R. de LORGUES. (L. das Communas.)

Leonor, apeando no pateo do palacete dos Olivaes, chamou o feitor, e

pediu a chave da casa da Luiza: por este nome era conhecida a casa que

Leonor dera á sua velha criada, e herdara d'ella, mezes antes. A passo

firme abriu a porta, fechou-se dentro, abriu os dous postigos

envidraçados, e sentou-se no bahú, que estava aos pés da cama em que

morrera a criada. Alli estava tudo como a fallecida o deixára, pobre,

mas limpo, a não ser a capa de pó que assentara no verniz de alguns

velhos moveis, que Leonor lhe dera. O feitor, se bem que prohibido de a

seguir, teimou em vigial-a, suspeitoso do descuido em que a vira

vestida, e do desconcerto do rosto. Afoutou-se a pedir-lhe que abrisse a

porta, e entrou, rogando que não repellisse o seu velho servo, se

estava afflicta. Leonor pediu-lhe um copo de agua, e a chave do bahú de

Luiza, parte da herança que ella não tivera tempo de examinar, nem

quizera dar a outras criadas, que lh'a pediam, como farrapagem inutil á

herdeira.

Abriu Leonor o bahú, e entre a roupa branca, recendendo a alfazema,

encontrou um embrulho de dinheiro em prata. «Isto é que é

verdadeiramente meu, disse ella; posso com este legado da minha Luiza

resistir á morte da fome por alguns dias.» Como o mordomo persistia em

rondar as avenidas da casinha, Leonor deu-lhe dinheiro para lhe comprar

um jantar como costumava ser o de Luiza, e accrescentou:

--Não cuide que isto é dinheiro de minha tia... É meu, que m'o deixou

a minha criada. Achei-o no bahú. A boa velha, que criou minha mãe,

economisou toda a sua vida para matar a fome de alguns dias á filha da

sua ama, a Leonor de Brito, á ultima morgada dos Olivaes.

O tom d'este dizer dava azo a que o mordomo ia tivesse em conta de

douda. Assim o creu, e mandou aviso a Maria da Gloria.

Alli passou o restante do dia. Ao trazerem-lhe o jantar, recebeu-o por

um dos postigos, e tomou d'elle o prato menos exquisito, uma pouca de

vacca, dizendo que não tinha posses para mais. Pernoitou no leito de

Luiza, e abriu alta noite as janellas porque sentiu aquelle especial e

nauseabundo cheiro das exhalações cadavericas.

De madrugada, abriu a porta, e sentou-se no unico degrau. Estava

abrazada em febre, e, a intervallos, deixava pender para o seio a

cabeça extenuada de vagados. Quando presentiu passos nos arredores da

casa, recolheu-se e fechou a porta: era o feitor, que passara a noite

velando a casinha onde dormia a filha de seus amos.

A febre abrazou-se até ao delirio. Leonor prostrou-se na barra, e

sacudia vertiginosamente os braços e a roupa. O feitor chamou criados,

arrombou a porta, e collocou sua mulher ao pé do leito da febricitante.

Como recobrasse alentos, e se visse rodeada de gente pobre da aldêa,

Leonor sorriu a todos, e pediu que a deixassem. Queria ficar de força a

mulher do mordomo; ella, porém, tão affligida se mostrou da

contrariedade, que conseguiu ficar sósinha. Ergueu-se, cambaleando

aturdida, e trancou a porta, porque a fechadura tinha saltado aos

empuxões de fóra.

Depois, abriu o bahú, tirou o cesto de costura da criada, e

experimentou na extremidade do dedo indicador da mão esquerda a ponta

d'uma tesoura. Feita a experiencia e ensanguentado o dedo, escreveu no

verso de um papel sellado, que era a certidão de idade da defunta

criada, as seguintes palavras, com a cabeça de um alfinete:

«A minha tia Maria da Gloria.

«Não posso com a dependencia, nem tive educação para agenciar a

independencia com o meu trabalho. Matei-me d'uma só vez para não

morrer mil vezes, aceitando esmolas com a condição de me fazer escrava

d'ellas. Dou louvores a Deus por me ter defendido de alguma tentação

deshonrosa, até cahir n'esta desgraça. A minha memoria será longo

tempo escarmento para infelizes; mas não será vexame para os meus

parentes. Agradeço o bem que me fez minha tia; e sinto não ter tido

uma alma bastante vil para se não conhecer aviltada. Escrevo no meu

perfeito juizo.

