I
Meu amigo,
Na conversa que tivemos, ha dias, exprimiu V. o desejo de colher acerca
da minha peregrinação litteraria, alguns pormenores dessa parte intima
de nossa existencia, que geralmente fica á sombra, no regaço da familia,
ou na reserva da amizade.
Sabendo de seus constantes esforços para enriquecer o illustrado author
do _Diccionario Bibliographico_, de copiosas noticias que elle
difficilmente obteria á respeito de escriptores brazileiros, sem a
valiosa coadjuvação de tão erudito glossologo; pensei que me não devia
eximir de satisfazer seu desejo e trazer a minha pequena quota para a
amortização desta divida de nossa ainda infante litteratura.
Como bem reflexionou V., ha na existencia dos escriptores factos
communs, do viver quotidiano, que todavia exercem uma influencia notavel
em seu futuro, e imprimem em suas obras o cunho individual.
Estes factos jornaleiros, que á propria pessoa muitas vezes passam
despercebidos sob a monotonia do presente, formam na biographia do
escriptor a urdidura da tela, que o mundo sómente vê pela face do matiz
e dos recamos.
Já me lembrei de escrever para meus filhos essa authobiographia
litteraria, onde se acharia a historia das creaturinhas enfesadas, de
que, por mal de meus peccados, tenho povoado as estantes do Sr. Garnier.
Seria esse o _livro dos meus livros_. Si n'alguma hora de pachorra, me
dispuzesse á refazer a cançada jornada dos quarenta e quatro annos, já
completos; os curiosos de anedoctas litterarias saberiam, além de muitas
outras cousas minimas, como a inspiração do Guarany, por mim escripto
aos 27 annos, cahio na imaginação da criança de nove, ao atravessar as
matas e sertões do norte em jornada do Ceará á Bahia.
Emquanto não vem ao lume do papel, que para o da imprensa ainda é cedo,
essa obra futura; quero em sua intenção fazer o rascunho de um capitulo.
Será d'aquelle, onde se referem as circumstancias, á que attribuo a
predilecção de meu espirito pela fórma litteraria do romance.