PROLOGO DA TERCEIRA EDIÇÃO

«--Este foi o mais querido dos meus romances»

C. Castello Branco, Prefacio da

2a. edição do _Romance d'um homem

rico._

Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu livro dilecto esta

sentença:--«O homem não acha em si os alivios da razão quando os

vicios lh'a degeneram», estava julgando a sua propria alma no tribunal

austero da consciencia.

Não vejam n'isto censura, os melindrosos por conta alheia.

O romancista, se não é um armador de encommendas, um preparador de

effeitos, um pintador de scenarios, um arranjador de visualidades, se

sente como escreve, ao menos quando escreve, encarnando-se nos seus

personagens, reconhecendo em si as paixões que lhes reconheceu ou que

lhes attribuiu, se com elles ama, odeia, chora ou blasphema, faz como o

sabio, o martyr da medicina, que, para se convencer e para não falsear

a sciencia que professa, muita vez se envenena ou se dilacera.

Camillo era aqui o pensador, o philosopho, o analysador frio do seu

excepcional espirito, ora embaciado, a ponto de não vêr distinctamente

o objectivo da sua cogitação, ora transparente e brilhante, a dar-lhe

lucida a verdade, fôsse onde fôsse o esconderijo d'ella, fôsse qual

fôsse a distancia em que demorasse.

Se o romancismo é mester, o escriptor é artifice; se é arte, se é

acto impulsivo, o romancista é poeta.

Quando Camillo Castello Branco escrevia no seu romance mais

querido:--«Não sei que haja ahi outros incentivos que me chamem aos

olhos as lagrimas do coração. Quem me quizer vêr chorar e vibrar de

não sei que vehemente e religioso enthusiasmo, conte-me cazos da

natureza d'aquelles: faça-me acreditar na existencia d'umas almas que

vão entender-se com Deus por um raio esplendoroso da graça divina»,

declarava-se não mesteiral mas poeta, e denunciava o genero da sua

poesia.

E como quem diz:--o symptoma da sua doença.

Pois não têem sido apodados de--loucos--os poetas? Se loucura é a

desconformidade de actos ou de sentimentos com as _regras da fria,

pautadas e articuladas no codigo do senso-commum_, vamos, que não têem

os poetas muito de que se molestem no conceito da grande maioria dos

seus contemporaneos; e mesmo da dos vindouros, os que deixam de si algum

rasto de fatua phosphorescencia na travessia longa ou curta da sua

derrota.

Loucura _lucida_, mas loucura incontestavel; loucura impulsiva e

incuravel, nem sempre sem perigo para a sociedade, que os applaude e os

escarnece, conforme a altura em que lhe vai a digestão.

A loucura de Tasso denunciada em vida, a de Petrarca reconhecida agora,

a de Camões sentida sempre, então e hoje, a de Chatterton que se mata,

a de Dante que se vinga, a de Victor Hugo que se contorce e conspira, a

de Homero que mendiga e canta, a de Jeremias que prophetisa e chora,

loucuras foram; por mais que os poetas d'hoje queiram malsinar aquelles

homens de ajuizados, na propria defeza, estulta, egoista e cobarde.

Produziram prodigios, mas o prodigio é producto abortivo ou monstruoso;

não cabe nas leis da normalidade.

Alguns têem conseguido furtar ao theatro anatomico da critica os

vestigios do corpo de delicto; é certo. Virgilio, por exemplo, e

Horacio, que se constituiram rouxinóes de Mecenas e de Augustos, poetas

cezareos,--os Metastasios do imperio, um, inventando genealogias

realengas:

«_Mecenas atavis œdite regibus_»

outro, cantando apotheoses divinas:

«_Deus nobis hœc otia fecit._»

Era o utilitarismo, já então moderando a loucura do genio e segredando

lhe estrophes accommodaticias.

Desde sempre, e felizmente, andou o são juizo a enxertasse no genio.

Raras vezes pegou a enxertia; é certo.

