publicação do _Calabar_, insistisse na idéa de
ser essa obra uma primeira licção do romance nacional dada aos
escriptores brasileiros, e não se advertisse que dois annos antes um
compatriota e seu ex-redactor se havia estreado nessa provincia
litteraria.
«_Ha muito que o author pensava na tentativa de criar no Brasil para o
Brasil um genero de litteratura para que elle parece tão affeito e que
lhe pode fazer serviços reaes._» Quando Mendes Leal escrevia em Lisboa
estas palavras, o romance americano já não era uma novidade para nós; e
tinha no _Guarany_ um exemplar, não arreiado dos primores do _Calabar_,
porem incontestavelmente mais brasileiro.