_Leonor de Brito._»

Dobrou o papel, e collocou-o sobre a mesa em que o escrevera. Arregaçou

a manga do vestido, e cravou a ponta da tesoura no sangradouro do braço

esquerdo. Como a cisura apenas revesse o sangue, ligou e comprimiu o

braço com uma tira de lençol. O sangue espirrou com força; e, de o

ver, turvou-se-lhe o animo de modo que já não pôde passar á cama.

Era á hora do jantar. A mulher do feitor batera e chamára

sobresaltada; o marido veio depós ella, e quebrou os caixilhos das

vidraças, por onde saltou dentro.

Estava Leonor cahida no pavimento. O braço nú gotejava sangue, que

salpicava e fazia rego no soalho. Tomou-a nos braços, e levou-a sem

sentidos ao leito. Sondou-lhe o pulso, e achou-a viva. Mandou chamar o

cirurgião, que morava a um quarto de legua, e vedou-lhe o sangue com

pannos adhesivados e compressas.

De repente, deram passagem a alguem os muitos visinhos, que alli chamara

a gritaria da mulher do feitor, e se agrupavam á porta: era Alvaro

Teixeira.

Foi direito á barra, onde Leonor arquejava, com a vista terrivel de

mortal espasmo.

--Leonor! minha prima!--exclamou elle--passando-lhe a mão na

fronte--Que sangue é este?!--bradou, vendo as compressas tingidas.

--É que a senhora morgada abriu a veia do braço com uma

tesoura...--disse o feitor.

--A minha carruagem depressa aqui!--bradou Alvaro--Ajudem-me a

transportal-a.

Tomou-a elle em todo o peso nos braços, fez entrar a mulher do feitor

na carruagem, e, com o auxilio d'ella, pôde encostar Leonor ao

respaldo, e, com duas cadeiras, formou-lhe apoio para o restante do

corpo. Recebeu das mãos do mordomo o papel escripto com sangue, leu-o

quanto as lagrimas lhe permittiam, e mandou seguir a carruagem para

Lisboa, a passo.

A meio caminho, Leonor reconheceu seu primo, e estremeceu. Fitou os

olhos esgazeados nas compressas, e agitou o braço direito como se

tentasse arrancar o apparelho. Alvaro segurou-lhe o braço, e disse:

--Que queres fazer, minha prima?! Espera mais algum tempo... Morre,

quando me não vires n'este mundo... Deixa-me viver, e vive tu, o tempo

necessario para ires d'este teu inferno com a certeza de que eu te amei

sempre...

Dilataram-se os labios roxos de Leonor n'um gesto que podéra chamar-se

um sorriso, e murmurou:

--Um cadaver...

Alvaro tomou para o peito a cabeça, outra vez, desfallecida de Leonor,

e chorou-lhe sobre a face algumas d'aquellas lagrimas, que são no

coração humano, como o alimento, a seiva das ultimas esperanças.

E contemplou-a.

Nunca mais a vira desde aquella noite de Julho de 1832. D'aquelle viço

esplendido, d'aquella belleza viva e irrequieta, da exuberancia de vida

que lhe sahia aos olhos em faiscas e em risos expansivos aos labios,

restava a pelle cortada dos ardores da febre, os ossos descarnados, o

pallor da agonia, e a desfiguração inteira de todas as feições. E

parecia absorvido n'aquelle atormentador enlevo! A expressão dos seus

olhos não a soube dizer elle mesmo! Fôra-lhe aquella uma infernal hora

de cujas sensações a alma, desmemoriada de tamanho horror, não

guardou lembrança.

A carruagem parou á porta de Alvaro. Maria da Gloria e as suas criadas,

chamadas pelo desvariado moço, desceram ao pateo, e ajudaram a tirar

Leonor, e leval-a a um leito.

--Creio que vem morta...--disse Alvaro--e sahiu para logo voltar com

dous medicos. Do exame rapido que estes fizeram, concluiram por

esperanças de vida; mas vida de continuados padecimentos, disseram

elles.

--A vida da alma--dizia Alvaro com assombro dos medicos--deem-lhe a vida

da alma, que eu quero que ella me veja, e me julgue antes de morrer! Um

corpo varado de dores, não importa; mas um espirito com a luz da

razão!

E, fallando assim, erguia as mãos supplicantes aos medicos. D'estes

dizia um ao outro com o frio desdem da sciencia:

--Espirito sem luz de razão creio eu que é o d'elle.

E o outro bamboando sinistramente a cabeça, dizia ao ouvido do collega

que Leonor perdera em sangue o que Alvaro perdera em sizo.