O genio não é só o demonio incubo dos poetas, e demonio recalcitrante

ao exorcismo; torna-se n'elles mais patente, porque, sob aquella forma,

estrondeia, sem perigo de morte, e luz, sem perigo de incendio; ao

menos--apparente. O genio expõe o sabio de qualquer genero a todos os

perigos;--Archimedes deixa-se matar para não interromper a resolução

d'um problema; Galileu ouza affrontar as lettras sagradas e só consegue

apagar a fogueira d'um _auto de fé_ por um _acto de fé_, ou de

prudencia; Giordano Bruno é queimado deante do Vaticano, exactamente

onde hoje se lhe levantou um monumento; Pasteur escapou da fogueira

porque já nasceu no bom tempo, mas inoculando em si o _virus-rabico_

expôz-se a morrer da peior das mortes; Daniel Carrion inocula o sangue

da verruga persiana para vêr se era violenta a doença, e morre da

experiencia; Parkinson inocula o lupus, expondo-se,--heroe sem

hymnos!--á morte, pela humanidade; outro aproxima-se d'uma cratéra

para devassar os segredos da erupção vulcanica.

Quantos insensatos!

Se depois da loucura da sciencia quizer alguem percorrer a da

religião,--S. Macario, S. Simeão Stylita, Santo Antonio, as

allucinações dos extasis em que se vê Deus e os ceos, o genio das

prophecias, a inspiração dos apostolos, a coragem alegre dos martyres,

que exuberancias de loucura, que degenerescencias pathologicas,

provadissimas, incontestaveis, não está patenteando a sciencia nos

estudos da sua extensissima symptomatologia?

E os impulsos irresistiveis que a honra e a gloria inspiram!...

A gloria! a honra..., mas que são honra e gloria? São tambem uns

sentimentos, umas aspirações, uns sonhos, umas loucuras, umas

desconformidades _com as regras da fria razão, pautadas e articuladas

no codigo do senso-commum._ Produzem as monstruosidades de Alexandre no

Oriente, dos trezentos nas Thermopylas, dos Gracchos em Roma, de Antonio

em Philippes, de Henrique IV, de Crillon, da virgem de Orleans, em

França; de Bonaparte na Italia, do Infante-Sancto em Fez, de Saldanha

no Porto e em Montevideu, de Bartholomeu Dias, de Vasco da Gama e de

Colombo, nos descobrimentos dos mundos, de Albuquerques e Almeidas nas

suas conquistas, de Xavier no apostolado.--Deus, familia e patria!--O

que estes motes produziram de loucuras!

E o amor... e a caridade! Quantos perigos, quantas abnegações, quantos

desvios da razão e do senso-commum não produziram e não produzem!

d'esses que espantam o mundo e se julgou,--ingenua simplicidade!--que

honravam e ennobreciam a especie humana?

Tudo o que foi épico e se chamou grande e bello e mereceu canticos e

triumphos e apotheoses e historia e monumentos e centenarios e culto,

atravez de seculos e millenios, tudo hoje é condemnado pela sentença

fulminante d'este bom-senso burguêz, comesinho, utilitario, pratico,

omnipotente e inexoravel. A transformação parece completa; Sancho

depôz Quichote, conservou o jumento e vendeu o rocinante; o judeu

desenterrou o bezerro d'ouro, não para o adorar mas para o negociar; o

codigo depôz a historia; a pirataria depôz o codigo; as notas e as

acções bancarias collaram-se nas folhas da epopêa.

Christo prégára a fraternidade, mandando levantar os humildes e

abaixar os soberbos. Era justo e bom. Transtornaram-lhe a lição:

esqueceram-se do pedestal para levantamento da humildade e decapitaram a

grandeza, tomando-a só por soberba. Não foi um nivelamento,--foi um

rebaixamento; inutil por improficuo. E será inefficaz em quanto a

sciencia, que já cura a raiva, não conseguir curar as loucuras que

geram as grandezas, e com ellas o desnivelamento successivo da

humanidade, o crescimento e multiplicação das desegualdades sociaes.

