XIX

.... _Já dava no rosto a friagem

da noite da eternidade; só faltava regelar

de todo... e cahir._

A. F. DE CASTILHO (Fr. F. de

Monte-Alverne).

Leonor, ao cabo de dous annos de padecer, difficultosamente sahia do

leito. A extrema fraqueza e tremor espasmodico das pernas seguiu-se a

paralysia, e a inteira inactividade. Se a tiravam do leito,

transferiam-na a uma poltrona de rodas, que Alvaro com sua mão conduzia

a uma varanda envidraçada, onde Leonor ficava horas embebecida nas

bellezas do céo, e do valle de Santarem. Duas maravilhas então

occorreram: nunca mais Leonor se lastimou da sua desgraça. E se

acontecia Maria ou Alvaro olharem-na com piedade, sorria ella, e dizia:

--O espirito é feliz; e as dôres abrandaram muito, desde que metade do

corpo morreu. Vejo-me meia morta, e não me aterro.

A outra maravilha foi o remoçar-se-lhe o rosto, até á formosura que

ella naturalmente conservaria, com vida quieta e bonançosa, nos seus

vinte e nove annos. A nutrição encheu-lhe os sulcos das faces; a pelle

amaciou-se e restaurou a antiga alvura; volveram as cores purpurinas, e

contornou-se o oval do rosto. Eufemia esmerava-se em toucal-a, em quanto

ella, sorrindo, dizia:

--Queres por força que a morte se namore de mim!

Alvaro depunha muitas vezes o livro, com que sua prima se recreava, e

extasiava-se nos olhos d'ella; mas que amargura elle escondia n'aquelles

extasis!

--Vejo os teus dezoito annos, Leonor!--disse-lhe elle um dia.

--Valho hoje mais, Alvaro! Perdi meio corpo, e ganhei o

coração!--respondeu ella--A primeira paralysia era a peor...

Maria da Gloria chamou uma vez o filho ao seu quarto, e disse-lhe:

--Vaes ouvir-me, sem sobresalto, meu Alvaro. Eu tenho até hoje

escondido de ti o unico segredo, que devia esconder--a sensivel

aproximação do meu fim.

--Que é, minha mãe?!--exclamou o filho, correndo a abraçal-a.

--Não é isso o que eu te pedi, Alvaro!... Escuta-me com socego: sê

até ao meu ultimo dia o homem forte. Pedi ao meu medico que nunca te

revelasse a minha molestia, depois que lhe arranquei a confissão de que

ella é incuravel. Eu morro do coração. Os rebates d'esta dolorosa

doença senti-os no meu primeiro anno de convento. A minha vida tem sido

um milagre. Quiz Deus por intercessão das almas que me presaram, que eu

chegasse até aos teus vinte e sete annos, filho. E choras como aos dez,

Alvaro! e tiras-me assim as forças de que eu tanto carecia para te

dizer o fim para que te chamei!...

--Diga, minha mãe... — atalhou Alvaro com simulada quietação.

--Pois, sim; socega, escuta-me, filho... Que farás tu, depois da minha

morte? Em que destino tens tu pensado? Assistirás á agonia de Leonor,

ou acabarás por pedir ao mundo um quinhão do contentamento qualquer

que te compense da triste vida que tens vivido!? Acharás um dia uma

esposa com o coração de tua mãe, ou ficarás esperando a tua hora

final, depois que deres a mortalha a tua prima? E a ti quem te

amortalhará, meu pobre Alvaro!?

--Hei-de eu amortalhar-me, minha mãe--respondeu elle tranquillamente

após alguns instantes de concentração--Agora, rogo-lhe, por quanto

amor lhe tenho, que me não faça mais perguntas.

No dia seguinte, pediu licença a sua mãe, e foi Alvaro a Lisboa.

Apresentou-se ao cardeal-patriarcha, e demorou-se algumas horas em

pratica secreta. Commetteu importantes encargos ao advogado de sua casa,

e voltou ao valle. No caminho encontrara o medico de sua mãe, e, como

quem ouvira da enferma o terrivel segredo, obteve do medico a

confirmação d'uma breve morte. Era a doença um scirro no coração,

já em seu periodo final.

Alvaro encontrou sua mãe animada, fóra do leito, ouvindo Leonor, que

lia os manuscriptos de seu primo, na maior parte traducções, feitas no

collegio. A que ella estava lendo, era a do «Cura do Wakefield» de

Goldsmith. Reviam lagrimas suaves os olhos de ambas, quando Leonor lia o

XXIX capitulo que eu inculco muito d'alma a todos os desgraçados, e que

vem assim intitulado: _Demonstração da equidade da Providencia para

com felizes e infelizes. Resulta da propria natureza do prazer e da

dôr, que os desgraçados devem encontrar na vida futura compensação

dos seus soffrimentos._

Alvaro não consentiu que Leonor fechasse o manuscripto, e sentou-se a

ouvil-a, até estas linhas que a leitora já lêra a custo, de turvada

que tinha a vista por lagrimas: «A morte nada é, e todo homem póde

mostrar-lhe rosto sereno; mas os tormentos é que são provações

horriveis, que poucos sabem supportar.»

--Não leias mais, filha...--disse Maria da Gloria--conta-nos o que

fizeste em Lisboa, Alvaro... Devia de parecer-te nova a cidade! Ha tres

annos que lá não tinhas ido!... Com quem fallaste, filho?

--Com poucas pessoas, minha mãe. Passados dias, tenho de me lá demorar

algum tempo para negocios nossos.

--Algum tempo!--disse Leonor--e com que placidez de espirito dizes isso,

primo! Pois tu deixas-nos por algum tempo!? E podes, Alvaro?

--São sacrificios necessarios, minha prima. Eu hei-de aligeirar a minha

demora o mais que possa...

