Combatendo de luz, a esvoaçar no ataque...
E de noite caiu Egipto em meu olhar,
Nos teus braços em cruz, sepulcros em Karnak.
Bocas de Faraós rezam múmias cansadas...
Tebas em mim fenece em bronze de toadas,
Apagando-se em cinza em lâmpadas sombrias.
E tu adormecida há tanto tempo, em pranto.
Os cisnes na lagôa embranqueceram tanto,
Que se esqueceram Côr nas tuas mãos esguías.
_SONHO EGÍPCIO_
No palácio, os pavões são apenas dizê-los...
As asas côr do longe erguidas sôbre mim.
Existem os pavões... O meu sentir-me é vê-los...
E o meu sonhar-te, alêm, são lagos no jardim.
Quando passei no parque, eu encontrei Nitokris.
Vi-a. Fitei-lhe as mãos para poder senti-las...
Meus olhos foram naus em águas intranquilas,
Meus sentidos, aneis nos dedos de Nitokris.
Labirinto de sons. Adormeço-me oiro.
Ansia apagada. Deus desce minha alma em oiro.
Meus olhos p'ra te ver, arcadas nos espelhos.
Rezas que nunca ouvi. Hálitos de saudades.
E as tuas mãos, ao largo, ungindo divindades
Scismam Ibis, pagãos, sôbre tapetes velhos.
_PAGÃO_
... Lembro-me então de mim. Rezo-me longe. Scismo.
E o lembrar-me de mim são os meus passos idos.
Arqueia-se em azul meu próprio misticismo
E eu fico apenas Côr sôbre vitrais vencidos.
O teu hálito é luz em candelabros velhos
Aos cantos dos salões onde me vejo a orar,
E os teus passos de Dôr são um quebrar de espelhos.
Quando te quero ver, morres no meu olhar.
Abraço-me chorando. O teu morrer é vêr-me,
Oiro de asas em Tule, ardendo antiguidade--
E o ter-te visto morta, o mêdo de perder-me.
Procuro-me em silêncio e oiço-me em teus passos.
Sôbre altares pagãos ergo-me divindade
E Isis dorme meu Ser em cortinados lassos!
_VER-TE_
Estendi os meus braços p'ra abraçar-te
E entre nós uma porta se cerrou.
Um sôpro de rubins em mim voou,
Sôpro que permitiu poder sonhar-te.
Saía a tua sombra p'las janelas
E perdia-se, ao largo, em arvoredos...
Os meus dedos scismando caravelas,
Eram prolongamentos dos teus dedos.
Num parque de oliveiras te sonhei
Erguendo-te do oiro que queimei
Nas ânforas do templo do meu Ser.
Parece que te vejo e tu estás longe...
Afastei-me de mim para ser monge...
Meus olhos são a sombra de te ver!
_PRINCESA LOUCA_
Vejo passar na curva da alameda
Uma princesa há muitos anos louca,
Princesa cujo Corpo é uma roca
Em principados de faisões de seda.
A sua sombra, uma lagôa azul.
As suas mãos tecendo pinheirais,
Lembram-me naus sempre chegando ao cais,
Águias sem asas num palácio, em Tule.
Seus dedos, pregos que pregaram Cristo.
Olha-me longe. Em seu olhar existo...
Passo nas rezas duma antiga boca...
Arqueio-me a sonhar sôbre marfim.
Sou arco com que brinca no jardim
Essa princesa há tantos anos louca.
_MÃOS DE CEGA_
I
Sinto que as tuas mãos são teus olhos vencidos,
Teus olhos que esquecendo as orações da luz
São claustros apagando os passos esquecidos
De Deus ao regressar de amortalhar Jesus.
Sinto-as tanger ainda os violinos velhos,
Onde os dedos saltando em cordas de oiro, à tarde,
Te cegaram de som. E em candelabros arde
O teu antigo olhar emoldurando espelhos.
Teus dedos ao bater nas tuas mãos são remos.
Inda vejo nas salas do palácio, arfando,
As tuas mãos de Dôr entreabrindo as portas.