Ahi estão ellas--nas sciencias, nas artes, nos descobrimentos de toda a

especie; mais humanos, mais proficuos talvez que os antigos, mas

careceram d'elles; que não póde haver continuação sem principio. Das

pobres, poucas e ronceiras naus de Colombo, do Gama, de Magalhães e de

Cortêz, nascêram os milhares de transportes que cortam hoje, em

rapidez vertiginosa, os mares do Levante, o Atlantico, o Pacifico, e

rasgam e quebram até os gêlos do norte e do sul; dos que descobriram

os novos mundos nascêram os que os andam a estudar, a povoar, a

inflorar, a aproveitar para a humanidade; dos que batêram contra os

isthmos nascêram os abridores de canaes; as assoladoras naus, que até

escandalizaram Herculano, porque vomitavam metralha contra os povos

sequestrados ao convivio dos outros povos do mundo, andaram, com graves

perigos, nas sondagens dos mares, por cima dos quaes hoje passa

livremente o commercio, por baixo dos quaes hoje se assenta o

telegrapho.

Porém onde me levaria este incidente a respeito de loucuras do genio se

não tivesse necessidade de volver os olhos ao livro do meu querido

Camillo? Muito longe, de certo, porque me diz a consciencia que tenho

estado a fugir de collocar na classe dos loucos o nosso presado

romancista e poeta. É tão grave a conjectura, mesmo que só por

conjectura eu tenho de o metter n'esta companhia, que me vi forçado a

provar-me que a companhia póde ser de gente desafortunada, mas é

provadamente illustre.

Nunca a fria razão, nunca o senso-commum fizeram couza que não fosse

fria e commum. Excellentes caixeiros e guarda-livros do commercio,

excellentes fornecedores, ou chefes de administração militar; na

guerra, excellentes officiaes da fazenda, na marinha, professores,

sacerdotes (para conegos, não para missionarios), juizes, magnificos

ecónomos e descobridores de pechinchas--o espirito conservador--os

Wychnú da sociedade, os bagageiros da marcha. Importantissimo,

imprescindivel serviço faz á humanidade esta gente de são juizo e

razão fria, mas, por conselho d'ella, nem a mãe defenderia o filho

contra a féra, nem o bombeiro voluntario defenderia o invalido contra

as chammas, nem o barqueiro salva-vidas defenderia o naufrago contra as

ondas. Temperatura egual e morna;--a selvageria tropical, primitiva,

tendo Sancho na presidencia e o velho de Camões no conselho de estado.

O senso-commum até, por concessão transitoria,--sagaz bom-velho!--já

creou, para illudir e desnortear poetas e romancistas, uma litteratura;

em odio ás artes, uma arte; em odio ao genio, engenhos. Louvavel

empenho na verdade. Vê doenças graves e pretende cural-as; vê

enxamear a loucura, a mais grave das molestias, e com ella exgota a sua

therapeutica. Benemerito desejo! Mau será se a cura fôr peior que a

doença.

De muito dizer-se ao theorico:--sê pratico!--faz-se d'elle ás vezes um

ladrão, ás vezes um assassino, ás vezes tudo isto, com prendas

variadissimas.

De muito se accuzar o sentimentalismo de Lamartine e o romantismo de

Chateaubriand, nasceram Baudelaire e Zola;--um grande poeta e um grande

romancista... contrafeitos; e com elles--o satanismo e o naturalismo;

porém--naturalismo--de meza de autopsia ou de laboratorio chimico.