--Soubeste--atalhou Maria--se teem sido cumpridas as nossas

determinações?

--As mezadas?... tem sido pontualmente pagas, minha mãe... Parece-me

que a vejo reanimada!...

--Estou, filho... Por que te admiras?! No final das jornadas parece que

o vigor do caminhante se recobra para maior caminho. A esperança é

tudo, meu Alvaro, e, a morte é nada... não o ouviste ainda agora?

Nos tres dias consecutivos, Maria padeceu muito, e perguntou

placidamente ao seu medico se seria chegado o termo. Não era. As dôres

abrandaram; e o descanço de alguns dias faria reviver esperanças a

quem as tivesse vivas e anciosas no espirito.

Leonor, desde que sua tia acamou, pediu que lhe não dessem outro local,

senão o quarto d'ella; Alvaro entregou-lhe á sua vigilancia a mãe, e

foi para Lisboa.

Ao termo de quatro dias, foi chamado por uma carta de Leonor, atribulada

pelo receio de ver morrer sua tia, posto dizer a enferma que não

morreria sem ver seu filho, com um ar de certeza e contentamento que

parecia instincto do céo. Em carta, escripta de seu proprio punho ao

filho, dizia ella: «não te apresses nem alvoroces, filho, que eu pão

morro sem te dar o ultimo suspiro.»

A tempo foram as cartas de estar cumprida a diligencia que o levara a

Lisboa. Sem respiro, transpoz Alvaro as doze leguas que o separavam de

sua moribunda mãe. Diziam as criadas, e Leonor com ellas, que Maria da

Gloria, sem delirio nem fraqueza de espirito, horas antes da chegada do

filho, estava sempre dizendo, com sombra de jubilo, estas e outras

exclamações:

--Como elle vem triste; mas que linda é a sua auréola de justo!

--O senhor condoeu-se da mãe innocente, e deu-lhe aquelle filho.

Bemdito seja o Senhor no improfundavel mysterio dos seus juizos!

Foi Aivaro offegante ao quarto de sua mãe, que tinha a cabeça

encostada ao peito de Eufemia, e os olhos postos no crucifixo. Maria, ao

vêr o filho, nem sequer se aterrou no rosto, a não ser o sorriso

instantaneo, que se abriu, na custosa articulação d'estas palavras:

--Não te disse eu que não era pressa, filho? Estou agora socegada; e,

se assim morrer, suave é a morte. Tinham-me dito que o morrer d'este

mal era horrivel de agonias! Deus faz o que os medicos não sabem...

Estás fatigado, Alvaro? Vai descançar... Almoçaste, filho? Vai tratar

d'elle, Eufemia... A nossa Leonor, coitadinha, não póde ir... A tua

irmã querida... Deixo-t'a como filha.

--Eu vou comtigo, Alvaro?--disse com muita doçura Leonor--Ajuda-me?

levas comtigo este meu esquife?

--A mãe quer estar sósinha?--disse Alvaro.

--Quero, filho: está ahi o meu confessor...

Sahiram da camara, e acharam fóra o confessor e o medico. O segundo

pediu venia ao medico da alma para vêr a doente. Demorou-se instantes,

e disse ao padre:

--Agora é toda sua a missão. Eu não venho em cata de esperanças;

vinha espantar-me da serenidade da moribunda.

Depois de confessada, preparou-se o quarto para a recepção do Sagrado

Viatico.

Alvaro, quando soube que sua mãe ia ser ungida, entrou no quarto,

beijou-lhe a mão com torrentes de lagrimas, e pediu-lhe licença para

vir da igreja acompanhando o Senhor. Maria fez um gesto de gostoso

assentimento.

Soava já o toque lugubre da campainha, e o «bemdito» do povo, que

acompanhava a extrema-unção. Os servos da casa ajoelharam na

ante-camara da agonisante. Leonor estava já aos pés do leito, n'um

recanto escuro, com as mãos erguidas.

Entrou o ostiario, e ao lado d'elle um outro sacerdote com as ambulas

dos santos-oleos.

Ouviu-se um ai agudo, e o nome de Alvaro proferido com espanto. Leonor

reconheceu-o, Maria descerrou as palpebras, e balbuciou:

--Não está aqui meu filho!?

E o levita, que entrára a par do vigário, aproximou-se da cabeceira do

leito, e disse:

--Aqui estou, minha mãe.

Maria da Gloria estremeceu, estendeu os braços ao vulto que fallára na

voz de seu filho, abriu a boca para deixar sahir a respiração

convulsa, correu as mãos na face de Alvaro, que se aproximára da sua,

e pôde exclamar:

--Tu!... Alvaro!... tu!... ministro de Jesus!

--Já vê que fico amortalhado, minha santa mãe...--disse o padre

Alvaro.

Maria poz as mãos, cerrou os olhos, e murmurou:

--Infinitas graças, meu divino Senhor! Bemdito seja o vosso nome,

Virgem Mãe de Jesus! Joanna das Cinco Chagas, santa, filha escolhida do

meu Deus! pede um raio da tua gloria para a alma da tua serva!

Ajoelharam todos. Maria commungou, e foi ungida. Terminada a ceremonia,

e desempedido o quarto, a moribunda acenou ao filho, que continuava de

joelhos. Alvaro foi, e curvou-se sobre o leito, applicando-lhe o ouvido

aos labios. Os labios de Maria já não tinham palavras; se estavam

ainda quentes, era o calor do ultimo suspiro. Tomou-o Alvaro no

coração quando a boca se entre-abria proferindo a palavra «mãe!»

Fez-se o terror do silencio alli n'aquelle quarto. Ninguem se desafogou

em gritos, porque era de todos a dôr que os afoga na garganta.

O Romance de um Homem Rico · 第 39 / 43 题