Maria da Gloria, a martyr sem treguas, andava repartida entre Deus, e o

filho, e Leonor. Invocava o Altissimo pedindo-lhe a vida da sobrinha,

que chamava e beijava, cuidando que o halito dos seus labios lhe coavam

vida; abraçava-se ao filho alvoroçado, rogando-lhe que esperasse em

Deus o salvamento da prima.

Leonor descerrou os olhos quebrantados, mas serenos. Reconheceu a tia e

comprimiu-lhe a mão, que sentiu na sua; fitou-os com doçura em Alvaro,

e balbuciou:

--Salvam-me as tuas lagrimas, meu amigo!... Pobre Alvaro!... o que tu

tens penado!...

Não se enganaram os medicos. A vida voltou lentamente a Leonor, mas

jamais a saude. Afrouxaram-lhe os musculos motores de todas as

articulações; generalisou-se a enervação, a atrophia, e a frialdade,

excepto na cabeça, de que se ella queixava como de fogo que lhe

estivesse calcinando as fontes. A isto succederam espasmos, senão antes

intermittentes de paralysia em parte dos vasos sanguineos, que formam o

coração. O ancear d'estas horas era angustissimo.

Maria da Gloria e Alvaro revesavam-se ao pé do seu leito. Um e outro,

conversando, chamavam-lhe o espirito ás ridentes imagens d'uma

esperançosa viagem que os tres fariam aos locaes mais pittorescos da

Italia. Leonor agradecia-lhes, com sinceras lagrimas de remorso, o amor

com que velavam os seus longos paroxismos, e dizia que a viagem a fazer

era certa, e de encantadoras visões para sua virtuosa tia e primo; mas

não para ella.

É bem de vêr que então a mãe de Alvaro se desentranhava em

encarecimentos á misericordia divina, convidando a sobrinha a rezar com

ella as orações que soror Joanna das Cinco Chagas lhe ensinára. E

Leonor rezava, e com ardente fé, e muito pranto, em cujo espectaculo o

coração de Maria da Grioria se embriagava de santas delicias.

Alvaro simulava jovial semblante a sua prima. Fechado, porém, no seu

quarto, desafogava chorando, ou escrevendo paginas de muitissima

tristeza, mixto de saudade e desespero, saudade da Leonor da sua

mocidade, e desespero de não poder tornal-a á belleza de alma e de

feições, perdidas para sempre. Cegueira da sua paixão! Alma, com as

bellezas da innocencia, quando a teve a fatidica Leonor? Ai! a belleza

das fórmas essa é que não ha olhos enxutos que a vejam fenecer de

hora a hora; essa é que influe ao animo um pungimento de saudade tão

vivo, que eu não sei se ha dor a igualar-se áquella saudade da perdida

formosura da mulher que amamos, perdida tambem para nós, no instante em

que mais fervorosa adoração lhe da vamos!...

O primeiro dia em que Leonor sahiu do leito, foi festejado não com

bailes nem banquetes, mas com liberalidades de esmolas, levadas por

Alvaro, de ordem de sua mãe, a muitas familias indigentes, que a

denominavam anjo de beneficencia, e gloria do céo. A todos os conventos

de religiosas pobres, ou empobrecidas pela mudança do regimen, enviava

Maria mensalmente uma delicada dadiva, e Alvaro tinha de sua mão

soccorrer alguns egressos, que corriam de noite as ruas de Lisboa,

estendendo a mão á caridade indifferente d'aquelles primeiros annos

rancorosos do velho odio civil.

Com o lento crescer de forças, accedeu Leonor ao empenho de Alvaro e

sua tia: sahiram de Lisboa no estio, correram as provincias do norte, e

visitaram Vairão, onde Cecilia, sempre saudosa da sua cella, se deixou

ficar esperando a morte bemaventurada dos que a esperam ao pé do altar.

Nas visinhanças de Hespanha, Maria da Gloria, desde muito

valetudinaria, e então muito quebrantada, causou receios a seu filho, e

retrocedeu para Lisboa. Aqui, melhorou de aspecto, e transferiu a sua

residencia para a quinta do valle de Santarem.