--«Faz-me tristeza pensar,--escreveu Camillo n'um dos prefacios do seu

_Amor de perdição_,--faz-me tristeza pensar eu que floreei n'esta

futilidade da novella quando as dores da alma podiam ser descriptas sem

grande desaire da grammatica e da decencia. Uzava-se então a rhetorica

de preferencia ao calão. O escriptor antepunha a frequencia de

Quintiliano á do _Collette-encarnado._ A gente imaginava que os

alcouces não abriam gabinetes de leitura e artes correlativas. Ai! quem

me dera ter antes desabrochado hoje, com os punhos arregaçados para

espremer o pus de muitas escrofulas á face do leitor! N'aquelle tempo,

inflorava-se a pustula; agora, a carne com vareja pendura-se na

escápula e vende-se bem, porque muita gente não desgosta de se

narcizar n'um espelho fiel.............................. Já não verei

onde vai desaguar este enxurro que rola no bojo a Ideia Novissima. Como

a honestidade é a alma da vida civil e o decoro é o nó dos liames que

atam a sociedade, lembra-me se vergonha e sociedade ruirão ao mesmo

tempo por effeito d'uma grande revolução rigolboche.»--

Á republica das lettras, tão illustrada e illustre, hystérica, porque

é feminina, e devendo ser democrata, porque é republica, faltava o tom

e o vocabulario ultra ou infra-humanos da sem-ceremonia. A grande dama

era talvez um tanto preciosa e afidalgada; pois bem; para se mostrar

accommodaticia, ao arrancar-se dos altos cothurnos, entendeu que o

melhor era ficar sem meias, como na Grecia e na Judeia, e não lavar

mais os pés; imitação de Sancto Antonio, segundo o testemunho de

Maudsley.

Não se modificou--transfigurou-se; o que, longe de provar juizo prova

só mais uma degenerescencia pathologica da mesma doença.

Para que tentar esta cura? Se não fôsse inutil seria prejudicial. Na

_Phedra_ pôz Platão na bôcca de Socrates:--«Os maiores bens são

produzidos por um delirio inspirado pelos deuzes.»--O--_Est Deus in

nobis_,--que traduz, senão a loucura do genio? De Christo escrevia S.

João--«Elle é possesso do demonio e está fóra do senso-commum, para

que o escutaes?»

Feliz culpa esta do desvario genial, quando póde, em bem, em honra ou

em gloria da humanidade exaltar a phantazia, depurar os instinctos,

aprimorar os sentimentos, impulsar o estudo, agitar, excitar e

electrizar a atmosphera social, varrendo d'ella os miasmas putridos

d'esse positivismo absorvente e suffocante que paira e pouza sobre os

povos como as nevoas densas da palude.

Tremenda culpa, se, nascido no charco, attrahe, como os nenuphares, pela

sua belleza, e, simulando em volta de si chans floridas e aromaticas,

toma, enreda, enlaça e asphyxia a descuidada gente que se lhe aproxima.

Para alguma couza fez Deus as flores dos campos e as aves dos

arvoredos.--A muzica, os perfumes, os matizes, a transparencia do

ether, as alegrias e as saudades; tudo tão sem cotação nos mercados,

sem applicação culinaria nem apropriação inventariavel! E comtudo,

patrimonio de todos.

N'um livro adoravel de Octavio Feuillet, livro que se dignou traduzir

para portuguez o nosso grande romancista, diz uma velha fidalga a uma

rapariga nervosa que pretendia simular de positivista:--«De mim digo

que nunca me vangloriei de ser pessoa muito romanesca, mas folgo de

crêr que ainda ha na terra almas capazes de sentimentos generosos.

Creio no desinteresse, creio até no heroismo, porque tenho conhecido

heroes. Além d'isso _apraz-me ouvir chilrear os passarinhos no meu

caramanchão e tambem me apraz edificar a minha cathedral nas nuvens que

passam._ Tudo isto póde ser que seja ridiculissimo, minha formoza

menina, mas ouzo lembrar-lhe que estas illuzões são os thezouros do

pobre; que este senhor e eu não temos outros e que temos a

singularidade de nos não lastimarmos.»--

Conheço bem os rizos com que me estão lendo os moços da escola

novissima. Sei-os de cór, pois com as suas criticas me têem por vezes

honrado. Nunca me offenderam, nunca me defendi e nunca tentei redarguir,

que nunca lhes quiz mal.