Buscamo-nos em Côr e quando nos perdemos
Passam as tuas mãos em meus dedos, scismando
Estátuas de marfim sôbre as arcadas, mortas...
II
Morreram os leões que guardavam perdidos
A branca escadaria. Velhos leões sombrios...
Dêles apenas resta o eco dos rugidos
Que os arcos dos salões tornaram mais esguios.
As rendas que fiaste adormeciam bocas
E as rugas no teu rosto iam caindo, fundas...
No fim do parque, à noite, as águias moribundas
Guardavam em silêncio as destroçadas rocas.
Fiavas noutro tempo os teus olhos dormentes.
Deixaste de os fiar e os teus olhos arderam
Na côr das tuas mãos, na cruz de outros poentes...
Cega de mim, partiste. E quando regressaste
Manchada de Distância, os meus sentidos eram
Palmeiras ladeando a estrada onde passaste!
_ESQUECENDO_
Os lagos dormem cisnes na alameda
E as portas do palácio estão fechadas.
As folhas a caír, rezando seda,
Sonham paisagens mortas, afastadas...
Essas paisagens foram tuas aias.
Flautas ao longe foram teus sentidos.
E as tuas mãos ao desfiar vestidos
Dormiram franjas em doiradas saias.
A tua Sombra o seu olhar perdeu...
Não sei se não serás um gesto meu,
Um gesto de meus dedos longos, frios...
Não sei quem és... Meus olhos esquecidos
Sentem-te em mim, dormir nos meus sentidos...
Meus sentidos, arcadas sôbre rios...
_SALOMÉ_
I
Dançava Salomé sôbre mistérios idos.
--Tarde bronze a morrer. Poente em véus vermelhos--
Os seus sentidos, longe, eram bailados velhos,
E o seu Corpo, a bailar, é que era os seus sentidos.
Dançava Salomé nas suas mãos morenas
Que eram salões de seda, a descerrar o hábito.
E Ela quando se via era o seu próprio hálito,
E o Corpo no bailado era uma curva apenas.
Dançava Salomé.--E os seus olhos ao vê-la,
Cerravam-se leões com mêdo de perdê-la,
Leões bebendo luz na luz dos olhos seus...
Não vejo Salomé.--Talvez adormecida...
Talvez no meu olhar Ausência dolorida...
Talvez boca pagã beijando as mãos de Deus...
II
Deus, longo cais em mim, donde outras naus singrando
Conduzem para o Longe o meu não existir.
Morena, Salomé, entre vitrais bailando.
Arcadas-sensações transpondo o seu Sentir.
Fita paisagens-Ansia em suas mãos cansadas,
Paisagens a sonhar castelos nunca erguidos.
E os lábios percorrendo em lume os seus sentidos,
Scismam príncipes-Côr descendo das arcadas.
Há entre Ela e Deus o corpo de João.
E em seu olhar, dormindo um bronze de oração,
É sombra do bailado um inclinar de palma.
Baila seu Corpo ainda. E Deus nos seus bailados.
Bailados-asas, longe, em capiteis bordados,
Gestos de Deus caindo entre molduras-Alma!
_MORTE DE SALOMÉ_
Apagaram-se bronze os círios que sonhara.
Erguidos no seu Ser, sentidos-mausoléus.
O palácio, no parque, era um olhar de Deus
E as salas do palácio, os bailes que bailara.
Ela, taça caída em uma orgia infinda,
Taça vencida de Alma em pálios afastados.
Seu Corpo tinha sido algum dos seus bailados,
E a sua própria Morte era um bailado ainda.
Eram as suas mãos rainhas em impérios
Onde passavam reis com séquitos mistérios,
Adagas de marfim erguidas noutras mãos.
Seu Corpo, cinto de oiro ao seu redor, dormindo,
Um hálito de Deus sôbre missais caindo,
Cinza de Alma rezando outros Jesus, pagãos.
_RECORDANDO_
Sinto as cores, de noite, terem mêdo
E acolherem-se à sombra do teu luto.
Eu fui um rei dos godos, que em Toledo
O Tejo adormeceu e ainda escuto.
