Este foi o mais querido dos meus romances; e, se o vaticinio, que
aventuro sobre o meu futuro de escriptor, me sahe exacto, este romance
prevalecerá a quantos a minha imaginação já desluzida, e como á
força, der de si. Com tristeza sincera confesso que no que fui já mal
me reconheço. As rugas da fronte empecem ao coar d'aquella flamma, que
me aquentava a phantasia, e dentro me alumiava, como em lampada magica,
lances da vida exterior, uns de riso, outros de lagrimas. E eu entrava
em espirito e coração n'este interior mundo, e lá me sentia viver,
soffrer e amar. A isto não ousaria eu chamar inspiração; mas, sem
modestia de vaidade, podia chamar-lhe feliz capacidade para engenhar
obras d'um dia, leituras de duas horas, recreio a ocios de quem os não
sabia gastar melhor e mais aproveitados.
Como se foi amortiçando a luz da minha mocidade, e aquelle incansavel
amor ao trabalho, languido a ponto de já agora deixar cahir a fronte
esfriada e dorida sobre o papel em que escrevo? Acabou-se como tudo que
principia, e mais depressa que o deperecer commum das faculdades
inventivas. Esta é a sorte immerecida d'aquelles que não poderam ou
não quizeram poupar o vigor do coração em vantagem do vigor da
intelligencia. A mais ardente cabeça de homem empedrou debaixo da mão
glacial da desfortuna.
Foi este romance escripto nas cadêas da Relação do Porto em 1861.
Quem dirá que tenho saudades d'aquelles dias negros e d'aquellas noites
solitarias? Devo suppor que vim apparelhado para os maximos infortunios,
quando o experimental-os levemente me incommoda, e o relembral-os me
esperta uma quasi saudade! Penso que não é isto saudade da desgraça:
deve antes ser pena de ver murcharem-se as chimeras que me infloravam de
lá, este arido pragal, que vou trilhando agora.
Ao menos, lá e então, aviventavam-me uma grande dor e uma grande
esperança: hoje, nem sequer as amarguras do fel nem a prelibação dos
balsamos dôces.
Este silencio dóe mais que o estridor dos ferrolhos. Esta paz, em redor
do meu espirito, é uma quietação de sepulturas.
Viveram no meu ergastulo da Relação do Porto, commigo, noite e dia, o
padre Alvaro d'este romance, e Maria da Gloria e Leonor, e a santa de
Vairão; e Thereza, e Marianna, e meu tio desterrado do outro livro
chamado «Amor de perdição.» Viveram commigo aquelles ditosos pares
que eu casei, e o publico hospedou alegremente, com o livro «Doze
casamentos felizes.»
E eu tenho saudades d'elles, e das noites em que os via sentados em
volta do meu leito. Cá fóra, á luz em cheio do sol, não os encontro.
Bellas, 19 de Maio de 1863.