Tinha pena de vêr grandes talentos só cultivarem nos seus jardins as

_flôres do mal_; tinha pena! menos por elles, que andavam embandeirados

em triumphos e illuminados em glorias, que pelo bem que podiam fazer e

não faziam. Emquanto se afastavam de mim admirava-os eu; e se os não

applaudia era por vêr o desdem com que tratavam assumptos que eu tinha

a ingenuidade de julgar sagrados.

Camillo Castello Branco deixava o coração dictar os seus livros, e

d'ahi o segredo da popularidade que adquiriam. Fazia chorar e rir,

indignar ou amar. Cobria as suas lagrimas com um véo de scepticismo que

o mostrava mais viril, e deixava em vacillação os _espiritos fortes_

sobre a verdadeira essencia da sua indole de escriptor.

Scepticismo embryonario; dúvida da propria duvida.

Desesperança formal nunca eu lh'a conheci.

Quando vacillava respondia a si proprio, depois de ler o livro do padre

Alvaro Teixeira:--«A poesia está aqui!... Aqui, devem vir os

luctadores invenciveis da má fortuna ungir os braços para sahirem de

novo á arena. Aqui restauram-se os alentos do espirito, extenuado por

perdas do seu sangue, que é a fé, a fé perdida dos pusillanimes, que

apoucam a obra de Deus a uma guerra brutal entre o forte e o fraco,

entre a creatura manietada, desvalida e vil e a bêsta-féra em toda a

pujança dos seus musculos de ouro, da sua impavidez e soberba.»

--Deus--era o astro que procurava na noite das tribulações; e se não

era a sua crença mais intima e familiar, era o seu mais ardente desejo

a mais constrictora ancia da sua alma.

Quem ha de valer aos que delinquiram se não houver uma justiça

paternal,--a da caridade?--«A solidão sem Deus não serve para

infelizes maus»--nos diz elle no seu livro de consolações--_O romance

d'um homem rico_--onde pretendeu exaltar, acima de todas, a virtude da

resignação:

--«Queria ensinal-o a ser paciente, quando fôr desgraçado...

Paciencia é a arma, é o triumpho, é a porção divina do homem, é a

bemaventurança. A padecer é que os olhos da alma se destoldam e

encontram os de Deus.»

E quando, a sabôr do seu intimo sentimento lhe corria a penna

inspirada, ergueu a cabeça e observando o mundo atravez da janella do

seu gabinete de trabalho, que a phantasia lhe transportára para uma

cella de Vairão, acudiu com estas palavras prudentes:

--«Temo que me chamem milagreiro e tomem este livro como additamento á

«Flôr dos Sanctos» de Ribadeneira. Não quero semelhante nota.»--

E tambem lhe não cabia a nota de adverso ao naturalismo. Alto espirito

como elle é, não podia desconhecer que a verdade da representação

das couzas, a exacção, é suprema perfeição nas obras da

arte:--«Rien n'est beau que le vrai».--Por isso elle nos diz:--...

«Hei de ir indo assim, dispendendo-me pouco em imaginações de que me

sinto alcançado, e pondo as melhores tintas e pinceis na copia da

verdade.»--

Mas ha naturalismo e naturalismo, segundo a escolha do assumpto ou a

indole do artista que o reproduz.

O chôro é real; o rizo, tambem; o affecto, a paixão violenta,

existem, e dão de si a heroicidade ou o crime. Se a obra litteraria ou

obra d'arte que se funda n'estes affectos, sentimentos ou mostras

externas de sentir, é romantica, forçoso é confessar que o romantismo

existe na natureza.

Não desconheçamos porém que tambem é real o monturo, a podridão, a

devassidão, o antro, os crimes, a sordidez, a blasphemia, a praga.