Cercam-se de oiro as salas que habitei,
Oiro-cinza esquecido, oiro dormente.
E em minha Alma, na qual inda sou rei
Scismo tronos caindo lentamente.
Buscam-me pagens tristes nos caminhos.
E a minha lenda em sonhos pergaminhos
Vai escrevendo em silêncio o meu scismar.
São outros os domínios que vivi
Todas as coisas que eu outrora vi
Regressaram mistério ao meu olhar.
_ANTE DEUS_
Quando te vi eu fui o teu voar
E desci Deus p'ra me encontrar em mim.
Voei-me sôbre pontes de marfim--
E uma das pontes, Deus, em meu olhar!
Aureolei-me de oiro em sombra fria
E meus vôos cairam destruídos.
Foram dedos de Deus os meus sentidos.
Meu Corpo andou ao colo de Maria.
Agora durmo Cristo em véus pagãos.
São tapetes de Deus as minhas mãos.
Regresso Ansia p'ra alcançar os céus.
Ergo-me mais. Sou o perfil da Dôr.
Sôbre os ombros de Deus olho em redor
E Deus não sabe qual de nós é Deus!
ALFREDO PEDRO GUISADO.
*FRIZOS*
DO DESENHADOR
JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS
*CIUMES*
Pierrot dorme sobre a relva junto ao lago. Os cisnes junto d'elle
passam sêde, não n'o acordem ao beber.
Uma andorinha travêssa, linda como todas, avôa brincando rente
á relva e beija ao passar o nariz de Pierrot. Elle accorda e a andorinha,
fugindo a muito, olha de medo atraz, não venha o Pierrot de
zangado persegui-la pelos campos. E a andorinha perdia-se nos montes,
mas, porque elle se queda, de nôvo volta em zig-zags travêssos
e chilreios de troça. E chilreia de troça, muito alto, por cima d'elle.
Pierrot já se adormecia, e a andorinha em descida que faz calafrios
pousou-lhe no peito duas ginjas bicadas, e fugiu de nôvo.
De contente, ergueu-se sorrindo e de joelhos, braços erguidos,
seus olhos foram tão longe, tão longe como a andorinha fugida nos
montes.
De repente viu-se cego--os dedos finissimos da Colombina brincavam
com elle. Desceu-lhe os dedos aos labios e trocou com beijos
o arôma das palmas perfumadas. Depois dependurou-lhe de cada
orelha uma ginja, á laia de brincos com joias de carmim. Rolaram-se
na relva e uniram as boccas, e já se esqueciam de que as tinham
juntas...
--Sabes? Uma andorinha...
E foram de enfiada as graças da ave toda paixão. Pierrot contava
enthusiasmado, olhando os montes ainda em busca da andorinha,
e Colombina torceu o corpo numa dôr calada e tomou-lhe as mãos.
Havia na relva uma máscara branca de dôr, e a lua tinha nos
olhos claros um olhar triste que dizia: Morreu Colombina!
*O ECHO*
Tão tarde. Adão não vem? Aonde iria Adão?!
Talvez que fosse á caça; quer fazer surprezas com alguma côrça
branca lá da floresta.
Era p'lo entardecer, e Eva já sentia cuidados por tantas demoras.
Foi chamar ao cimo dos rochedos, e uma voz de mulher tambem,
tambem chamou Adão.
Teve mêdo: Mas julgando fantazia chamou de nôvo: Adão? E
uma voz de mulher tambem, tambem chamou Adão.
Foi-se triste para a tenda.
Adão já tinha vindo e trouxera as settas todas, e a cáça era nenhuma!
E elle a saudá-la ameaçou-lhe um beijo e ella fugiu-lhe.
--Outra que não Ella chamára tambem por Elle.
*SÈVRES PARTIDO*
A amazona negra era bella como o sol e triste como o luar, e
ninguem acredita mas era pastora de galgas. Figura negra muito esguia,
cypreste procurando vaga na margem do caminho.