Leonor escassamente se vigorisára para um curto passeio. Tinha semanas

de soffrer e chorar, pedindo a Deus que lhe tirasse a vida. Alvaro era

o consolador d'estes desconfortos, umas vezes rodeando-a de improficuas

juntas de medicos, outras abalando-lhe o espirito com alegres

esperanças. Perguntava-lhe se a convivencia com as suas relações lhe

seria desagradavel; experimentou, apesar d'ella, chamando alguns

parentes e amigos ao campo, e preenchendo as horas tristes, que lá se

vivem, com o que podia inventar o seu espirito attento a minorar as

amarguras da inconsolavel doente: inutil tudo, Leonor rogou a seu primo

que a não obrigasse a esconder os seus soffrimentos de pessoas

estranhas; que a deixasse gozar os instantes de allivio na companhia

d'elle e de sua mãe.

--Se não podes dar-me vida, Alvaro--dizia ella--que vem aqui fazer esta

gente, a quem o espectaculo da dor enfada?! Cuidas tu que os move a

piedade d'este meu estado? Deixa de ser a candida alma, que tens sido,

meu primo! Estas familias, que vieram a um teu aceno, souberam que eu

vivia miseravel nos Olivaes, e encarregavam-se de exaltar a Providencia

Divina, dizendo que eu estava expiando; e, como o valerem-me seria

contrariar a vontade de Deus, abandonaram-me... Se me eu tivesse esvaido

de sangue n'aquella casinha, onde o nosso fatal anjo te encaminhou,

estes parentes, obrigados a fallarem de mim a quem lhes perguntasse a

razão do seu lucto, diriam que o meu fim desastrado tinha sido o

natural remate das minhas loucuras. Por que não estudaste o mundo,

Alvaro? Quando te eu ralava o coração de desgostos, se tu cedesses á

curiosidade interesseira do mundo que te chamava, serias a esta hora

feliz!...

--Feliz!...--atalhou Alvaro, contemplando Leonor, e cuidando vêl-a

formosa, como a tinha amado, quando amava e esperava.

--Feliz, sim; terias odiado, e esquecido a tua pobre Leonor... Se a

visses infamada, e perdida nos mais baixos sedimentos da sociedade,

passarias por ella, sem que o pejo te dissesse que era nobre estender-me

a tua mão. A sociedade não ousaria dizer-te: «valha áquella

mulher!» porque a sociedade, se censurasse a tua indiferença la fóra,

ao pisar os tapetes das tuas escadas, subiria estudando phrases de

louvor á tua probidade. E tu, meu Alvaro, louvado e querido em

particular e em publico, andarias feliz e convencido de tua honra. Muita

gente diria de ti: «E tão nobre que nem falla d'ella, nem dá margem a

que lhe fallem. Os seus amigos, com medo de lhe ferirem o nobre

coração, não se atrevem a pedir-lhe que dê as migalhas da sua toalha

a Leonor.» E não eras tu assim tão venturoso, Alvaro?! De que te ha

servido a tua riqueza? Poderás dizer-me que tens remediado a pobreza de

muita gente, principiando por mim e acabando por essas famílias

indigentes, cujas bençãos te enchem a alma de thesouros do céo. Pois

sim; mas que contentamento é esse da alma, que te não transparece no

rosto?! Por que te vejo eu sempre triste?! Por que não ha-de a virtude

ostentar as exterioridades de jubilo, que eu muitas vezes senti, sendo

tão culpada e contando tantas horas cortadas de desgostos?

Alvaro reprimiu a resposta que, repulsa dos lábios, fallou em lagrimas.

Leonor tomou-lhe as mãos com estremecimento carinhoso, e disse-lhe:

--Por que é, meu querido primo? Por que te não dá Deus a felicidade

que mereces?

--Dá, minha Leonor...--balbuciou o internecido moço--Dá... é a tua

amisade... são as melhores lagrimas do teu coração... Que lhe tenho

eu pedido? N'aquelle tempo em que eu olhava para esta época, e te via

continuando a estação de felicidade que minha santa mãe me trouxera

do seu carcere... n'aquelle tempo, Leonor, gozei horas de alegria

celestial... Eu, sem ti, não sabia recordal-as, e nem o bem da saudade

me era dado. Agora, quer Deus que a minha alma se alumie á luz dos meus

dias alegres... pallida luz, como a da lampada do sacrario ao

amanhecer... mas, aqui estou vendo os olhos, que me viram feliz... E tu,

Leonor, o teu espirito vive e falla... O melhor de ti era o sentimento

que hontem acordou... e a amisade sem os dissabores da paixão...

N'aquelle tempo...

--Oh! por piedade, cala-te, Alvaro!...--atalhou Leonor, afogada de

soluços...--Não me castigues tu, meu anjo de desgraça e de

compaixão...

O Romance de um Homem Rico · 第 38 / 43 题