Comprehendo que seja conveniencia da litteratura e das artes ir procurar

revelações e inspirações por todos esses theatros em que a

humanidade se exhibe, no intento de que o mal se emende e o bem se

vigorise; (como isto cheira a velho!) procurar unicamente o mal, o

hediondo, o repugnante, aggravar mesmo a sua hediondez para bem lhe

fixar a caracterisação e dal-o por unico realismo, é falsificar a

verdade, é calumniar o que é bello e grande, é derrancar o bom gosto

e damnar os costumes. É envenenar as fontes! que se a litteratura não

é educadora, não é nada e para nada serve.

Se a familia, o individuo, as tendencias, os costumes são só aquillo

que nos dizem os chamados naturalistas, refugiem-se nas grutas, como os

eremitas do passado, os que foram formados n'outra escola com outros

princípios e outras aspirações.

E como devem ser infelizes, a serem sinceros, aquelles que taes

impuridades espremem dos bicos das suas pennas!

Vêrem a cutis fina e transparente d'uma mulher formoza e em vez de

sentirem desejo de a beijar cuspirem-lhe! Devassarem-lhe, não com

enleio e prazer, as veias azues, por onde corre um sangue generoso, mas,

com asco, a futura escrofula, os herpes, a lepra e, já antemostrando-se

sôb aquella mal empregada transparencia, o verme roedor da

sepultura!--chamar-lhe á maceração poetica, de namorada mas virginal

insomnia,--signaes de cançada lubricidade! Desconhecer que ha virtudes,

achar na flôr só veneno, achar na bondade só hypocrisia, na

heroicidade e na abnegação calculos interesseiros e mais nada, no lar

só o vicio e o crime, é um naturalismo pessimista e, como tal,

falseado logo na origem e pouco agradecivel nas tendencias.

Estas questões são velhas e estão dirimidas. Já nem se discutem. A

proposito chovem uma vez por outra umas chufas sobre os que não

acceitaram a nova lei sem restricções nem condições, e de quando em

quando Camillo escreve a _Corja_ ou o _Euzebio Macario_ e Zola escreve o

_Sonho._ Passos dados para a concordia senão para a unificação das

escolas, couza por ora difficil mas não impossivel, n'um proximo

futuro.

Ha na _Brazileira de Prazins_ uma ultima, talvez definitiva, feição

litteraria de Camillo Castello Branco. Alli encontram-se primorosos

quadros copiados exclusivamente do natural. O preparativo d'um

assassinato encommendado e ajustado, o carregar da clavina, a sahida

furtiva do assassino por noite escura e a reza da mulher e das filhas

ante o crucifixo, até que elle volta do seu mallogrado intento, dando

logar ao jubilo, em acção de graças, da mizeranda espoza, que julga

ter obtido o milagre pela intercessão das suas lagrimas e das orações

de suas filhas, são primores d'arte dos mais subidos quilates.

O mercado de bentinhos, rozarios, medidas de sanctos e livrinhos de

orações, á porta do templo onde funccionam os missionarios, e a

murmuração dos vendilhões e mercadores, alternando-se no sacrilego

bazar; depois ainda, o processo monstruoso insistente e asphyxiante dos

exorcismos applicados á pobre hystérica, sobre sêrem paineis de

genuina e tremenda verdade, revelam um estudo minuciosissimo dos

procedimentos inquisitoriaes e do abastardamento e falsificação dos

textos sagrados, postos á disposição d'um fanatismo intransigente ou

d'uma hypocrisia revoltante.

Alli, sim, póde estudar-se o verdadeiro, o possivel realismo, n'um

romance de costumes. Ir além, só com filiação no nihilismo da arte.