Nas manhãs de Outomno, frias como os degraus do tanque, era
Ella quem largava ás galgas a lebre cinzenta, e a que a filásse já
sabia com quem dormia a sésta. E as galgas já nem dormiam bem
noutra almofada.
Sobre a relva, na sombra arrendilhada das folhas amarellecidas
dos plátanos onde os repuxos do tanque cuspiam lagryrnas de vidro,
a Amazona negra sonhava o seu Principe encantado e a galga do dia
dormia quieta, estendido o focinho no ventre d'Ella.
Uma manhã mais turva as galgas todas voltaram tristes, de focinhos
pendidos--e nenhuma para dormir a sésta!
Uma flauta triste vinha de viagem pelo caminho; chorava de seguida
imensas canções de choros e tinha acompanhamentos funéreos
de guisalhádas surdas.
Callou-se a flauta, um cypreste distante gemia baixinho as dôres
da tatuagem que lhe iam abrindo no peito. O pastor lembrava ali o
nome do seu Bem. Pendia-lhe da cinta uma lebre cinzenta e a funda
torcida.
As galgas como settas deixaram nú o caminho. E as guisalhadas...
*MIMA FATAXA*
Ella marcára-lhe na vespera aquelle rendez-vous no muro do
cemiterio. De feito Elle tornara escrava de uma cigana a sua alma
apaixonada de uma rainha loira senhora de todas as ciganas. Fôra
d'Ella desde o dia em que, seguindo o ritmo acanalhado das ancas
desconjuntadas, ficou enfeitiçado por aquelles dentes brancos ferindo
lume no colar de pederneiras. Sentiu desejos de morder aquelles labios
ardendo vermêlhos incendios de beijos e as faces fumadas do
lume d'aquella bocca. E estranhava o seu coração vencido pela monotonia
dos berros das cantorias com acompanhamentos de urros de
pandeiro. Enfeitiçara-o aquella vagabunda de olhos ardidos compondo
as tranças nos fundos dos caldeirões de cobre onde durante o sol um
tisnado cigano consumia as horas em maçadôras marteladas. Encantára-o
aquella feiticeira afiando as tranças nos labios molhados da
saliva. E nas danças o tic-tac metalico das sandálias, matrácas tagarélas
a cantar nas lágens, tinha um telintar jovial; e os pulsos cingidos
de guizos eram um concerto de amarellos canarios contentes da
gaiola.
E mais bella do que nunca no chafariz real, de saias arregaçadas,
a lavar as pernas da poeira das estradas e bellamente descomposta a
enfiar as meias muito grossas, vermêlhas da côr das papoulas, e a dár
um nó-cego num retorcido nastro branco muito negro á laia de liga
muito acima do joelho... E tem graça que a sua morenez não era
por via do sol, pois toda ella era queimada. Quem a visse trepar nas
amoreiras e despi-las das amóras que lhe ensanguentavam os labios
e as faces e os dedos sem cuidar no vento que lhe levanta as saias,
teria tido como Elle um sorriso de desejos, iria como Elle fingir a
sésta por debaixo da linda amoreira.
E na descida, co'a saia erguida á laia de cabaz, meio tonta, meio
embriagada p'las amóras em demasia, vê-la-hia tão bella como em
sonhos se desenha uma mulher para nós. E escarranchada no tronco
deixava-se escorregar lentamente, mas teve subida forçada por via da
haste que ficava em riba. Depois dependurou-se de um galho rijo,
abriu as mãos e foi de vez chapar-se na relva. E de bruços, como uma
cabra a espojar-se, começou de juntar os fructos espalhados. E os
seus olhos de gata, de gata que brinca nos telhados vermêlhos com
a lua branca, mais do que amóras colhiam.
*A SOMBRA*
(TRADUCÇÃO DE UM POEMA DE UMA LINGUA DESCONHECIDA)
Foi ali que um dia sentiu desejos de partir tambem. Que ficava
fazendo sósinha? Quem leva uma lança, leva a mulher tambem.
O seu châle negro tem um segredo, e o seu mal de morte vem
do mesmo dia.