* * *

Camillo Castello Branco, o visconde de Correia Botelho, vê que os seus

duzentos volumes começam a disputar-se com recrescente anciedade e vão

sendo a mais e mais, reproduzidos, já em edições luxuosas, já em

edições populares. É certo que os contemporaneos do grande escriptor

se acham empenhados na sua glorificação em vida. Acclamado em

plebiscitos--primeiro escriptor portuguez da actualidade,--honrado pelos

poderes publicos, á porfia, procurado por todos aquelles que os

combates da imprensa traziam d'elle distanciados, a unanimidade

congrega-se em tôrno d'elle, no unisono d'uma apotheose sem exemplo.

Portugal do seculo XIX resgata assim nobremente os crimes de passadas

ingratidões.

Elle o reconhece agradecido, aguardando n'uma anciedade dolorosissima

vêr-se restituido ao estudo e ao trabalho--sua religião e seu

confôrto.

Teve de abandonar a lida, o heroico triumphador. Aguia que desafiava os

deslumbramentos do sol achou-se de repente involta em trevas

caliginosas, colheu as azas, amordaçou o grito, e sente se despenhar no

insondável abysmo d'uma escuridão a cada instante mais densa.

Como elle espreita, procura, esquadrinha um raio, uma restea, um

relampago, tenue que seja, de claridade onde vislumbre uma esperança!

Eu tenho assistido a essa lucta que mais parece uma agonia.

A medicina acode-lhe desvelada; ensaia os seus prodigiosos meios

d'acção, mas pede-lhe paciencia! e o homem que escreveu este livro,

que soube dar tantos conselhos e offerecer tantos exemplos de

resignação, não póde resignar-se.

Como todas as cazas lhe dão trevas, foge de todas as cazas, de todas as

terras, e até de todo o convivio,--porque ouvir, somente,--aquelles que

o procuram, é ter multiplicados testemunhos da cegueira, que mais, dia

a dia, vae julgando incuravel.

Sabe que a sua anciedade o prejudica, mas o irrequietismo da nevrose

póde mais que a sua razão; e dilacera-se no ergastulo.

Alguma vez, de longe em longe, um raio de luz furtiva e ephemera dá-lhe

fugidia esperança; e elle pensa então e falla nas _Chronicas duas

rainhas_ que trazia em laboração e tanto deseja concluir. A medicina

promette-lhe, com intima fé, a regeneração dos seus olhos, e elle

escuta, provoca a demonstração, comprehende-a, espera! Esperança

fugidia como o relampago que lhe cruzára pela retina! A descrença

volta inexoravel e com ella o inferno e os tratos do _sempiterno

horror._

Então a ancia do suicidio toma-o de novo e elle afaga o rewolver, como

seu ultimo recurso.

Tristissimo.

Assim vive,--se é vida esta dilaceração angustiosa mil vezes peior

que a morte,--o nosso grande romancista, á hora em que escrevo estas

linhas. Muitas vezes suffoca-o a dor, e elle pede em jubilos que a morte

lhe venha n'um spasmo. Os seus raros e curtos somnos trazem-lhe

pezadellos afflictivos; por isso pede muita vez que o não deixem

dormir. Acorda era gritos lancinantes, estendendo convulsivamente os

braços a procurar mão valedora....

Meu pobre amigo!

Comtudo a sciencia lucta e espera e com a sciencia espera, solicita, a

amizade. Só elle não quer, ou não póde acreditar, sequer, n'esta

esperança.

Vive hoje em Bemfica, em paiz primaveral; n'uma caza cheia de confortos

e de luz, do seu e meu amigo Barjona de Freitas. Alli o visitam os seus

mais intimos, esperando a cada momento vislumbres da nova luz que lhe

faça esquecer tão fundos e tão prolongados tormentos.

Quantas vezes tem elle repetido:

--«Que eu veja! pouquissimo embora! o absolutamente indispensavel para

poder trabalhar, e encerrem-me, por toda a vida, no carcere onde escrevi

_O romance d'um homem rico!_»

Carnaxide, 1 de julho de 1889.

_Thomaz Ribeiro._

O Romance de um Homem Rico · 第 5 / 43 题