Os annos correram sem nóvas algumas, e as môças finaram-se
velhas, velhas de tanto esperar.
E todas as noites, na margem sombria, uma silhueta franzina de
tragica sonambula vae seguindo, como um braço murcho de cypreste
a boiar ao de cima da corrente que o vae levando-mansamente.
*A SÉSTA*
Pierrot escondido por entre o amarello dos gyrassois espreita em
cautela o somno d'ella dormindo na sombra da tangerineira. E ella
não dorme, espreita tambem de olhos descidos, mentindo o sôno, as
vestes brancas do Pierrot gatinhando silencios por entre o amarelo
dos gyrassois. E porque Elle se vem chegando perto, Ella mente
ainda mais o sôno a mal-resonar.
Junto d'Ella, não teve mão em si e foi descer-lhe um beijo mudo
na negra meia aberta arejando o pé pequenino. Depois os joelhos redondos
e lizos, e já se debruçava por sobre os joelhos, a beijar-lhe o
ventre descomposto, quando Ella acordou cançada de tanto sôno fingir.
E Elle ameaça fugida, e Ella furta-lhe a fuga nos braços nús estendidos.
E Ella, magoada dos remorsos de Pierrot, acaricia-lhe a fronte
num grande perdão. E, feitas as pazes, ficou combinado que Ella dormisse
outra vez.
*CANÇÃO DA SAUDADE*
Se eu fosse cego amava toda a gente.
Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu
amo a minha irmã gemea que nasceu sem vida, e amo-a a fantazia-la
viva na minha edade.
Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde
móras, dize se vives ou se já nasceste.
Eu amo aquella mão branca dependurada da amurada da galé
que partia em busca de outras galés perdidas em mares longissimos.
Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por
entre as gentes apressadas.
Eu amo aquellas mulheres formosas que indiferentes passaram
a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.
Eu amo os cemiterios--as lágens são espessas vidraças transparentes,
e eu vejo deitadas em leitos florídos virgens núas, mulheres
bellas rindo-se para mim.
Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das
mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em
meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.
Se eu fosse cego amava toda a gente.
*RUINAS*
Pandeiros rôtos e côxas táças de crystal aos pés da muralha.
Heras como Romeus, Julietas as ameias. E o vento toca, em
bandolins distantes, surdinas finas de princezas mortas.
Poeiras adormecidas, netas fidalgas de minuetes de mãos esguias
e de cabelleiras embranquecidas.
Aquellas ameias cingiram uma noite peccados sem fim; e ainda
guardam os segredos dos mudos beijos de muitas noites. E a lua velhinha
todas as noites réza a chorar: Era uma vez em tempo antigo
um castello de nobres naquelle lugar... E a lua, a contar, pára um
instante--tem mêdo do frio dos subterraneos.
Ouvem-se na sala que já nem existe, compassos de danças e rizinhos
de sêdas.
Aquellas ruinas são o tumulo sagrado de um beijo adormecido--
cartas lacradas com ligas azues de fechos de oiro e armas reais e
lizes.
Pobres velhinhas da côr do luar, sem terço nem nada, e sempre
a rezar...
Noites de insonia com as galés no mar e a alma nas galés.
Archeiros amordaçados na noite em que o côche era de volta ao
palacio pela tapada d'El-rei. Grande caçada na floresta--galgos brancos
e Amazonas negras. Cavalleiros vermêlhos e trombêtas de oiro
no cimo dos outeiros em busca de dois que faltam.
Uma gondola, ao largo, e um pagem nas areias de lanterna erguida
dizendo pela briza o aviso da noite.
O sapato d'Ella desatou-se nas areias, e fôram calça-lo nas furnas
onde ninguem vê. Nas areias ficaram as pègadas de um par que
se beija.
Noticias da guerra--choros lá dentro, e crépes no brazão. Ardem
cirios, serpentinas. Ha mãos postas entre as flôres.
E a torre morêna canta, molenga, dôze vezes a mesma dôr.
*PRIMAVERA*
O sol vae esmolando os campos com bôdos de oiro.
A pastorinha aquecida vae de corrida a mendigar a sombra do
chorão corcunda, poeta romantico que tem paixão p'la fonte.
Espreita os campos, e os campos despovoados dão-lhe licença
para ficar núa. Que leves arrepios ao refrescar-se nas aguas! Depois
foi de vez, meteu-se no tanque e foi espojar-se na relva, a seccar-se
ao sol. Mas o vento que vinha de lá das Azenhas-do-Mar, trazia peccados
comsigo. Sentiu desejos de dar um beijo no filho do Senhor
Morgado. E lembrou-se logo do beijo da horta no dia da feira. Fechou
os olhos a cegar-se do mau pensamento, mas foi lembrar-se do
proprio Senhor Morgado á meia noite ao entrar na adega. Abanou a
fronte para lhe fugir o peccado, mas foi dar comsigo na sachristia a
deixar o Senhor Prior beijar-lhe a mão, e depois a testa... porque
Deus é bom e perdôa tudo... e depois as faces e depois a bocca e
depois... fugiu... Não devia ter fugido... E agora o moleiro, lá no
arraial, bailando com ella e sem querer, coitado, foi ter ao moinho
ainda a bailar com ella. E lembra-se ainda--sentada na grande arca,
e mãos alheias a desapertarem-lhe as ligas e o corpête, emquanto
ouve a historia triste do moinho com cincoenta malfeitores... Quer
lembrar-se mais, que seja peccado! quer mais recordações do moinho,
mas não encontra mais.
Ah! e o boieiro quando, a guiar a junta, topou com ella e lhe
perguntou se vira por acaso uma borboleta branca a voar a muito,
uma borboleta muito bonita! Que não, que não tinha visto; mas o
boieiro desconfiado foi procurando sempre, e até mesmo por debaixo
dos vestidos.
Como desejava poder ir com todos!
Não sabe o que sente dentro de si que a importuna de bem estar.
Teria a borbolêta branca fugido para dentro d'ella?
*TREVAS*
De dia não se via nada, mas p'la tardinha já se apercebia gente
que vinha de punhaes na mão, devagar, silenciosamente, nascendo
dos pinheiros e morrendo nelles. E os punhaes não brilhavam: eram
luzes distantes, eram guias de lençoes de linho escorridos de hombros
franzinos. E a briza que vinha dava gestos de azas vencidas aos lençoes
de linho, azas brancas de garças caídas por faunos caçadores.
E o vento segredava por entre os pinheiros os mêdos que nasciam.
E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descalça
com pés de surdina por môr do barulho, de braços estendidos p'ra
não topar com os troncos; e vinha vindo a noite céguinha como a
lanterna que lhe pendia da cinta. E vinha a sonhar. As sombras ao
vê-la esconderam os punhaes nos peitos vazios.
A lua é uma laranja d'oiro num prato azul do Egypto com perolas
desirmanadas. E as silhuetas negras dos pinheiros embaloiçados
na briza eram um bailado de estatuas de sonho em vitraes azues. Mãos
ladras de sombra leváram a laranja, e o prato enlutou-se.
Por entre os pinheiros esgalgados, por entre os pinheiros entristecidos,
havia gemidos da briza dos tumulos, havia surdinas de gritos
distantes--e distantes os ouviam os pinheiros esgalgados, os pinheiros
gigantes.
A briza fez-se gritos de pavões perseguidos. E as sombras em
danças macabras fugiam fumo dos pinheiraes p'lo meu respirar.
Escondidas todas por detraz de todos os pinheiros, chocam-se
nos ares os punhaes acêsos. Faz-se a fogueira e as bruxas em roda
rezam a gritar ladainhas da Morte. Veem mais bruxas, trazem alfanges
e um caixão. Doem-me os cabellos, fecham-se-me os olhos e quatro
anjos levam-me a alma... Mas a cigarra em algazarra de alêm
do monte vem dizer-me que tudo dorme em silencio na escuridão.
Veiu a manha e foi como de dia: não se via nada.
*CANÇÃO*
A pastorinha morreu, todos estão a chorar. Ninguem a conhecia
e todos estão a chorar.
A pastorinha morreu, morreu de seus amôres. Á beira do rio
nasceu uma arvore e os braços da arvore abriram-se em cruz.
As suas mãos compridas já não acenam de alêm. Morreu a pastorinha
e levou as mãos compridas.
Os seus olhos a rirem já não troçam de ninguem. Morreu a pastorinha
e os seus olhos a rirem.
Morreu a pastorinha, está sem guia o rebanho. E o rebanho sem
guia é o enterro da pastorinha.
Onde estão os seus amôres? Ha prendas para Lhe dar. Ninguem
sabe se é Elle e ha prendas para Lhe dar.
Na outra margem do rio deu á praia uma santa que vinha das
bandas do mar. Vestida de pastora p'ra se não fazer notar. De dia
era uma santa, á noite era o luar.
A pastorinha em vida era uma linda pastorinha; a pastorinha
mórta é a Senhora dos Milagres.
*A TAÇA DE CHÁ*
O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras
bordadas. E os bambús ao vento e os crysanthemos nos jardins e as
garças no tanque, gemiam com elle a advinharem-lhe o fim. Em róda
tombávam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados.
E a gueisha, procelana transparente como a casca de um ovo da Ibis,
enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias
de lagrymas. E os seus olhos rasgados, perolas de Nankim a desmaiar-se
em agua, confundiam-se scintillantes no luzidio das procelanas.
Elle, num gesto ultimo, fechou-lhe os labios co'as pontas dos dedos,
e disse a finar-se:--Chorar não é remedio; só te peço que não
me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas
esteiras e ficou. E Ella, num grito de garça, ergueu alto os braços a
pedir o Ceu para Elle, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos,
que todos os que passavam olharam para Ella.
Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar por
entre os bambús, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto
com um leque de marfim.
A estampa do pires é igual.
JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS.
*POEMAS*
DE
CÔRTES-RODRIGUES
_ABERTURA DO "LIVRO DA VIDA"_
Transcendencias nubloticas, metaphysicas raras,
Modelei a minha Obra com minhas mãos avaras.
Litanias liturgicas de febre de paixão,
Crepusculos de fogo ardendo em sentimento,
Columnas de Além-Sonho, arcos de commoção,
Claustros de Archi-Tristeza aonde o Pensamento
Vive longe do mundo, em funda adoração...
Castello esguio
Sobre o rio
Do Amôr.
Armei-me cavalleiro,
Quebrou-se minha lança de guerreiro
No combate da Dôr.
Architectonicas theorias de Belleza,
Transfigurações, resurreições, e a Natureza
No fundo longo, sensitivo da emoção,
Bysantinos jardins onde a Tarde agonisa,
Fluidicos aromas em mystica ascenção,
Emanações d'Amor que a alma divinisa
Em Alma de outra Alma--eterna communhão...
Praia tão desconhecida
Do mar da vida vivida
Onde o luar nunca vem,
De onde a nau da minha Alma
Parte pela noite calma
A caminho do Alêm.
E eis a grande rota seguida em Mim sómente,
P'ra que parta do mundo e chegue até aos céus,
E onde Tu e Eu iremos lentamente
Da Vida para Deus.
_Lisboa--1914._
_POENTE_
As minhas sensações--barcos sem velas--
Erram de mim. Occaso rôxo. Scismo.
Meus olhos de Não-ver-me são janellas
Dando sobre o abysmo.
Abysmo d'Outro Ser. E a Hora chora
Nostalgica de Si, mas eu de vê-las
Erro de Ser-me, e a noite sem estrellas
Apavora.
Delirio rôxo d'agonia. Prece.
Poente feito noite. Escuridão.
Perturbo-me de mim em sensação
E dentro em mim desfallece
E anoitece
A sombra do meu Ser na solidão
Do dia que morreu
E se perdeu
E jámais amanhece.
_Lisboa--1914._
_AGONIA_
Ergo meus olhos vagos na distancia
Da sombra do meu Ser...
Pairam de mim Além, e a minha Ansia
Cança de me viver.